Bem-vindo, irmãozinho.
1 Bem-vindo, irmãozinho.
Na cabeça de uma criança de seis anos, mil coisas podiam fazer sentido — até as mais impossíveis.
Ikki observava a mãe com atenção, os olhos fixos na barriga arredondada que crescia a cada dia. Na mente dele, aquilo só podia significar uma coisa muito séria: um bebê tinha ido parar ali dentro. Mas como? Ele inclinou a cabecinha para o lado, confuso como um filhote de cachorro tentando entender um som novo.
Sua cabecinha trabalhava rápido, criando teorias cada vez mais mirabolantes. Talvez… talvez o bebê tivesse sido teletransportado! Sim, aparecido do nada, direto na barriga da mãe, que agora estava grande igual a uma melancia — ou melhor, uma bola de futebol. Ikki até pensou em pedir para brincar com ela. Chutar, quem sabe. Afinal, parecia uma bola, não parecia?
Mas a mãe tinha sido muito clara: não podia. Ali dentro estava sendo gerado o seu irmãozinho.
Ainda assim, Ikki não se deu por satisfeito. Ergueu as sobrancelhas, cruzou os bracinhos e perguntou, transbordando curiosidade:
— Mas como ele entrou aí?
A mulher, que cortava legumes tranquilamente para o almoço, sorriu diante da inquietação do filho.
— Foi a cegonha, querido.
Ikki arregalou os olhos.
— A cegonha colocou um bebê dentro de você?! — Deu um pulinho animado, já imaginando a cena épica. — Mas como ela fez isso sem te partir no meio?!
A mãe segurou o riso, maravilhada com a imaginação dele.
— Ela me entregou um bebê bem pequenininho… do tamanho de uma sementinha.
Ikki ficou em silêncio, processando a informação. De repente, seus olhos brilharam com a revelação.
— Ah! Então você engoliu?!
— Mais ou menos isso — respondeu ela, entrando na brincadeira.
Ikki assentiu, orgulhoso por finalmente compreender a lógica da vida. A sementinha tinha descido até o estômago… e agora estava crescendo. “Então é por isso que a mamãe tá comendo tanto…”, pensou, compenetrado. “Ela precisa alimentar esse invasor.”
Mas algo ainda não batia. Olhou de novo para a barriga. Era grande demais, mesmo para um bebê-semente. Levou a mão ao queixo, pensativo, até que chegou à sua conclusão definitiva:
— Eu acho… que você comeu uma semente de melancia.
A mãe não resistiu. Riu tanto que precisou se apoiar na bancada da cozinha, com as lágrimas quase escapando dos olhos.
Lá dentro, o pequeno Shun provavelmente sofreu seu primeiro terremoto. Vendo aquilo, Ikki arregalou os olhos e esticou as mãos, tentando segurar a barriga da mãe para o tremor parar. Ele estava vendo a hora do irmãozinho ficar completamente tonto lá dentro!
Quando finalmente conseguiu se recompor, ela se inclinou levemente e afagou os cabelos azuis do filho.
— O que foi, hein, meu amor? — perguntou, ao ver o rostinho da criança se contorcer em uma careta de preocupação.
Ikki aproximou-se mais, apoiando a cabeça contra a barriga arredondada. Posicionou o ouvido bem em cima do umbigo da mãe, concentrado. Queria falar com o bebê! Precisava conversar com ele... Afinal, como iriam brincar juntos se nem se conheciam direito?
Esticou o indicador e deu uma cutucada de leve na pele.
— Ei… acorda…
Silêncio.
Ikki franziu o cenho. Cutucou de novo, com um pouco mais de insistência, tentando alcançar o que ele imaginava ser o bracinho do irmão.
— Por que ele não se mexe?
— Porque ele está dormindo — respondeu a mãe com paciência, acariciando o topo da cabeça do filho.
Ikki se afastou um pouco e encarou a barriga, indignado.
— Preguiçoso.
A mãe segurou o riso, balançando a cabeça diante de uma conclusão tão séria.
