Dia 1

Sair do carro foi uma batalha.


Sua mãe ainda não estava habituada com a cadeira.

Eu posso fazer isso sozinho.— Douglas disse a mãe.

Se apoiou sobre as mãos na porta do carro e virou seu corpo sobre a cadeira. Não era difícil. Quando se passa a fazer algo todas as manhãs, se torna meio robótico. Era como respirar!

Sua mãe empurrou sua cadeira em direção a recepção. Douglas odiava ser ajudado, mas sua mãe se sentia melhor dessa forma e Douglas já havia a punido de mais por um erro que não era seu.

Quando entrou, Douglas soube que não seria nada fácil estar ali. A famosa reunião dos soldados sobreviventes a guerra. Douglas disse a sua mãe que seria apenas mais uma reunião de familiares chorando por soldados sem pernas, sem braços, com próteses por todo o corpo.

"Bem vindo a ilha dos brinquedos desajustados!"

A recepcionista lhe entregou um panfleto. Douglas o pegou mecanicamente. Ela o olhou. Douglas a encarou. A troca de olhares foi registrada por ela. Douglas sorriu. Ela fez alguns gestos com as mãos que ele não reconheceu.

Era surda! estava claro. Douglas empurrou a cadeira com violência e passou por ela.

Ótimo! mais um brinquedo desajustado!...

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Dia 7


Douglas fumou o ultimo cigarro escondido no banheiro.

Saiu empurrando a cadeira. Hoje ele não estava com humor para mais um dia de choradeira. Aquela velha já estava contando a mesma história a 7 dias. Todo mundo já havia entendido que o filho era um herói. Todos ali eram heróis! Eram o que diziam a ele.

Douglas não era um herói. Ele sabia. Perdeu a perna quando tentou fugir, deixou os amigos para trás e pisou na mina. Deu sorte. Perdeu apenas a perna. Havia um soldado no grupo que não tinha nenhum dos membros. Douglas riu silenciosamente dele no primeiro dia. Ficou imaginando como era ir ao banheiro.

Douglas não se permitiria ser mais um soldado triste.

Ela o olhou novamente quando ele passou pela recepção. Fez novos sinais. Douglas não os reconheceu.


Adeus brinquedinho surdo...

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Dia 15

Douglas a viu sorrir.

Estava na metade da terapia, mas quinze dias e ele estaria livre.

A velha do filho herói finalmente havia parado de contar sua história e agora estávamos a ouvir uma gravida que havia perdido o marido na guerra. Ele só conseguia imaginar em como ela estava gravida se o marido era do seu batalhão e nenhum deles havia voltado para casa em 8 meses. A barriga era menor. Douglas não entendia bem de gravidez então deixou a mente vagar pela sala.

Viu o soldado sem braço comendo com o auxilio da mulher. Viu um no fundo da sala tentando se manter em pé em apenas uma perna. Alguns se abanavam. O ventilador havia quebrado. Estava sufocante. Douglas só queria fugir, mas olhou para recepção e ela estava sorrindo.


Ela sorriu para ele...

Douglas sorriu também....

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Dia 20

Douglas passou a reunião inteira a olhando...


Ele chegou mais cedo. A mãe não havia entendido. Ela passou correndo com a cadeira pela rampa. Parou na frente dela e disse "oi" em linguagem de sinal. Ela sorriu e respondeu. Douglas não entendeu. Douglas não estava entendo nem a si mesmo.

A reunião daquele dia não o incomodou. Douglas, na verdade, nem lembra do que foi dito. Ele lembra do sorriso, do cabelo, da forma como ela gesticulava rápido com alguns outros surdos. Como ela riu de alguma coisa dita. Do café que ela tomou no meio da reunião e a quantidade de açúcar. Douglas amava café e pelo visto ela também, pois foram três em meia hora. Ele contou!

A reunião não o incomodou.

Ele não lembra do que foi dito.

Passou a reunião inteira a olhando

Ele lembra do sorriso.

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Dia 31

Douglas soube que estava apaixonado.


Douglas chegou preparado nesse dia. Ao fim da reunião ele a convidaria para sair, em linguagem de sinais. A reunião por sinal teve algumas coisas interessantes.

A velha do herói abraçou a todos e Douglas sentiu grande amor naquele abraço. A gravida trouxe o "amigo" que a ajudou no luto. Pelo modo que ele a rondava Douglas podia jurar que ele é o pai. O soldado que tentava se manter de pé com uma perna, hoje usava prótese. Douglas também estava se adaptando com a sua. Usava em casa e conversou com ele sobre. Douglas perguntou baixinho para o soldado sem membros como ele ia ao banheiro e entre piadas sobre como ele corria os dois se entenderam. Douglas ajudou o sem braços a comer.

No fim o abraço coletivo foi bem aceito por Douglas. Agora ele entendia que todos os outros eram heróis e começa a perdoar a si mesmo.

A reunião acabou e Douglas foi até ela. A convidou para sair e ela o respondeu. Com a tradução de uma amiga dela que não era surda, Douglas soube a resposta. Marcaram para dali a uma semana. Ele saiu sorrindo com a amiga atras enquanto ela fazia gesto a todos os novos soldados que entravam. Douglas perguntou o que ela dizia. A amiga respondeu.


Bem vindo a Ilha dos brinquedos desajustados.

Douglas riu...

Lembrou do sorriso...

Douglas soube que estava apaixonado.

Notas finais
xd
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!