Bem Me Quer.

13 Capítulo 13


Mills puxou o braço esquerdo de Robin para si, olhando para o relógio azul marinho de detalhes prateados que portava.

“Minha nossa! Já são duas horas.”

Ele pareceu não se importar.

“Sua esposa não acha ruim de voltar tão tarde?” Insistiu.

“O que posso dizer?… Confiança.”

Robin lembrou-se do tempo o qual foi obrigado a dormir no sofá, não estava nem um pouco com saudades. Principalmente da maldita dor de coluna. Regina riu quando fixou seus olhos na feição do loiro e percebeu o sorriso malicioso que ele lançou. Ela sabia que estava mentindo. “Aposto que ela se importa. Mudaria meu conceito de confiança se eu fosse Marian.”

"Mas você não é."

Ele deveria se considerar na lista dos culpados ou arrependidos depois da frase da prefeita. Mas, de longe, era o que acontecia. O loiro repensou, as palavras dele soaram com duplo sentido. Torcendo para que Regina não notasse a ambiguidade e fosse experiente o suficiente para reconhecer o flerte, esfregou suas mãos na pele nua de seus braços, tentando se esquentar. Ele estava congelando de frio e a morena não pode deixar de notar. Ela ainda estava com seu casaco.

“Oh! Pegue.” Estendendo suas mãos, lhe entregou o casaco de couro. Robin leu a expressão confusa nos olhos negros de Regina e a escutou continuar. “Desculpe, quase fui embora com ele.”

O loiro riu, pensando em como ficaria contente caso ela não o devolvesse, assim teria motivos para se encontrar futuramente com a mesma. Ambos não podiam deixar de fazer a observação de que finalmente acederam a conversar, sem trevas no olhar deixando subentendido. Não estavam são e salvos. Eram mais que cientes disso. Estavam numa das ruas mais famosas de Storybrooke, no fim de contas. E mesmo sendo assim, com a exceção do caso de o Sol engolir a Terra exatamente naquele momento, nada os faria voltar. Nada os faria ir embora.

“Posso lhe fazer uma pergunta?”

Para descontrair, a morena resolveu brincar. “Já fez.”

Dando risada do diálogo que agora conseguiam conduzir, Robin teve a certeza de que o que tinha em mãos e pretendia declarar, talvez acabaria com o clima ameno que levavam. Por isso, revisou e considerou inúmeras vezes. A decisão foi arriscar.

“Você é livre, Regina?” A mulher o olhou como se fosse um abestado. Ela nunca havia sido interrogada de tal maneira, com tal pergunta. Nem sabia como responder esse tipo de questão. Afinal, quais seriam suas alternativas? De fato, ela considerava que sim. Óbvio. Por acaso ele via algum tipo de algema em suas mãos?

“Oras..” Começou, tentando ganhar tempo.

“Sem oras, Regina. Me diga. Você é livre?”

Foi levantando o nariz que ela lhe soltou o “Sou.” mais confiante de toda sua vida. “Eu sou.”

“Não, não é.” Ele afirmou, ganhando num placar de dez à zero na frase confiança dela. Agora ele estava a irritando mais uma vez, para não perder o costume. Seria o caso de ele saber mais sobre a morena do que ela própria? Apostava que não. Que idiota. Ela pensou, rindo novamente.

“Por quê diz isso?”

“Não me leve a mal, é que..” Coçou a cabeça, desajeitado. Tomou fôlego para assim dar procedência. Nesse tempo, reparou que a loja de Mr. Gold ficava logo à frente e, sem razão aparente, sentiu calafrios o subindo a espinha. “Parece que não faz o que quer.”

“Parece..” Ela fez questão de enfatizar, sentindo-se desconfortável quando, por acaso, a carapuça serviu.

No breu melancólico da noite, Robin teve raiva de si mesmo assim que se deu conta do corte que a conversa sofreu pela lâmina que é o silêncio, mais uma vez. Seria difícil arranjar palavras e recomeçar. Mais complicado ainda seria conduzir o diálogo. O loiro não a conhecia bem, mas sabia que Regina não se abriria de jeito maneira. E foi com esse pensamento que ele mesmo decidiu fazê-lo.