— Ele só dorme! — Ikki cruzou os braços, inconformado com o desempenho do irmão mais novo até agora.
Qual era a graça de só dormir. Mas logo outra dúvida, ainda mais urgente, surgiu.
— Quando ele vai sair daí? — ergueu os olhos para a mãe, ansioso.
— Daqui a alguns meses, meu bem — explicou a mulher, acomodando as mãos sobre a curva de seus sete meses de gestação.
Ikki arregalou os olhos.
— Tudo isso?!
Ele ponderou por um segundo, a mente trabalhando a mil por hora, até que soltou, cheio de convicção:
— Dá para fazer ele sair mais rápido!
A mãe ergueu uma sobrancelha, já prevendo as teorias que viriam.
— É? E como você faria isso?
— Ah, é fácil! — Ikki começou. — A gente pode colocar um pedaço de chocolate bem perto do seu umbigo para ver se ele sente o cheiro e sai para pegar! Ou… ou você pode pular bem alto no sofá, aí ele escorrega igual num tobogã! Se não funcionar, eu posso pegar o aspirador de pó e…
— Nem pense nisso, mocinho! — a mãe interrompeu, rindo da engenharia maluca do filho. — E por que você tem tanta pressa, afinal?
Ikki olhou para ela como se a resposta fosse óbvia.
— Porque ele já dormiu demais! Ele tem que sair logo para a gente brincar! — Começou a listar nos dedinhos, empolgado: — Jogar bola, jogar Minecraft, fazer um foguete com caixa de papelão… — Seus olhos brilharam. — Eu preciso de um ajudante! Alguém para segurar as ferramentas enquanto eu construo a aeronave que vai cortar o céu!
A mãe sorriu, com o coração derretido pelo entusiasmo dele.
— Quando ele sair daí, Ikki… ele não vai nem conseguir ficar em pé direito.
O menino congelou no lugar.
— Vai demorar um bom tempo até ele ter firmeza nos pezinhos para jogar bola com você — completou ela, com carinho.
Ikki piscou. Uma vez. Duas vezes.
Sua expressão de empolgação desmoronou, dando lugar a uma pura e genuína indignação. Assim não tinha graça!
— Ué?! — Olhou para a barriga, depois para a mãe inconformado. — Você vai me dar um irmãozinho para brincar… — Fez uma pausa indignado com a injustiça do universo. — …mas ele não sabe nem andar?!
Cruzou os braços com tanta força que quase se desequilibrou. Definitivamente, aquele plano de ter um parceiro de aventuras não estava saindo como o esperado.
A mãe sorriu, passando a mão com suavidade pelos cabelos azuis do pequeno.
— Mas sabe de uma coisa? — disse ela, com a voz mansa. — Você é o irmão mais velho. Você pode ensinar ele a dar os primeiros passinhos. Que tal?
Ikki torceu o nariz na mesma hora.
— Ah… não sei não… — Coçou a cabeça, de repente muito sobrecarregado com a nova responsabilidade. — Vai dar muito trabalho…
A mulher não resistiu e soltou uma gargalhada gostosa.
— Vai nada, meu amor.
Ikki ficou em silêncio… até que seus olhos brilharam de novo, como se tivesse tido uma ideia absolutamente genial.
— Já sei! — Ele estralou os dedos e apontou para a barriga. — Eu posso ensinar ele a correr primeiro! — Começou a pular animado no lugar.
A mãe piscou, surpresa, tentando processar a imagem mental.
— Correr? — Imaginou um bebê recém-nascido disparando em disparada pela sala.
— É! — disse Ikki, saltitando de empolgação. — Aí a gente já pode brincar de pique-esconde!
Ele claramente tinha pulado várias etapas cruciais da biologia humana… como engatinhar, sentar e andar. Mas a mãe apenas assentiu, entrando de cabeça na lógica dele:
— É uma boa tentativa.
