Bem Vinda Ao Campo
44 O Velho e o Moleque
Notas iniciais
Boa Leitura.
Procurou por todos os abrigos públicos sem sucesso. Rudolph não estava em parte alguma. Começava a se permitir o desespero.
Já fazia boas duas hora desde que saíra de casa. Pensava que Anne deveria estar preocupada, que Nana estaria rezando para todos os Santos. Pensava que deveria voltar, mas não podia, não sem levar Rudolph consigo.
Andava sem rumo,não havia mais onde procurar, as construções ainda soltavam fumaça, a cidade agonizava, e aquilo doía em seu peito.
Amava Berlin, amava a Alemanha, e ambas estavam sendo destruídas, tanto em suas estruturas quanto em suas memórias, eram transformadas em escombros inglórios e sujos de fuligem. Heinrich tinha vontade de chorar.
Continuou andando até que se deparou com uma pequena confusão mais a frente, diante de uma casinha simples.
Um homem em idade ligeiramente avançada discutia com a mulher que parecia ser sua esposa e, que assim como ele, certamente já havia passado dos cinquenta anos.
– Não quero esse tipo aqui! – esbravejou ele por entre dentes.
– Hansi, não podemos negar ajuda à um ferido.
– Não me importa se está ferido! É um maldito nazista e eu não quero...
O velho parou de falar ao constatar com total assombro o fardado oficial da SS parado a poucos metros de si.
Era de se esperar que pedisse desculpas e implorasse por misericórdia, mas o homem fitou o major como se ele não passasse de um enorme monte de bosta.
– O que o senhor acabou de dizer? – indagou Heinrich calmamente.
– Disse que não quero um maldito nazista na minha casa!
Os olhos dele chamuscavam, não estava disposto a se dobrar por um soldadinho nazista de merda.
– Hansi, pelo amor de Deus! – pediu-lhe a esposa desesperada.
– Não essa parte senhor. Ao acaso disse que tem um homem ferido em sua casa?
– Sim, um borra-botas fardado como você.
– Hansi!
– Ora fique quieta Muriel...
– Preciso entrar para vê-lo. – disse o “borra-botas fardado”.
– Pode entrar meu jovem...
– Muriel! Eu ainda sou quem veste calças por aqui! Não quero esses nazistas na minha casa!
– Se me deixar entrar para vê-lo, posso tirá-lo de sua casa.
Veltheim estava extremamente calmo com a situação a respeito do velho, e tremia de expectativa porque tinha certeza de que iria encontrar o melhor amigo ali.
– Seja rápido, não quero gente como vocês perto da minha filha... – resmungou Hans.
Sem esperar que o homem mudasse de idéia, Heinrich entrou na casa que era bastante modesta, mas impecavelmente limpa.
Seguindo Muriel chegou à um pequeno quarto onde uma jovem que de costas para a porta, com suas longas tranças louras, debruçava-se sobre um homem deitado. Era Rudolph.
– Kristina, esse moço veio buscar o amigo...
– Oh mamãe, não sei se ele deveria sair daqui... – disse ela virando-se para a mãe e para Heinrich.
Não tinha mais que 15 anos, parecia feita de porcelana tão branca que era, os olhos tinham um tom castanho tão claro que assemelhavam-se ao dourado dos cabelos.
– Recolhi seu amigo lá fora após o bombardeio. Ele estava muito atordoado e bastante machucado, não sei se não quebrou algum osso.
– Ele te disse alguma coisa?
– Para dizer a Heinrich que sentia muito.
– Está perdoado.
Ao dizer, falou mais para o amigo desacordado do que para a menina. Rudolph estava e sempre seria perdoado.
– O senhor é que é Heinrich?
– Sim, sou o major Heinrich Von Veltheim...
– Ótimo, achou seu amigo. – interrompeu o velho Hans resmungando – Agora pode sair já da minha casa, major Von “Grande Coisa”.
– Hansi! – pediu Muriel novamente – Por favor major, não leve em consideração as rabugices do meu marido.
– Não me desrespeite Muriel!
– Não se exaltem. – propôs Heinrich em tom apaziguante – Eu já vou sair senhor Hans...?
– Hans Kriegel.
– Pois então Sr. Kriegel, estou me retirando e levarei meu amigo.
– Ele não pode se levantar, major. – informou Kristina preocupada, sua mão pousava sobre a testa chamuscada de Rudolph.
– Ele vai ter que sair!
– Irei buscar um carro para removê-lo. Volto em breve.
– Enquanto isso cuidaremos dele major, não se preocupe.
Muriel sorria, Kristina ocupava-se passando um pano úmido no rosto de Rudolph, Hans rangia os dentes.
***
Poderia se sentir um verdadeiro cretino por estar fazendo aquilo, mas não tinha nenhuma outra opção.
– Friedrich, sei que está com problemas, mas preciso que me ajude a levar Rudolph para minha casa.
– Vocês está mesmo falando sério?
Olbricht mal podia crer que aquela conversa era real. Não fosse Veltheim tão importante para o curso das operações da Resistência, ele o teria mandado para o inferno duas vezes.
– Rudolph está ferido, na casa de um homem anti-nazismo. Você é minha melhor escolha.
Friedrich refletia longamente. Olhava para a sala destruída.
Está bem, mas isso tem de ser rápido. Onde está o seu carros?
– Na Polônia, em Auschwitz. Onde está o seu?
– Não sou um homem de posses como você, não tenho um carro. Você e Rudolph são da Schuzstaffel, peça ajuda à eles.
– Não!
– Porque não? – indagou Olbricht desconfiado da resposta negativa tão firme.
– Não os quero na minha casa.
– Esconde algo lá?
– O que eu esconderia?
Arrependia-se profundamente por ter deixado escapar aquele “não” tão veemente e por ter mencionado a sua aversão a ter a SS em sua casa.
– Se quem esconde é você, você é quem tem que me dizer.
– Não tenho nada a dizer e tampouco escondido. Percebo que não pode me ajudar, farei isso de outro modo.
***
Sentia quase que de modo palpável a ira de Hans Kriegel à observá-lo retornar sem nenhum carro ou homem.
– E então?
– Não consegui o carro, vou precisar que você me ajude.
O velho o fitou com total desprezo. Ainda teria que ajudar aqueles nazistas.
– Se é para ficar fora da minha casa eu carrego esse saco de estrume para onde você quiser.
– Agradeço pela ajuda.
– Que tipo de SS é você afinal? Porque não me encheu de tiros todas as vezes em que eu xinguei os nazistas?
– Sou um tipo diferente,
– Hunf.
– O senhor não deveria deixar tão claro o seu desprezo pelo nazismo. Sabe que se fosse outro oficial no meu lugar você e sua família teriam ficado em maus lençóis.
– Não precisa me dar conselho moleque, eu sei bem como seria....
Notas finais
E que família mais curiosa que o encontrou!
Comentem!
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Obrigada pela compreensão e pelo votos de melhora para o meu namorado, suas lindas. Ele já está bem melhor. ;D
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