“Sabe, eu tenho uma lista.” Robin continuou. As palavras soaram avulsas e agora sim ele se mostrou um verdadeiro retardado. Tantas coisas para se falar..

“Como?”

“Uma lista.”

“Sim, eu entendi mas..”

A interrompeu. — “Trinta coisas que eu gostaria de fazer antes de morrer.” — Ele nunca havia contado aquilo para ninguém. Aliás, até lhe correu a oportunidade, mas hesitou. Iam pensar que era louco, desnecessário. Robin sempre guardara a listagem à sete chaves, falar sobre ela seria inútil. Achava a própria atitude poética, sim, mas tinha a certeza de que não seria vista assim por outros olhos. "Não julgue sem antes saber a história, por favor."

Hood era uma família humilde. Quando garoto, Robin vivia assistindo filmes com o pai onde os mochileiros faziam listas como esta e por fim, acabavam cumprindo-a por completo, viajando pelo mundo todo. Até o dia em que seu pai decidiu fazer uma, com a ajuda do garoto, na intenção de ter mais tempo com o pequeno que vivia tão distante. Desde a decisão do primeiro item, pai e filho ficaram mais próximos do que nunca. Passaram a fazer várias coisas mais, sempre juntos. Pescavam, assistiam filmes com destaque à No tempo das Diligências. Robin amava filmes de faroeste.

Por uma razão ou outra, ele teve de continuar a listagem sozinho. Os desejos deste eram mais alcançáveis do que os dos viajantes dos filmes, na esmagadora maioria, porém não podia deixar de haver aqueles itens insanos. Completamente impossíveis, nunca sairiam do papel.

O homem acabou por lhe explicar mais sobre a lista. Regina a via da mesma forma: poético. Se viu interessada pela história e de como Robin detalhava sua antiga vida ao lado da figura paterna. Ele começara a lista ao lado do filho e agora, Robin dava continuidade. Era mais que um mero objetivo, era o orgulho que homenagearia uma vida.

Pelas palavras e expressões, a morena podia julgar que o velho já havia batido as botas, ido desta para melhor, como preferir. Tinha o anseio de confirmar mas lhe faltava coragem. Não tinha intimidade o suficiente para tocar-lhe a ferida.

Quando ele terminou, o silêncio tapou-lhe a boca. Dos dois.

Minutos se passaram e assim continuou. A diferença era simples, desta vez a quietude não incomodava. De modo contrário, os deixava mais confortáveis.

“E você, o que faria?” Parou e disse, reformulando: “Antes de morrer.”

“Viajar para a Europa, ficar meses lá. Uma tatuagem, talvez.”

“Não, Regina.” Ele parecia impaciante. “O que você realmente faria?” A ênfase no advérbio a fez entender do que se tratava. E ela tinha medo. Ela não tinha resposta.

“Você não faz o que quer.” Confirmou.

“Diabos, Robin!” Ela aumentou o tom de voz, batendo uma mão em sua própria coxa, como que para conter a irritação. Parou de caminhar e agora o contemplava, ainda com raiva. “E você, ein? Não foi capaz de realizar a lista toda com o pai, dois ou três itens ao máximo e agora vem dizer que não faço o que quero. Seu pai se importava mais com a lista do que você. Não queira fazer charme.”

E no mesmo instante, ela se arrependeu. Pelo semblante de Robin ela teve suas dúvidas retiradas. O pai estava morto, agora tinha certeza. “Mas que droga! O que eu fiz?” Pensou alto. A história estava tão fresca, foi contada há pouco e mesmo se não tivesse, ela não tinha esse direito.

O loiro ficou tão aborrecido, mesmo percebendo logo após que o gosto de arrependimento lhe atingiu o paladar, ele não se importou. Ela disse algo que não devia. E o pior de tudo: ele era culpado, deveria ter ficado quieto. Era um erro se abrir desta forma para uma desconhecida. Mesmo, as desconhecidas à quem se ama.

Ele virou-se, causando o mesmo drama que Regina anteriormente. Mas Robin não foi embora, apenas ficou de costas. E a morena deixou que a culpa movesse seus braços e lhe obrigasse a tocar-lhe o ombro.

