Bem Vindo à Time Watch!

3 Loading... Arch 1, Chapter 3: O que realmente importa


Notas iniciais
Uffa!! Demorei taaaanto pra postar um novo capítulo!!! Peço desculpas! Por isso, resolvi adiantar o proximo. Esse era para ser um pouco mais comprido, porém vocês já esperaram o suficiente, certo? Aproveitem!

Era manhã. Setembro. O outono costumava ser misturado, com um sol brilhante e o vento frio e seco ofuscando seus raios. Mas o céu parecia uma pintura com um erro de proporção bizarro: um sol amarelo como a lua cheia que parecia ser sugado e enrolado por tentáculos de nuvens químicas e cinzentas.

Eu estava em pé na estação, esperando o trem que me levaria para a fronteira, de volta ao prédio da TimeWatch. Ele subia a cidade em círculos até o topo da pilha.

Senti cheiro de umidade, então olhei para cima. As nuvens cinzentas trovejaram, de leve, até que uma gota de chuva caiu na minha mão. Ela ficou vermelha, e ardia. Chuva ácida.

Hoje era o dia em que eu me acorrentaria de vez no destino escrito para mim dentro do contrato. E eu tinha pensado em desistir. Porque sentia que não tinha mais ninguém pra quem voltar. Mas esse sentimento também te livra de algumas coisas, por exemplo, agora eu também não tinha mais nada a perder.

De qualquer forma, ainda queria ter alguém como testemunha, então contei do meu recrutamento para o velho Perkins, do Entulho, mais conhecido como “Vovô Perkins”.

Vovô Perkins era um senhor calvo de olhos cinzentos que mantinha uma loja de balas nos arredores da minha rua, bem ao lado da oficina... Ele era uma pessoa muito confiável e doce, por isso chamavam-no assim. E gostava muito de mim e da Keila. Quando eu vinha visitá-la no trabalho, ele sempre dava pingos de leite de graça pra nós duas. Ele costumava ter um filho, que morreu há vários anos, e de quem ele costumava falar sempre...

...por que uma coisa engraçada sobre o vovô Perkins é que ele tinha mais de 200 anos de idade. Sem brincadeira. Naquele mundo a medicina tinha avançado até a esse ponto, mas não eram muitos que tinham tanta sorte.

Então eu fui até a sua loja, no dia anterior, cedo demais para qualquer criança chegar pedindo balas. E alguma coisa naquele olhar me dizia que ele sabia exatamente o que havia acontecido.

−Senhor Perkins, eu preciso conversar com o senhor.

−Jura? Pois fique a vontade!−sorriu ele. As rugas emolduravam seus olhos serenos – Faz tempo que não tenho uma boa conversa. Sente-se. Quer uma bala?

Ia dizer que não, mas não pude negar enfiar a mão num daqueles potes enormes de bala de morango. Prossegui:

−Na verdade, o que vim fazer não é exatamente isso –disse, mastigando− eu vim contar uma coisa. Uma coisa que preciso que você saiba, e guarde com você. Entende?

Ele apoiou as mãos na bancada, um pano branco jogado sobre os ombros. Suspirou, com uma expressão triste.

−Você e a Keila brigaram, não foi?

Hesitei por um momento. Mas como...?

−Não... quero dizer, brigamos sim, mas... não é sobre isso que eu vim falar com o senhor!

−Eu sei que não, Jane. Mas acho que seria bom se vocês se resolvessem. As duas formam um ótimo time− falou com seriedade.

−Por acaso ela falou com você!?

−É claro que não, mas pude ver isso só de olhar para ela! Está mal, tadinha. Mal conseguia falar direito.

Estremeci, porque quando minha melhor amiga ficava triste significava a pessoa mais agressiva/instável do mundo. Se ela não conseguia falar era porque estava ocupada demais resmungando e cuspindo de forma ameaçadora nas calçadas.

−Vovô Perkins. Eu já estou grandinha o suficiente para me virar por mim mesma. Não posso fazer nada se ela não concordou com certa decisão. E é sobre isso que eu vim falar com você.

Ele abriu a boca, mas fechou logo em seguida. Pensou um pouco, e perguntou:

−Então do que se trata, afinal?

−Eu fui... contratada por uma dessas empresas. E a ideia toda envolve ir no espaço, e talvez...−me inclinei para a bancada− voltar no tempo –sussurrei.

Eu realmente não sabia que reação esperar disso, mas Perkins pareceu bem calmo. Até calmo demais...

