16 de outubro de 2385

Local: Barcelona — Espanha.

Horário: 19 horas e 57 minutos.

Após tomarem a decisão de saírem do prédio e ir em direção do navio, Cieto e Alícia começam a se preparar da melhor maneira possível. Apesar de estarem com ferimentos graves, esse não é o momento para se preocuparem com isso.

— Alícia, você entendeu o plano?

— Sim! Pra dizer a verdade fiquei surpresa, desde quando você havia pensado nele?

— O tempo todo após o acidente. Na verdade esse era o plano principal, mas como não sabíamos nossa situação até o navio chegar, resolvi utilizar o de emergência, por isso ficamos no prédio até agora. Mas a situação mudou, estou ficando com pouca munição de AS500, e os inimigos estão longe demais para conseguir acerta-los com precisão... No momento atual, não sei se conseguiria...

— Acho que suas decisões foram perfeitas, não há porque se arrepender delas.

— Obrigado... – Diz até dar um suspiro – Bom, não podemos perder mais tempo. Os membros da Mercenarius devem ter chego até as Echo e percebido nossa real localização... Precisamos sair rápido daqui!

— Entendido!

Nesse momento, Legato e Princeps se deslocam em direção ao local em que o navio irá parar. Por conta da lesão, Alícia se apoia em Cieto para conseguir se mover. Os containers no caminho formam um verdadeiro labirinto dando a vantagem para armas de curta distância.

— Você cansou? Quer parar um pouco?

— Não é nada, apenas o mesmo incômodo no pé... Ainda posso continuar.

— Certo! Qualquer coisa me... – Até ter uma súbita pausa na sua fala – Alícia, vire rápido!

Um equipamento comum em uma guerra é a granada. As mais conhecidas são as explosivas, contudo não são as únicas. Há também granadas que afetam os sentidos do inimigo, como visão e audição, ou atuam de outras maneiras irritando a pele e mucosas do alvo. Essas são chamadas de Granadas de Efeito Moral.

— Merda, uma granada de luz? Logo agora... Onde estão? Não era pra eles terem nos localizado tão rápido... Não podem ser os mesmo, só havia oito e o nono deveria estar atuando de longe apenas dando ordens. Eu contei errado? Não, não posso ter errado!

Todos esses pensamentos passam correndo pela cabeça do Princeps até que, ainda um pouco cego por conta do flash de luz, ele consegue ver um vulto se aproximando.

— Alícia, vou pegar isso aqui emprestado, pegue distância daqui o quanto antes, não sei por quanto tempo vou conseguir segurá-los – Diz enquanto tira a alça da Vector que estava presa a Alícia.

— Cieto...

— Rápido! Se nós dois ficarmos aqui vamos morrer, não vou conseguir lutar com você por perto! – Grita forçando a Legato a se manter distante – Preciso concertar meu erro, me desculpe... – Pensa.

O efeito começa a diminuir após alguns segundos. Através dos sons dos passos, Cieto consegue estimar um número de inimigos.

— Dois... Não, parece que são três. Nessa situação vou precisar ser rápido!

O Princeps se movimenta então em direção a um local de cruzamento por aonde os alvos virão. Pega em sua mão esquerda uma de suas adagas. Em sua mão direita carrega a Vector. Cieto volta a ter dificuldades para enxergar, não por causa do flash, mas sim por causa do corte em sua testa que voltou a sangrar com muita intensidade.

— Droga, tremendo logo agora? Será que é por conta da perda de sangue? Não! É por causa da adrenalina... Fazia tempo que não passava por nenhuma situação parecida, no mínimo é vergonhoso um Princeps ficar assim – Suspira – Agora não é momento para se preocupar com isso, preciso me acalmar, mas caso não consiga, vou ter que usar toda essa adrenalina a meu favor pelo menos... Pensando bem minha Insignis faz exatamente isso, não deveria estar preocupado... Complicado... Vamos lá, se concentre, Cieto! Pense nos próximos passos deles. Não consigo escuta-los, devem estar próximos e diminuíram seus barulhos. Você sabe o que fazer...

Nesse momento o alto nível de adrenalina no sangue do Princeps faz valer e o mesmo passa a estar totalmente concentrado. Todo o mapa do local já está desenhado na cabeça de Cieto. Uma série de paredes de metais se liga tomando a forma de uma letra “L”. Cieto está bem na transição de uma com a outra esperando o momento de agir. Até que escuta mais uma granada rolando em sua direção.