“Venha cá.” Suspirou. “Mais uma vez, me perdoe.” Ela tinha cara de choro, assustada. Uma pena de Locksley estar de costas para apreciar a bela mulher se comovendo com o passado dele.

“Pegar carona em Vegas com motociclistas punk totalmente desconhecidos" Pausou, tentando se acalmar. "Depois ficar de porre e jogar no cassino, até perder tudo. Quem sabe não me caso com algum estranho por lá, também.” Ela brincou, com esperanças de lhe arrancar o riso, ou pelo menos fazer com que se vire.

Ele sorriu, e mesmo não vendo, Regina percebeu. Parecia não ter motivo, mas seus olhos brilhavam. Talvez por se dar conta de que por debaixo daquela jaqueta de couro e da calça preta, havia um homem com um coração enorme. A conversa anterior a fez perceber. E agora, ambos os pedidos foram concedidos. Foi quando ele se virou. Virou-se com um humor de total diferença. E se não tivesse presenciado o papo anterior, não diria de modo algum que, há pouco, havia um Robin magoado ali.

"Tatuagens, é?" O homem se pôs a sorrir de orelha à orelha. Ela soltou seu ombro e confirmou com a cabeça. Tempo depois, estava Hood lhe mostrando o desenho de um leão sobre seu pulso direito. O esboço era escuro, intenso. Regina deslizou os dedos sobre a tinta seca, se interessando sobre o que estava por detrás daquele desenho informal. Toda tatuagem tem um significado, pelo menos a maior parte delas.

"Um leão?"

"O quinto signo do zodíaco.." — a mulher o olhava, ainda tentando entender. Ele se concentrou no fato de os delicados dedos de Regina ainda o tocarem. — "Meu signo. Leão."

"Não sabia que o doutor tinha apego por astrologia."

"Pois bem, não é como se eu me importasse tanto. É que, na verdade, gosto do significado. Leão marca o momento em que os primeiros frutos nascem. É o signo da força da criação, dos primeiros resultados que surgem apesar das dificuldades. Daí a analogia do signo com o desafio e com a auto-afirmação." — Tomou fôlego e desta forma, continuou. — "Leão é conhecido pela força, até mesmo autoritária e tirânica, com que impõe sua vontade, para realizar seu próprio destino."

"Tudo faz sentido, agora." — Percebendo que continuavam parados, se prontificaram a continuar. Caminhando à leste. — "A lista, esse rolo todo de próprio destino.."

Num momento totalmente avulso, um repentino clarão de intensa luminosidade tomou conta do céu, tinha uma acentuada cintilação e precediu um trovão. Durou pouco, logo o relâmpago se desfez, apagando seus fios.

"Acho melhor irmos.." Verbalizou, a voz soando rouca e abafada. Era visível a vontade dele de permanecer exatamente aonde estava, exatamente com quem estava. "Vai começar a chover."

Caminharam por algumas quadras, sem conversar. Chegando em um ponto em que seriam obrigados a se separar, a casa de cada um era uma direção diferente, Regina se antecipou, despedindo-se. Andou alguns poucos passos e Robin a viu partindo. Antes que ela atingisse meados daquela rua, ele a gritou. "Regina!" A visão dela indo embora, mesmo que não estivesse indo embora de fato, o deixou com um aperto no lado esquerdo do peito. Ele sentiu uma vontade gigantesca de abraçá-la e se preocupar apenas no desfrute do agradável cheiro de amaciante daquele vestido ou com o ouvir de ruídos provenientes de saltos no asfalto.

"Não quer que eu te leve?"

Perguntou mas não esperou por uma resposta, já seguiu em direção aonde ela estava e assim seguiram.

Quilômetros mais para frente, a chuva veio, sem aviso prévio. Regina involuntariamente tentou cobrir seu cabelo. Observando-a, Robin caiu na gargalhada. Ela ficara toda desengonçada tentando se proteger dos pingos. A morena o olhou e parou ali, sem nem piscar, juntando-se na risada. Ela havia se comportado como uma menina mimada e isso era, de longe, bizarro. No cessar da risada, Regina continuou andando. Faltava pouco para chegar em sua casa e ela já começava a sentir as consequências do dilúvio que lhe causava arrepios e lhe esfriava a pele, a causando o efeito contrário da jaqueta quente de Robin Hood que antes a aquecera.

