Belo Vestido

5 Parte I - Capítulo 5


Notas iniciais
Oii gente! Atenção pra quem ainda não viu que eu editei a história: Mudei algumas coisas nos capítulos para ficar com capítulos maiores e garantir uma história mais agrupada. Portanto eu acrescentei ao último capítulo que já tinha postado, mais um que estava me preparando para postar. Como eu apenas editei o capítulo,o site provavelmente não notificou vocês, então voltem lá e leiam a parte nova e depois voltem pra esse aqui. Obrigada pela compreensão de vocês, beijossss.

Como é apenas a segunda aula daquela turma e a primeira para mais alunos além de mim, Valeria dá as boas vindas e nos introduz ao professor.

— Mark estará administrando suas aulas a partir de agora. Ele é o responsável por ajudá-los a dar boa forma à criatividade de vocês, então busquem colaborar com isso. Todos seus, Mark. – Ela se despede e caminha para fora da sala sorrindo.

— Muito obrigado, Val. Bom, eu não conheço alguns de vocês, então gostaria que se apresentassem. – Ele aponta primeiro para uma moça de cabelos loiros cacheados mais perto dele. Ela parece ter uns 15 anos, no máximo. – Você. Como é seu nome e o que te trouxe até aqui?

— Meu nome é Lisa. Bom, meus pais sempre foram do mundo da arte. Meu pai também é pintor e minha mãe é restauradora.

— Seguindo os passos da família, muito bom.

Ele aponta para outra moça, de aparência comum, assim como eu, mas ela parece ser mais velha.

— Eu sou Angélica. Eu tive um episódio de estresse pós traumático no trabalho, e meu terapeuta indicou que eu participasse de coisas assim. – Ela é bem sucinta e imagino que ela não deve ter adorado a ideia do tal terapeuta.

— Boa escolha!

Então ele olha ao redor da sala, buscando mais alguém, até que olha pra mim e estende a mão, indicando que eu fale.

— Meu nome é Christina e... – Me dou conta de que não tenho um motivo muito concreto para estar aqui. – assim, eu não faço muita coisa, daí achei que essa seria uma forma legal de ocupar meu dia. – Fico com um pouco de medo de que ele se ofenda um pouco com a minha honestidade, mas parece que não.

— Perfeito. Eu sou Mark, como vocês já sabem, e eu entrei no mundo da pintura e do desenho quando criança. Meus pais colocaram cada um dos filhos em aulas que gostariam que nos desenvolvêssemos, mas eu fazia parte da escolinha de futebol, e meu irmão estava na pintura. Acontece que todos os dias que ele voltava com o material, eu o ficava invejando em silêncio. Até que tive coragem de dizer aos meus pais que eu gostaria muito de fazer a mesma coisa que ele. Foi difícil convencê-los de que não era bobagem, de que era sério, mas quando eles entenderam, eu pude conhecer esse lado mais colorido do que técnico. – Ele dá uma risadinha, e vários alunos também. – Então pra mim, a pintura, ou a arte no geral, significa autoconhecimento, busca pelo que você realmente quer. Espero que durante nosso curso vocês consigam adquirir suas próprias definições de arte, e que isso faça bem pra vocês.

Após essa breve introdução, ele explica os nomes dos pincéis e as diferenças entre eles. Comenta alguma coisa sobre os primeiros pincéis usados, e depois nos convida a testar vários diferentes para notar a influência deles na produção.

Os 50 minutos passam depressa, e assim quando estou saindo da sala, Valerie passa por mim e pergunta o que achei.

— Foi bem interessante. – Digo de forma cuidadosa para não transparecer a minha expectativa um pouco frustrada. Eu sei que não é nem possível começar a pintar logo de cara, mas estava muito ansiosa por começar a fazê-lo.

— Ah, seja sincera, a primeira aula não é lá esse encantamento. Mas espere mais algumas semanas que você verá o quanto é divertido e produtivo trabalhar com as cores e os traços. – Ela pisca, e até parece que ela leu minha mente. Mas concluo que trabalhando nesse lugar há um bom tempo, ela já deve ter se acostumado à reação dos iniciantes.

— Espero que sim. – Sorrio e desço as escadas. Atravesso o saguão e vou até a porta gigante, e já estava sacando o celular quando consigo ver o carro de Nick do outro lado da rua. Espero algumas motos passaram e atravesso a rua, abrindo a porta do passageiro e entrando. Reparo que ele está com roupas de academia, e seu cabelo parece estar um pouco suado, então imagino que esteja voltando dela.

— E aí. – Ele cumprimenta.

— Oi. – Afivelo o cinto enquanto ele dá a partida.

— Fez vários quadros?

