Believe In Me

42 Capitulo 42 — Conhecendo-se


Notas iniciais
E ai gente. Vamos ter um pouco de momento irmãs? Boa leitura povo.

Eu queria dizer que eu consegui enfrentar o dia com força e garra, mas eu não estaria falando a verdade. Tudo que fiz depois da discussão na sala, foi correr para meu quarto e me trancar de tudo e de todos. Não tinha paciência nem mesmo para atender Liam. Acabei por dormir a tarde toda, sem conseguir me mexer para fazer nada, mas na manhã seguinte, minha paz acabou por ser interrompida por uma batida na porta.

Jodie? Está acordada? — Abracei o travesseiro e ignorei a voz de Linnea, mas ela não perecia querer ir embora — Por favor, Jodie, você precisa comer alguma coisa. Está ai há muito tempo — Ela parecia cansada, e sobre tudo, preocupada. Foi somente por isso que falei, arranjando um pouco de voz.

— Não tenho fome Linnea. Não se preocupe — Ela ficou quieta por uns minutos, mas então disse, tão baixo que me inclinei para frente.

Vai ficar doente se permanecer assim. Acha que Edgar vale sua saúde? — E só ai que ouvi seus passos se afastarem. Eu tentei esquecer suas palavras indo tomar um banho e escovando o cabelo, mas em certo ponto Linnea tinha razão, Edgar não valia tanto. O problema era que eu não conseguia sair para enfrentar tudo de novo. Pelo menos não agora.

Quanto tempo mais vai fazer isso Jodie? — Me encolhi dentro das cobertas olhando para meu celular em cima da escrivaninha, que estava no viva-voz e dele, a preocupada voz de Jack, vinha até mim. — Precisa sair. Precisa enfrentar isso como sempre fez. Você não está parecendo a Jodie que conhecemos. — Olhei para longe do aparelho e abracei as pernas.

— Não consigo Jack — Uma careta formou-se em minha face ao sentir os olhos arderem — Estou me sentindo estranha depois de tudo. Eu queria ver vocês, mas sair significaria encontrar com Michelle novamente, ou ver Liam de novo... A cada vez que penso nele eu lembro que Michelle está em sua casa e que eu estou mostrando o caminho até ela para Edgar. É tão errado.

Errada é a forma como está fugido da guerra — Ele inspirou com força — Você devia estar mostrando o dedo do meio para qualquer um que lhe deixasse ameaçada. Você é minha amiga, e pode fazer isso. Sei que esta insegura sobre Micthie, eu mesmo não posso acreditar que sua irmã é ela... mas garanto que ela precisa de você. Sabe quantas noites eu vi Liam correr para casa porque sua irmã mais nova estava tendo crises por culpa de sua antiga família? — suspirou — A menina pode mostrar estar bem para os pais adotivos e para os irmãos, mas sei que ainda sofre. Não acha que ela vai querer um tempo ao lado da irmã que tanto esperou para poder entender tudo isso?... Vamos, dê uma chance a vocês duas para se conhecerem.

Horas mais tarde eu ainda me encontrava na cama e ignorando todos os telefonemas de Liam e os chamados de Linnea e Carter. Estava indecisa sobre o que Jack falará, e mesmo que tivesse decidido alguma coisa, eu não precisei me mover para colocar um plano em ação, pois mais uma batida veio a minha porta no final da tarde. Eu tinha acabado de me banhar e vestir uma das minhas camisetas grandes.

— Já disse que estou bem Linnea — falei impaciente, no entanto não houve resposta. Franzi a testa — Linnea? — Nada. Aproximei-me da porta — Carter se for você, esta perdendo seu tempo. — Segurei a maçaneta quando não escutei nenhuma resposta mais uma vez. Movida pela curiosidade a destranquei e, sem esconder meu mau humor, abri a porta. — O que você quer... — Parei minhas palavras ao meio da frase assim que tive a porta toda aberta e finalmente, vi quem era que estava batendo. Meu corpo inteiro congelou.

— Oi — A voz dela era baixa e seus pés não paravam em lugar só. A menina hoje tinha os cabelos ruivos presos para trás e uma franja cobria sua testa. Ela usa jeans e uma camiseta branca. Estava linda.