Satisfeito, Ikki se aproximou de novo. Encostou a boca bem perto da barriga e sussurrou:
— Ei… Shun… nasce logo, tá? A gente tem muita coisa para fazer…
Deu uma batidinha de leve com os nós dos dedos na pele da mãe, exatamente como se estivesse batendo no casco de uma melancia para saber se ela já estava madura e boa para consumo.
— Eu vou te ensinar tudo — prometeu, com a solenidade de um verdadeiro irmão mais velho.
A mãe observava a cena, com o coração completamente derretido, mantendo as mãos apoiadas na região lombar para aliviar o peso.
— Eu não vejo a hora de você chegar… — Ikki continuou. Ele fechou os olhos e esperou por uma resposta. Quem sabe um chute? Ou um pequeno gominho saltando na barriga da mãe?
Ficou ali parado, esperando.
Nada.
Ele franziu o cenho, abrindo os olhos.
— Por que ele não responde? — perguntou, olhando para a mãe de baixo para cima.
— Porque ele ainda não consegue te ouvir direito aqui dentro, meu amor — explicou ela, com paciência.
Ikki arregalou os olhos, chocado.
— Não?!
— Não.
Ele processou aquela nova decepção, até que rebateu, arqueando as sobrancelhas:
— Então por que você e o papai ficam falando com ele? — Ele se lembrou perfeitamente das canções que ela cantava à noite e da forma carinhosa como o pai conversava com a barriga.
A mãe sorriu, levando a mão ao ventre.
— Porque mesmo que ele não escute as palavras como a gente, ele sente. Sente o carinho, o som da nossa voz… como uma vibração quentinha.
Ikki ficou pensativo, digerindo as regras daquele jogo tão estranho que era a gestação. Então, cruzou os braços e encarou a barriga.
— Então deixa eu ver se eu entendi… — Começou a levantar os dedinhos, um por um, para listar o relatório. — Ele não sabe andar…
Outro dedo.
— Não sabe falar…
Mais um.
— Não escuta…
Houve uma pausa dramática. Ikki suspirou fundo, carregando nos ombros toda a decepção possível que alguém de seis anos conseguia suportar.
— Mamãe… — Olhou para ela. — Você encomendou um bebê ou um pacote em construção?
A mulher não aguentou. Soltou uma gargalhada alta de novo, daquelas de fazer as lágrimas escaparem pelos cantos dos olhos.
Definitivamente, Ikki ainda tinha muito o que aprender sobre irmãos mais novos… e sobre bebês.
— Acho que é mais… uma construção mesmo — concordou ela, com doçura. — E a gente vai montando ele com muito carinho, pedacinho por pedacinho.
Ikki manteve os braços cruzados, ainda um pouco desconfiado. Aproximou-se da barriga e ficou encarando o ventre da mãe com os olhos semicerrados, concentração máxima, como se tentasse se comunicar por telepatia ou enxergar através daquelas camadas de pele.
Após alguns segundos de profunda análise, deu um leve aceno de cabeça, chegando a uma conclusão muito importante.
— Então eu não vou ser um irmão mais velho…
— Não? — A mãe virou o rosto na direção dele, curiosa pela próxima teoria.
Ikki olhou para ela com toda a seriedade que conseguia reunir:
— Vou ser um professor.
A mulher piscou, surpresa.
— Professor?
— É! — reclamou ele, cruzando os braços com mais força. — E isso dá muito trabalho! Não é divertido!
A mãe riu baixinho, enternecida.
— Pode ser divertido, sim. Ensinar também é uma forma de brincar, meu amor. Ensinar é um ato de carinho… e você pode se divertir muito fazendo isso juntos.
Ikki ficou em silêncio. Pensando… ponderando os prós e os contras de sua nova profissão. Até que, devagarzinho, um sorriso travesso começou a surgir no canto dos seus lábios.
— Tá bom… então eu vou ensinar.
A mãe ergueu as sobrancelhas, genuinamente curiosa.
— Ensinar o quê?
— Eu não vou ensinar ele a falar certinho, não… — Ikki começou a listar nos dedos, abrindo um sorriso cúmplice. — Vou ensinar ele a falar “tatá”, “bubu”, “neném”, “dodói”, “papá”… essas coisas!
