Belos tempos.
2 Primeira impressão.
Notas iniciais
Laura estava, comportadamente sentada no velho banco sob uma enorme árvore, cujas raízes, se pareciam as vezes maior que o próprio banco... estava concentrada em desenhar em seu caderno, companheiro de todas as horas e não viu quando passos indicavam que alguém se aproximava...
__ Olá! Como vai?
Laura levanta os olhos ainda surpresa e fica ainda mais encabulada quando vê que é o menino molhado que esta a sua frente...
__ oi.
Responde e sorri tímida e apenas olha com um jeito meigo porém, inquisidor, característica que herdou de sua mãe,
__ Posso me sentar?
__ Pode.
__ O que vc está fazendo aqui ainda?
__ Oras! Provavelmente o mesmo que você. Esperando alguém vir me buscar.
__ Imagine! Por quem me tomas. Tenho o meu próprio cavalo e volto para casa quando quiser, não preciso que ninguém venha me buscar.
__ Bom pra vc, melhor ainda seria se fosse um pouco mais gentil, afinal não te chamei aqui...
O menino levantou de um salto, insatisfeito com o tratamento que estava tendo.
__ Para seu governo sou muito bem educado com quem merece. E se me der licença, já vou indo.
Saiu de perto da pequena, contrariado por não ter conseguido conversar com ela como planejara. Ficou curioso em conhecer a menina que vira na sala da diretora, naquela manhã, mas agora já se arrependia de ter se aproximado, naquela oportunidade ela lhe parecera tão linda, delicada e doce, mas agora viu que não era nada disso.
Com esses pensamentos rumou para a parte de trás da escola, onde guardava o cavalo. Mas ficou ali, ainda por um tempo, a espera de que alguém viesse buscar a menina... de onde ele estava podia vê-la por entre as falhas nas tabuas da parede, mas ela não conseguiria lhe ver.
Olhando assim, de longe, era impossível supor que a menina fosse tão irascível. A figura que fazia mais se parecia com um pequeno anjo, com os cabelos castanhos caindo pelos ombros e a face inclinada em perfeita concentração ao desenho que fazia nas páginas daquele caderno. Em seu breve encontro, notou que era um desenho, mas não conseguiu definir bem o que era, pois logo que se aproximou ela fechou o caderno.
Ainda de seu posto de observação, viu quando um senhor veio busca-la. Assim que partiram, ele também saiu de seu esconderijo e tomou o rumo de casa.
Não morava muito longe da escola, mas gostava de cavalgar e sempre que podia vinha em seu cavalo, Furacão.
Ganhou-o a pouco tempo, pois antes o seu pai tinha medo de que se acidentasse. Mas agora que estava maior e provara ser um excelente cavaleiro, ganhara o Furacão de presente de seu décimo primeiro aniversário.
Estava ainda a matutar sobre a malograda conversa com a menina, e quando deu por si já estava diante da porta de sua casa.
Por Laura,
Laura tomou um susto quando se viu diante do menino e dos mesmos olhos que vira pela manha. Ela que é sempre tão falante e desinibida, se viu muda diante dele. Não sabia bem o que dizer... Mas ficou brava quando ele a tratou como um bebê a espera de cuidados. E quando viu, já estavam trocando farpas. Ele tinha uma língua feroz, e não havia nenhum traço da doçura que vira em seus olhos, quando estava a se secar na sala da diretora. Na verdade, errara completamente, era mal educado, grosseiro e intrometido. Defeitos insuportáveis a seu ver.
Quando ele se foi e ela abriu novamente seu caderninho de desenhos, foi impossível segurar a vontade de desenhá-lo, mas a imagem que ficou rabiscada na folha não a acalmou, muito pelo contrário, tentou retratá-lo horrorosamente, mas não conseguiu.... O olhar doce ainda estava ali a mirá-la, e isso a incomodou.
Logo depois, o seu pai chegou para buscá-la e aquele incidente foi esquecido. Sua amiga Tais, iria rir demais quando lhe contasse o que acontecera.
Nos dias que se seguiram, não encontrou mais o menino e isso era bom, mas um pequeno incomodo se instalou em seu íntimo... Não comentou nada com a amiga, sobre a tal conversa daquele dia, com certeza ela iria fazer piadas com o assunto.
Estava na pequena biblioteca da escola, já depois do término da aula, enquanto esperava Du, conversar com a diretora, pois eram primas e sempre que vinha buscar lhe, Du, parava para uma pequena prosa com sua amiga. Du, era uma senhora de pouca idade, e fora sua babá desde sempre, dela e do Albertinho. Agora, fazia as vezes de sua dama de companhia, como gostava de dizer a sua mãe. E também era a encarregada de educá-la nas prendas domésticas.
Estava perdida nesses pensamentos, quando viu pela prateleira de livros o infame menino lendo um livro no outro corredor. Pensou em sair. Tremeu ao imaginar que ele descobrisse que estava com sua babá. Mas como não era de fugir de nada, ficou onde estava e continuou a procurar o livro que Tais havia lhe indicado: “A revolta das Bruxinhas”.
