Belmont

1 Maus hábitos


De sobretudo e botas de plástico por cima da calça do pijama, Julia sentou-se na calçada de sua casa. Quando seu relógio de pulso marcou meia noite, pegou um maço de Marlboro e um isqueiro no bolso. Desde que seu filho de seis anos começou a repreendê-la por fumar, alegando que a Srta. Meirelles havia ensinado que “esse é um mau hábito que deixa as pessoas dodóis”, ela estava tentando parar. Quer dizer, ela não podia permitir que a professora fosse melhor exemplo para Trey que a própria mãe. Então decidiu que tinha que parar. Já não colocava um cigarro na boca há quase oito meses graças a tabletes e mais tabletes de chicletes de nicotina, além de uma puta força de vontade, mas, naquela noite, ela teria que abrir uma exceção. Era o sétimo 21 de novembro sem Nico. E, como sempre fazia nessa data, acendeu, não uma vela, mas um cigarro em sua homenagem.

Talvez isso não faça nenhum sentido para você, mas nem tudo na vida faz sentido. O relacionamento deles serve como um ótimo exemplo. Tudo começou quando a Julia de 15 anos conseguiu uma bolsa na única escola particular de Belmont e entrou para o time de natação, do qual ele era o capitão masculino. Nico era um cara do terceiro ano, que tinha cabelo preto, pele bronzeada, corpo malhado e esse ego enorme. Certo dia, quando ele estava exibindo suas medalhas de ouro e contando pela milésima vez a história de cada uma delas, Julia o desafiou para uma competição.

– Eu contra você.

Nico franziu a sobrancelha e lhe lançou um olhar de desdém.

– Você está brincando?

– Não.

– Olha, para te poupar, a minha resposta é não.

– O que foi? – Julia colocou as mãos na cintura e deu um sorriso irônico. – Está com medo de perder para uma garota?

Todos voltaram sua atenção para ele.

– Ai – ele deu uma gargalhada. – Eu não sinto medo. Ainda mais de você... Sem ofensa.

– Então isso significa que você topa, certo?

– Certo. Se você insiste.

Julia pareceu satisfeita.

– Ok. Então amanhã, antes do treino. Se eu ganhar, você me deixa dar um fim nessas malditas medalhas. Porque, sinceramente, ninguém mais aguenta ouvir você falar sobre elas.

Nico olhou ao seu redor, todos desviaram o olhar.

– Ok. Mas e se eu ganhar?

– O que você quer?

– Um jantar. Eu escolho o lugar.

Julia caminhou até ele e estendeu a mão.

– Combinado.

– Combinado – ele apertou a mão dela, selando a aposta.

No dia seguinte, todos se reuniram ao redor da piscina na expectativa. A maioria estava torcendo por Julia, apesar de saberem que, sim, ela era realmente boa, mas não tanto quanto Nico.

– Boa sorte – disse Julia, já a postos.

Nico deu uma risadinha.

– Pra você. Eu não preciso.

Julia revirou os olhos.

– É o seguinte: 200 metros de nado livre. – disse Jake Vaughn, um garoto loiro e alto que seria o juiz. – Quem fizer em menos tempo, vence. Vocês estão prontos?

Julia e Nico se entreolharam, ambos assentiram com a cabeça.

– Preparar, apontar... vai! – Jake soprou o apito.

Ok. Resumindo: ela perdeu.

– Ei, Ackerman – Nico ofereceu a mão para ajudá-la.

– Eu posso sair sozinha.

– Ok.

Julia saiu da piscina, se enrolou em uma toalha e saiu andando em direção ao banheiro feminino. Nico foi logo atrás dela.

– Então, amanhã às sete?

– O que?

– O jantar.

– Ah – ela continuou andando. – Ok.

– Ei, Julia – ele a alcançou e segurou seu braço. – Você nadou bem.

– Você nadou melhor.

Ele deu de ombros.

– Só... tenho um pouco mais de experiência.

Julia arqueou a sobrancelha, pois ficou surpresa com a modéstia. "Talvez ele não seja um idiota. Pelo menos, não por completo", pensou.