A mãe arregalou os olhos, surpresa com o plano de alfabetização alternativa.
— Ikki…
Mas ele nem a deixou terminar. Já estava empolgado demais com o próprio cronograma de aulas.
— E também vou ensinar ele a lutar karatê!
Deu um salto para trás e desferiu um soco rápido no ar, simulando um golpe imaginário:
— HÁ!
No exato milésimo de segundo seguinte, a barriga da mãe deu um solavanco. Um chute nítido e forte.
A mulher arregalou os olhos e levou a mão ao local do impacto, soltando uma lufada de ar pelo susto.
— Oh!
Ikki deu um pulinho no lugar, os olhos brilhando de pura euforia.
— Viu?! Ele já começou! Ele vai ser um ótimo aluno!
A mãe riu, massageando a lateral da barriga com carinho.
— Seu irmãozinho nem nasceu ainda e já está me aplicando golpes de karatê nas costelas… — Ela sorriu, sentindo mais uma ondulação leve sob os dedos. — Imagina quando tiver um professor experiente como você…
Ikki estufou o peito, transbordando orgulho e importância.
Lá dentro, o pequeno Shun se mexia suavemente. Os movimentos pequenininhos lembravam asas de borboleta batendo contra as paredes do casulo, procurando por mais espaço. E, sem nem saber, ele acabava de participar — e de gabaritar — a primeira aula da sua vida.
(...)
Os meses se passaram… o relógio girava e as folhas do calendário eram puxadas, uma a uma. E Ikki não parava.
Sempre que a mãe se sentava no sofá, ele corria para o lado dela, apoiando a bochecha na barriga redondinha. Conversava com o irmão, impaciente, querendo que ele saísse logo. Por que estava demorando tanto? Será que não queria conhecer o sol? Na cabeça do Ikki, devia ser muito sem graça viver ali dentro. Como o irmão ia ver o céu? E se lá fosse escuro? Preocupado com a falta de luz, Ikki chegou a sugerir colar uma lanterna na barriga da mãe com fita crepe para iluminar o caminho, ideia que a mãe, rindo, teve que vetar educadamente.
Às vezes, ele só ficava ali, em silêncio, escutando. Esperando.
Um dia, enquanto prestava muita atenção, um som alto e cavernoso ecoou:
Grrrroooon!
Era a barriga da mãe roncando de fome. Ikki levantou a cabeça na mesma hora, assustado, os olhos arregalados.
— MAMÃE?!
No mesmo instante, a barriga deu um solavanco — um pezinho miúdo empurrou a pele esticada, protestando contra o barulho.
Ikki apontou o dedo, chocado.
— Viu só? Você assustou ele!
A mulher começou a rir, e quanto mais ela ria, mais a barriga balançava.
— Ai, meu Deus… — ela tentou falar, sem fôlego.
Ikki espalmou as duas mãozinhas na barriga, tentando segurar o tremor, com as sobrancelhas franzidas em pura repreensão.
— Mamãe! Para! Você está deixando ele tonto!
Em outro dia, Ikki abraçava as pernas da mãe enquanto ela lavava a louça, apoiando o rosto na lateral do ventre dela e falando baixinho:
— Eu estou te contando as coisas, tá? Para você já ir aprendendo…
Ele falava sobre como os foguetes funcionavam, explicava tim-tim por tim-tim por que o Homem de Ferro era o melhor Vingador e, claro, dava a dica mais importante de todas: o Cheetos de requeijão era infinitamente superior ao de queijo. O irmão precisava nascer atualizado sobre as coisas importantes do mundo.
Ele sorria, todo orgulhoso, acariciando o tecido da blusa da mãe.
— Eu vou fazer de você um cavaleiro.
Na cabeça dele, já visualizava os dois lutando grandes batalhas no meio da sala com espadas de plástico, salvando o mundo… ou pelo menos protegendo o tapete dos monstros invisíveis.
Até que chegou o dia.