— Oi — consegui falar, ainda surpresa ao vê-la parada em frente ao meu quarto. — Err... O que faz aqui? — Com as mãos tremendo e os lábios apetados, Michelle piscou ressentida, olhando-me profundamente ao dizer.

— Queria falar com você — Olhou por cima do ombro depois para mim novamente com timidez — Será que posso entrar? — Como pedra, dei um passo para o lado, liberando a passagem para ela, deixando-a ir para além do quarto.

Incerta, fechei a porta e assisti enquanto ela olhava em volta, seus olhos curiosos devorando o pouco de cor que o quarto continha. A tensão se atenuando um pouco enquanto entrava e olhava ao redor

— Está tudo bem com você? — perguntou a meia voz. Eu não entendi bem a pergunta, por isso, ergui uma sobrancelha em confusão.

— E por que não estaria? — perguntei de volta. Ela respirou fundo. Logo outra vez. E outra.

— Fugiu da minha casa como se fosse um pássaro enjaulado — Sua cabeça baixou e ela olhou as mãos juntas — Partiu e nem sequer olhou para trás quando chamei. Não me ligou. Ontem permaneci a noite toda olhando para porta de casa esperando que você voltasse... Meus pais e Liam não estavam lá para responder minhas perguntas... Mick não me permitiu ir atrás de vocês e recusou-se a falar sobre isso... Passei a noite em claro preocupada, e quando finalmente tive noticias, me disseram que você estava aqui... Trancada no quarto sem querer se alimentar ou ver seus amigos — O cenho dela franziu novamente — Por que Beth? — Virou-se, seus olhos azuis se afogando em confusão e decepção — Por que está se afastando? Não desejava me conhecer, é isso? — Náuseas começaram a passar por mim, me senti miserável, a garganta trabalhando através de secas arcadas, não saia mais do que ar. Brotou-me o suor na testa, em baixo dos braços e entre os seios. Com a cabeça dando voltas e a boca aberta lutando por ar, pensei o quão burra estava agindo com ela, fazê-la ver o pior da situação sem poder conhecer outra.

Suspirando, levantei a vista para o teto, logo então acenei para a menina.

— Venha aqui Michelle — Fomos as duas até a cama e sentamo-nos lado a lado. Não tive coragem de segurar uma mão dela, mas a olhei e disse — Desde o momento que soube de sua existência, eu quis lhe conhecer — O lábio dela curvou para cima levemente em um indicio de sorriso.

— Sério? — Assenti — E por que demorou tanto para me encontrar? — Meus ombros caíram e eu tive de pensar em palavras antes de abri a boca, pois aquilo estava sendo mais complicado do que um dia pensei que seria.

— Acho que eu devo começar a explicar as coisas do começo não é? — Respirei fundo e empurrei o cabelo para trás da orelha, tentando ao máximo saber como lidar com aquela situação — Muito bem, vou começar contando que no começo, mamãe e papai realmente se gostavam, mas parece que quando Edgar perdeu o emprego e tudo no que acreditava, acabou por mergulhar em desgosto e decepção. Todos os dias quando chegava em casa, estava bravo ou bêbedo, completamente descontrolado — Baixei o olhar e toquei com o dedo uma das ferida cicatrizada que Edgar me causara em tantas ocasiões — Marissa era forte, ela aguentou por muito tempo por mim... Houve um momento no qual ela partiu, que eu pensei que tinha sido abandonada com meu pai. Mas ela voltou, e só fui compreender o motivo de sua partida, quando soube que você exista — Suspirei — Fiz as contas e percebi que ela tinha sumido por nove meses e seis dias. Ou seja, ela tinha ido para te ter na casa da vovó Harriet. Depois que ela morreu, eu passei a ficar Edgar porque ele era único com minha tutela, não podia fugir de qualquer modo.

— Mas você cresceu! — sua voz soava angustiada e triste. Igual aos seus olhos — Por que não fugiu Beth? Ele não poderia lhe prender quando ficou maior de idade. Não poderia mais lhe machucar — Com uma nova força, ergui o queixo e a olhei, rolando os olhos por seu rosto meigo, seus cabelos ruivos e seu corpo pequeno. Deus. Tinha valido a pena. Cada esforço por ela tinha valido a pena, pois ela era linda.

