*31/03 – Sábado* Noite:

Essa seria a primeira chance de uma pista real, precisávamos dela. Fiquei andando de um lado para o outro, era emoção demais para ficar quieta.

Milla está morta. Doutora Helena apareceu. Será que Milla tinha sido sequestrada ontem? E sangue, muito sangue.

Os 5 minutos se passaram e como prometido a galera estava aqui, nós 6 como 1 só.

– Quem é essa mulher? – Alex perguntou.

– Doutora Helena Goldin. – Daniel respondeu e questionou logo após. – O que a senhora está fazendo aqui? Está ciente de quem somos e o que fazemos por acaso?

– Sim, sei quem são e o que fazem, estou aqui porque mataram minha filha, minha querida Milla está morta aqui no chão. E mais uma coisa, fui eu que chamei vocês aqui.

Ela agora tinha um lenço na mão e simplesmente estava calma, não parecia mais a louca de 10 minutos atrás ou a mulher que perdeu a filha, ela assumiu uma postura profissional.

– Antes que a gente comece alguma coisa aqui gostaria de perguntar algumas coisas para a Doutora Helena. – Informou Roger e continuou. – Primeira pergunta, como você sabe dos corpos? As pessoas daqui não repararem nem que eles morreram.

– Como eu disse para ela, foi coincidência, peguei os corpos antes que apodrecesse, o que não entendi foi porque ninguém se prontificou a fazer nada. Os robôs daqui ainda não estão programados para mortes, eles não devem saber o que é isso, então ninguém de fora foi informado. E, eu não sou tão rica assim, cheguei até aqui por mérito meu, não sou fria como todo mundo. Vi as semanas passando e nada acontecendo, fui recolhendo os corpos, e quando a situação foi piorando procurei alguém que pudesse ajudar sem manchar o nome da escola.

– Segundo, porque não informou ao diretor?

– Você já falou com aquele homem? A informação entra por um ouvido e sai pelo outro, eu informei, mas ele não tomou providência alguma.

– Não sabia desse detalhe, só conversei com ele uma única vez, falta de mais oportunidades. Mas enfim, continuando, porque as cenas dos crimes estão completamente limpas? Robôs não fazem isso.

– O culpado talvez? Jurava que vocês fossem mais espertos.

– Perdoe-me pelo meu “erro”, o que quis perguntar é: porque as cenas estão limpas? A senhora foi que não entendeu a pergunta, você é suspeita. 6 mortes até agora, não é como dizer que teve uma briga no corredor, são vidas, alguém se importa. Se o culpado quisesse ter sido discreto e apagado as provas ele não precisaria ter deixado os corpos para alguém ver.

– Você está me acusando de assassinato?

– Não disse isso, disse que era suspeita, mas você pode me provar o contrário.

– Eu não mexi nas cenas do crime, não sei quem foi ou o motivo pelo qual fez isso. Se eu fosse a culpada não precisaria chamar ninguém aqui, podia matar todo mundo nessa escola e ninguém iria se importar!

– Entendi, compreendo. Mas a partir do momento que estamos investigando o local precisamos prestar contas sobre o que está acontecendo, você estará sendo detida até segundas ordens. Ryan e Daniel, levem ela para a cela do QG. Nadia venha comigo e o resto comece o trabalho.

A Doutora ficou perplexa, eu fiquei perplexa, e o resto também. Como ele poderia estar prendendo alguém que acabou de perder a filha? Ryan e Daniel foram em direção a ela e arrastaram-na pelos braços.

– Você está errado! Me soltem seus brutamontes! Minha filha está morta!

– Minha senhora, isso não funciona com a gente. Somos pessoas que matam a sangue frio e não nos arrependemos, pais matando filhos é como receber a notícia de que o sol nasceu mais um dia: comum. – Daniel falou enquanto ia levando ela.

E eu não podia fazer nada, cada palavra do que ele disse era pura verdade. Somos monstros, isso é um fato.

.

.

.

Nós entramos no prédio principal, tudo estava escuro e sombrio, o local que parecia no mínimo acolhedor, agora era um cemitério para a alma de Milla. Roger começou a falar.

– Nadia, eu preciso de um favor seu. – Ele declarou sem mais delongas e mais sério do que nunca.

– Claro, tudo pela missão. – Respondi balançando os ombros como se fosse algo simples a se fazer.

– Quero Rebakah no caso.

– Hã? Como assim? Porque você a quer no caso? – Ele me pegou desprevinida.

– Olha, nada contra você, mas ela é a real “gênia” por aqui. Nadia, eu preciso que ela vá atrás de Michael.

– Porque você precisa que ela vá atrás dele? E depois, já o abordamos hoje, ele não sabe de nada.

– Ele sabe de alguma coisa. Isso é fato. O problema é que ele só vai falar com ela.

– Por quê?!

– Depois que você nos falou daquele dia em que conversou com ele, Alex viu ele agindo estranho por ai. Chutando latas, dando socos em coisas, só que Alex não sabia que você tinha conversado com ele.

– Ainda não entendo o que isso tem a ver de relevante, o cara deveria estar frustrado com a vida. Eu também achei por um segundo que talvez ele fosse suspeito, mas ao abordar na festa de hoje e ele ao menos não mostrar algum lapso de emoção quando pronunciei os nomes me fez acreditar que talvez ele não esteja envolvido...

