Bem-vindos a Heide
8 O TEATRO DA PERFEIÇÃO
Notas iniciais
CAPÍTULO 8: O TEATRO DA PERFEIÇÃO
A claridade do deserto despertou Bella com o mesmo rigor cirúrgico de sempre, mas o peso em seu peito era diferente naquela manhã. Não era mais a apatia sufocante da solidão, e sim o peso cortante de um segredo compartilhado. Ao abrir os olhos, ela encontrou Edward já de pé, abotoando as mangas de sua camisa branca com uma precisão milimétrica diante do espelho. Pelo reflexo do vidro, ele encontrou o olhar dela. Não houve palavras, não houve sussurros, mas a mudança nas íris de bronze dele foi sutil e definitiva: o personagem de Heide estava de volta, mas o Edward de Forks vigiava por trás da máscara.
— Bom dia, meu amor — disse Edward, a voz mansa e perfeitamente modulada flutuando pelo quarto imaculado. Ele se aproximou da cama com passos leves, sentando-se na quina do colchão para depositar um beijo suave na testa de Bella. — Espero que tenha descansado. Lembre-se de que hoje à noite temos o jantar na casa de James e Victoria. Não quero que nos atrasemos; James mencionou que Aro está muito interessado no progresso do nosso setor no laboratório.
Bella sentou-se lentamente, puxando o lençol de linho , que já não carregava o segredo da noite anterior, discretamente desfeito por Edward antes do amanhecer, contra o corpo. Ela forçou os músculos do rosto a relaxarem, moldando os lábios no primeiro sorriso plástico que conseguira produzir voluntariamente desde que cruzara os portões da cidade.
— Bom dia, Edward — ela respondeu, mantendo o tom doce, a voz firme o suficiente para as paredes ouvirem. — Eu não esqueci. Vou deixar tudo pronto para que possamos sair assim que você chegar do laboratório. Victoria parece ser uma mulher adorável.
— Ela é extraordinária, querida. Uma verdadeira inspiração para todas nós em Heide — ele continuou, acariciando o rosto de Bella com o polegar frio antes de se levantar e pegar o paletó cinza sobre a cadeira. — Tenha um bom dia na comunidade.
O ritual de despedida na soleira da porta foi uma coreografia perfeita. Bella ajustou o nó de sua gravata de seda, alisou as lapelas de seu terno e, desta vez, quando ele se inclinou, ela sustentou o beijo. Foi um toque demorado, ardente na superfície para os olhos que patrulhavam a rua, mas que trazia nas entrelinhas uma promessa desesperada de sobrevivência. Ela o viu descer os degraus e sumir no ônibus preto de vidros opacos pontualmente às oito horas.
Sozinha, Bella iniciou sua jornada diária pela domesticidade com uma energia febril. Ela lavou a louça do café, espanou os móveis de nogueira e esfregou os azulejos da cozinha até que suas mãos ardessem. No entanto, sua mente não estava mais perdida na psicose do isolamento; ela estava calculando. Cada movimento seu, cada pano passado no balcão, era uma atuação. Ela era a esposa perfeita. Ela era a Matriz que Aro desejava. Ela estava perfeitamente sob controle.
Às dez horas, o som rítmico de saltos na calçada anunciou a chegada de Alice. Bella pegou sua bolsa de palha e abriu a porta, encontrando a amiga vestida em um conjunto lilás impecável, segurando um caderno de compras com os nós dos dedos brancos de tanta tensão.
— Pronta para o mercado, Bella? — Alice perguntou, o tom agudo e ensaiado, mas os olhos dourados piscando em um código frenético de alerta.
— Claro, Alice. Preciso pegar alguns ingredientes frescos para o jantar de hoje — Bella respondeu, fechando a porta atrás de si com um clique firme.
As duas começaram a caminhar lado a lado sob o sol implacável do meio-dia, mantendo a postura ereta e os sorrisos automáticos enquanto cruzavam com os carros de segurança da Fundação Familiar que patrulhavam os quarteirões com lentidão predatória. A atmosfera no supermercado de Heide era ainda mais perturbadora; os corredores eram excessivamente iluminados, as prateleiras ostentavam produtos com embalagens padronizadas e as outras esposas moviam-se entre os carrinhos com uma quietude de estátuas, trocando cumprimentos sussurrados sobre receitas e marcas de sabão.