Perturbada, Michelle percebeu o olhar que tinha sobre ela, tanto que se encolheu e chacoalhou a cabeça negativamente, as íris inundadas com tristeza.

— Digá-me que não foi por minha causa — suplicou. Eu permaneci calada. — Elizabeth, por favor...

— Não posso — A cortei, mirando-a firmemente — Não posso dizer, porque foi exatamente por você, que eu fiquei com ele. — A menina engoliu em seco, e ao ver as lágrimas formarem nos olhos dela, eu me acelerei a falar antes que essa pensasse algo errado — Pare com isso Michelle. Essas lágrimas que você quer derramar não devem existir... A raiva que vejo no seu olhar, não pode crescer, e a culpa que abaixa seus ombros, tem que ir embora. — Tornei meu rosto o mais sério possível ainda prendendo seu olhar. — Nada disso foi sua culpa e sim minha decisão. Quando soube de você, prometi a mim mesma que nunca permitiria que Edgar fizesse as mesmas monstruosidades que fazia a mim e a Marissa. Eu decidi lhe proteger, eu me rebaixei a cada surra e não me arrependo. Porque hoje eu estou olhando para você, e ver que seu corpo não tem nenhuma dessas maracas que eu tenho, me alegra... estou olhando para uma menina linda e parecida com minha mãe. A mulher que tanto me protegeu e a mulher que tentou manter a força para ficar ao meu lado. Então pare. Por favor, pare agora. Não quero ver esse brilho de raiva no seu olhar nunca mais. Por que ele sim... me machucaria mais que qualquer hora de surra dada por Edgar — Michelle afastou o olhar, era certo que minha irmã encontrava-se com uma puta raiva, e olhando-a pela primeira vez, eu pude ver a petulância que um dia Edgar apontou ser um de seus defeitos, lembrei-me como ele a achava arrogante como a mim e Marissa. E talvez fossem todos esses fatos, que me faziam sentir tanto orgulho ao observá-la. Pois ela podia querer partir-me no meio naquele instante por ter escolhido protege-la, mas sabia que ela entendia diferenciar a palavra “Decidir” da palavra “Obrigar.”

— Sabe, nesse momento eu queria que Ethan não tivesse se reusado a me ensinar a lutar — Ela falou para minha surpresa, virando o rosto em minha direção com todo o seu desgosto aparente — Poderia te nocautear agora mesmo por não mandar-me a merda e fugir — Primeiramente eu a encarei com uma sobrancelha erguida, mas em seguida, tive que sorrir, pois ter Michelle comigo e ainda me ameaçando, parecia bom demais para ser verdade.

— Eu nunca faria isso — confessei. Ela bufou, jogando as mãos para o alto.

— Claro que não faria. A parte irmã está no sangue — Olhou-me de canto emburrada, até que finalmente virou os olhos e também sorriu — Eu também escolheria isso se estivesse no seu lugar... Sinto muito por tudo que passou Beth, eu queria ter feito alguma coisa, mas depois que Harriet morreu, tudo pareceu acabar para mim — suspirou, e como Jack disse no telefone mais cedo, Michelle encolheu-se como se escondesse alguma coisa, suas mãos apertaram uma a outra e seu rosto contraiu em uma expressão de pura dor.

— Hey — Me aproximei, finalmente pegando suas mãos e dando um aperto leve — O que foi? Está escondendo algo de mim? — Ela tentou desviar o olhar, mas eu não estava a deixando escapar assim — Michelle. — Meu tom foi duro e exigente, o que fez Micthie estremecer ao abaixar os olhos.

