Bellum Infirmorum - Coyote and the Crow
12 Numquam
17 de outubro de 2385
Local: Barcelona — Espanha.
Horário: 05 horas e 05 minutos.
Após se retirar da enfermaria, Ceifon dirige-se para seu quarto. Apesar de não saber exatamente o conteúdo da mensagem que havia acabado de receber, era possível ter uma ideia do que se tratava, uma vez que o remetente era o próprio Princeps da Intelligentia.
— Bom o prazo que o Anrev recebeu do Imperator era até hoje, muito provavelmente a mensagem esteja relacionada com a missão. De qualquer forma, o modo mais rápido de descobrir isso é abrindo – Pensa sozinho em sua cama.
De fato, o palpite do Legato estava correto a respeito do conteúdo, porém a carta não trazia grandes detalhes da missão, mas sim um aviso de que já estava tudo preparado e que, como já havia sido esclarecido, tanto os Princeps da Absens como da Explorare haviam sido convocados sem permissão para recusarem.
— Parece que tudo está se encaminhando conforme esperado, no início achei estranho que a mensagem havia sido direcionada a mim, faria mais sentido se ele enviasse diretamente para os dois – Reflete sozinho – mas pensando bem, a relação do Anrev com o Cieto é bem problemática e enviar uma mensagem tão importante para alguém em missão, como o Wanderlust estava, pode ser perigoso caso o receptor da mensagem seja capturado. Isso é realmente problemático, de qualquer forma não faz diferença avisar eles agora ou mais tarde, ainda temos tempo de viagem pelo caminho. Só espero que ambos se recuperem próximo de seus máximos para a missão. Acho que vou dormir um pouco, parece que esse vai ser um longo dia...
Dito e feito, o Legato apaga as luzes e deita-se para descansar, ao mesmo tempo em que Wanderlust dormia em um quarto próximo e Alícia descansava na enfermaria. Nesse momento, o único acordado era Servet que monitorava calmamente Cieto e sua recuperação.
— Vejo que está acordando, como se sente? – Pergunta Servet à Cieto com um sorriso no rosto.
— Melhor, mas ainda um pouco tonto e sem me lembrar de muita coisa, apesar de me lembrar de você e de nossa conversa – Diz ainda sentindo certo desconforto e dor por todo o corpo.
— Você é realmente durão, não achei que fosse acordar tão rápido, além de que na verdade eu não pude fazer muita coisa.
— Gentileza e impressão sua, eu nitidamente sinto meu corpo bem acabado.
— Você não seria humano se não se sentisse assim – Brinca o ex-Sanus recebendo um sorriso de canto de rosto como resposta.
— Talvez eu realmente já não seja há algum tempo, mas isso não importa nenhum pouco. Como estão os outros?
— Todos estão bem, diria que o maior problema foi o da garota que machucou feio uma das pernas, tirando isso não há mais nada relevante.
— Entendo, fico mais aliviado...
— Por outro lado, recomendo que você não se movimente tanto, ainda há vários pequenos cortes pelo seu corpo, podem ser que eles se abram se fizer muito esforço.
— Tudo bem, assim que chegarmos até Livorno pretendo fazer uma pausa por alguns dias, essa última missão foi bem desgastante – Suspira.
— Ele não sabe ainda da nova missão? Isso pode ser um tanto quanto inesperado pra ele. De qualquer forma, vou deixar isso sob responsabilidade dos outros membros do Exercitum— Pensa sozinho – Bom, espero que você melhore logo de qualquer forma – Diz para Cieto enquanto sorri.
— Obrigado!
— Acho melhor você descansar agora, vou para meu quarto. Qualquer coisa pode me chamar por esses aparelhos conectados em sua cama. Você pode pedir comida também caso esteja com fome.
— Entendido, só queria fazer uma última pergunta, a previsão é que cheguemos que horas ao nosso destino?
— Devemos chegar perto das treze horas no horário local, mas se o mar piorar um pouco é possível que atrasemos mais umas duas horas.
— Certo, obrigado pelas informações... Servet? – Pergunta com um pouco de dúvida sobre o nome.
— Parece que sua memória não está tão ruim assim, ainda se lembra do meu nome – Sorri enquanto se retira do quarto.