Ikki estava sentado no chão da sala, completamente concentrado em uma corrida emocionante onde ele arremessava seus carrinhos contra o encosto do sofá.
De repente, ele ouviu um gemido baixo.
Ele parou o carrinho no ar. Levantou a cabeça devagar, soltou o brinquedo de lado e caminhou até a porta da cozinha.
A mãe estava ali, apoiada no batente da porta, respirando de um jeito diferente, mais pesado. Ikki franziu o cenho, o coraçãozinho apertando de preocupação.
— Mamãe… está tudo bem?
Ela olhou para ele com um carinho imenso, tentando disfarçar a intensidade da dor com um sorriso, as mãos firmes na região lombar.
— Está sim, meu amor…
Mas, antes que ela pudesse dizer qualquer outra coisa para acalmá-lo, Ikki olhou para baixo e notou uma poça de água se formando rapidamente no chão. Ele arregalou os olhos, apontando o dedinho em choque.
— Mamãe… A senhora fez xixi no chão!
A mulher piscou, confusa, e então olhou para os próprios pés. Seus olhos se expandiram. Levou a mão ao topo da barriga, respirando fundo enquanto a contração passava, e disse com um misto de surpresa, nervoso e muita emoção:
— Não… não é xixi, Ikki… Chegou a hora.
O menino piscou. Uma vez. Duas vezes.
— Hora de quê?
Ela sorriu, as lágrimas brilhando nos olhos por causa da emoção do momento.
— Do seu irmãozinho nascer.
O silêncio reinou na sala por um segundo enquanto o cérebro de seis anos tentava processar aquela informação bombástica. E então, o choque virou pura adrenalina.
— AGORA?!!!
Ele olhou para a barriga, depois para o rosto da mãe, quase saltitando de tanta empolgação.
— Ele vai sair AGORA?!
A mulher soltou uma pequena risada entre os dentes, lidando com o início da próxima onda de dor.
— Vai sim… vai sim, meu bem.
Ao ouvir aquela confirmação, o "modo irmão mais velho protetor" foi ativado com força total no peito de Ikki. Toda a agitação deu lugar a uma postura firme e corajosa. Ele deu um passo à frente, segurou a mão da mãe com suas duas mãozinhas pequenas, mas cheias de determinação, e olhou para ela de baixo para cima, com os olhos brilhando.
— Não precisa ter medo, mamãe. Eu estou aqui — prometeu ele.— Eu vou te ajudar a andar até o sofá e vou cuidar do Shun. Pode deixar que, se ele tentar lutar karatê para sair mais rápido, eu seguro ele!
(...)
Na maternidade, Ikki estava sentado na sala de espera. Sozinho.
Os pezinhos balançavam no ar, sem alcançar o chão, enquanto ele apertava com força um ursinho de pelúcia contra o peito — o presente que tinha escolhido com todo o carinho para o irmãozinho. Era o seu brinquedo favorito e, com certeza, seria o favorito dele também.
Ele não achava que fosse demorar tanto. Na cabeça dele, o bebê ia nascer rápido… quase como mágica. Ia sair flutuando da barriga da mãe e parar direto em um monte de panos, pronto para correr e brincar.
Mas não. Estava demorando. Muito.
Ikki já tinha uma boa noção do tempo… e aquilo parecia uma eternidade. E o pior: aquele lugar era meio assustador. De onde estava, ele conseguia ouvir gemidos abafados, vozes apressadas e mulheres fazendo força nos outros quartos. Seu coraçãozinho apertou de leve. “Será que a mamãe também está sofrendo assim…?”, pensou, esmagando o ursinho com mais força.
Foi quando a porta dupla se abriu. Ikki levantou o olhar imediatamente.
Seu pai estava ali. Parecia exausto, com olheiras profundas, mas ostentava o maior sorriso do mundo.
— Nasceu — avisou ele, aproximando-se com os braços abertos.
Ikki abriu um sorriso enorme, relaxando os ombros.
— Até que enfim! — resmungou, meio indignado. — Ele demorou, hein!