Por Edgar,
Foi impossível não vê-la. Assim que ela entrou na biblioteca, ele sentiu um pequeno aperto, como se de repente o ar ficasse ... diferente ... Ela estava muito concentrada procurando algo nas prateleiras. Não era possível saber se o tinha visto. Melhor assim, dessa forma poderia sair sem que ela percebesse. Pensou. Mas acabou por fazer o contrário, seguiu pelo corredor onde estava e foi sentar-se a mesa, próxima da prateleira onde ela efetuava sua busca.
__Olá! De novo! Posso ajudar?
Ela olha para ele como quem não esta entendendo....
__ Sei que parece estranho, mas ajudo a D. Ana, sempre que posso, a manter isso aqui organizado. E se vc me disser o nome do livro que esta procurando, talvez eu possa te ajudar.
Ele falou meio desconfiado.... com receio da resposta que ela lhe daria.... mas manteve o olhar sobre ela e aguardou.
__Oh... sim! Quer dizer.... que bom que vc trabalha aqui.... Então tá, já vou indo.
Que horror! Não estava falando coisa com coisa.... pensou a Laura, coçando o queixo, gesto que denunciava seu nervosismo.
__ Mas e o livro? Desistiu de pegar? Se eu estiver atrapalhando eu saio, não se preocupe.
No tom de voz, o menino não conseguiu esconder o quanto ficara constrangido com a resposta dela.
__ Não... me desculpe. É que, já estão me chamando, e o livro terá que ficar para uma próxima oportunidade. Mas mesmo assim muito obrigada!
Porque a incomodava vê-lo com aquele olhar magoado?
__ Me diz o nome do livro, que eu procuro e amanhã te entrego. Você é da turma de D. Mari, não é?
__ Sou... Mas não quero te dar trabalho.
__ Procurarei com muito gosto, não se preocupe.
__Então tá. É “a revolta das bruxinhas”, foi uma amiga que me indicou. Enquanto falava, escreveu o nome num pedaço de folha de seu inseparável caderno e entregou-lhe.
__ Se você puder me fazer esse favor, ficarei grata.
Fez-se um silêncio desconfortável, que o menino tratou de quebrar.
__ Você não me disse seu nome ainda... Eu me chamo Edgar.
Estendeu a mão para cumprimentá-la.
Ela aceitou seu aperto de mão, e despediu-se pois Du, já a chamava da porta.
__ Agora preciso ir. Mais uma vez, obrigada.
Ele apenas sorriu de leve, em resposta. E ficou a olhar, enquanto ela saía conduzida por uma senhora.
Já na charrete, Laura se viu encabulada para responder a pergunta de sua bá.
__Laurinha, quem era aquele menino que estava a conversar com você?
__ Um colega da escola.
__ Mas ele é muito grande, não deveria estar nessa escola ainda?!! Ai ai ai, Laurinha, não vai me dizer que é desses atrasados que não sabe nem desenhar um O, com o fundo do copo!
__ Não sei ba! Não o conheço direito, sei apenas que estuda lá e que ajuda a D. Ana nos serviços da biblioteca. Você sabe que ela faz quase tudo nessa escola, e que qualquer ajuda é bem vinda.
__ Sei..... tá bom minha menina....
Du, disse isso com um olhar desconfiado para Laura.... ela sempre teve esse poder de ouvir o que a Laura não dizia. E mesmo já crescida, Laura ainda era um livro aberto para a sua bá....
Seguiram viagem, sossegadas cada uma com seus pensamentos....
Laura estava surpresa com o Edgar.... nem parecia o bruto do primeira vez que conversaram. E ficou surpresa, que ele gostasse tanto de livros a ponto de se oferecer para ajudar na biblioteca da escola. Talvez na próxima oportunidade pudessem conversar um pouco mais...
No dia seguinte, assim que Laura chegou a escola, como de costume, conduzida por seu pai, viu que Edgar estava sentado no mesmo banco, do dia em que conversaram a primeira vez. Então assim que se despediu do pai, dirigiu-se até lá, para esperar o sinal de início das aulas.
__Bom dia!
__ Oi! Bom dia!
Rapidamente e meio sem jeito, ele procurava por algo na bolsa que estava ao seu lado no banco.
__ Pronto... achei. Aqui esta, o livro que você estava procurando.
Entregou-lhe, um volume já com as bordas bem gastas e com um boneca de pano preta segurando uma varinha de condão, desenhada na capa.
__ Ah, que bom que encontrou! Muito obrigada! Vou poder ler nesse fim de semana prolongado.
__ É verdade, já havia me esquecido que teremos quatro dias de folga.
Não foi possível continuar a conversa, porque soou o sinal e todos já se dirigiam à sala de aula. No caminho Laura encontrou Tais, que havia acabado de passar pelo portão da escola.
Enquanto as duas se dirigiam para a sala, Tais tentou descobrir o que o menino havia entregado para Laura, mas esta lhe disse apenas que depois lhe contaria tudo.
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