Os raios de sol, tão únicos e claros, rodeavam o quarto de madeira. Tradicional, mas aconchegante, o ambiente era inconfundivelmente confortável, tanto para ela quanto para ele. Para não perder o costume, a moça despertou, ainda que estivesse com sono, somente para agradar o noivo. Sonolenta, beirando ao cochilo, ela buscava indecisa por uma roupa confortável para vestir, todavia os olhos quase fechados implicavam na precisão. Embora as dificuldades, ela escolheu um simples, mas refrescante vestido verde, tão pálido quanto o rosto de seu amado, o qual ainda estava na cama, como uma estátua de mármore. Sem cerimônia, dirigiu-se ao banheiro para lavar o rosto e pentear rapidamente os cabelos bagunçados; ao finalizar, lançou um olhar carinhoso vestido de beijo direcionado ao rapaz. Ajeitando os cabelos castanhos brilhosos de luz solar, garantiu que, ao fechar a porta, não causaria barulho algum.

Descia as escadas de carvalho que rangiam como choro, tocando os delicados pés nos degraus aquecidos pelos raios amarelados, enquanto apoiava-se no corrimão marrom. Quase em espiral, a escada era um bom local para admirar a amplitude e a magnitude de um ambiente clássico como aquele. Mesmo tradicional, eles gostavam daquilo que construíram. Como não era uma casa grande, demorou poucos segundos para pisar no último degrau e, posteriormente, para chegar à cozinha. Nesse cômodo, preparou o tradicional café que ele tanto gostava, quente como um abraço; somente pelo encostar dos dedos, percebia-se um carinho pelo que fazia no que se diz respeito ao namorado, o único o qual concedeu todo o afeto possível a ela. A mágica acontecia: o pó escuro logo se transformava em uma bebida de cafeína, somente com poucos movimentos. Enquanto esperava o processo, contemplava a beleza do jardim tão verde quanto a própria Mãe Natureza, podia-se perder longos minutos observando pelo encantamento da natureza. Ela não sabia, mas aquilo a encantava profundamente, chegando ao ponto da própria cabeça doer. Café pronto, bastava arrumar a mesa para a refeição. Pratos pareciam de épocas mais antigas, um charme que o marrom proporcionava, e, sem demora, foram postos à mesa, junto com os talheres e xícaras. Para a agradável surpresa, a porta abriu-se e ela identificou imediatamente quem seria.

— Bom dia, querido. – o rapaz, sem demonstrar sonolência no andar, respondeu com um sorriso torto o qual ela tanto apreciava. – Dormiu bem?

— Claro. Estive perto de ti, isso que importa. – ela sentiu-se lisonjeada.

Enquanto ele descia as escadas, a moça acelerava o processo de arrumação, adicionando frutas e pães para completar o horizonte da mesa. Ainda que usasse uma simples camisa verde, ele parecia mais arrumado, principalmente pelo ar o qual transmitia. Na cozinha, acariciou os cabelos macios de sua amada, beijando-os em seguida, como se os lábios estivessem melancólicos por algum motivo; sentou-se bem a frente dela, fazendo questão em olhar diretamente para seus olhos esverdeados.

— O que vai querer hoje? Maçãs, laranjas?

— O de ontem, obrigado. – como não havia uvas à mesa, ela foi buscar. – Olha, eu posso buscar, se quiser. Você não precisa fazer isso.

— Não seja bobo, faço isso por vontade própria. Quero agradecer seu carinho.

— Certo. – com o rosto cheio de olheiras, encheu a xícara com o café.

Aquele aroma agradável lhe animava, mesmo que soubesse que não adiantaria. Bebia um generoso gole, enquanto admirava as costas cobertas de sua noiva escolhendo as uvas verdes mais generosas do cacho, gratidão essa a qual só recebia quando estava junto dela. Voltou à mesa, com diversas uvas rechonchudas em uma pequena cesta, deixando-as no alcance dele, o qual agradeceu. Percebendo o quão quieto estava, a moça não deixou de perguntar:

— O que foi? É algo sobre seu Irmão? – seu olhar, mesmo que feito de puro fogo, demonstrava preocupação.

— Sim e não... É difícil ter que repetir isso todos os dias...

— Como assim? – sentou-se.

— Nada... Aproveite o café que você fez, o qual está muito bom a propósito.

A moça também colocou a bebida em sua xícara, esquentando o ar ao redor, somente pelo vapor que dela saía. Do outro lado, ele pensava fortemente no seu presente, futuro e, principalmente, passado, uma vez que as memórias voltavam martelando a consciência da pior maneira possível sem que lhe concebesse paz, mesmo que repetisse tudo diariamente.

— Está doce o suficiente?

— Sim, perfeito como o de ontem. Perfeito como você. – a voz saiu tremida, quase um gaguejo.

— Que lindo, querido.

— Você disse a mesma coisa da outra vez... – ficou cabisbaixo por um tempo. – Não é culpa sua, eu que insisto nisso.

—Anime-se, você é talentoso. Quem mais faz seres vivos tão perfeitos como você?

— Obrigado mais uma vez. Se eu pudesse, faria Ele pagar...

Como conforto ao noivo, posicionou sua delicada mão macia como algodão acima das rústicas dele. Trocaram afeto pelos dedos, tocando-se majestosamente, somente tomados pelo instinto do amor em si. Ambos beberam outro gole, degustando da elegância natural da cafeína, ainda com as mãos unidas pelas correntes. Após um suspiro, ele tomou a iniciativa:

— Estou pensando em algo que me faça encontrar-me com Ele...

— Isso é ótimo, você vai conseguir de certeza.

— Vale a pena? Sabe, ter discípulos como Ele, coisas desse tipo... – ela acenou com a cabeça. – Mudei de pergunta, mas a resposta foi a mesma.

— Pegue uma uvinha, ela irá te animar, assim como a beleza seu rosto me dá forças. – entregou-a, diretamente na mão do rapaz.

Seu gosto incomum de frutas acompanhadas de café manteve-se e saboreou amargamente a doçura do fruto esverdeado, principalmente da suculência do mesmo. Sem falar uma palavra sequer, levantou para enxaguar a boca com água gelada. As atitudes dele preocupavam a moça, a qual planejava em sua mente meios de mudar sua perspectiva de mundo, mas como não sabia plenamente do que se tratava, não conseguia ser efetiva.

— Por que está tão triste? Conte-me, por favor. – seguiu com um pouco de café.

— É porque eu sei que você não é real... – olhou diretamente aos olhos verdes da moça. – Eu sei o quão real parece tudo isso, mas esse dia não é real, esse jardim não é real, você não é real... É tudo criação das chamas do Aljahim. Isso que me entristece... Eu nem sei por que eu repito esse sofrimento diariamente... – parou para tomar fôlego. – Talvez para alimentar meu ódio...Eu juro, Bella, irei fazê-Lo sentir tudo que as Suas ações causaram.

Ele aproximou-se da moça, com lágrimas brilhantes em tons aquarela. Quanto mais perto estava, mais instável ficava e, dessa forma, mais verde o ambiente ficava. Progressivamente, a cozinha era consumida por flambas esverdeadas, desfazendo-se sem pressa. Ao encostar nas mãos da noiva, a mesma foi desintegrando-se, até ser reduzida à plasma.

— Eu serei a justiça. Bella, escute o que digo: Ateneu vai desaparecer...

Notas finais
Sim, Ateneu.
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