O canto de uma coruja deixou-se dispersar. Provavelmente estava perdida, Mills pensou. Elas costumam estar em áreas rurais e arborizadas, onde fazem seus ninhos e por mais antiquada que a pequena cidade poderia se mostrar, ainda assim era uma área urbana.

O torvo relâmpago transpareceu mais uma vez, a morena respirou fundo, tapou os ouvidos com seu indicador e contou até cinco, bem baixinho.

"Não se preocupe." Ele chegou mais perto, segurando carinhosamente no cotovelo dela, em apoio. "São apenas os anjos brincando."

Ela fechou os olhos lentamente e sorriu, sem mostrar os dentes.

"Seu pai." Repetiu o exercício com a respiração e virou o rosto para o lado, ele ainda estava lá tocando em seu braço. "Seu pai é um deles."

Robin sorriu, adorando o gracejo. Uma luz de conforto veio bem em direção à seu peito e se espalhou, transformando-se numa placa de proteção. Ele riu baixo, imaginando o pai. Imaginando a figura em uma versão angelical. Os olhos azuis do velho o ajudavam nessa visão, aqueles olhos que mais pareciam um pedaço dos mais altos céus.

Regina parou, freando devagar ao notar que ele não mais a acompanhava.

Virou-se e o viu.

Ele estava parado, com a cabeça pendendo. Os olhos fechados e braços totalmente abertos assim como Jesus na Cruz. Deixava a água cair, encharcar-lhe, tomar conta de seu corpo que estava tenso. Ela o observou por algum tempo, obcecada. Aquele homem não existia. Não poderia existir.

"O que foi?" Ela gritou na intenção de superar o som alto da chuva.

Encolhendo os braços, o loiro mudou de posição mas não deixou de desfrutar do véu que era aquele dilúvio. Robin havia passado muita sede em sua infância, parecia ser bobagem, mas ele glorificava as chuvas. Até as enchentes. Ele foi pobre um dia, sua infância não foi das melhores e só alguém que passara pelas mesmas dores, saberia e compreenderia o devido valor que ele dava às coisas. Água era algo sensacional. Conseguia apenas com um toque fazer crescer um broto, matar a sede de uma população inteira mas também conseguia matar alguém com sua ausência.

"A lista." Ele disse e por seu tom, podia-se julgar que, não sabendo como, de alguma forma a lista haveria de estar lá, junto deles. Sendo encharcada assim como suas vestes. Por sorte, não era isso.

"Que tem?"

"Um dos itens."

"Ficar na chuva?" Caçoou.

"Não, sua boba." O homem retomou sua antiga pose, estendendo mais uma vez os braços, esticando-os o máximo que podia. Fechou um olho, depois o outro. Pendeu a cabeça, gargalhando feito criança. Mills achou aquilo tudo uma graça. "Dance comigo." Ele disse.

"Aqui? Molhada?"

"Aqui, molhados."

Quando o loiro posicionou sua cabeça novamente ao lugar original, com o crânio facial cheio de gotículas, um vulto lhe atingiu a visão periférica. Os cabelos dela. Regina já estava mais do que próxima e entrelaçava seus braços envoltos a cintura do loiro, depois aconchegou sua cabeça em seu ombro, afundando no pescoço de Robin. Como era boa a sensação da amada lhe roçando o nariz no pescoço. E agora ela sussurrava em seu ouvido. "Só se cantar I'll be seeing you."

"A música da praia?" Ele perguntou sorrindo, percebendo já o quanto o frescor da chuva o favorecia, fazendo sentir-se cada vez mais o perfume da donzela. Era maravilhoso.

"A música da praia."

E a partir daquele momento, durante toda a dança, não escorria apenas água pelas nuvens macias do céu, do negrume da noite que encobria a cidade de Storybrooke. Das nuvens não chovia mais a água que os banhava. Das nuvens, agora, chovia amor.

E este os banhava também, só que com mais intensidade.