— Droga, mais uma? – Pensa enquanto vira e fecha os olhos.

Dessa vez ele estava mais preparado e por isso os efeitos são menores. Logo após o estouro, o primeiro alvo vira e da de cara com Cieto. Aponta a arma na cabeça do Princeps e puxa o gatilho. Erra. A adrenalina foi suficiente para fazê-lo tirar a cabeça da frente da arma rapidamente e, logo em seguida, acertar com sua adaga o mesmo braço do membro da Mercenarius que segurava a arma. O corte não é suficiente para arrancar o membro fora, mas o suficiente para chegar até o osso e então levar a um grito de dor. No mesmo momento o Princeps retirar a adaga do braço e perfura o pescoço silenciando assim toda aquela agonia.

— Um já foi, faltam dois!

Logo em seguida aparecem os outros, um pouco mais recuados e assustados com a cena. Começam a atirar. As balas acertam o Princeps, mas sem grande poder de perfuração. Na verdade todo o dano que elas poderiam causar está sendo absorvido pelo primeiro alvo, agora espécie de escudo humano sendo carregado pela adaga presa no pescoço.

— Malditos...

Ainda sem conseguir enxergar muito bem, o Princeps começa a atirar de volta. São poucas balas, todas às vinte e cinco que a submetralhadora conseguia guardar. O braço está pesado. Muito tempo dirigindo. Muito tempo segurando a AS500. Muito tempo carregando Alícia. Muito tempo carregando um corpo até que o descarta. Os tiros pegam em todos os cantos possíveis, certos e errados. Os três caem no chão, os dois alvos mortos e Cieto por não conseguir mais se mexer. O banho de sangue está completo.

— Que nojo... – Vomita – Já passei por muita coisa aqui na Absens, mas essa foi uma das mais horríveis. Espero que Alícia tenha conseguido chegar ao navio, preciso confirmar... – Cieto então tira uma espécie de rastreador do bolso – Valeu a pena colocar o sensor nela quando peguei a Vector afinal... É parece que ela chegou até o ponto do navio, que alívio – Diz enquanto suspira – Bem, agora é minha vez de sair daqui...

Enquanto Cieto se levantava, ele escuta um som. Eram passos de alguém correndo. Mas o som não era normal, era de metal.

— Não pode ser! Eu já matei os três. São os dois últimos? Não, estou escutando apenas um correndo... Nesse caso deve ser o nono. Por onde? Pela frente ou pelo mesmo caminho dos outros três? Droga!

— Por cima... – Diz uma voz desconhecida.

De fato, o som era de mais um membro da Mercenarius, aquele que Cieto resolveu chamar de nono. Os passos estavam difíceis de localizar, pois estavam vindo de cima dos containers. Quando o nono localiza o Princeps, ele o acerta com duas facadas nas costas.

— Permita que eu me apresente, meu nome é Vicenzo, meu sobrenome você não precisa saber... Mas se preferir, pode continuar me chamando de nono, não faz diferença.

Após o choque do encontro, Cieto cai apoiado com as duas mãos no chão e ajoelhado com seu lado esquerdo do corpo. Apenas de não conhecer totalmente a Mercenarius, Cieto reconhece aquele nome.

— Sim... Já ouvi falar de você. No caso é o responsável pelos sequestros realizados pela Mercenarius... Já participei de uma missão de resgate de um alvo de vocês, mas nunca tinha te encontrado antes – Cieto da um sorriso – Por mais que nossos grupos tenham suas diferenças, não acredito que vocês tenham decidido vir atrás de mim do nada. O Aureum Custos contratou vocês, não é mesmo?

— ... – Sorri.

— Isso é um problema grande para mim... As prisões deles são um pouco piores de fugir do que a de vocês... Complicado.

— Quem diz que vamos te levar com vida? – Diz o nono pegando uma terceira faca.

— Entendo... Por um minuto achei que iria ficar vivo por você ser o responsável pelos sequestros e não pelos assassinatos, mas parece que me enganei – Diz o Princeps caindo no chão cheio de sangue.

— Alguma preferência de como morrer?

— Se for fazer isso é melhor fazer direito, minha divisão é conhecida pelos aspectos errados dela... Vocês acham que nós somos especializados em assassinatos e que desde cedo aprendemos a matar, mas não é bem assim, o que nos ensinam é justamente o oposto – Diz Cieto com um sorriso e logo em seguida tossindo sangue.

