Bem-vindos a Heide

3 A RITUALÍSTICA DA PERFEIÇÃO


Notas iniciais
Bem-vindos ao capítulo onde a perfeição começa a rachar. Heide continua linda, organizada e impecável… mas talvez seja justamente isso que a torne tão assustadora. Enquanto escrevíamos esse capítulo, queríamos que vocês sentissem a mesma sensação da Bella: aquele desconforto silencioso de perceber que algo está errado, mesmo quando tudo parece perfeito demais. E talvez o mais assustador seja justamente isso: ninguém em Heide parece perceber que está preso. Ou talvez percebam… e apenas tenham aprendido a sorrir mesmo assim. Boa sorte atravessando esse capítulo. Vocês vão precisar. ♡

CAPÍTULO 3: A RITUALÍSTICA DA PERFEIÇÃO

A manhã de segunda-feira em Heide não começou com o despertador, mas com o sol incidindo exatamente sobre o painel de nogueira do quarto, como se até os astros estivessem sob contrato dos Volturi. Edward estava de pé antes mesmo do café ser servido, uma mistura de nervosismo juvenil e ambição contida emanando de cada gesto. Bella, ainda envolta na suavidade do robe de seda, assumiu seu papel com uma dedicação apaixonada. Ela escolheu a gravata de seda cinza que combinava com o olhar focado dele e, com mãos meticulosas, arrumou as ondas bronzeadas de seu cabelo com brilhantina. O terno, que já estava impecável, passou novamente sob o ferro quente pelas mãos de Bella, apenas para garantir que não houvesse uma única fibra fora do lugar.

— Você parece um homem que vai conquistar o mundo, Edward — disse Bella, prendendo o prendedor de gravata e olhando-o com adoração.

— Eu só quero conquistar um futuro onde você nunca tenha que se preocupar com nada, Bella — respondeu Edward, segurando o rosto dela e selando seus lábios em um beijo profundo e demorado antes de sair. — Eu te amo.

Na calçada, a cena era cinematográfica e perturbadoramente sincronizada. Portas se abriam simultaneamente ao longo da rua. Alice acenava para Jasper, Rosalie ajustava o colarinho de Emmett, e dezenas de outras esposas, todas de vestidos de algodão gomados e maquiagem pronta desde o amanhecer, despediam-se de seus maridos. O ônibus preto da corporação Volturi, com seus vidros opacos e escuros, deslizou silenciosamente pela rua. Assim que Edward e os outros homens cruzaram o limiar do veículo, a atmosfera mudou; os risos cessaram e os homens assumiram uma seriedade gélida, desaparecendo atrás do vidro fumê enquanto o ônibus partia em direção ao coração do deserto.

Sozinha pela primeira vez, Bella sentiu o peso do silêncio de Heide. A casa estava limpa, mas ela a limpou novamente. Ela ligou o rádio embutido na parede, mas percebeu que a frequência era limitada: apenas músicas instrumentais suaves e anúncios sobre a "Ordem e Prosperidade de Heide". Tentou ler, tentou pintar, mas a sensação de que o mundo externo havia sido substituído por uma redoma de vidro começou a se infiltrar. Para afastar a inquietação, ela dedicou-se a assar um bolo de baunilha, seguindo a receita de Renee, para o chá das esposas na mansão dos Volturi, para o qual Alice a convidara.

A casa de Sulpicia Volturi era uma obra-prima de opulência e controle. Bella foi recebida com um carinho que beirava o maternal por Sulpicia, uma mulher de elegância gélida e olhos que pareciam ler além da superfície. O encontro das esposas era uma exibição de domesticidade impecável: sorrisos ensaiados, conversas sobre receitas e uma competição velada sobre quem tinha a prataria mais brilhante. No entanto, Bella notou algo nas bordas daquela perfeição. Algumas mulheres moviam-se com uma lentidão não natural, seus olhos vidrados sugerindo que estavam sob o efeito de algo mais forte que apenas o chá Earl Grey.

Durante um momento no jardim, Bella afastou-se do grupo e encontrou Angela Weber encarando o céu vasto e vazio. Elas começaram a conversar sobre os filhos e a adaptação, e uma conexão genuína pareceu surgir entre as duas. Contudo, em um sussurro urgente e rouco, Angela inclinou-se para Bella.

— Bella, de coração, não deixe eles levarem você para o centro médico sozinha — disse Angela, sua voz carregada de um pavor genuíno.

Antes que Bella pudesse questionar, Ben Weber apareceu no arco do jardim. O comportamento de Angela mudou em um nanossegundo. Um sorriso instantâneo e plástico surgiu em seu rosto, e ela voltou a falar sobre o crescimento de Luke como se nada tivesse acontecido. O arrepio que percorreu a espinha de Bella foi gélido.

Ao retornar para casa com Alice e Rosalie, o silêncio da residência vazia pareceu claustrofóbico. Tomada por uma súbita saudade, Bella pegou o telefone para ligar para Renee em Forks. A linha chiou e caiu. Tentou ligar para os Cullen, e o resultado foi o mesmo. Na terceira tentativa, uma voz feminina e impessoal atendeu no lugar do sinal de discagem.

— Chamadas externas precisam de autorização administrativa. Por favor, entre em contato com o escritório de Aro Volturi durante o horário comercial — informou a operadora antes de a linha ficar muda.

O coração de Bella acelerou. Heide não era apenas uma comunidade; era um sistema fechado. Quando Edward chegou em casa, exausto mas entusiasmado com o primeiro dia no laboratório, Bella comentou sobre o incidente da operadora.