−Bem, parece que esses caras estão avançando pra valer, de fato! E suponho que eu não deva contar isso para ninguém.

−Exatamente! – eu disse, sorrindo− acha que consegue?

Vovô ergueu uma sombrancelha.

−Por acaso não sabe do que eu sou capaz, menina? É claro que sim! Mas quero que conversemos na sala. Por favor.

Me dirigi até os fundos da loja, enquanto ele fechava as entradas. Rapidamente estávamos dentro de sua casa, onde ele me ofereceu mais doces.

−Aquela bala deve ter te dado sede... Por favor, tome um desses− e me estendeu um saquinho de creme gelado.

Assim que me sentei na cadeira, comecei a esclarecer o que sabia. O contrato, as garantias. Ele ouviu tudo pacientemente, e ficou com o olhar distante.

−Seria melhor ainda se pudessem trazer meu menininho de volta... Você poderia fazer isso, né?

Ele pegou um retrato em cima da mesa de cabeceira e o estendeu a mim. Na foto desbotada havia um garotinho de apenas três anos, sorridente com o seu triciclo.

−Ele ficou muito maior que isso, nós não éramos de tirar muita foto... Era um menino excelente. Tirava as melhores notas da turma. Ele queria ser astronauta! Me deu tanto orgulho...

Perkins fez uma pausa. Seu olhar se tornou ainda mais distante. Seus dedos tremiam de leve.

−Sabe, quando ele tinha uns 18 anos... Simplesmente desapareceu. Ele tinha acabado de ingressar na divisão científica do exército, naquela época eles estavam contratando garotos tão novos... Assim mesmo, sumiu. Ninguém sabia dizer nada. Ah, como eu lutei pra achar meu filho− seus olhos se encheram de lágrimas− briguei até não poder mais, minha esposa e eu, estávamos tão desesperados. Depois de um tempo, decidiram dar ele como morto. Mas eu nunca− ele ergueu seus olhos vermelhos para mim− nunca, nunca, deixei de acreditar no meu menino. Nunca. Talvez ele ainda esteja por aí, talvez esteja consertando coisas em um país distante...

Silêncio.

Eu não sabia o que fazer diante da tristeza de Perkins. Ele era sempre um senhor tão sorridente, tão alegre, tão dedicado ao seus fregueses, mas todos sabiam que existia uma frágil mágoa estampada em sua fisionomia. Todos sabiam que suas mãos se tornavam trêmulas mesmo quando seu filho era citado com o mais largo sorriso. Todos podiam ver a parte quebrável de sua postura, como se ele fosse feito de vidro. Ele era um pai, um pai que perdera seu filho, e passou a cuidar de tantos outros que vinham comprar seus doces. Tudo o que eu consegui foi esperar pacientemente os engasgos de sua voz, e a dor de seu coração.

−Mas então! –disse ele subitamente, batendo as mãos uma na outra, com energia – como é isso de testemunha? Tenho que ir a algum lugar? Assinar alguma coisa? Minhas pernas já não se deslocam como antes, aviso logo.

−Na verdade, é só assinar isso aqui− falei sorrindo. Tirei da bolsa de ombro um contrato de três folhas e marquei a parte da testemunha.

Vovô analisou um pouco, espremendo os olhos da cor do dia cinzento, a boca meio aberta. Se virou lentamente para buscar a caneta. –Isso envolve algum tipo de fiança ou dinheiro, Jenny?

−Não senhor! Quero dizer... não agora. Depois desse contrato terei uma cláusula de seguro para fechar – era uma coisa em que eu tinha evitado pensar. Mas, e agora? Para quem eu daria aqueles lucros na pior das situações?

−Bem! Está aqui, Jenny. Boa sorte− ele botou a mão com firmeza no meu ombro− Mas eu quero que você se lembre de uma coisa. Não esqueça quem importa, querida. Quando você estiver lá em cima, no espaço− e apontou para o teto− quem te ama de verdade estará aqui, nesse planetinha azul. Ou não, certo? De que cor está isso aqui agora? Provavelmente igual ao antigo jornalzinho do Rex− esse era o cachorro de Perkins –aquele safado deve estar dormindo...

Não pude evitar um sorriso.

−Obrigada, Perkins− de verdade.

Quando eu pensava nos meus próprios conflitos, parecia até impossível arredar o pé. Mas, quando eu imaginava o mundo, isso me dava um calafrio na espinha.

O mundo é tão grande...

Notas finais
se gostaram, reviews, por favor! não esqueça o que o Nyah tá falando aqui embaixo / (sigam o Nyah sempre u3u)