— Entendo... Não se preocupe, não vou demorar então.

— Que merda, parece que já era mesmo... Eu não aguento nem me mexer mais. Alícia está fora de combate também. Por mais que eu goste da Helena e da divisão Bona, isso não muda o fato de que eles são péssimos em combates desse tipo, se eles vierem ajudar, só vão aumentar o número de mortos. A menos que esse cara decida que será melhor me deixar vivo, já era... Complicado, muito complicado! Me desculpe, parece que no fim não vou conseguir vingar sua morte... – Pensa.

— Certo, parece que já aceitou sua morte, assim fica mais fácil...

Nesse momento, Vicenzo faz o movimento para cortar pescoço de Cieto, mas é impedido por um tiro de um revolver que acerta seu ombro direito fazendo com que ele recue três passos pelo impacto, mas sem ir ao chão.

Ao final do corredor de containers está parado um homem alto com uma pistola Colt. Ele possui cabelos loiros longos, de um tamanho que chegava até um pouco depois dos ombros, mas que estava preso. Os olhos de cor castanho bem claro e um sorriso irônico no canto do rosto

— Hey, você não caiu mesmo com esse tiro? Que droga, a maioria grita de dor quando eu faço isso... Você é bem durão mesmo.

— De onde ele veio? Não o senti se aproximando momento nenhum. Além disso, aqueles dois idiotas que estavam vivos deveriam impedir que qualquer um tentasse descer do navio e viesse me atrapalhar... O que está acontecendo? – Pensa com raiva – Permita-me saber o nome de quem atirou em mim...

— ... – Da um sorriso – Eu não ia gastar mais tempo do que já perdi com vocês, mas já que insiste. Meu nome é Wanderlust Rot, Princeps da divisão Explorare...

— Wanderlust, o que você está fazendo aqui? – Pergunta Cieto surpreso.

— Estava dando uma volta e resolvi passar aqui... Que vergonha ver um Princeps nessa situação, é realmente triste. Bem, acho que você vai ter muito tempo para explicar o que te levou a isso, assim que chegarmos ao navio, agora permita-me acabar com esse cara.

— Então você realmente veio do navio que acabou de parar. O que aconteceu com os dois... – Pergunta Vicenzo até ser interrompido.

— Matei ambos – Diz sem hesitar.

— Entendo, então você realmente é forte...

— Um pouco, mas minha Insignis também facilita tudo. Visão, audição, velocidade todos melhorados... Não que eu precisasse disso tudo para te matar, mas vai me poupar tempo.

— Realmente, esse cara não é normal, o que devo fazer? – Pensa – Que droga, sem apoio e com uma arma apontada para mim, não vou conseguir sacar a minha a tempo também. Eu perdi?

— Você podia me ajudar, né? Já que você não vai cair tão fácil, vou mirar na testa, mas minha pontaria não é tão boa assim, talvez eu erre e acerte um pescoço ou sua boca. Bom, acho que você iria preferir morrer sem dor, então colabora comigo e não se mexa.

— Sabe, não subi tanto de posição na Mercenarius tomando decisões erradas, ou então fazendo apostas das quais eu provavelmente iria perder, sei reconhecer quando fui derrotado. Isso me deixa um pouco frustrado... Saber que quase matei um dos dez Princeps, mas no final eu virei o alvo. Por mais que eu quisesse, não conseguiria te vencer agora...

— Hey, vai aceitar a derrota e morrer com dignidade? Que coisa estranha, nunca tinha acontecido comigo antes, mas já que você insiste – Wanderlust desvia seu revolver um pouco mais para cima mirando na testa de Vicenzo.

— Ou então vocês podem me levar como prisioneiro de guerra. Tomando em conta minha posição na maior organização patrocinada pelos Sanus nesse território, eu tenho muitas informações a oferecer, ainda mais sobre quem nos contratou para mata-los... Alguns nomes bem específicos...

— Hã, resolveu mudar de ideia e negociar? Ah, achei que iriamos resolver isso rápido... Bom, os acordos tratados na guerra dizem que se alguém se render deve ser levado como prisioneiro de guerra, mas nossa situação é bem diferente aqui, poderia estourar sua cabeça e ninguém saberia de nada...