— Eu não era burra — A forma hesitante que falou fez-me ficar em alerta máximo — Depois que vovó morreu, eu sabia que não iria demorar para que o Concelho tutelar procurasse por meu pai. Harriet me contou histórias, ela me disse quando minha mãe morreu e falou sobre como Edgar começou a se afundar e acabou por levar Marissa junto com ele. Ela tinha medo do dia em que ele chegasse perto de mim, por isso achou que séria melhor me manter informada, assim eu não correria o risco de ser enganada por ele no momento que o visse — Um riso exasperado saiu de sua boca e ela chacoalhou a cabeça — Como se eu pudesse me enganar com ele. Assim que eu o vi, eu entendi tudo que ela me contou... Eu percebi no primeiro encontro com ele, o ódio que era me lançado, eu percebi como ele me desprezou desde o primeiro momento em que me conheceu só porque eu era parecida com Marissa. Eu senti medo pela primeira vez na vida, porém não permiti que esse sentimento fizesse pouco de mim... Eu aguentei, por minha avó que tanto pediu para tomar cuidado, por ela que sofreu a cada dia mais por ter perdido sua filha para um homem como aquele — Lágrimas toldaram em seus olhos e eu me parti, infeliz por não poder fazer nada para impedir sua tristeza e decepção — Eu pensei que ele fosse me levar para morar com você, mas não foi o que aconteceu... Ele me deixava sozinha na casa que Harriet deixou para mim, vinha só quando dava vontade e mesmo assim nunca quis falar sobre a filha que morava com ele — Me olhou nos olhos — Sobre minha irmã. Eu comecei a ficar com muito mais raiva, porque além de me privar de comida realmente boa, ele me proibia de tocar no seu nome ou no nome de minha mãe... Chamava-me de arrogante, e como o significado da palavra, eu passei a ser assim. Fui bruta com ele, não me importava nada a não ser que uma de minhas palavras o ferisse — Estreitei o olhar quando percebi ela se encolher, e quando uma de suas mãos foi em sua face, eu me aprofundei em suas íris, e logo estremeci em reconhecimento.

Eu vi o mesmo ódio e o mesmo medo que eu direcionava ao nosso pai... Encontrei a mesma decepção e a mesma ferida que machucava todos os dias o meu peito. Com um pânico novo, fiz com que ela me olhasse fixamente e perguntei com a voz em um misto de rosnado e grunhido.

— Ele machucou você? — Nada. Ela permaneceu calada — Michele, eu fiz a maldita pergunta. Responda! Ele machucou você? — Ah. Eu temi tanto ver o estremecer que passou por seu corpo. E acho que ela nem sequer notou quando sua própria mão voou para a bochecha de novo e lá passou a esfregar, seus olhos baixos perdidos em uma lembrança ruim.

— Eu tinha o provocado... Disse que se Marissa estivesse viva, ela nunca o amaria. Falei que o odiava e que provavelmente ela também o faria se soubesse como ele me tratava, e como ele podia estar tratando você — respirou fundo — Disse que ele era um imprestável. Não pude falar mais depois porque... bem, ele acabou por perder a paciência — Não podia explicar a fúria que invadiu as células de meu corpo. Primeiro, eu fiquei calada, depois eu me levantei, andei por todo quarto e em seguida fiz o que não foi muito inteligente. Impe ventilando, agarrei o abajur de cima da escrivaninha e o atirei contra a parede com toda a força que existia dentro de mim.

— Maldito!

— Elizabeth! — Michelle gritou, pulando aos seus pés quando cravei as unhas no couro cabeludo. Fora do quarto, passos apressados vieram das escadas enquanto a menina se aproximava de mim com as mãos no ar — Beth, esta tudo bem, acabou.

— Não Michelle. Essa porcaria nunca vai acabar — Berrei de volta em eterna revolta — Caralho. Eu tentei tanto e ele mesmo assim lhe machucou. O infeliz bateu em você!

— Mas ele fez mais a você! — gritou de volta — Acha que é fácil para mim aceitar isso também?! — Apertou os lábios trêmulos uns nos outros enquanto eu ia até a parede e me apoiava a ela, tentando respirar.

Batidas fortes na porta fizeram-nos virar o rosto.

— Michtie?! — Amara gritou do outro lado, e por um instante, achei que a mulher derrubaria a porta.

— Estou bem — Michelle falou de volta, sem tirar os olhos de mim. Outra voz veio essa mais grossa e também preocupada.

— O que está acontecendo? Jodie?! Jodie abra a porta — Permaneci onde estava, pois não poderia enfrentar ninguém agora.

— Nós estamos bem — Michelle falou mais uma vez. — Nos deixe.

— Michelle — Amara gemeu relutante.

— Vai Ama... Err, mãe — Ergui uma sobrancelha para ela, o que a fez suspirar e dar de ombros. Amara falou novamente.

— Okay. Estaremos lá em baixo — Mitchie confirmou e logo os passos se afastaram, até que tudo ficou em silêncio.