Passado cinco minutos, o navio Octavius alcança o seu momento de maior calma. Os dois membros da Absens dormem na enfermaria. Os outros dois membros do Exercitum dormem em seus quartos. O soldado que havia deixado a Sanus há alguns anos dorme em sua cama, enquanto o outro passageiro, que ainda serve a essa organização, dorme em sua cela. Apesar disso, as nuvens negras que cobrem o mar traziam um mau presságio.
Passado cinco horas desde a conversa entre Cieto e Servet, está ocorrendo uma pequena reunião na área de alimentação. Ceifon e Wanderlust acordaram antes que todos e resolveram se encontrar para comerem algo antes de desembarcarem em Livorno. Claramente, o Legato da Bona aproveitou a ocasião para avisar o Princeps da mensagem que recebeu de Anrev.
— Apesar de o prazo ter sido bem apertado, parece que o maldito do Anrev conseguiu bolar um plano a tempo – Suspira enquanto toma um gole de café.
— Sim, pra ser sincero achei que ele teria mais dificuldade. Mas pensando bem, ele não trabalha sozinho. Além de ter o Postur que ajuda a manter o Anrev focado e dando seu máximo, a Intelligentia ainda tem o Frantz trabalhando junto... Se pararmos pra pensar, o Legatos de lá são possivelmente os melhores do Exercitum – Diz Ceifon enquanto brinca com uma moeda.
— Não precisa fazer essa carinha triste, Ceifon... Eu sei que deve ser duro pra você competir com todos esses caras, mas um dia você chega lá. Você simplesmente não tem culpa se eles já nasceram com valor de um milhão de moedas enquanto você fica juntando uma por uma... Como eu disse, um dia você chega alcança eles – Diz com tom de deboche.
— Agora eu entendo porque você veio sozinho, nem mesmo o pessoal da sua divisão te aguenta... – Reclama.
— Leve a vida mais de maneira mais leve e assim você consegue alçar voos maiores. Se você ficar preso com esses pesos em suas asas, vocês nunca vai conseguir ir longe. Ou deveria dizer em suas nadadeiras? Faz mais sentido se pensarmos que o símbolo da Bona é um peixe – Para com a mão na boca e olhando para o nada como se estivesse refletindo sobre algo muito importante.
— Algumas vezes parece que você vai acertar no que diz, mas estraga tudo logo em seguida... De qualquer forma, obrigado! Vou seguir seu conselho – Suspira, Ceifon.
— ... – Sorri, Wanderlust.
Nesse momento ambos escutam passos se aproximando pelo corredor do navio.
— Será que Servet já acordou? – Ceifon pergunta surpreso.
— Provavelmente, mas pelo número de passos são duas pessoas...
Nesse momento alguém abre a porta da área de refeição com força suficiente para as portas baterem na parede fazendo um grande barulho. Como se não bastasse, a pessoa ainda estava vestindo um jaleco comprido o suficiente para chegar ao chão, um óculos escuro de grades pretas e uma corrente de prata. De fato, era o Servet.
— Senhores, eu sou fenomenal! – Diz Servet ao entrar no local enquanto fica parado na porta de braços abertos.
— Oh, Deus! De novo não, por favor, de novo não... – Suspira, Ceifon.
— Cara, seu subordinado é louco, vocês tem que internar esse cara urgentemente – Wanderlust cochicha com um olhar assustado.
— Apesar de todos vocês duvidarem da minha capacidade, eu consegui! Por favor, entre Alícia... – Indo para um canto e apontando para porta.
Apesar de ainda estar mancando um pouco, Alícia entra no local andando sozinha e sem maiores problemas. Além disso, sua aparência estava bem melhor se comparada com a da noite anterior. Os cortes maiores estavam se fechando enquanto os menores já nem podiam mais ser percebidos.
— Obrigado, Servet – Diz a Legato em voz alta – Eu acho... – Cochicha para si mesma.
Rapidamente os dois se sentam a mesa.
— Desculpe te fazer passar por isso, Alícia... O Servet tende a enganar um pouco quando você ainda não o conhece muito bem. Quando ele recebe os pacientes dele, ele costuma tratá-los muito bem e dizer que está fazendo o máximo para ajudar, mas que não é bom o suficiente, mas na verdade não passa de uma "falsa humildade" – Diz Ceifon tampando o rosto de vergonha.
