Believe In Me
4 Capitulo 4 — Linnea.
Notas iniciais
A caminhada foi silenciosa e calma, o sol estava amostra fritando a minha cabeça. Odiava ter que usar roupa de frio em um calor desses só por causa das marcas que eu tinha nos braços. Eu só faltava derreter dentro daquela jaqueta.
Bufando olhei para o papel com os endereços. A sorveteria estava há dois passos a minha frente, ao ver que ela estava vazia, a não ser por um casal meloso no fundo, senti meu estômago revirar com a possibilidade da mulher do orfanato ter desistido de me ver. Aquilo não deveria acontecer, pois sabia que se não a visse agora, não iria encontrá-la nunca por conta de Edgar.
Engolindo em seco entrei no local. Ignorei os olhares do casal para mim, e me sentei em umas das mesas perto da porta, fiquei olhando para rua enquanto apertava as mãos, meu nervosismo estava tão alto que não sabia o que poderia fazer para falar com a mulher.
Tirei as fotos de Michelle e de minha mãe do bolço da calça e fiquei as encarando.
— Com licença? — Ergui os olhos para a mulher vestida em seu uniforme de trabalho — A senhorita irá querer algo?
— Não agora — respondi e voltei a olhar as fotos.
A mulher voltou para trás do balcão e podia jurar que estava fazendo careta. Olhei a hora no celular e fiquei mais aflita ao ver que a mulher estava atrasada.
Eu tinha que encarar os fatos. Nunca iria encontrar minha irmã, nunca iria ter a oportunidade de abraçá-la como queria fazer, eu era uma idiota aponto de pensar que…
— Jodie? — Levantei a cabeça e encarei uma mulher.
Ela tinha a pele branca, seu rosto tinha uma pele perfeita, era morena e o cabelo ondulado batia nas costas e os olhos eram verdes, um verde tão lindo que não consegui parar de encaram.
— Você é Jodie não? — Ela perguntou gentilmente. Usava um longo vestido perolado e usava calçados sem saltos.
Era realmente linda.
— Sou sim. — respondi tentando não ser mal educada — Você é a mulher do orfanato? — A moça sorriu ainda mais e estendeu a mão.
— Eu mesmo. Chame-me de Linnea — Apertei a mão dela e assenti.
Linnea se sentou na cadeira na minha frente e ficou me encarando com curiosidade.
— Bem, desculpe falar, mas… — Ela limpou a garganta — Eu não imaginava que era… — Ela parou para pensar na palavra, mas vi que estava difícil.
Resolvi dar uma ajudinha.
— Estranha? — sugeri. Ela sorriu.
— Eu ia falar diferente — Abaixei os olhos — É que na foto que sua irmã tinha, você não usava maquiagem e tinha o cabelo um pouco mais curto, além de ser mais nova. Talvez uns oito anos — Apertei as fotos nas mãos.
— Eu mudei muito de uns tempos pra cá — falei e então à encarei — Você pode me dizer como minha irmã chegou no orfanato? — Linnea suspirou e colocou sua bolça preta na mesa.
— Bem, quando ela chegou o sr. Jodie nos falou sobre a mãe que morreu, comentou sobre ela ter passado pela tutela da avó e que essa avó tinha falecido — confirmei balançando a cabeça — A menina estava em uma situação lastimável, a pobrezinha amava muito a avó — Eu imaginava que sim.
Vovó Harriet sempre me telefonou enquanto minha mãe era viva, depois que mamãe morreu, nunca mais falei com ela.
— Michelle, ela…por acaso, estava machucada quando chegou lá? — Linnea franziu a testa ante a pergunta, mas respondeu:
— Não — respirei aliviada. Ele não batia nela — Ela estava em perfeito estado, a não ser pelo fato de odiar o pai mais que tudo — voltei a olhar as fotos, e dessa vez Linnea notou — Você também tem fotos dela? — perguntou contente, e eu finalmente sorri em concordância.
— É a única coisa que tenho delas — Ela ergueu a sobrancelha.
— Delas? — assenti e mostrei as duas fotos.
Ela sorriu ao vê-las e depois me olhou.
— Creio que seja mãe de vocês? Sua irmã nunca me mostrou a fotografia dela — Ao me ver confirmar, falou sorrindo — Elas se parecem bastante.
— Sim, bastante — Como eu queria parecer.
Linnea me encarou por alguns minutos. Como se tivesse tentando adivinhar o que eu estava pensando. Vi ela colocar os cotovelos na mesa e apoiar o queixo.