Foi no corredor mais isolado, entre as fileiras de conservas idênticas, que Alice fingiu derrubar uma lata de ervilhas. Ambas se agacharam ao mesmo tempo para recolhê-la, e foi ali, sob a sombra da gôndola de metal, que a máscara de Alice rachou por completo.
— O Jasper implorou para eu ficar quieta, Bella — Alice sussurrou, a voz trêmula, os dedos miúdos batendo contra a lata com um ritmo frenético de pânico puro. Ela não olhou para Bella, mantendo os olhos fixos no chão encerado. — Ele desabou no escritório ontem à noite. Ele caiu de joelhos e chorou, Bella... o Jasper nunca chora. Ele me agarrou e disse que se eu amo a nossa vida, se eu quero continuar viva, eu preciso parar de fazer perguntas. Ele disse que eles nos observam o tempo todo. Cada palavra na cozinha, cada olhar na rua... eles ouvem tudo.
Bella sentiu um calafrio subir por sua espinha, mas a revelação da noite anterior com Edward deu-lhe uma têmpera de aço que ela não possuía antes. Ela pegou a lata das mãos de Alice, forçando seu próprio rosto a manter uma expressão de absoluta serenidade para qualquer câmera discreta no teto.
— O que mais ele disse? — Bella perguntou em um sussurro quase imperceptível, movendo os lábios o mínimo necessário enquanto fingia analisar o rótulo do produto.
— Ele disse que a Ângela foi apenas o começo... que quem quebra as regras de Heide simplesmente deixa de existir nos arquivos — Alice continuou, uma lágrima solitária ameaçando borrar sua maquiagem antes de ela a secar com um movimento rápido. — Ele me implorou para ser a esposa perfeita. Para ir ao clube, para sorrir para a Victoria hoje à noite. Ele disse que oJames está subindo na diretoria e que qualquer passo em falso nosso vai destruir os dois. Bella... os maridos estão apavorados. Eles sabem o que acontece com quem tenta sair.
Bella engoliu em seco, olhando para a fileira de produtos perfeitos à sua frente. O thriller psicológico não era uma ilusão de sua mente; era a realidade de cada homem e mulher naquela cidade de marfim. Os maridos não eram os monstros; eram os reféns que aprenderam a vigiar suas próprias esposas para salvá-las do carrasco.
— Então nós vamos dar a eles exatamente o que eles querem, Alice — Bella sentenciou, a voz baixa, fria e cortante como cristal. Ela se levantou, colocando a lata de volta na prateleira com uma delicadeza impecável e estendendo a mão para ajudar a amiga a se erguer. — Nós vamos sorrir. Vamos ser as melhores esposas que Heide já viu. Se eles querem um teatro, nós vamos dar um espetáculo. Até que a gente descubra como quebrar o palco.
Alice olhou para ela, o terror em seus olhos dourados cedendo espaço para uma faísca de assombrosa resolução. Ela ajeitou o vestido lilás, abriu o mesmo sorriso plástico de sempre e empurrou o carrinho em direção aos caixas. O jogo de Aro Volturi continuava, mas agora, as peças de porcelana sabiam exatamente como se mover sem quebrar.
O trajeto até a casa de James e Victoria foi realizado sob o manto de uma encenação perfeita. No banco do passageiro, Bella mantinha as mãos pousadas sobre o colo, os diamantes da pulseira riviera capturando a luz fraca do painel do carro. Edward dirigia com uma calma estudada, mas o leve pulsar de uma veia em seu maxilar revelava a voltagem da eletricidade que corria sob sua pele. Eles eram duas peças de xadrez movendo-se exatamente como o mestre do tabuleiro esperava. Ao estacionarem diante da imensa residência de linhas modernistas, Jasper e Alice já cruzavam a entrada, vestindo suas melhores roupas e seus sorrisos mais simétricos.