— Suas palavras são muito duras, isso quase me magoa... A verdade é que quando a gente mantem as expectativas lá em baixo, qualquer coisa que vier é lucro. Esse é meu lema! – Diz Servet enquanto cruza as pernas – Anote isso ai garota, esse tipo de atitude vai te levar longe na vida.
— Certo... Eu acho – Diz meio sem saber o que fazer – Esse cara é louco, ele nem parece ser o mesmo que me atendeu antes – Pensa.
— Você vai se entender com a Helena, Servet! Você tem ideia de como essa sua personalidade mancha o nome da Bona? Você me prometeu ontem, enquanto íamos para Barcelona, que você não iria fazer nada do tipo dessa vez – Diz Ceifon com mais vergonha ainda.
— Seu humor está péssimo hoje, pior do que nos dias anteriores... Além disso, ela está maravilhosamente bem agora e tudo isso graças ao meu método extremamente único. Mais importante do que o meio que nós utilizados, é o motivo pelo qual nós o utilizamos. Esse é meu lema! – Diz Servet com um tom sério.
— Mas o que está acontecendo aqui, esse cara é totalmente louco! – Pensam Wanderlust e Alícia ao mesmo tempo enquanto trocam olhares.
Novamente, a conversa é interrompida. Ao longo do corredor, podem-se ouvir novos passos. Mas dessa vez é de apenas uma pessoa e nenhum dos quatro tem ideia de quem pode ser.
— Espere um momento... Não é possível, talvez seja... –Servet diz enquanto faz uma pausa na fala.
— Talvez seja quem? – Pensam os outros três sentados na mesa enquanto encaram Servet.
— Não, não tenho ideia de quem possa ser – Diz enquanto pega seu suco e toma um gole.
— Eu juro que vou te matar – Pensam os outros três novamente.
A porta, anteriormente fechada, é aberta novamente. Dessa vez não há nenhuma entrada escandalosa, apenas uma leve torção na maçaneta e um leve empurrão para abri-la. Por ela entra, mesmo que ainda muito machucado, o Princeps da Absens descalço, com sua calça preta padrão e o tronco revestido por algumas ataduras. Em seu rosto havia ainda um curativo na parte direita do maxilar, alguns pontos na sobrancelha esquerda e um olhar cansado. Todos olham de maneira bem surpresa.
— Parece que no fim você realmente fez jus a função da Absens não é mesmo? Até porque o significado da divisão é literalmente “Ausente” – Wanderlust diz com um sorriso – E acima de tudo você foi aquele que recebeu o título de Dolorum... Em uma tradução literal significaria que você é “O Princeps que não sente dor” não é mesmo? – Pensa sozinho.
— A última coisa que eu quero agora é pensar nas funções da minha divisão e nas minhas. Preciso de umas férias adiantadas nesse momento – Cieto diz enquanto puxa uma cadeira e senta-se à mesa.
— Cieto, realmente está bem? – Pergunta Alícia um pouco preocupada.
— Sim, não precisa se preocupar – Da um sorriso tímido – Precisamos conversar sobre algumas coisas mais tarde, mas vamos deixar isso pra quando voltarmos para Absens.
— Temo que a conversa vá ter que ficar para um momento ainda mais distante, Cieto... – Ceifon diz com um tom mais sério.
— Ceifon, o que aconteceu? – Cieto diz um tanto quanto surpreso.
— Eu, você e Wanderlust temos que ter uma conversa antes de desembarcarmos em Livorno. Agora que você está em melhores condições já posso te explicar algumas coisas e te deixar a par de algumas notícias...
— Eita, ele vai falar agora... Vamos, garota! O clima vai ficar um pouco estranho por aqui – Servet diz enquanto vai se levantando da mesa.
— Não tem necessidade, é melhor que nós três saiamos para conversar na sala de reuniões, faz mais sentido termos esse encontro lá. Por favor, vocês podem ficar aqui e terminar o café de vocês enquanto nós vamos para sala – Ceifon explica.
— Cieto...? – Alícia, com voz de preocupação, tenta chamar o Princeps até que é interrompida.
— Está tudo bem, eu volto em breve – Cieto diz enquanto sorri.
Depois daquelas palavras o clima ficou pesado. Servet ficou na área de alimentação junto de Alícia, apesar de que ela já havia perdido o apetite com tudo aquilo. Do outro lado, os outros três oficiais do Exercitum se levantaram e foram em direção à sala de reunião, todos em silêncio até chegarem ao local e fecharem as portas.
