Bem-vindos a Heide
7 O PREÇO DO SILÊNCIO
Notas iniciais
CAPÍTULO 7: O PREÇO DO SILÊNCIO
O entardecer em Heide trouxe consigo aquela tonalidade de céu que parecia deliberadamente pintada por um artista obsessivo: um degradê perfeito de rosa e violeta que se estendia sobre o horizonte do deserto, sem uma única nuvem para quebrar a simetria. Da janela da sala, Bella observava o ponteiro do relógio aproximar-se das dezoito horas. A conversa com Alice ainda ecoava em sua mente como uma corda de segurança à qual ela se apegava desesperadamente. Ela não estava louca. Mas saber que a própria realidade ao seu redor era a verdadeira farsa não diminuía o pavor que subia por sua espinha ao ouvir o som familiar do motor do carro parando na entrada.
A porta da frente abriu-se com o clique suave de sempre. Edward cruzou o batente, mas a rigidez gélida e a severidade com que ele havia partido pela manhã pareceram evaporar no instante em que seus olhos encontraram os de Bella. Ele não vestia mais o paletó do smoking, e as mangas de sua camisa branca estavam sutilmente dobradas até os antebraços. Em seus braços, contrastando com a neutralidade estéril da sala, estava um enorme buquê de lírios brancos e rosas perfumadas.
O sorriso dele era o Edward de Forks, ou, pelo menos, a imitação mais perfeita que Heide conseguira preservar.
— Me desculpe, Bells... por favor, me perdoe — — ele disse, a voz mansa, carregada de uma urgência emocional que fez o coração de Bella hesitar por um segundo. Ele caminhou até ela com passos rápidos, estendendo as flores como uma oferenda de paz. — Eu não consegui me concentrar no laboratório o dia todo pensando na forma como saí de casa. Eu fui duro com você ontem à noite, e a última coisa que eu quero no mundo é fazer você se sentir pressionada ou infeliz.
Bella aceitou as flores mecanicamente, o perfume adocicado dos lírios invadindo suas narinas e trazendo de volta a lembrança incômoda do cheiro de antisséptico da Fundação Familiar que Alice havia mencionado. Ela o encarou, buscando nos olhos de bronze do marido a verdade que a paranoia tentava decifrar.
— Eu aceito as desculpas, Edward — ela respondeu, a voz mantendo uma distância cautelosa, os dedos apertando o caule das flores com força. — Mas as flores não mudam o que está acontecendo. Eu passei o dia pensando. Se você realmente sente muito, se você ainda é o homem que me ama, precisa ser honesto comigo. O que você está fazendo naquele laboratório? O que há naqueles relatórios de compatibilidade que Aro te pediu para revisar hoje?
A atmosfera na sala mudou instantaneamente. O calor do pedido de desculpas de Edward pareceu retroceder, substituído por uma hesitação que fez as pupilas dele se contraírem. Ele desviou o olhar por uma fração de segundo, um microgesto que para a mente paranoica de Bella foi mais barulhento do que um grito.
— Bella, o trabalho no laboratório é complexo, são apenas pesquisas biológicas padrão... — ele começou, a voz adotando aquela cadência pausada e instrutiva que ela tanto temia. Ele enfiou a mão no bolso da calça do terno, puxando uma pequena caixa de veludo negro. — Mas eu não quero falar de trabalho. Eu quero focar em nós. Veja o que eu trouxe para você. Aro me deu isso como um bônus pela minha dedicação.
Ele abriu a caixa. Sobre o cetim preto, uma riviera de diamantes capturou a luz da sala, faiscando com uma opulência que parecia vulgar diante do horror invisível que Bella sentia crescer na cidade. Edward retirou o colar com dedos ágeis e aproximou-se, tentando colocá-lo ao redor do pescoço de Bella, um adorno que parecia mais uma coleira de marfim e pedras preciosas.
Bella segurou as mãos dele, interrompendo o movimento. Ela deu um passo para trás, deixando o colar balançar entre os dedos de Edward.
— Eu não quero diamantes, Edward! Eu quero a verdade! — a voz de Bella subiu de tom, o desespero psicótico arranhando sua garganta enquanto ela o confrontava diretamente, o peito arfando. — Você está tentando me subornar com joias? Está tentando comprar o meu silêncio como os Volturi fazem com todo mundo aqui? A Angela Weber está trancada em casa porque levaram o filho dela, as crianças daquela escola parecem saídas de um molde, e você quer que eu use um colar de diamantes e finja que estamos em um comercial de televisão? O que eles estão escondendo debaixo daquela clínica?
Edward estacou. A menção ao laboratório e à estrutura de Heide fez a expressão dele desmoronar. Não havia mais o sorriso complacente, nem a autoridade severa da noite anterior. Pela primeira vez, Edward olhou para ela com uma expressão de pura apreensão. Ele empalideceu, os olhos varrendo os cantos do teto da sala, as janelas e as frestas das cortinas com um pavor genuíno e rastreável.
Ele deu um passo rápido à frente, segurando os braços de Bella com uma força que não era de agressão, mas de puro desespero. Ele se inclinou, aproximando o rosto do dela até que seus lábios quase tocassem o ouvido de Bella, a respiração saindo curta e trêmula.
— Bella... por favor, fique quieta — Edward sussurrou, a voz trêmula, um fio de som que denunciava que ele, de alguma forma, sabia que as paredes tinham ouvidos. Seus olhos de bronze estavam arregalados, injetados de uma ansiedade que o leitor finalmente reconheceria como medo real. — Eu estou implorando, não diga mais uma palavra sobre isso nesta casa. Não mencione o laboratório... Não mencione a Angela...
Bella paralisou, a desconfiança em relação ao marido chocando-se contra a urgência real daquele sussurro.
— Edward... — ela tentou falar, mas ele pressionou o polegar suavemente contra os lábios dela, silenciando-a.
— Só confie em mim, Bells — ele implorou, os olhos suplicantes colados aos dela, uma máscara de terror que Heide não conseguira plastificar. — Por tudo o que nós vivemos em Forks, por favor... apenas faça o seu papel. Vá ao clube, sorria para as vizinhas, use as joias. Faça o que eles esperam que você faça. Eu preciso que você confie em mim para nos manter vivos.
Ele se afastou lentamente, guardando a riviera de diamantes de volta na caixa com as mãos visivelmente trêmulas. E a psicose que dominava cada atomo da mente de bella, naquele momento atingira um novo patamar de isolamento: as cartas estavam na mesa, mas o jogo era mortal. Bella olhou para o marido e percebeu que a prisão de Heide era muito mais profunda do que ela imaginava, e que o silêncio agora era a única moeda de troca para a sobrevivência de ambos.
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