Controlando-me, perguntei:

— O que foi isso? — Ela fez careta, e abraçando a si mesma, falou.

— É difícil me acostumar — Olhou para porta — Eu realmente gosto deles... Amara e Ethan são as pessoas que escolhi para ser minha família e não me arrependo. Mas... — Hesitou. Eu sorri de lado, sabendo bem o que ela dizia.

— Mas ainda é algo novo — Com carinho, ela me encarou, deixando um sorrir aparecer ao assentir.

— Sim. É novo — falou. — Nunca pude chamar alguém de pai ou mãe, e agora que posso é meio diferente. — ri um pouco, sabendo muito bem o que ela falava.

— Oh. Eu sei do que fala. Carter e Linnea estão mais para pais babões para cima de mim, do que amigos. Principalmente Carter — balancei a cabeça e ri, e quando Michelle me acompanhou, eu suspirei — Quando que eu pensava que iria acabar assim? — murmurei, e lentamente, escorreguei pela parede até o chão.

Mitchie juntou-se a mim, sentando ao meu lado com um sorriso.

— Pensei que nunca veria você.

— Assim como eu. Estava decidida não ir lhe procurar — fiz careta olhando para o teto e praguejando — Liam tinha que estragar meu plano. Ele sempre faz isso — O riso infantil que se espalhou pela quarto me fez sorrir também, e quanto virei-me para observá-la, quase senti o peito arder em carinho — Você é tão parecida com ela. — Aos poucos, seu riso foi encerrando, até que só um sorriso rasgava seus lábios.

— Como ela era? — sorri.

— Ela era divertida, atenciosa e até mesmo meio desastrada. — ri, lembrando de um passado ao lado de Marissa — Adorava pasta de amendoim com geleia no café da manhã, e não esquecia de tocar uma música em seu violão para que eu pudesse dormir melhor...

— Eu também amo pasta de amendoim com geleia! — Interrompeu com uma animação extraordinária. Eu ri.

— E eu gosto de violão, mesmo que prefira uma boa guitarra — sorriu — Uma das coisas que ela mais gostava de fazer junto comigo, era ver fotografias de muitos campos de flores. Ela dizia que um dia, me levaria para ver um — suspirei, voltando a focar no teto — Ela apenas não conseguiu viver para cumprir isso.

O silêncio que formou entre nós não foi nem um pouco incomodo, era como se nós duas precisássemos dele para poder organizar as coisas em nossas mentes.

— Ela sofreu muito? — A pergunta dela cortou a quietude.

— Gosto de pensar que não — falei sinceramente — Não acho que poderia aguentar se ela tivesse sofrido. E eu estava ao lado dela, então penso que quando a noite chegou, o peito dela se livrou de toda a dor e de tudo que pudesse fazer mal a ela, assim, ela pôde ir em paz — Mais uma vez, ficamos quietas, porém dessa vez eu tive de quebrar o silêncio para poder contar o que me deixava desconfortável.

— Mitchie?

— Sim, Beth — suspirei, tomando fôlego para ao que viria.

— Depois de tudo que passei, acho que já notou como sou problemática — Ela sorriu de lado para mim.

— E como. — confirmou. Apertei as mãos, mas então estendi os braços para ela.

— Vê isso? — Indiquei os nomes gravados em minha pele. Ela estremeceu ao assentir — Eu fiz isso em um momento de fraqueza. E mesmo que não me orgulhe, tenho que contar antes que outra pessoa a conte primeiro, ou antes, que eu acabei surtando na sua frente — Ela fez careta, confusa. Eu suspirei — Eu... tenho problemas Micthie... Problemas sérios que me levam a fazer coisas como essas. Eu sinto a dor emocional e ela me rasga tanto, que acabo por me machucar na esperança de um amparo — Alisei minhas cicatrizes — Eu não fiquei longe de você apenas para protegê-la. Eu também tentei me manter afastada para que você não visse a pessoa que me tornei... A menina pequena da sua foto não sou eu, não mais pelo menos... Agora, eu sou mais quebrada que nunca, e achei que ter você perto séria a mesma coisa que levá-la para o poço junto comigo — Uma torrente emocional veio sobre mim, e eu tive de fazer muita força para não deixar nenhuma maldita lágrima cair — Então eu peço perdão se eu não sou a irmã que sempre sonhou. Eu sinto muito por ser assim, e por trazer tanta bagunça para sua nova vida. Nunca foi minha intenção, pelo contrário. Sua felicidade sempre veio em primeiro lugar... e eu vou entende se quiser que eu me afaste de você depois que Edgar for preso. Prometerei ficar longe, e também posso jurar nem me aproximar de Liam ou de seus pais... tudo que peço é que me perdoe por ser tão errada — Deixei que ela pensasse o tempo que fosse necessário sem interferir, e esperei o momento no qual ela ia pedir o que me destruiria, mas que faria por ela. Mesmo que para isso eu tenha que desistir de Liam e quebrar de vez o meu coração. Seria para o bem dos dois. Não é?