— Ótimo, aqui é seguro para falarmos sobre e ninguém irá nos interromper – Ceifon diz enquanto da um suspiro e senta em um dos sofás apontando outro lugar para que os dois Princeps se sentem também.
— Certo, pode ir direto ao assunto, parece que é algo extremamente importante – Cieto diz enquanto se senta, logo após Wanderlust.
— Bom, Wanderlust já está a par da situação então essa explicação vai ser direcionada a você, portanto sinta-se livre para perguntar algo... Há dois dias aconteceu uma reunião entre os Princeps de todas as divisões, inclusive com a presença do Imperator. Acontece que você, Wanderlust e Helena estavam em missão e acabaram não participando. Portanto, eu fui representando a Bona— Ceifon explica.
— Até ai eu compreendi tudo, pode-me explicar agora o conteúdo da discussão? – Cieto pergunta.
— Uma bomba... Aparentemente os Sanus desenvolveram uma arma forte o suficiente para desbalancear a guerra de vez. Não entrarei em detalhes, mas basicamente descobrimos sobre sua existência e uma possível localização.
— Então a situação é tão grave quanto imaginei...
— Sim, e esse é um dos dois motivos pelos quais eu decidi contar isso apenas nessa sala enquanto estamos sozinhos. O outro é que no momento eu estou em missão um tanto quanto secreta a qual pode ser dividida em duas partes. A primeira é exatamente essa que estou fazendo agora, explicar para os Princeps da Absens e da Explorare sobre a reunião que eles não puderam comparecer... – Ceifon diz e faz uma pausa e suspira – A segunda é levar ambos para Livorno onde eles irão se reunir para receber ordens sobre a próxima missão deles que diz respeito sobre essa mesma bomba...
— Isso é loucura, tanto eu como Wanderlust acabamos de sair de duas missões classificadas como de nível dois, nosso desgaste é o suficiente para termos um bom motivo para recusarmos algo como isso! Eu optei por mim mesmo me tornar membro do Exercitum, mas não sou e nunca fui suicida pra aceitar uma missão dessas – Cieto grita até que é interrompido.
— Eu entendo seu ponto, Cieto... – Wanderlust, que até então estava de cabeça baixa, diz com um tom sério enquanto levanta a cabeça e olha nos olhos de Cieto – Do mesmo jeito que temos um bom motivo para recusar essa missão, nós também temos um bom motivo para a aceitarmos... Nesse momento nós dois somos os únicos que podemos realizá-la. Isso não é palpite ou supervalorização nossa, é simplesmente a realidade.
— Wanderlust, não pode ser que você concorde com essa loucura, se o que Ceifon explicou for verdade, essa missão pode ser facilmente considerada de nível um... – Cieto diz olhando para Wanderlust sem conseguir acreditar naquela situação.
— Não, eu não concordo nenhum pouco. Droga! – Wanderlust grita até que faz uma breve pausa – Ainda mais em nossos estados atuais. Por mais que não possa parecer, eu também estou muito cansado, devo ter usado minha Insignis mais de cinco vezes nos últimos quatro dias, e eu só fiz isso porque achei que fosse ter um tempo para me recuperar. Mas agora a situação mudou, se nós não formos, pode ser que algo muito pior aconteça – Diz já em um estado mais calmo.
— Eu preciso descansar, isso foi muito pior do que esperava e se continuar assim meus pontos vão abrir e eu vou perder mais sangue... Não me sigam – Cieto diz inconformado enquanto sai da sala.
— Vamos dar um tempo pra ele, tenho certeza que ele entende e vai aceitar a missão – Ceifon Suspira – Além disso, apesar de ter dito que havia bons motivos para recusar a missão, em momento nenhum ele disse que faria... – Ceifon sorri até que é interrompido.
— Não é isso, ele sabe que esse tipo de missão ele não pode recusar... Além de tudo ainda chamou indiretamente a missão de suicida. Aposto que doeu muito nele, afinal essas são as mesmas palavras que a sua antiga Princeps disse antes de ir para sua última missão – Diz Wanderlust enquanto levanta – Bom, mas é verdade, não há nada que possamos fazer agora a não ser esperar pacientemente. Eu também preciso descansar, então vou para meu quarto, se possível não me chame até que cheguemos à Livorno...
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