— A gente não começa nesse nível, já...

— Eu sei, eu sei, Christina. Só tava puxando um assunto. Cê leva as coisas muito a sério. – Ele me olha de canto e ri.

— Tá! – Reviro os olhos, mas por dentro sorrio. – Na verdade hoje eu fiquei ouvindo nomes de pincéis.

— Mentira que pincéis têm nomes?

— Têm, sim.

— Não é tudo mesma coisa?

— Tem diferença na quantidade de fios, espessura, material que é feito, etc.

— Tudo frescura, é só enfiar na tinta e pintar.

— Se você diz... – levanto as mãos alegando inocência, o que o faz rir.

— Olha, eu tenho que passar numa loja no caminho, beleza?

— Sem problemas.

Ele liga o Spotify, e vez ou outra eu questiono o som que ele curte, mas sempre que tento pular pra próxima música ele afasta minha mão com um tapa. Chegamos a uma rua cheia de estabelecimentos e estacionamos em frente a uma loja de suplementos.

— Vai ser rápido, mas pode sair se quiser. – Ele diz enquanto procura a carteira dentro de uma bolsa esportiva no banco de trás. Olho pra outras lojas ao redor. Uma sorveteria, uma farmácia, um loja de roupas infantis, e ao lado do nosso estacionamento vejo um livraria.

— Vou ali. – Aponto pra ela enquanto solto o cinto.

— Ok.

Fechamos o carro e caminhamos até as respectivas lojas. Quando entro, o ar condicionado me faz sentir um arrepio, e percebo que aqui há muito mais estantes do que o lugar parecia poder comportar olhando de fora. Caminho um pouco ao léu, procurando por alguma capa que me chame atenção. Uma coisas que adoro em livrarias é que elas raramente têm atendentes que ficam no seu pé enquanto você escolhe um livro, como acontece nas lojas de roupas, por exemplo. Passo por várias categorias, pulando autoajuda e culinária, que não costumam me agradar muito. Fico olhando vários títulos e lendo algumas contracapas. Paro em um livro que me chama a atenção pelo nome da autora. É um nome irlandês que eu já tinha visto em uma série da Netflix. O enredo também parece ser interessante. Não percebo uma aproximação até ser chamada pelo nome.

POV Nick

Passo a folha com os suplementos que meu instrutor recomendou. Quase todos, eu já tinha tomado durante um tempo, mas não tinha certeza se ia lembrá-los, então preferi anotar. A atendente buscou-os pra mim e fechou a comprar rapidamente, como eu disse à Christina que seria, mas quando saí, ela não estava por ali. Vou até o carro e deixo a sacola no meu banco e volto para buscá-la na livraria onde disse que estaria. Assim que entro percebo o ar condicionado está muito exagerado. O lugar é bem maior por dentro do que parecia ser por fora. Vou até o balcão e pergunto ao funcionário por uma moça morena que entrou aqui há pouco. Ele me indica três corredores à esquerda, e eu sigo. Assim que a vejo, está tão concentrada em um livro que tem nas mãos que não me percebe chegar, e leva outro susto quando a chamo.

— Ei, Chris.

Ela dá um pulo e solta uma das mãos do livro e leva ao peito, num gesto dramático. Ela apenas me encara de forma que percebo sua pequena raiva.

— Acho que já está virando rotina você me assustar. – Comenta se virando pra mim.

— Que bom que você estava com os dois pés nos chão, dessa vez. – Brinco. – O que é isso aí? – Olho para o exemplar que ela segura. Seus olhos mostram que ela está prestes a responder o óbvio, então me adianto. – Não me diga que é um livro.

— Bom, é um livro sobre fantasia e aventura. Parece legal, né? – Ela o vira pra mim.

— A capa é bonita. – Concordo.

— É. – Ela o coloca de volta na prateleira, em cima de outros volumes. Acho estranho, pois pareceu que ela tinha gostado.

— Não vai levar?

— Eu não trouxe dinheiro, não sabia que vinha aqui.

— Pode pegar meu cartão. – Ofereço já abrindo minha carteira.

— Não, que isso. – Ela rejeita, tentando me fazer guardá-la.

— Por que não? É só me devolver depois em casa. – Entrego o cartão a ela, que depois de alguns segundos aceita.

Passamos no caixa e eu digito a senha, percebendo que ele era um pouco mais caro do que imaginei. Quando entramos no carro de novo, ela diz enquanto observa fascinada o mais novo pertence:

— Obrigada mesmo. Pelo livro e pela carona.

Assinto com a cabeça e voltamos pra casa.