— De fato, mas precisei tentar de qualquer jeito, não há mais nada a perder...

— Pois bem, não sou eu quem você deve convencer, pra mim tanto faz sua cabeça se sua cabeça vai ganhar um buraco ou não... Cieto, esse cara estava tentando te matar, você decide, o que quer fazer com ele?

— Resolveu deixar essa pra mim, Wanderlust? Você só pode estar de brincadeira... Além de que no final você vai fazer o que quiser mesmo, não sei porque você ainda insiste em me perguntar – Diz enquanto suspira.

— Eu sei, eu sei. Você odeia quando eu pergunto sua opinião e faço o oposto, mas juro que você quem decide dessa vez. Além do mais, o cara está pedindo para ser levado como prisioneiro e eu sei como você é chato com essas coisas de regras e que se eu tomasse a decisão sozinho, você iria me denunciar par Judex.

A situação está aparentemente controlada. Cieto pensa em silencio por cinco segundos, como sempre, segundos esses que duram horas em sua mente.

— Minha vontade é de explodir esse cara, você sabe disso... – Diz já um pouco mais recuperado e se levantando aos poucos.

— Mas...

— Mas acho que ele pode ter algumas informações úteis. Não estou interessado apenas nele, eu sei que tem gente maior por trás disso...

— Ah, achei que você iria escolher a outra opção... Que seja – Diz o Princeps tirando um equipamento do bolso e o arremessa para o novo prisioneiro – Vamos, coloque essas duas luvas...

— Não se preocupem... Como eu disse, não cheguei até minha posição atual fazendo escolhas erradas. Vou fazer minha vida valer a pena, tenho informações úteis.

— Já entendemos, já entendemos... Não é porque você tem informações que nós queremos que você deve falar o tempo todo, meu deus... Enfim, essa luva vai impedir que você consiga fazer qualquer coisa agora, ela deve causar uma sensação de formigamento, mas é normal... Se você não calar a boca, coloco uma mordaça também, obrigado pela compreensão desde já – Diz enquanto sorri ironicamente.

Nesse momento, a adrenalina passa pelo sangue de Cieto e ele consegue pensar com mais calma até que ele se desespera novamente.

— Wanderlust, você encontrou com a Alícia? – Pergunta preocupado.

— Ah, a garota lá? Sim, ela não parecia muito bem, assim que chegou ao caís ela desabou, só me explicou a situação rapidamente e desmaiou. Deve ter perdido uma boa quantia de sangue além de que estava sentindo muita dor. Por sorte o Ceifon entende de curativos e ficou com ela no Octavius para cuida-la.

— Entendo... – Diz com um tom preocupado e triste.

— Hey, não fique mal por causa disso... Mesmo que você seja um péssimo Princeps ela provavelmente vai sobreviver – Diz com um sorriso sarcástico.

— No momento prefiro ver você morto ao Vicenzo.

— Isso é pra você aprender a não forçar seus Legatos a esse tipo de situação, como Princeps você é o responsável pela vida dos membros da sua divisão, você não ganhou uma Insignis à toa.

— Eu sei disso, idiota... Mas não pude usa-la dessa vez.

— O que? Como assim, quando foi a última vez que você usou ela?

— Usei ontem à noite, meu corpo ainda não se recuperou e você sabe que ela não fica desbloqueada para outro uso até que meu sangue fique totalmente limpo dos produtos que ela libera... Provavelmente ainda tenha alguma coisa circulando que impeça de usá-la.

— Inútil, mesmo após um dia você ainda não conseguiu ativar sua Insignis novamente? O que estavam pensando quando te promoveram? – Diz para Cieto com um tom de deboche – Mas se pensarmos por outro lado, a Insignis da divisão Absens é uma das mais agressivas, é compreensível que seu tempo de descanso seja mais prolongado – Pensa sozinho.

— Vai ficar me irritando até quando? Temos problemas maiores do que isso agora... Só quero descansar um pouco agora.

— Chorão... Enfim, o navio está logo ali, e para deixar bem claro, você e esse idiota da Mercenarius que estão me atrasando... Pelo menos ele me escutou quando disse que era pra ficar quieto.

— Juro que não vou me irritar com você... Conversamos de novo apenas no navio – Diz enquanto suspira.

— Pode ser... Falando nisso, tenho informações importantes vindo da Intela — Diz em um tom sério.

— ...