— Me diga, criança — começou ela em um tom calmo — Você sabe por que seu pai levou-a para um orfanato e ficou com você? — Engoli em seco ao ter aqueles olhos verdes esmeraldas me fitando com intensidade. Era estranha aquela sensação de estar perto dela.
Aquele olhar me fazia querer contar toda a verdade, me fazia querer me libertar de todas as coisas que me incomodavam.
— Não — Menti tentando deixar minha voz firme — Ele nunca me disse — Eu sabia que ela não estava acreditando, mas o que eu podia fazer?
— Hmm. E você se dá bem com seu pai? — por mais que eu tivesse tentado segurar, meu rosto se contorceu em uma carranca horrível.
Essa eu não podia mentir. Não conseguia.
— Não — falei com desgosto — Assim como Michelle — Grunhi e fechei a mão em punho — Eu odeio aquele homem mais do que minha própria vida — Linnea parecia impressionada com minha brutalidade, então tentei me acalmar.
— Por que odeiam tanto ele? — A olhei prendendo toda a verdade, mas não tinha certeza do quanto conseguira segura. Eu não precisava falar tudo, quem sabe uma parte.
— Por que? Ele me afastou de Michelle e à entregou para um orfanato! — falei sem deixar de lado a raiva — Ele a levou para longe de mim, uma irmã que sou louca para conhecer desde que me intendo por gente, nunca vou perdoá-lo por isso — A mulher concordou em entendimento.
— Por que não deixaram você conhecê-la quando a criança nasceu? — Olhei para foto de minha mãe ao lembrar que ela tinha feito isso para proteger a filha.
— É complicado — falei com dor — Minha mãe achou que era melhor para ela morar com minha avó e à entregou — mordi os lábios — Fiquei sabendo que Michelle existia quando minha mãe morreu — A pena cresceu nos olhos da mulher e ela segurou minhas mãos em um aperto bem-vindo.
— Eu sinto muito — Encarei os dedos delas acariciarem minhas mãos. Nunca tinha recebido carinho de ninguém, a muito não me sentia amada.
— Eu também — murmurei —Você… Vai me ajudar? — perguntei não aguentando mais de curiosidade — Vai deixar que eu veja Michelle? — Linnea se encostou na cadeira e sorriu.
— Eu posso tentar conversar com os pais adotivos — O sorriso cresceu no meu rosto enquanto sentia a pulsação do meu coração aumentar —Mas terá que ser de acordo com as medidas de regras que os pais dela quiserem — Meu sorriso murchou — Se eles não permitirem não poderei fazer nada.
— Você acha que eles deixariam? — Ela pensou na perguntou.
— É provável que sim. A família com que sua irmã vive é receptiva, todos tem bom coração — Sorri passando a mão pelo rosto.
Era ótimo saber que minha maninha estava bem.
— E você sabe se ela é feliz? — perguntei. Linnea sorriu.
— A última vez que o concelho tutelar e eu fomos ver como ela vive — sorriu —Ela me disse que está maravilhosamente feliz — Acho que essa foi a gota d’agua.
Meus olhos não aguentavam mais, se encheram de lágrimas sem consentimento e caíram contra minha vontade. Linnea sorriu ao ver que eu tinha me emocionado e deixou que eu tivesse o meu tempo quando pedi para ir ao banheiro me calmar.
Quando estava finalmente longe de olhares, deixei que aquelas lágrimas caíssem pela primeira vez eu não estava chorando de tristeza ou derrota, e sim de alegria. Pura e incontrolável alegria.
Michelle estava bem e feliz, longe do monstro que era seu pai, o alivio era tão grande que não podia impedir ou domar os soluços e risos que subiram por minha garganta, senti meu corpo deslizar pela parede do banheiro enquanto eu tinha o meu ataque de risos e choro ao mesmo tempo, enquanto eu aproveitava o meu momento de felicidade e alivio.
— Jodie? — levantei a cabeça no pulou ao ouvir a voz de Linnea. Engoli em seco e passei a mão no rosto ao vê-la me encarando assustada — Cristo, o que foi criança? — perguntou, se ajoelhando em minha frente.
Congelei quando uma de suas mãos foi para meu rosto e secou minhas lágrimas.
— Por que está assim, meu bem? — perguntou com a voz afetada.
Acho que estava horrível com a maquiagem borrada, mas quem liga? Eu estava feliz. E por isso sorri.