— Deve ser apenas uma questão burocrática, Bella. Acabamos de chegar, os registros ainda devem estar sendo atualizados — disse Edward, abraçando-a para dissipar sua preocupação. — Vou pedir a liberação na administração da Volturi Group amanhã. Não se preocupe, meu amor.

Naquela noite, Bella olhou pela janela da sala. Às nove horas em ponto, as luzes das varandas de todas as casas da rua acenderam simultaneamente. No minuto seguinte, como se seguissem um maestro invisível, cada porta se abriu e todas as mulheres de Heide colocaram seus sacos de lixo idênticos para fora, recuando para dentro de suas casas no mesmo instante. A coreografia era absoluta. A perfeição de Heide não era orgânica; era imposta por um relógio que Bella ainda não sabia como parar.

O jantar foi servido sob a luz suave do lustre de cristal da sala de jantar, um contraste marcante com a vastidão escura do deserto que rugia silenciosamente lá fora. Edward comia com um entusiasmo que Bella raramente vira em Forks; ele falava sobre as instalações de última geração, os laboratórios imaculados e a visão grandiosa que Aro Volturi compartilhava com os funcionários.

— É fascinante, Bella. Tudo é planejado para a máxima eficiência. Eles estão realmente criando algo que o resto do mundo nem consegue imaginar — Edward comentou, seus olhos brilhando enquanto gesticulava com o garfo. — Mas e você, meu amor? Como foi o chá na casa de Sulpicia? As outras esposas foram acolhedoras?

Bella mexeu na comida, o apetite subitamente diminuído pelas lembranças do encontro. Ela hesitou, observando o marido, que parecia tão integrado àquela nova realidade.

— Elas foram gentis, mas... houve algo estranho, Edward — Bella começou, sua voz caindo para um sussurro, como se as paredes pudessem ouvi-la. — Algumas mulheres pareciam estar em transe, como se não estivessem totalmente ali. E a Angela Weber... ela me disse algo perturbador no jardim. Ela me implorou para nunca ir ao centro médico sozinha.

Edward pousou os talheres e suspirou, uma sombra de piedade cruzando seu rosto perfeito. Ele estendeu a mão sobre a mesa para segurar a de Bella.

— O Ben comentou sobre isso hoje no trabalho, Bella. Ele está passando por um momento muito difícil — explicou Edward, com uma voz carregada de uma calma racional. — Parece que a Angela está sofrendo de uma tristeza profunda desde o nascimento da pequena Karen. O Ben disse que ela mal consegue cuidar da bebê. Ela tem crises onde afirma que a criança é um demônio, algo que não pertence a ela, e insiste que o Luke é o seu único filho legítimo. É uma condição médica triste, Bella, mas a administração de Heide está dando todo o suporte necessário para que ela se recupere.

Bella sentiu um frio na espinha. A explicação de Edward fazia sentido do ponto de vista médico, mas o pavor nos olhos de Angela parecia tão real, tão lúcido. Ela decidiu não insistir, não querendo estragar o clima da primeira noite de trabalho dele.

— Talvez você tenha razão. Deve ser o estresse da mudança e do pós-parto — Bella concedeu, forçando um sorriso pequeno.

Para dissipar a nuvem de tensão, eles foram juntos para a cozinha. O momento tornou-se um refúgio de intimidade doméstica. Enquanto Bella ensaboava os pratos de porcelana, Edward os secava com um pano de linho, cantarolando uma melodia suave que ecoava no ambiente moderno. Eles trocavam olhares cúmplices e toques acidentais que rapidamente deixaram de ser acidentais. Edward a abraçava por trás enquanto ela enxaguava um copo, depositando beijos no seu pescoço e fazendo-a rir baixinho.

— Eu não consigo parar de olhar para você — Edward sussurrou, deixando o pano de lado e girando Bella para encará-lo. — O dia todo no laboratório, eu só conseguia pensar em voltar para esta casa, para este exato momento.

Sem aviso, ele a ergueu no colo, fazendo Bella soltar um pequeno grito de surpresa e alegria. Ela entrelaçou as pernas ao redor da cintura dele e os braços em seu pescoço enquanto Edward a carregava pelo corredor em direção ao quarto principal. O trajeto foi marcado por beijos urgentes e famintos, uma continuação da paixão que haviam descoberto na noite anterior.

Ao cruzarem o limiar do quarto, Edward a deitou com uma delicadeza absoluta sobre os lençóis de seda. Sob a luz da lua que entrava pela janela, o deserto parecia infinito, mas para Bella, o único mundo que importava estava ali, nos braços de Edward, onde a perfeição de Heide ainda parecia um sonho romântico e inabalável.

Notas finais
Acho que oficialmente podemos dizer que Heide começou a mostrar os dentes. Esse capítulo foi MUITO importante para nós porque ele marca o início do verdadeiro horror psicológico da história. Não queríamos sustos rápidos ou terror explícito, queríamos criar aquela sensação sufocante de estar observando uma vida perfeita… perfeita demais. Angela Weber foi a primeira rachadura real da ilusão. E Bella começando a perceber os padrões, os silêncios e a estranha coreografia daquela comunidade muda completamente a atmosfera da fanfic daqui para frente. E vocês… perceberam como tudo em Heide funciona como um relógio? As mulheres. Os horários. As rotinas. Os sorrisos. Até o lixo. Nada ali é natural. Queremos MUITO saber: em que momento vocês começaram a sentir medo de Heide? 👀