A casa de James exalava o luxo estéril que caracterizava a elite de Heide. Paredes de concreto escovado, telas abstratas e imensas vidraças que davam para um jardim interno iluminado por feixes de luz violeta. James os recebeu com a expansividade típica de um diretor em ascensão; seu smoking era impecável e sua postura exalava a autoconfiança de quem dominava os protocolos da Fundação Familiar. Victoria surgiu logo atrás, usando um vestido de alta-costura verde-esmeralda que contrastava dramaticamente com seus cabelos ruivos volumosos. Ela era uma mulher deslumbrante, mas visivelmente mais velha que Bella e Alice, carregando nos olhos uma maturidade felina e uma altivez que o verniz de Heide não conseguia domesticar.
— Sejam bem-vindos à nossa casa — disse Victoria, a voz rica e aveludada, enquanto conduzia os casais para a sala de jantar, onde uma mesa de mármore preto exibia cristais e talheres de prata. — James tem me falado muito sobre o brilhantismo de vocês no laboratório, Edward. É um privilégio ver o projeto atrair mentes tão... dedicadas.
— O privilégio é nosso, Victoria. Aro faz questão de que trabalhemos em absoluta sinergia — Edward respondeu, a voz mansa, o tom exato do funcionário padrão.
Durante o primeiro prato, a conversa fluiu dentro dos limites da normalidade vigiada. James discorria sobre as metas de estabilização genética enquanto Emmett e Jasper concordavam com acenos medidos. Bella e Alice trocavam olhares discretos, mantendo a postura de esposas exemplares, elogiando o menu e a decoração. No entanto, a atmosfera mudou sutilmente quando os homens se levantaram para ir até a biblioteca a pedido de James, que queria mostrar os novos gráficos de projeção biológica aprovados por Aro.
Assim que a porta de carvalho da biblioteca se fechou, deixando as três mulheres sozinhas na imensidão da sala de jantar, o silêncio plástico de Heide evaporou.
Victoria permaneceu sentada à cabeceira, girando calmamente o líquido escuro em sua taça de cristal. Seus olhos verdes, afiados como navalhas, fixaram-se primeiro em Alice e depois pousaram sobre Bella. O sorriso social sumiu de seu rosto, revelando uma expressão fria, calculista e intensamente focada.
— Podem relaxar os músculos do rosto, meninas — disse Victoria, a voz agora baixa, um sussurro cortante que fez Bella tencionar o corpo. — Os microfones desta sala foram desativados pelo James há vinte minutos. Nós temos exatamente meia hora antes que o sistema central note a queda de frequência e reinicie o monitoramento.
Bella e Alice se entreolharam, o pânico e a desconfiança travando suas reações. Seria uma armadilha? Um teste de lealdade orquestrado por Aro para pegá-las em flagrante?
— Não olhem assim para mim — Victoria continuou, soltando um riso curto e sem humor, inclinando-se para a frente na mesa de mármore. — James e eu estamos fingindo há três anos. Nós odiamos este lugar tanto quanto vocês. E, se tudo correr como o planejado, nós vamos embora de Heide. Nós vamos quebrar esta redoma e sumir no deserto.
— Como podemos saber que você está falando a verdade? — Bella disparou, a paranoia ditando suas palavras, a voz saindo em um sussurro defensivo. — Edward me disse que você era o modelo perfeito do que Heide representa.
— Edward diz o que precisa dizer para manter você viva, Isabella — Victoria retrucou, os olhos brilhando com uma seriedade mortal. — Assim como James faz o papel de diretor ambicioso para ter acesso às rotas de transporte e aos códigos dos portões. Nós somos aliados. Se não nos unirmos, aquela Fundação Familiar vai consumir cada uma de nós.
Alice soltou o ar que prendia nos pulmões, uma centelha de esperança cruzando seu rosto de fada.
— O Jasper... ele sabe? — Alice perguntou.
— Todos eles sabem — respondeu Victoria, a expressão suavizando-se ligeiramente com uma pontada de amargura. — Eles estão apavorados por vocês. Eles fazem o papel de carcereiros porque sabem que o menor deslize de uma esposa significa o desaparecimento dela nos subsolos do laboratório.