Subi os olhos de um puxão. Michelle estava diante de mim, com o rosto ao mesmo nível e com os olhos azuis brilhando em carinho e lágrimas.

— Acha mesmo que pediria algo assim depois de anos desejando te conhecer? — Quando seus olhos me esquadrinharão o rosto, temi que visse tudo, diretamente até meu coração. Onde a tragédia era ainda maior — Você é minha irmã. Não existe nada a ser perdoado e não a mínima chance de eu querer que se afaste de mim — Lágrimas pingaram dos olhos dela até a camiseta rapidamente — Você é a única família que sobrou como ligação a Marissa... Não posso deixá-la partir assim tão fácil.

No silencio oh – Deus – deve – ser Natal que seguiu, coloquei o máximo de empenho em lembrar os últimos seis meses, para alcançar esta realidade que na certa haviam se perdido. Ela me queria por perto. Ela queria. Era verdade? Parecia verdade.

Senti-me bem. Me senti... Caralho. Eu me sentia ótima!

Deixei que palavras descuidadas e desesperadas voassem.

— Eu tive tanto medo que me mandasse embora — E assim, as lágrimas fluíram naturais e fortes, fazendo com que Michelle sorrisse, e logo depois passasse os braços por meu pescoço. Percebi que estava me abraçando quando o carinho veio a minha cabeça, e de repente, eu percebi que a última pessoa que havia me abraçado antes dela se aproximar, havia sido Liam, e assim como ela, ele tinha cariciado minha cabeça com suavidade e amor. E eu não tinha agradecido por isso, apenas o ignorado.

Bastarda de merda. Essa sou eu.

— Você fica bonitinha chorando — Mitchie riu, alisando minhas bochechas e secando os rastros de lágrimas. Eu fiz uma careta me empurrando para trás e esfregando o nariz. Com certeza aquilo não era bonito.

— Eu não sou bonitinha — retruquei carrancuda — Eu sou má e muito louca — Isso a fez sorrir divertida ao erguer uma sobrancelha ruiva. — Oh, e só palavra deixar claro. Eu não sou sua única família — Quando ela me olhou sem entender, eu sorri, finalmente um pouco alegre. — Existe uma coisa boa em relação a Edgar — Ela pareceu duvidar, pois me direcionou um olhar feio.

— E o que seria essa coisa boa?

— Joshua — respondi sorrindo largo — Nós temos um avô Micthie. — Os olhos dela se arregalaram, logo para depois ela olhar para os cantos, desconfiada.

— E tem certeza que esse Joshua é bom? Ele é pai de Edgar né? — Suspirei, já sabendo o porquê dela pensar dessa forma, mas sorri e segurei sua mão.

— Fique tranquila. Josh é legal e eu realmente o amo muito — Agora minha irmãzinha sorriu largo enquanto apertava minhas mãos nas delas.

— E onde ele está? Posso conhecê-lo? Ele sabe de mim? — Pela sei lá que vez no dia, eu suspirei, cansada de tantos acasos.

— Sim, ele sabe de você. Contei recentemente porque não o via há muito tempo — Ela franziu a testa e eu bufei — E essa é mais uma merda que Edgar fez. No básico, você pode se contentar em enforcá-lo durante o sono por colocar nosso avô em um asilo — O rosto da menina ficou vermelho de raiva.

— Ele fez o que?!

— Como eu disse, é uma longa história. — Ela respirou fundo.

— Okay. Então o nome dele é Joshua Jodie? Josh, é assim? — Assenti — Muita noticia para um dia só. Oh, e uma pergunta. Porque todo muito te chama de Jodie? — Ri.

