Bem-Vindo Ao Inferno

1 Capítulo 1 - Perdi Uma Parte de Mim


– Seu turno acabou, já pode ir.

Estava arrumando a capelada em cima da mesa, distribuindo corretamente os documentos pelas gavetas e deixando a minha mesa de trabalho do jeito que a encontrei, limpa e organizada.

– Richard?

Olhei para a porta, defronte a mesa, e vi meu substituto do turno da noite.

Ele usava seu uniforme habitual, cor de caqui, e um distintivo reluzente dourado. Bob era meu melhor amigo, talvez um dos únicos. Somos muito parecidos em questão de aparência, cabelos pretos, olhos pretos, mas carácteres diferentes.

Assenti, esboçando um sorriso.

Procurei por meu relógio no pulso, percebi que já eram exatamente dezoito horas.

– Meu Deus, estou atrasado! — disse, me levantando da cadeira e peguando meu casaco na cadeira, vestindo-o.

– O que foi? — perguntou Bob, sentando na cadeira que a poucos minutos eu ocupava.

– Esqueci que tenho que buscar Peter na escola e Amy no trabalho, estou em cima da hora!

Saí da sala, a delegacia estava vazia, então soube que eu não ia encontrar ninguém pelo caminho. Chegando a rua entrei em meu carro, velho e sujo, saindo em disparada.

Hoje foi um dia tenso na delegacia, uma mulher anciã estava fazendo um escândalo na minha sala e não parava de falar que ouvia gritos na fábrica todos os dias e, que estava cansada disso.

– O que a senhora fazia por lá? — perguntei para a mulher, que estava andando de um lado para o outro na minha sala.

– Eu moro lá, cabeça de bagre. — vociferou em resposta, me fitando com angústia — A fábrica é distante da cidade e ela foi construída do lado da minha fazenda, não tenho culpa de ouvir essa gritaria vinda de lá.

Não liguei para o "cabeça de bagre ", pois não iria prender uma anciã só por falar isso que nem mesmo eu sabia o que significava, só me deu pena dela.

A mulher tinha cabelo curto e grisalho, as vestes rasgadas e sujas. Percebi que quando falava sua mão tremia e seus olhos fechavam, era um pouco desajeitada e corcunda, estava idosa demais para ficar passando nervoso.

– Sente-se novamente, eu te peço. — disse, quando ela parou de andar de um lado para o outro. Ela se sentou-se e ficou calma.

– Você vai se arrepender se não fazer nada a respeito, eu não sei o que está acontecendo lá dentro, mas se você não fazer nada, irá se arrepender e não poderá voltar atrás — sussurrou a mulher, levantando-se e se dirigindo para a porta. — Fique bem... você vai precisar!

Me deu calafrios só de pensar naquela cena, especialmente naquela conversa. Isso tudo foi confuso demais, e nada foi feito, ninguém foi a fábrica conferir. Talvez, por precaução, eu perguntaria para a Amy, minha esposa, cuja trabalha lá, assim que chegasse em casa.

Parei o carro na porta da escola e, Peter, meu pequeno filho, veio correndo com sua bolsa de carrinho ao meu encontro, entrou no carro e se sentou no banco de traz.

A professora de Peter veio até o carro, e pela janela aberta do banco da frente ela ficou. Era jovem demais para uma professora do primeiro ano, e começou a falar:

– Obrigada pelas flores, só gostaria de saber, vocês não gastam muito dinheiro me dando flores todos os dias?

– Bem... — a pergunta me pegou de surpresa. — Peter adora flores e temos uma estufa na nossa casa, ele é quem cuida das plantas, então ele fica feliz em dá-las para você.

– Ah, é... muito obrigada... vou precisar... ir embora. — gaguejou a professora, corando e me deixou confuso.

Quando a professora se fora, eu dei partida no carro e rumei para a estrada.

Minha esposa trabalhava na fábrica, cuja eram feitos produtos orgânicos e essa fábrica era um pouco distante por causa da poluição e do mal cheiro. Então precisava ir em direção a estrada.

– Como foi o seu dia, querido? — perguntei.

– Legal, a professora adorou mesmo as flores, ela disse que ia guardar com carinho, aliás era aniversário dela e achei a flor mais bonita na estufa para dar para ela, só faltava ela jogar fora.

– Acho que não, ela parece ser uma boa pessoa. — disse.

– Mas ela é.

Fiz uma curva e segui em uma estrada de terra, parando em um estacionamento cheio de carros, parada em um banco, Amy se levantou e rumou ao nosso encontro.

Quando ela começou a caminhar, vi que uns seis homens na caminhonete, a mirou e começaram a rir e a beber a cerveja, todos bêbados e loucos.

Ela fazia que não ouvia e muito menos olhava para eles, apenas entrou no carro e fechou a porta.

Amy era linda demais, cabelo loiro, olhos verdes e aparência doce e jovem.

Dei meia volta, e rumei novamente para a estrada de terra, mas dessa vez eu estava a deixando.

Voltei para a estrada novamente.

– O que foi amor? — perguntei mirando Amy.

– Nada...

Eu sabia que algo estava errado pois ela sempre me dava um selinho quando entrava no carro, mas hoje foi diferente.

– Não, não, não — com um ronco no motor o carro parou, e no painel do carro estava indicando que a gasolina estava além da reserva, necessitava abastecer.

Por sorte havia um posto de gasolina perto daqui, então busquei no porta malas o garrafão de por gasolina e pedi para a Amy e Peter ir buscar.

Dei o dinheiro a eles, e pedi que eles comprassem comidas para eles comer.

Fiquei no carro esperando eles voltar, não era muito longe para tanta demora, com um barulho alto e um som de música ao máximo, apontou na estrada um carro cheio de homens.

Vi eles pelo retrovisor, pois eles estavam vindo em direção do carro, quando chegou perto eles desviaram do carro e foi na outra pista.

Os homens estavam bêbados ou malucos, e percebi que eram aqueles que estavam na fábrica. Eles estavam rápidos demais entrando no posto de gasolina.

Eu pensei o pior, aqueles malucos sozinhos com Amy e Peter me deixaram nervoso. Mas para meu alívio os dois vinham caminhando pela estrada ao meu encontro, sãos e salvos.

Percebi que Peter estava chupando sorvete de uva, este era o seu preferido e Amy tomava uma latinha de refrigerante, ambos felizes e juntos.

Faltava apenas dez metros de distância do carro e eles, foi quando ouvi novamente o som da música alta, avistei o carro vindo pela estranha na direção de Amy e Peter

Amy e Peter não viraram para ver o que estavam atrás deles, apenas estavam caminhando ao meu encontro. Eu gelei ao ver que eles estavam se aproximando, meu corpo não me obedecia.

Então recorri ao grito:

– Amy, Peter, atrás de vocês! Cuidado!

Eles não entenderam o que eu disse, e o carro os acertou em cheio e eu ouvi o freio sendo apertado e logo o carro me acertou e ambos cambalearam.

– Amy... Pe... ter!

Adormeci gritando.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.