O pai riu, cansado, mas transbordando felicidade.
— Quer conhecer o seu irmão?
Ikki nem respondeu com palavras. Pulou da cadeira — que, para o seu tamanho, parecia um precipício — e quase tropeçou nos próprios pés de tanta pressa.
— SIM! — já ia gritando enquanto corria pelo corredor. — Eu vou dar as boas-vindas para o meu aprendiz de cavaleiro! E futuro mestre de karatê!
O pai soltou mais uma risada e estendeu a mão. Ikki a segurou firme, entrelaçando seus dedinhos pequenos nos dele, e juntos eles entraram no quarto.
A mãe estava deitada na cama. Parecia cansada, mas tinha um sorriso tão leve e cheio de amor que iluminava o ambiente. Nos braços dela, havia um pequeno monte de mantas azuis.
Ikki entrou e olhou ao redor, confuso. Procurou debaixo da cadeira de amamentação. Olhou do outro lado da cama. Espiou atrás das pernas do pai.
— Ué… cadê ele? — perguntou, de cenho franzido.
O pai sorriu, apontando com o olhar para o colo da esposa. Ikki seguiu a direção do dedo dele e finalmente percebeu. Era… aquilo. Aquele montinho de pano.
Ele se aproximou devagar, quase na ponta dos pés, como se estivesse entrando no território de uma criatura misteriosa. Com a ajuda do pai, subiu na cama hospitalar e engatinhou com cuidado, os joelhos afundando no colchão macio. Parou bem perto e espiou por cima do ombro da mãe.
Então ele viu.
Era pequeno demais. Minúsculo. Os olhinhos estavam fechados e tranquilos, o rostinho todo enrugado, e havia apenas alguns fiapinhos de cabelo esverdeado no topo da cabeça. A mãozinha era tão miúda que mal conseguia agarrar o próprio pano, e o pezinho… parecia tão frágil que dava medo de tocar.
Ikki ficou em silêncio por longos segundos. Processando. Analisando o "pacote em construção" que finalmente havia chegado. E então, bem baixinho, com a voz carregada de choque, perguntou:
— …como é que eu vou brincar com isso?
A mãe soltou uma risadinha rouca e cansada. O pai levou a mão à boca, segurando o riso para não acordar o recém-nascido.
— Ele é do tamanho de um pão. — Ikki continuava encarando o irmão, completamente sério. — Um pão pequeno.
Mais silêncio. Ele se aproximou mais um milímetro, estreitando os olhos em profunda desconfiança.
— Mãe… você tem certeza de que ele está no ponto certo? — olhou para ela, preocupado. — Pelo tempo que ele passou lá dentro, eu pensei que ia nascer pelo menos do meu tamanho. Acho que esqueceram de colocar o fermento nele.
O pai não aguentou e soltou uma gargalhada baixa.
— Ele está no ponto sim, campeão. É que os bebês humanos começam no modo "miniatura" e vão subindo de nível devagar.
Ikki não pareceu muito convencido. Ele mediu visualmente o irmão e depois olhou para o brinquedo em suas mãos.
— O ursinho é maior do que ele — sentenciou, levantando o brinquedo de pelúcia como prova. — Se eu deixar ele brincar com o Senhor Puffer agora… o Senhor Puffer vai matar o Shun sufocado!
A mãe e o pai explodiram em risadas abafadas, completamente rendidos à lógica hilária e protetora do novo irmão mais velho. Ikki, mantendo a expressão perfeitamente séria, voltou a encarar o bebê, ignorando a diversão dos pais.
— Por que ele não abre os olhos?
O pai respondeu com calma, aninhando-se mais perto:
— Porque ele acabou de nascer, campeão. Os olhinhos ainda são muito sensíveis… ele nem consegue enxergar direito ainda.
Ikki processou a informação.
— Então ele não enxerga… — Começou a contar nos dedos, atualizando a lista de defeitos de fábrica. — Não fala… não anda…
Houve uma pausa. Ele olhou para o pai, confuso e um pouco desapontado:
— Então para que ele serve?
