Entramos no carro e com certeza aquele lugar não é simplesmente uma lanchonete em um posto qualquer. O banheiro só foi o início do que aconteceu lá. Sei que se eu contasse para uma pessoa ela me diria que eu estou louca, mas tudo isso, toda essa situação… eu não estou louca, eu só… Não sei explicar, porém eu sei que não estou louca, uma vez me disseram que os loucos negam ser loucos. Eu sou diferente, eu… sei que posso estar louca, só não acredito que estou, tudo que aconteceu na lanchonete foi bem… foi a experiência mais esquisita que já vivi. Sei que o que vi não era criação da minha mente, principalmente quando o que você vê é um garoto machucado. Eu vi as pessoas o socorrerem, mas… minha mãe não deu a menor importância quando eu disse que havia um garoto ferido há dois metros dela. Todos ao nosso redor estavam dando a atenção a ele, só minha mãe que não. A única. Por isso sei que não estou louca. Por que só a minha mãe não viu?

Solto todo o ar que estive segurando até sairmos daquele local. O alívio toma conta do meu corpo. Sinto que se eu ficasse mais um segundo naquele lugar eu não se se aguentaria. Minha mãe entra no carro, coloca o cinto de segurança e começa a dirigir. Não consigo relaxar. Olho para a janela, mas não presto atenção em nada.

Encaro o meu reflexo na janela. Olho atentamente para ele.

— Filha está tudo bem?

Assusto-me com a voz da minha mãe. Olho para ela, meu coração está um pouco acelerado. Concordo com a cabeça e tento sorrir para ela ver que está. Mas com certeza eu não a convenci.

Olho para frente, para a estrada. Tem muito caminho pela frente, será que vamos conseguir chegar lá há tempo? Penso. Não consigo mais pensar em nada. Queria estar pensando: Vou conhecer novas pessoas, um novo lugar e vou passar o ano com a minha mãe, mas isto não fica na minha cabeça. Sei que estou sendo egoísta quando digo que queria passar o ano com pessoas que conheço ao meu lado. Mas também sei que esta promoção beneficiará a minha mãe na carreira dela.

Abro a boca para falar, mas o telefone toca, me assusto, quase pulo do banco. Olho para a tela e vejo que minha amiga Carla está me ligando. Nunca gostei muito dela, mas resolvo atender.

— Oi — digo esperando que ela me respondesse. Mas ela não responde o que ouço é ela falando com… Mateus. O meu melhor amigo. O mesmo que me beijou há menos de 12 horas.

Ouço ela dizendo: “Mateus quanta surpresa! Não esperava você aqui tão cedo. Fez o que eu te pedi?”Agora ouço a voz dele. “É claro que sim, eu faria tudo por você”. Fez o que? perguntei a mim mesma. “Fácil assim? acho que você não está merecendo o que eu te prometi.” Não estou entendendo o que eles dizem. “Esperei por dois meses para completar essa fase, tenho certeza que eu mereço.” Mateus disse. “Está bem, mas me diga como você conseguiu beijar a Vanessa?” Meu coração acelerou, fico surpresa com que ouço. Eu quero desligar e não ouvir mais nada, porém quero saber o que ela prometeu a ele para brincar com os meus sentimentos. “Me aproximei dela, ela não recuou e eu a beijei, agora quero a minha recompensa.” Mesmo só escutando deu para perceber que ele falava sorrindo, mas que… Estou com raiva dele, tanta raiva que… poderia sair desse carro e voltar só para me vingar dele.

O telefone fica mudo, tiro-o do meu ouvido por um minuto para ver se a ligação não caiu. Não ainda, estão lá. Coloco-o de volta e espero até ouvir algo. Nada, se passaram dez minutos e nada. Resolvo desligar, mas neste momento ouço a voz de Carla dizendo: Está bem, você fez por merecer, está aqui. É todo seu. Aproveite-o. Depois não ouço mais olho para o monitor e vejo que a ligação caiu.

Um minuto depois o telefone começa a tocar novamente, olho para a tela do celular que diz: Desconhecido. Clico na tela, onde está um mini telefone verde e o arrasto. Um desconhecido pode ser o melhor para mim agora. Levo o celular ao ouvido e digo.

— Alô?

— Não se pode confiar em ninguém, nunca, mas pode confiar em mim…

— Quem é?

Minha voz sai calma, mais do que imaginei ser possível.

— Pode confiar em mim, pode confiar em mim, você pode confiar… em mim.

A voz do homem é rouca e fria. A primeira coisa que penso é: tenho que desligar. Mas parece que ele leu os meus pensamentos e disse: Não desligue, não desligue e começa a rir. Estou em um filme de terror ou o que? Pergunto a mim mesma e ele responde: Depende de você, o que você acha? Esse homem começa a rir novamente, um riso daqueles desenhos onde o vilão termina de tramar algo para eliminar o herói. É assustador, os pelos da minha pele começam a arrepiar. Você só pode confiar em mim. Ele diz e repete. Desligo o celular. Olho para a minha mãe, ela não pergunta quem ligou. Isto com certeza é estranho. O telefone toca novamente e vejo que é Mateus que está me ligando. Atendo.

— Oi?

— Você causou isso, é você. Você é a garota do dia primeiro. — É ele, o homem da voz rouca.

Ele ri. Olho para a minha mãe. Ela não pode ficar. Ele diz. Só você pode, só você, ela não, só você pode ficar. Não brinque com o fogo. Confie em mim. Só estou querendo te ajudar. E ri novamente. Desligo a ligação. O telefone toca, não atendo. Ele para de tocar. Toca novamente, o ignoro.

Olho para a estrada e vejo um meteoro caindo em nossa direção. Meu coração acelera e por um segundo penso que vou morrer.

— Pare! — Grito para a minha mãe.

Notas finais
Espero que tenham gostado, comentem isso é muito importante para o desenvolvimento da história.