Já era quase manhã. A lua ainda vestia o céu negro com um simples brilho no qual fazia oscilar a delicada penumbra de algumas árvores sobre aquele vasto gramado.

Estava frio. Não mais do que eu.

Meu pé, rude e despido, mal roçava a grama enquanto eu caminhava desajeitado de volta para o colo macio de minha mãe.

Em uma daquelas centenas de lápides bem ornadas das quais eu passava vagarosamente, dois corvos limitavam-se a me fitar. Pareciam penetrar em meus olhos escarlates semicerrados.

Apenas o zunido do vento quebrava o puro silêncio.

Soprava gélido.

Meus cabelos negros e desgrenhados mal se mexiam com a brisa. Fediam a sangue. Como a minha roupa e todo meu corpo.

Era bom.

Eu sentia fome.

Meus dedos espremiam o crânio do filhote que trazia em uma das mãos. Fora chato ouvi-lo agonizando tempo atrás.

Os pés gráceis e frios do menino, agora manchavam a grama com o sangue que escorria de sua cabeça por onde eu o carregava.

Minha tez desfigurada não demonstrava expressão alguma. Eu sentia fome apenas.

O filhote voltava a gemer. Desta vez com uma intensidade menor.

Ele estava fraco. Estava vivo; mas eu não queria lhe tirar a vida. Não agora. Não antes do Abraço. Queria saboreá-lo junto a minha mãe: meu berço.

Havia chegado. Finalmente.

Na frente da minha lápide eu deitei a criança na qual olhava para minha face com desespero. Ela parecia sem forças para reagir. Estava trêmula. Eu apenas estendi minha mão gelada até seus cabelos lisos e loiros manchados de sangue como todo seu corpo e me agachei frente a ela. Eu fitava seus olhos angustiados. Eram azuis e reluziam.

Eu sorri. Era sarcástico.

-Bem vindo à eternidade – sussurrei.

Eu cerrava os olhos até tudo desaparecer.

Seu sangue era fino e suave. Estava quente. Eu não consegui parar.

Não parei.

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