— Porque eu sempre odiei meu nome. Preferi que me chamasse pelo sobrenome — Ela fez um bico tão lindo que sorri.

— Seu nome não é feio Beth. E eu não vou chamá-la de Jodie, é estranho — Gargalhei, e movida por uma alegria repentina, beijei sua testa e acariciei seu cabelo.

— Tudo bem querida. Você é uma exceção — falei, porém mordi o lábio ao pensar que existia uma outra exceção que também chamava-me pelo primeiro nome. Mas pelo menos era só quando...

Senti minhas bochechas queimarem e rápida, pulei de pé para que Mitchie não visse, mas acho que foi tarde demais.

— Hey, o que foi isso? Está vermelha? — riu. Eu lhe mostrei a língua.

— Não estou! É sua imaginação ruiva — Ela se ergueu de pé também, ainda me observando. Cruzou os braços em cima do peito e me encarou.

— Fala logo. Você que é a namorada de Liam né, não? — Bem. Merda. Agora fodeu.

— Não sei o que está falando — me fingi de desentendida.

— Conta outra Beth. Seu rosto disse tudo. E sabe, eu percebi a forma como ele olhou para você ontem. — Ela balançou a sobrancelhas para mim — Se não está namorado estão se pegando — Me senti corar.

— Você não é nova para isso? — questionei carrancuda. Ela gargalhou e se jogou na minha cama.

— Nova? Eu tenho doze anos Elizabeth — sorri de lado.

— Pirralha — Apontei. Ela me mostrou o dedo meio, o que me chocou bastante, mas também me divertiu — Como você é amorosa maninha.

— Demais. Mas não desvie do assunto — Ela deitou de barriga para baixo na cama e apoiou o queixo nas mãos — Ta pegando meu maninho não é? — revirei os olhos, não acreditando que minha irmã mais nova estava me perguntando uma coisa dessas. Aquilo era tão bom!

— Está louca se acha que vou falar — murmurei. Ela se frustrou.

— O que? Por que? Eu até já vi Michael se pegar com Lilah no quarto do papai e da mamãe — Arregalei os olhos, e não aguentando, comecei a rir como uma condenada.

— Está de brincadeira? Ethan sabe disso? — Mitchie riu anegando.

— Mick me deu dez dólares pelo silêncio — ri mais e apontei para ela em saudação.

— Você é mesmo minha irmã — murmurei. Em convulsões, cai ao seu lado na cama. Olhando para o teto, falei — As coisas com Liam é nova também, então não sei o que está acontecendo.

— Bem, pode ser nova, mas uma coisa eu sei. Liam não é de se preocupar com as pessoas, mas a forma como ele te olhou ontem, e o modo como ficou depois que fugiu dele na rua, me fez perceber que ele faria tudo por você. — Me mirou, sorrindo de lado — Eu posso ter ficado de fora da vida amorosa dele, mas sei que ele tem estado bem alegrinho ultimamente. Eu não sabia o porquê antes, mas agora eu sei. — Empurrou meu ombro, me fazendo sorri e sentir a cor volta ao meu rosto. — Liam te ama Beth. — gemi alto ao ouvir isso de novo e escondi o rosto nas mãos.

— Ele é um idiota. Não pode me amar, simplesmente não pode — resmunguei.

— Acho que não é algo que ele possa controlar — falou, e acrescentou — Ele estava mais aflito que o normal hoje quando saiu com o papai e o Mick. Você não atendia o celular e quando ele ligou aqui na casa, Linnea disse que você estava trancada desde ontem no quarto sem comer nada. Foi por isso que resolvi falar com você, já que ele não poderia vir.

—Opa. Espera um pouco — Me levantei mais rápido do que esperava e encarei Michelle com um mau pressentimento — Por que ele não podia vir me ver? Para onde ele foi? — Franziu cenho e usou os cotovelos para apoiar o corpo.

— Você não sabe? Liam tem uma luta hoje no clube Deadly House — Meu coração começou a pular descontroladamente quando uma expressão de preocupação sobrevoou sobre face de Mitchie. — Eu não queria que ele tivesse ido, estava tão distraído, mas não é como se ele pudesse quebrar um contrato.