– Você não ficou chateada, ficou? – ele continuou. – Pensa pelo lado bom, eu não deixei você ganhar. Nós competimos de igual para igual.

– O que? Você quer um agradecimento?

– Não, só quero um jantar. No Aspargos, aliás. Já escolhi.

– Que escolha horrível, mas ok.

– O que? Não! É um ótimo restaurante.

– O preço não é nada ótimo. Vou ter que gastar toda a minha mesada com você.

– Você pediu por isso.

– Achei que valia a pena tentar

– E eu acho que vale a pena gastar toda a sua mesada lá. Sério, é um ótimo restaurante.

– Não é, não.

Essa foi só a primeira discórdia. Basicamente, eles não concordavam em nada. Só concordavam sobre a atração inexplicável que sentiam. Depois do jantar no Aspargos, os dois começaram a se ver (na verdade, mais do que apenas se ver) cada vez com mais frequência, até que decidiram assumir o relacionamento nas redes sociais. Vez ou outra eles até postavam fotos de casal com legendas melosinhas. Bom, eles tinham seus altos e baixos. Talvez mais baixos do que altos, mas, apesar disso, pode se dizer que fizeram bem um para o outro. Nico parou de se importar tanto consigo mesmo quando passou a se importar com ela. E ela precisava mesmo de alguém que se importasse.

Quando completaram dois anos de namoro, voltaram ao Aspargos para comemorar – dessa vez, dividiram a conta. Depois do jantar, caminharam pela cidade e fizeram uma parada no parque. Escolheram um canto, sentaram na grama e ficaram admirando o céu estrelado.

– Como eu amo a noite – disse Julia.

Nico pegou um maço de Marlboro e um isqueiro no bolso.

– Eu prefiro o dia – ele disse, colocando o cigarro entre os dentes. – Você pode me ajudar aqui?

Julia fez uma concha com as mãos para que ele pudesse acendê-lo.

– Obrigado, Jules.

– Você sabe que eu odeio quando você fuma. Me faz querer fumar também, o que não é legal.

Ela pegou o cigarro e deu uma tragada.

– Já disse que preciso disso para espairecer.

– Nadar é um ótimo jeito de espairecer.

– Também já te disse que preciso de opções mais rápidas. Não é sempre que estou perto de uma piscina.

Foi quando o celular de Julia tocou, indicando que havia uma nova mensagem de texto. Ela lhe deu um beijinho, colocou o cigarro de volta em sua boca e começou a digitar.

– Quem é?

– Jake.

– Jake?

– Vaughn. Do time de natação.

– Desde quando vocês são amigos?

– Não somos amigos. Eu só o ajudo com química às vezes. Ele é péssimo em exatas, você não tem noção.

– Ah, química? Então você o ajuda com química?

– Sim, de vez em quando eu tiro as dúvidas dele depois da aula.

Nico apagou o cigarro e tomou o celular da mão dela.

– Ei! Devolve meu celular agora, Nico!

– Por que você ficou tão nervosa? Por acaso, está me escondendo alguma coisa?

– Meu Deus, você está ficando louco?

– Você não respondeu minha pergunta, Julia.

– Não. – ela disse, séria. – Não tenho nada a esconder. Você é que não tem o direito de pegar o meu celular assim. Agora não posso mais ter privacidade?

– Por que você não me contou isso antes? – ele levantou, de repente.

– Não achei que fosse grande coisa. – ela levantou também. – E, na verdade, não é, você que está fazendo disso uma grande coisa.

– A única coisa que eu te pedi foi pra você sempre me dizer a verdade sempre. A única!

– Mas eu não menti!

– Você omitiu! É quase a mesma coisa.

– Nico... Você não confia em mim? – ela perguntou, mas não obteve uma resposta. Ele apenas ficou em silêncio, encarando-a com seus olhos verdes.

– Isso é um “não”?

Ele deu de ombros.

– ISSO É UM “NÃO”, NICO?

– O QUE VOCÊ ACHA? – ele gritou de volta e arremessou o celular em uma árvore com todas as suas forças.