Encosto o carro em frente ao sobrado enquanto Christina junta suas coisas para descer. Quando ela percebo que não faço o mesmo, pergunta:

— Não vai descer?

— Não.

Ela fica em silêncio, me olhando, esperando que eu continue.

— Vou jogar basquete. – Digo.

— Onde? – Que intrometida.

— Na praça... Por quê?

— Ah, essa aqui perto?

— Sim. Aquela onde você achou o mascote. – Lembro.

— Acho que eu podia ficar lá também. Na grama. Lendo. – Ela balança seu livro com um sorriso. Penso por um segundo e não consigo encontrar um motivo para impedi-la.

— Tanto faz, mas se for, tem que avisar Mônica. Ela já sabe que eu vou lá, mas vai ficar louca pensando que eu não te trouxe de volta.

— Tá, peraí. – Ela desce do carro e corre pra dentro. Depois de um tempo curto, aparece correndo de volta, enquanto grita alguma coisa que não consigo ouvir pra minha mãe.

— Prontinho.

Ela entra e eu arranco. A praça é apenas a alguns metros de casa, mas não vejo motivo pra deixar o carro ali. Quando chegamos, ela desce e fica olhando ao redor, como que procurando um lugar melhor. Eu apenas vou até a quadra, onde os caras estão esperando, entre eles, Roger. Roger tem sido eu melhor amigo desde que minha mãe e eu nos mudamos pra cá, há 4 anos. Não é muito tempo, mas o suficiente pra saber se alguém presta ou não. E Roger presta muito. Embora nem sempre ele esteja do meu lado quando saio pra beber, devo admitir que tê-lo por perto me faz segurar as pontas um pouco mais.

— Quem é? – Ele me cumprimenta, mas olhando para Christina.

— Filha do Pat.

— O quê? Desde quando? – Ele se mostra tão surpreso quanto eu quando descobri, e continua encarando-a.

— Bom, desde que ela nasceu, né. Mas eu descobri anteontem. Também fiquei chocado.

— Que doideira! E porque ela apareceu assim do nada?

Lembro sobre minha mãe me contando algumas coisas na cozinha, depois que Christina já tinha dormido, e recomendado que eu não levasse essa história pra fora da família. Bom, Roger é praticamente da família.

— A mãe dela morreu, cara. Ela morava num tipo de internato, mas tava no nome da mãe. Foi feito tudo às pressas pra ela vir morar com o Pat. – Isso faz com que ele finalmente olhe pra mim.

— Caraca, Nick. Que pilha.

— Pois é. Mas ela parece estar muito bem. Já tiraram os times? – Corto o assunto e abro o portãozinho para entrar a quadra. Enquanto os rapazes se organizam entre com colete e sem colete, dou uma olhada pra trás procurando Christina, mas demoro a encontrá-la. Quando finalmente acho, meio que entendo por que Roger não conseguia tirar os olhos dela. Seu cabelo está preso em um rabo de cavalo, mas a franja cai sobre a testa e a bochecha, os fios negros em contraste com a cútis branca.

POV Christina

Nick se encontra com um rapaz um pouco mais alto que ele, provavelmente um amigo, pois eles se abraçam enquanto com os outros, ele apenas acena ou no máximo dá as mãos. É claro que foi um abraço de homem, daqueles que as mãos se puxam para abraçar, mas só encostam ombro com ombro. Imagino que ele esteja me apresentando a esse rapaz, pois ele olha bastante pra mim. Para fingir que não estou percebendo, começo a procurar o mesmo lugar onde havia me sentado ontem, mas acho que terei uma vista melhor da quadra, caso eu decida ver o jogo, de outro lugar. Vou até um ipê roxo, e me sento encostada no tronco, depois de afastar com a mão algumas flores que estavam caídas. Assim que me acomodo, olho pra frente, para me certificar de que terei a visão completa, e percebo Nick olhando ao redor como se procurasse por alguma coisa. Não sei pelo quê, nem continuo olhando para descobrir. Abro meu livro e mergulho em outro lugar.

POV Nick

Roger e eu acabamos em times opostos, o que não é um problema. Bom, talvez seja, considerando que ambos conhecemos muito bem o jogo um do outro, ainda mais por que eu sou ala e ele é escolta, então nos enfrentamos praticamente o tempo todo. O jogo informal começa, e o time de Roger está ganhando. Depois de alguns minutos, fazemos uma pausa para tomar água, Luke e Yuri, do time de Roger, trocam umas palavras perto do bebedouro. Quando me aproximo, eles se empertigam e Yuri começa a falar:

— Qual é, Nick, não quer impressionar ela? Tô achando você muito relaxado pra quem trouxe a namorada pra assistir.

