Até que estou me divertindo, acho que essa viagem foi feita para eu e minha mãe nos acertarmos. Nós já ouvimos músicas, cantamos, rimos.

Olho para o relógio que marca 8:00, o tempo voou desde que eu… não consigo nem pensar, sinto minha bochecha corar. Sorrio, com certeza um daqueles bem bobos. Respiro fundo.

— Devo me preocupar?

Não intendo o porquê daquela pergunta, mas nego com a cabeça. Não queria nem saber o motivo dela ter a iniciativa de perguntar. Olho para frente, para a estrada e penso: Será que nós vamos conseguir chegar a tempo da virada? Queria tanto passar com meus amigos.

— O que foi?

Respondo que não é nada. Não quero brigar com a minha mãe, quero aproveitar ao máximo esse dia que nos uniu. Não me sinto assim desde os dez anos. Sorrio para ela ver que está tudo bem, mas não sinto que o sorriso fez com que as opiniões dela mudassem.

— Só estou cansada mãe. Não se preocupe comigo. Acho que vou dormir um pouco.

Digo antes dela ter a chance de perguntar de novo, ela concorda. Encosto a minha cabeça na janela, fecho os olhos e a primeira imagem se materializa, é o momento do beijo, será que isto vai ficar me atormentando para sempre?

Tento dormir, confesso que tentei o máximo que que pude, mas nada me fazia esquecer por apenas um minuto a cena. Abro os olhos e a coisa mais esquisita que já vi até agora aconteceu, não sei se estou ficando louca ou sei lá. Mas eu juro que vi a minha avó, que morreu quando eu tinha 10 anos. Nunca vou me esquecer dela, ela fazia o meu mundo ficar mágico, me contava várias histórias para eu dormir, mas eu nunca dormia sempre querendo mais daquelas histórias. Uma vez ela me contou que quando tinha 15 anos foi obrigada a se mudar e foi para uma cidade chamada… não me lembro o nome agora. Só sei que ela falava que quando pôs os pés naquela cidade tudo de ruim aconteceu. Ela contava várias histórias do que se passou naquele lugar e na noite anterior da morte dela, ela me disse que tudo que tinha me contado aconteceu em apenas um dia, naquele momento fiquei admirada. Mas os anos se passaram e acabei me esquecendo de tudo isso. Até agora.

Olho para a estrada e vejo uma mulher mais à frente, grito para minha mãe parar, ela freia, com certeza se assustou comigo. Quando olho novamente para a estrada não há mais ninguém a rua está deserta. Pisco várias vezes para ver se ela estava lá, mas não.

O que está acontecendo comigo? Penso. Minha mãe me olha. Com raiva no início e depois a expressão do seu rosto mudou para assustada.

— Pode me dizer o que aconteceu? — Pergunta ela calma, mais do que aparenta.

Nego com a cabeça, meu coração está acelerando, estou assustada ou mais… estou aterrorizada com o que vi. Não sei se era um pesadelo ou se tinha visto a mulher. Mas já estou achando que estou louca, só pode.

Minha mãe não pergunta mais nada. Só começa a dirigir de novo. O que está acontecendo comigo? Pergunto a mim mesma, mas sei que não vou achar a resposta.

Depois de dez quilômetros percorridos achamos um posto de gasolina. Paramos, entramos na lanchonete. É bem simples, nada demais. Entro no banheiro, olho-me no espelho, encosto as palmas de minhas mãos na pia de mármore. Olho fixamente para mim me perguntando o que está de errado comigo, desde que eu… vi aquela miragem fico a me perguntar isso, torturando-me com essa pergunta, nem consegui mais cantar.

Tenho vontade de ficar no meu quarto sozinha, trancada. Pelo menos assim não precisaria ficar encarando a minha mãe, estou com tanta vergonha. Paro de me encarar, abaixo a minha cabeça, fecho os olhos. Sinto a lagrima se materializando nos meus olhos, sinto ela lutando para sair. Deixo a lagrima cair. Abro os olhos. E vejo uma gota de sangue entre as minhas mãos, onde deveria estar a gota de água. Levanto minha cabeça, olho para o espelho. E vejo a trilha de sangue saindo do meu olho. Meu coração começa a acelerar. A adrenalina toma conta do meu corpo. O que eu quero fazer é chorar, mas sei que se eu fazer isso vais sair mais sangue dos meus olhos.

Desespero, adrenalina e medo é o resumo do que estou sentindo neste momento. Não quero morrer, é a única coisa que penso. Mais uma gota de sangue sai dos meus olhos e lentamente faz o seu trajeto até pingar na pia de mármore.

Abro a torneira, a água começa a sair. Coloco as mãos debaixo da água, é fria e aconchegante. Fecho os olhos, lavo o meu rosto. Tiro o excesso da água com a mão, abro os olhos. Estou olhando para o espelho, ainda há vestígios de sangue no meu rosto. Pego mais um pouco de água, encarando-me no espelho. Como pode ter mais do que… Olho para a minha mão e vejo o sangue que seguro. Afasto uma mão da outra deixando que o sangue caísse na pia. O que sai da torneira não é agua, mas sim sangue.

Dou um passo para trás, perguntando-me se estou delirando ou aquilo tudo estava acontecendo. Respiro fundo para ser se consigo me acalmar, consigo sentir meu coração batendo em meu corpo, senti como se ele quisesse sair de mim. Encosto-me na parede. Tenho que desligar. Penso, aproximo-me lentamente da pia e fecho a torneira. Para de sair sangue, mas o sangue não quer mais descer. Parece que está entupido. Tento desentupi-la para que ninguém veja que tinha sangue. Sinto algo segurar a minha mão, tento tirá-la, porém não dá. Estou em um pesadelo, só pode daqui a pouco vou acordar e tudo terá sumido.

Fecho os olhos começo a chorar. Ouço passos se aproximando, e agora! Penso desesperada.

— Filha… — É a minha mãe, como vou explicar para ela esse sangue todo, não consigo nem olhá-la direito. — Por que está chorando?

Ela não perguntou sobre o sangue. Não sinto mais a minha mão sendo agarrada, crio coragem para abrir os olhos, a primeira coisa que olho é para a pia. Não há sangue e sim água. Olho para o espelho, não há sangue, só lágrimas e seguida olho para a minha mãe mais calma por saber que nada do que vi aconteceu. Sorrio para ela, enxugo as minhas lágrimas e a abraço. Aliviada. Este é o sentimento que queria sentir depois de tudo que eu vi.

— Não foi nada. — digo para ela e saímos daquele banheiro.

Nunca mais quero voltar aqui. Penso.

Notas finais
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