– Você é doente! – ela disse, furiosa. – E eu estou cansada de você!

– Ah, você está?

– Sim! Sim, eu estou. Dessa vez você passou dos limites. Acabou, Nico.

– Você está terminando comigo?

– Sim. Só entre em contato comigo se for para me pagar um celular novo.

– Você está terminando comigo por causa de um celular?

– Ah, não se faça de idiota... Você sabe que o buraco é bem mais embaixo.

Julia saiu dando passos fortes e rápidos.

– Quer saber, eu é que estou terminando com você! – ele disse, em voz alta.

Ela parou, virou-se para ele, gritou “vai pro inferno!" e lhe mostrou os dedos do meio. Então voltou a caminhar em direção a qualquer lugar que não fosse ali.

E aquela fora a última vez que o vira. Ela suspirou, pegou um cigarro, o acendeu e deu uma tragada demorada. Lágrimas começaram a surgir e rolar por suas bochechas incessantemente. Quando ela secava uma, vinha outra.

Foi quando sentiu uma mão quente em seu ombro. Era Steve Taylor, seu amigo com benefícios. Tinha 30 anos, cabelos castanhos e uma barba por fazer. Ele fora seu professor da faculdade no primeiro semestre, porém agora tinha largado essa vida de lecionar e voltou a trabalhar só como jornalista.

– Olá, Steve – disse ela, secando o restante das lágrimas com as mangas do agasalho. – Pensei que você estivesse dormindo.

– Eu estava, mas rolei para o outro lado do sofá e acordei com gotas d’água na minha cara.

– Droga, mais uma goteira. Mais tarde vou arrumar isso...

– Coloquei um vaso de plantas lá por enquanto.

– Ok, obrigada. E o Trey?

– Na cama, no décimo quinto sono.

– Ótimo.

– Posso me sentar com você?

– Sim, claro. Nem precisa pedir.

– Trouxe Jack Daniels – Steve mostrou a garrafa. – E um ombro amigo.

– Eu odeio Jack Daniels.

– O que você não odeia? – ele murmurou.

– O que?

– É o que temos para hoje... Foi isso que eu disse.

– Sei.

Ela pegou a garrafa e deu um longo gole.

– Ei, ei, ei! – ele pegou a garrafa de volta. – Vai com calma, mocinha. Você tem que estar no trabalho às oito da manhã. De preferência, sóbria.

– Se você não vai me deixar beber em paz, então por que trouxe isso pra mim?

– Quem disse que eu trouxe isso pra você? Eu trouxe isso pra conseguir aguentar a sua choradeira – dessa vez, ele deu um gole.

Ela riu e deu um soco de leve no braço dele.

– Você é um grande filho da mãe.

– É, eu sou.

– Ainda bem que você sabe.

Steve a envolveu em um abraço.

– E ainda bem que você veio. Obrigada.

– Não há de quê.

Ele a beijou na testa e os dois ficaram em silêncio por alguns instantes. Até que Julia viu um vulto nos arbustos do outro lado da rua.

– Você viu isso?

– Não. – ele olhou em volta. – O que?

Ela chacoalhou a cabeça.

– Ahn, nada.

– Deus, você ficou bêbada com um gole?

– Oh, não! Não. Eu tô bem, juro. Só... achei que tinha visto algo, mas deixa pra lá. Não deve ser nada.

– Hum, ok. Mas... me diz, e esse cigarro aí? Pensei que tivesse parado de fumar.

– Eu parei. Só estou abrindo uma exceção hoje. – ela fez uma pequena pausa. – Esse é pra ele.

Julia deu a última tragada no cigarro. Quando soltou a fumaça, tentou fazer com que toda a saudade fosse embora junto, porém, sentir falta de Nico era um mau hábito um pouco mais difícil de evitar.

Notas finais
Ei, obrigada por ler!!! Espero que tenha gostado. ;) *Um agradecimento especial a Natalinda Souza, que me deu ideias e me ajudou com a revisão (inclusive desse agradecimento). Beijos de luz, Na
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.