Não preciso perguntar para saber que eles falam de Christina. Devem tê-la visto descendo do carro comigo.

— Ela não é minha namorada.

— Então ela tá livre? Melhor ainda. – Ele solta uma gargalhada.

— Talvez. – Jogo água na cabeça e passo a mão levando meus cabelos pra trás. – Mas duvido que pra você. – Volto para a quadra, esperando o jogo recomeçar.

Depois de mais alguns minutos jogando, trocamos de lado. Sorte que já são quase seis da tarde, então o sol não incomoda. Percebo uma alteração na posição do time deles. Yuri acaba ficando responsável por me marcar. Não entendo, a princípio, mas depois que ele abre a boca, sei que foi ali só para me provocar.

— Ela está bem conservada, Nick. Onde você achou? Num motel?

Fico em silêncio, concentrado no movimento da bola.

— Acho que isso é um não. Talvez, numa esquina, aquela perto da fábrica, sabe? – A fábrica a qual ele se refere processa laranjas, e nas esquinas de lá, há muitas putas e travecos. Começo a me irritar, mas continuo sem dar bola.

— Nick, você podia falar, me dar umas dicas, sei lá. Pra eu arrumar uma parecida. Se não, vou te que pegar essa aí mesmo. Seria muita gentileza sua me emprestá-la por uma noite.

Não consigo ignorar a arrogância desse filho da mãe.

— Por que você não vai cuidar da sua vida, hein? – Viro e o empurro com as duas mãos. Imediatamente ele fica reto e cresce pra cima de mim, mas não me intimido. Roger vem correndo e me puxa pela camiseta, me levando pro outro lado da quadra e mandando um garoto mais novo trocar de lugar comigo. Ele provavelmente não se sentia confortável sendo marcado por Yuri, mas também não foi capaz de reclamar.

— O que cê ta fazendo?

— O que aquele idiota tá fazendo. Ele não conhece limites.

Yuri e eu já nos atracamos em uma briga séria, quando ele ficou fazendo piadinhas sobre Melissa. Hoje vejo que não valeu de nada, mas aquilo realmente me tirou do sério e das quadras por umas semanas enquanto meu olho desinchava e os pontos na minha sobrancelha fechavam. Roger, claro que sabia disso. Ele não disse nada, apenas deu um tapinha no meu ombro e voltou para sua posição. Termino de jogar um pouco mais tenso que o normal. Quando terminamos, fico tempo suficiente apenas para me despedir de Roger e combinar um filme pra vermos no cinema no fim de semana. Christina parece tão absorta em sua leitura que não percebe que eu já estou voltando pro carro. Se eu gritar o nome dela, ela terá que passar por perto da quadra pra vir até aqui, então prefiro entrar e dar a volta na praça, parando perto de onde ela está. Faço assim, e passando por ela, abaixo o vidro e assovio. Ela desperta de seu livro e me vê. Olha para a quadra, como que para conferir que não estou lá. Enfim se levanta a bate a mão na calça, soltando algumas folhas que ficaram presas. Quando entra, pergunta humorada:

— Estava planejando me deixar aqui e mudou de ideia?

— Mais ou menos isso.

— Nossa, você está bem suado. – Ela repara olhando pra minha camiseta, praticamente ensopada, e meu cabelo grudando na testa.

— Sou humano, né. – Solto um sorriso involuntariamente, só por costume ao dizer algo engraçado, ao que ela responde com uma expressão genuína que me surpreende. Se não estivesse dirigindo, talvez observasse-a por mais tempo.

Quando entramos, estou tão cansado por ter voltado à academia e ainda jogado que pego o lanche que minha mãe preparou de jantar e deixo no quarto, para comer depois que sair do banho.

POV Christina

Vejo que Nick apenas pega seu lanche e sobe. Como Pat e Monica sempre comem juntos na sala, fico sozinha na cozinha dessa vez. Me pego me lembrando dele no carro, assim que entrei. Sua camiseta colada de suor, o que é um pouco nojento, mas um pouco sexy, também. O cabelo dele, um pouco comprido, estava jogado pra trás de uma maneira desajeitada. Me obrigo a mudar de pensamento quando termino de comer, mas assim que subo as escadas, vejo-o sair do banheiro com a toalha amarrada na cintura. Imaginei que de costas seria mais fácil não encará-lo, mas até seu dorso nu é admirável. Felizmente ele entra em seu quarto sem me perceber, e logo entro no meu também. Visto meu baby doll e me deito debaixo do edredom, mas pego meu livro para ler mais um pouco com o abajur que Mônica colocou aqui hoje ligado. Não sei quantos capítulos depois acabo caindo no sono.

Notas finais
:) Esperando por vossas reviews.