Victoria voltou sua atenção total para Bella. Ela analisou a juventude estampada nos traços da garota, a pele sem linhas de expressão, a vulnerabilidade que a maquiagem pesada tentava esconder.
— Quantos anos você tem, Bella? — Victoria perguntou, o tom de voz subitamente despido de qualquer ironia, tornando-se quase maternal em sua gravidade.
— Eu tenho dezoito — Bella respondeu, sentindo-se subitamente muito pequena diante daquela mulher.
Victoria estacou. Seus olhos se arregalaram ligeiramente e ela praguejou baixinho, uma reação genuína que quebrou qualquer resquício de encenação.
— Dezoito... Meu Deus, você é uma criança — Victoria sussurrou, a voz carregada de um horror real. Ela colocou a mão sobre a mesa, os dedos longos e decorados com anéis trêmulos por um segundo. — Aro está acelerando os cronogramas. Ele quer usar a sua juventude. Ele quer prender você aqui através do sangue antes que você tenha capacidade de reagir.
Sem perder tempo, Victoria estendeu a mão para a pequena bolsa de veludo que repousava ao lado de seu prato. Ela retirou de lá algo que fez o coração de Bella saltar: uma cartela metalizada contendo pequenos comprimidos circulares. Anticoncepcionais. Um item estritamente proibido e inexistente nas farmácias vigiadas de Heide, onde a fertilidade era uma imposição biológica e controlada pelo Estado.
Victoria deslizou a cartela pelo mármore preto até que ela parasse exatamente diante das mãos trêmulas de Bella. Alice esticou o pescoço, os olhos dourados fixos no objeto como se fosse uma arma de contrabando.
— Escute-me com muita atenção, Bella — Victoria instruiu, inclinando-se ainda mais, a voz caindo para uma cadência urgente e didática. — — Você vai tomar um desses todos os dias, exatamente no mesmo horário. Sem falhar um único dia. Se você esquecer, o projeto reprodutivo de Aro vai pegar você. Isto vai impedir que seu corpo libere os óvulos. Vai impedir que eles consigam transformá-la na Matriz que eles tanto querem.
— Mas... e os exames diários? As vitaminas? — Bella perguntou, os dedos roçando o plástico da cartela com um misto de pânico e alívio. — Eles monitoram tudo. Eles vão notar a alteração hormonal no meu sangue.
— Não vão — Victoria garantiu, com um sorriso cortante de quem conhecia as falhas da própria máquina. — James alterou os parâmetros do seu perfil no banco de dados do laboratório hoje à tarde. Seus níveis hormonais vão parecer normais para os médicos, contanto que você mantenha a regularidade. E você, Alice... — Victoria olhou para a amiga de Bella — assim que eu conseguir outra remessa com os contrabandistas da rota de abastecimento, eu entrego a sua. Por enquanto, a prioridade absoluta é a Bella. Aro está fixado nela.
Bella segurou a cartela contra a palma da mão, fechando os dedos com força até que o metal machucasse sua pele. O thriller psicológico em que vivia ganhara uma nova camada de complexidade; a resistência não era apenas um plano de fuga em um mapa, era uma guerra química travada silenciosamente dentro de seu próprio corpo.
— Nós vamos sair daqui, Victoria? — Bella perguntou, os olhos buscando a confirmação final na mulher mais velha.
— Nós vamos — —Victoria prometeu, endireitando as costas ao ouvir o clique distante que indicava o reinício do sistema de áudio da casa. Seu rosto moldou-se instantaneamente de volta na máscara de porcelana de Heide. — Mas até lá... joguem o jogo. Sejam perfeitas. Sejam as bonecas que eles querem ver.
A porta da biblioteca se abriu e os homens retornaram à sala, rindo de uma piada corporativa de James. Edward caminhou até Bella, pousando a mão em seu ombro com o carinho ensaiado de sempre. Bella olhou para ele e sorriu, um sorriso que agora carregava o peso de um segredo ainda maior, escondido no fundo de sua bolsa de gala. O teatro de Heide continuava, mas as atrizes principais haviam acabado de mudar o final da peça.
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