— Porque... minha irmã... está bem — A respondi ainda em soluços e risos — Sempre quis que… ela tivesse… em uma boa… família… Que ela tivesse a casa, o amor que eu não tive — mordi os lábios — Que finalmente ela tivesse um pai de verdade, um que vá mimá-la e protegê-la, um que sentisse ciúmes dos garotos que a paquerassem — Linnea riu comigo e vi seus olhos brilharem em lágrimas — Que ela tivesse uma mãe, e que essa vivesse muito e que a protegesse da mesma forma que a nossa me protegeu — funguei e meus lábios tremeram — Que ela tivesse irmãos mais velhos e mais novos, um avô inteligente e uma avó brincalhona e muito louca — passei a mão pelo rosto e respirei fundo — Eu nunca vou ter isso me intendi? — Linnea assentiu com a cabeça, seu rosto já banhado em lágrimas como o meu — Minha vida é, e sempre vai ser, um caos horrível, eu sempre vou ser “A garota estranha”, nunca vou poder dar à ela o que está conseguindo agora — fechei os olhos não acreditando que ia fazer o que estava pensando.
Os apertei sentindo a dor invadir meu peito.
— Eu estou feliz como nunca estive, pois agora ela tem tudo o que eu queria para ela — Balancei a cabeça — Ela não precisa mais de mim — Os olhos de Linnea se arregalaram enquanto me fitava surpresa e espantada — Me conhecer só vai trazer para a vida dela o seu pior passado, não quero feri-la ou prejudicá-la. Obrigada, mas eu desisto. Não vou mais vê-la, vou deixá-la em paz, é melhor ela esquecer-me e seguir com a sua nova vida, eu à amo muito — solucei — Mas preciso deixá-la para que ela possa ser finalmente feliz.
Linnea me olhou sem querer esconder as lágrimas, eu não sabia bem se era por pena de mim ou por que tinha realmente se emocionado. Optei pela primeira opção.
— Tem certeza disso, criança? — perguntou depois do seu longo silêncio.
Assenti mesmo que relutante. Ela respirou fundo e me estendeu as minhas fotos, depois que as peguei ela tirou um pouco de papel do suporte e começou a passar gentilmente sobre meus olhos.
Ela estava limpando a maquiagem borrada.
— É nobre de a sua parte desistir de algo tão precioso para você, pra que sua irmã seja feliz — murmurou levantando meu rosto — Você é tão nova para tanto — ri, mesmo sem achar realmente graça.
— O meu sofrimento é eterno — Ela me olhou nos olhos.
— O seu sofrimento é um segredo — fiquei calada depois dessa, apenas permitindo que ela me limpasse — Sabia que você tem belos olhos? Não precisa passar tanta maquiagem, isso macula o brilho deles.
— Eles são os mesmo que o do meu pai, não existe brilho — disse somente, e acho que ela entendeu o recado, pois se calou.
Com o rosto limpo me olhei no espelho. Era uma coisa tão diferente eu sem maquiagem que me assustava.
— Você tem um lápis ai? — perguntei enquanto passava os dedos por meu rosto.
Linnea suspirou e tirou um lápis da bolça. Depois de pintar novamente meu rosto com um preto bem forte, segui Linnea para fora do banheiro, ela me convidou para tomar um sorvete e eu aceitei.
Ficamos conversando sobre Michelle, mas eu nunca deixava ela tocar no assunto: Edgar.
Combinamos de nos encontrar uma vez por mês para que ela me falasse como Michelle estava vivendo, se estava bem ou não. No final da tarde eu não estava nem pouco a fim de me separar dela, ela me fazia um bem enorme.
— Quero manter contato com você — falou me abraçando, e beijou minha testa.
Sorri gostando do afeto.
— Pode deixar, eu ligo e você marca outro dia para me encontrar — falei.
— Combinado — Ela ia se virou, mas voltou novamente depois — Ah, queria dizer também que não precisa me procurar apenas para conseguir informações sobre sua irmã… Estou disposta a tê ouvir como uma amiga — sorri ainda mais e assenti.
— Obrigada — Ela sorriu de volta e seguiu seu caminho de volta para orfanato.
Olhei para relógio. Quatro e meia. Ainda faltavam duas horas para encontrar o Novato e os cachorrinhos dele.
Virei os olhos e comecei a andar em direção ao caminho que dava para o parque de diversão.
Por que eu acho que esse encontro vai dar em merda?
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