— Me deixa ver se eu entendi — acenei para ela um pouco zonza — Está me dizendo que aquele idiota foi lutar com sei lá que com a maldita cabeça distraída? — Michelle arregalou os olhos e assim que assentiu, eu explodi. — Filho da puta do caralho! Bastardo filho da mãe! Eu vou matar aquele burro infeliz. Merda. Por que ele tem que fazer essas coisas?! Espero que ele esteja inteiro quando encontrá-lo assim eu mesmo posso acabar com ele — Com o coração quase saindo pela boca, corri para fora do quarto e desci as escadas da mesma forma que uma pessoa foge do capeta. Logo atrás, Michelle veio me gritando.

— Jodie, o que foi? — Linnea tinha os olhos arregalados quando entrei na sala como um furacão e fui para Amara totalmente fula.

— Onde é a porcaria do clube?! — rosnei. A mulher piscou confusa e olhou para Michelle, que deu de ombros apenas assistindo.

— Creio que esteja perguntando por causa de Liam? — sugeriu. Eu bufei jogando as mãos para o alto.

— E existe outro imbecil que foi lutar com a cabeça cheia de merda? Como permitiu isso? Ele vai ser esfolado! — Não pude acreditar quando vi Amara começar a sorrir e então sentar-se novamente no sofá despreocupadamente.

— Nada vai acontecer com meu filho. Ethan está com ele e o auxiliando. Fique tranquila querida — Eu me impedi de rosnar para ela e contei até dez de trás para frente mentalmente antes de fala mais uma vez.

— Me leve até lá ou eu vou arranjar uma forma de ir sozinha. — Ameacei. Carter tomou a palavra com expressão séria.

— Clubes assim são perigosos — Virei os olhos.

— Desculpe Carter, mas estou pouco me importando no momento.

— Não está se precipitando Jodie? — Linnea ninava sua menina com uma expressão aflita — Liam sabe o que faz. — neguei, dessa vez realmente desesperada.

— Vocês não entendem. Liam estava preocupado comigo e foi lutar, isso vai acabar mal! Eu usei essa mesma estratégia no colégio e consegui vencê-lo. Eu. Consegui. Vencê-lo. — falei lentamente — Quando se trata de mim o idiota perde totalmente a concentração — Como se estivesse sacando apenas agora o que eu estava dizendo, Amara ganhou um rosto pálido como cal e em seguida pulou de pé para correr até a porta como um raio.

— Vamos logo! — Ladrou. Eu ia fazer exatamente isso quando meu braço foi segurado por Carter.

— Quero que tome cuidado. — falou seriamente. Eu respirei fundo.

— Okay. Eu vou. Agora pode me soltar? — Ele não o fez, apenas deu uma olhadela em mim de cima para baixo.

— Você não pode ir assim — reclamou mal humorado. Eu bufei, olhando minha camiseta realmente bem curta, mas que se foda, eu não ia ter paciência para me trocar.

— Ela está bem. Vou indo Carter.

— Jodie...

— É sério. Eu sei me cuidar — Totalmente por impulso, fiquei nas pontas dos pés e o beijei no rosto. Quando ele arregalou os olhos, surpreso, eu também me tornei um tomate e limpei a garganta — Foi mal. Tenho que ir. Tchau Linnea! — Corri para porta o mais rápido possível e entrei no carro top de linha de Amara. Respirei fundo tentando me acalmar, mas todo o trabalho para isso se foi quando a porta de trás abriu e Michelle entrou.

— O que faz aqui? — questionei ao mesmo tempo em que Amara falava.

— Você não vai! — Michelle olhou de mim para ela e ergueu uma sobrancelha.

— Vocês quererem discutir comigo ou salvar o Liam de levar uma surra? — Eu odiei o fato daquilo ter me apunhalado com uma mega força. Passei a murmurar palavrões enquanto Amara balançava a cabeça negativamente.

— Ethan vai me matar por levá-la, mas dane-se. Eu quero meu filho vivo. Vamos logo antes que me arrependa — E assim, partimos para o maldito clube.

Esteja intacto novato, ou te mato.

~*~

Notas finais
Eita que o Liam da ferradinho né não? Kkkk Fiquem ansiosos e mais, estejam preparados para o que vem, pois vão se surpreender. Bjs povo e comentem okay.