O pai sorriu, sem perder a paciência nem por um segundo:
— Para você encher ele de amor.
Ikki suspirou. Olhou de novo para o bebê. Pensou, ponderando se aquele trato valia a pena. E então perguntou, com a voz um pouco mais baixa, revelando o seu verdadeiro desejo:
— Eu posso segurar?
— Pode — disse o pai. — Mas tem que ser com muito cuidado.
— Eu vou ser cuidadoso.
Com a ajuda do pai, Ikki se ajeitou melhor na cama do hospital, esticando os bracinhos. O pai pegou o bebê dos braços da mãe, que fez uma pequena careta de protesto ao perder o calor daquele corpinho tão esperado. Sentindo a mudança de colo, Shun soltou um resmunguinho agudo.
Ikki franziu o nariz na mesma hora.
— Ele é igualzinho ao vovô Mitsumasa… reclamão. — Fez uma pausa reflexiva. — A diferença é que o Shun é pequeno… e o vô é só velho.
Os pais riram baixo para não sobressaltar o recém-nascido.
Com todo o cuidado do mundo, o pai acomodou o bebê nos braços de Ikki, ajustando a posição de suas mãos.
— Segura aqui… apoia a cabecinha… isso… firme no pescoço também.
Ikki travou. Ficou tenso, muito tenso, endurecendo os ombros como se estivesse carregando uma bomba relógio. Olhava fixamente para o embrulho de mantas.
— Ele é… mole.
E realmente era. A cabecinha tombava levemente, desajeitada, e o corpinho sob as roupas parecia frágil demais. Ikki observou cada detalhe com atenção milimétrica. A cabeça parecia grande demais para o resto do corpo, e a pele ainda estava um pouquinho enrugada.
Ele torceu o lábio em uma careta:
— Ele acabou de nascer e já tem cara de velho… Por que ele não tem coordenação motora? — Franziu a testa ao perceber que qualquer micro-movimento fazia a cabeça do irmão pender para o lado. — Parece um brinquedo de Lego… tenho medo de ele desmontar.
— É porque ele ainda é muito pequenininho, meu amor — explicou a mãe, divertida com o relatório anatômico do filho.
Ikki fez um “humpf” com a boca… mas não desviou os olhos. Observou os lábios mínimos, o nariz empinado, as pálpebras coladas. Sentiu o peso quase inexistente nos braços e soltou, categórico:
— Ele não parece um cavaleiro. Vai ter que comer muito arroz e feijão para ter sustância para segurar uma espada. O pinscher da vizinha é mais pesado do que ele!
Curioso, Ikki esticou o indicador livre e repuxou de leve o lábio inferior do bebê, ainda julgando o novo integrante da família.
— Cadê os dentes? — Olhou para os pais, indignado. — Por que ele é banguela igual a vovó? Como ele vai morder os outros se precisar lutar?
O pai virou o rosto para o lado, mordendo os lábios para segurar a gargalhada.
Ikki continuou seu raio-X, analisando os poucos fiapos de cabelo no topo da cabeça do irmão. Foi exatamente após esse longo escaneamento que o bebê reagiu. Sentindo o calor do dedo que tocava seus lábios, os dedinhos minúsculos de Shun se abriram devagar e se fecharam ao redor do indicador de Ikki, apertando-o com uma força surpreendente para o seu tamanho.
Ikki travou.
Olhou para a mãozinha. Olhou para o rosto adormecido do irmão.
E então… o escudo de seriedade desmoronou. Um sorriso pequeno, mas completamente sincero, iluminou o rosto do menino de seis anos.
— Ele tem cara de joelho… — sussurrou, enquanto sentia o aperto quentinho do irmão. — mas é bonitinho.
Ikki ajeitou o bebê um pouquinho melhor contra o peito, trazendo-o para mais perto com um cuidado redobrado, sentindo que, de repente, o mundo inteiro cabia ali, naquele abraço.
E, bem baixinho, ele decretou:
— Bem-vindo, irmãozinho.
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