–Ele é filho do dono das empresas Willow, o cara é um crack em robótica e um dia vai assumir a empresa do pai. – Roger se aproximou devagar, colocou as mãos em meus ombros, respirou, olhou nos meus olhos e continuou. – Michael não é o tipo de pessoa que consegue guardar um segredo. Eu preciso de Rebekah, entendeu?

Tudo ainda não fazia sentido, eu estava tendo algum problema com meu cérebro?

– Ok, você precisa dela, então precisamos dela. Só que eu não sei como “invocar” ela do nada.

– Não se preocupe, ela está ouvindo, só a deixe participar.

– Tudo bem. Não sei qual é o seu plano, mas espero que dê certo.

– Dará. Eu também não quero que você fique o resto da noite aqui, vá dormir, o seu trabalho começa amanhã. Até mais.

– Sim senhor...

Ele me soltou e eu fui caminhando em direção a meu quarto. Devagar, perdida em pensamentos e extremamente confusa. Tudo parecia estar girando lentamente, e o que via ao meu redor eram apenas máquinas limpando a grama, estrelas no céu, uma lua minguando...

Depois de belos 40 minutos de caminhada eu finalmente cheguei na porta do meu quarto. Encontrei um robô faxineiro lá dentro limpando e limpando... Quando terminou apenas parou ao lado da cama de Milla e se desligou. Também estava na minha hora de desligar.

*01/04 – Domingo*

De algum modo Rebekah escutou o que Roger falou, ela assumiu o controle, e estava de ótimo humor.

Levantou da cama com um pulo, tomou um banho e vestiu a roupa mais exagerada que achou no guarda-roupa. Colocou o óculos de sol, se equipou, virou para o espelho e disse algo como “Pronta para matar!”, deu seu belo sorriso psicótico e saiu a procura do alvo: Michael.

Não demorou muito tempo para deduzir que num domingo qualquer ele estivesse na biblioteca estudando, muito comum por sinal, quem me dera estar ali também... Ops, eu estava.

Rebekah andou em sua direção sem se importar quanto barulho as botas faziam no chão encerado e é óbvio que ele percebeu sua presença. Ela se sentou na cadeira, colocou o queixo sobre as mãos e apoiou os cotovelos na mesa para olhar fixamente para ele e falar com sua voz doce:

– E ai? Como você vai?

– Bem, obrigado. – Ele respondeu um pouco atordoado.

– Primeiramente eu gostaria de me desculpar por ontem, eu e meu amigo exageramos um pouco nas bebidas e acabamos querendo jogar uma partida de CSI... – Explicou.

– Acho que eu percebi depois que seu amigo puxou uma faca do bolso... – Ok, ele estava MESMO atordoado.

– Hmm... Era de borracha, papai não deixa usarmos aquelas coisas de verdade.

– Então tá, se você diz. Estou estudando agora, estudando muito. – E ele voltou seu olhar para o livro tentando evitar ela.

– É por isso que estou aqui, você está estudando muito mesmo. Sinto ferormônios CDFs uns 5 quilômetros de distância daqui! – Dai, Rebekah começou a rir da própria piada, pelo menos fez efeito ele sorriu de volta.

– E você pretende fazer o que? Me sequestrar ou me prender?

– Eu faço mais o estilo “má policial”, então vou te sequestrar. Vamos sair daqui!

Ok, admito. Ninguém consegue evitar seu jeito “felicidade extrema”, todo mundo cai nele, Michael não é exceção. Ele colocou os livros na mochila e carregou mais alguns nos braços.

– Você tem carro? – Rebekah perguntou.

– Sim, está no estacionamento, aquele branco ali...

Ele apontou para um conversível de luxo com propulsores de vôo! O cara deveria ser multizilionário!

– Wow! Me lembra de casar com você quando a gente terminar a escola, ok?

Ele riu mais um pouco...

– Mas vai ter problemas, vou ter que te colocar na lista de espera, tem muita gente atrás dessa vaga...

– No problems, eu posso furar fila ou me livrar de algumas mole, mole. – Ela piscou para ele e pulou no lado do motorista. – Posso dirigir?

– Sinta-se a vontade já que você já se sentou...

Ela apertou o botão de ligar, não colocou os cintos, ligou a música no volume máximo e partiu para fora do colégio em alta velocidade.

Único problema nisso tudo: EU TENHO GPS SUA MALUCA! Ou seja, você tem exatos 40 minutos até que policiais de verdade apontem armas para a nossa cabeça. Espero que esteja ciente.

.

.

.

Depois de 20 minutos dirigindo, o carro parou no píer da montanha mais próxima.

– Foi uma ótima corrida, não é Michael? – Ela perguntou.

– Ótima corrida, ótima companhia. – Aparentemente ele esqueceu todos os problemas do dia anterior...

– Você parecia tão inquieto lá dentro, tive que te tirar de lá... – Ela apoiou o cotovelo no banco do carro e agora estava virada para ele.

– Um pouco, vida de estudante. Você deve saber.

– Me diga, o que você faria se pudesse viver assim livres como estamos?

Ele olhou para baixo, pensou um pouco e relutou a falar.

– Eu confessaria um assassinato.