Believe In Me
31 Capitulo 31 — Laços repostos
Notas iniciais
O corredor da casa de Linnea estava escuro e silêncio enquanto ela mesma, seu marido e filha dormiam em seus quartos tranquilamente. Eu ainda não estava acreditando que estava fazendo isso, e por um momento, senti falta da minha Andy, ela era única que me escutava tagarelar minhas confusões sem reclamar. Será que ela fugiu da casa?
Provavelmente sim.
Balancei a cabeça atrás de concentração.
— Foco Jodie!
A passos mudos, voltei ao meu quarto depois da segunda vigiada na casa. Eram onze da noite e eu me preparava para pular a maldita janela do meu quarto.
Hoje à tarde, depois que me despedi e meus amigos e voltei ao colégio, Linnea e Amara foram me buscar para que passássemos na delegacia na intenção de saber coisas sobre meu odioso pai fugitivo. O infeliz continuava sem dar as caras e isso era bem preocupante, mas no momento o que mais me importava é que enquanto estava no banco traseiro do carro, Amara e Linnea discutiam sobre meus mais novos machucados e exigiam saber quem haviam feito, porém eu disse que não falaria, pois eu cuidaria da bastardinha da Helen. A resposta não foi bem recebida, e foi no meio da frustração delas, que o celular de minha advogada tocou.
— Amara Corey — A testa da mulher vincou. — Como assim ele não quer voltar para casa? — Ergui uma sobrancelha e troquei olhares com Linnea, que estava atrás do volante também curiosa — Ethan, faça com que seu filho tenha juízo na cabeça pelo menos uma vez na vida, isso já está passando dos limites... Procure-o, ele não pode ter sumido assim, peça para Mick ajuda-lo... Tente não contar nada a Mitchie, ela está melhor fora de toda essa confusão. Pego ela na escola. Okay. Ligue-me qualquer coisa — Depois daquela ligação, Amara tinha ficado tão aflita que quase não largou o celular. Deduzi pelo o olhar que ela me mandava, que o filho perdido era Liam.
Pensei depois que chegamos casa, onde ele poderia estar, e não tinha lugar mais óbvio que a academia.
Preparei-me em frente à janela e fechei minha jaqueta, puxei o capuz e passei pela beirada. A escada que o novato tinha usado da outra vez continuava ali, então serviu de grande ajuda. Com os pés firmes no chão, comecei a correr.
Durante os minutos a pé, pensei no que iria falar para o garoto, no que faria, mas nada veio a não ser o frio gélido da brisa. Apesar de tudo, a noite estava bonita, contudo, tinha um “Q” de sombria, olhava para o céu escuro e sentia-me como em um filme mal-a-assombrado, olhei para os lado quando minha paranoia aumentou, e achei estar sendo seguida, o que era bem provável.
Vamos encarar que não é lá muito seguro eu sair sozinha na rua e de noite. Eu tinha um pai louco me procurando.
Com esse pensamento, acelerei o passo para a estação. Dentro do metro, por mais lotado que estivesse ainda tinha a nuca coçando de puro pavor. Tentei não tremer muito enquanto contava os minutos lentos até o meu ponto. Quando esse chegou, eu praticamente voei para fora, olhando para trás com uma obsessão louca.
— Não estou sendo seguida. Eu não estou sendo seguida. — Parei em frente à única porta lisa de um prédio. Havia janelas de correr de bom tamanho, que provavelmente deixava entrar uma brisa noturna bem menos sufocante. Apertei os olhos, tentando me lembrar do caminho certo para academia, mas um barulho logo atrás me fez virar com os olhos arregalados.
— Quem está ai? — Engoli seco. As ruas estavam tão vazias. Dei uns mínimos passos até a entrada de um beco e espiei — Eu vou quebrar quem quer que seja se encostar em mim — A ameaça não saiu muito convincente porque eu tremia, mas tentei não vacilar.
Respirei fundo, e voltei a procurar a Academia.
Vamos. Vamos longo!
Olhando os portões e garagens por qual passava, tentava me encontrar, e quando finalmente vi uma luz vinda de dentro de um dos estabelecimentos no fundo rua, eu sorri, preparada para correr até lá. Foi ai que escutei o riso.
Gelei, e lentamente, dei uma volta inteira.
— Olá, filha querida — Meu coração pulou e eu cambaleei para trás, me afastando.
— Edgar — Ele sorriu. Aqueles escrotos dentes amarelados apareceram, seus olhos azuis lunáticos me fitando como se eu fosse uma grande refeição. Ele parecia acabado, sua barba por fazer, roupas imundas e, como sempre, na sua mão tinha uma garrafa de vodca. — Vai embora. Deixe-me em paz.
— Oh, mas como assim? Não sentiu minha falta? — Sua feição contraiu e os olhos rolaram por mim — Você parece bem menina — riu em desdém — Ao contrario de mim. O merda de um fugitivo — Ele olhou-me de forma feroz — O que fez Jodie? Como se atreveu me entregar para aqueles bastardos? Você realmente deseja morrer, não é mesmo? — Ele ria como um alcoólatra, sua expressão furiosa e divertida dava-me arrepios.
— Você pediu isso. Não eu — falei sincera — Fez da minha vida um verdadeiro inferno. Por culpa sua sou assim, bruta e...
— Idiota — rugiu ele, vindo até mim, mas tropeçando em seguida, o que o levou para o chão. — Eu vou pegar você e sua irmã bastarda. Eu vou pegar aquele merdinha que lhe vou embora de casa. Eu vou pegá-los! — Minha garganta quase fechou, não de medo, mas de raiva.
Ninguém ameaçava Michelle e muito menos o meu Liam.
— Você nunca os terá — cuspi para ele, e sai correndo, deixando-o com sua embriagues e suas ameaças.
Precisava achar Liam e alertá-lo. Tinha que protegê-lo. Ele tinha que estar bem.
~*~
A porta da academia estava aberta, sendo assim, apenas passei por baixo e fechei o portão. Com rapidez, segui para dentro ouvindo somente minha respiração acelerada e meu coração batendo forte. Percebi mais tarde, — quando os ofegos e os ruídos dos golpes fizeram presentes — que meus olhos tinham lágrimas. Elas desceram quando ouvi os tão conhecidos golpes de Liam, era um alívio que ele estivesse bem.
Sequei o rosto e fui mais a frente, porém um pouco hesitante dessa vez. Parei ao lado da entrada principal só para encontrar um Liam encharcado de suor, o corpo reluzente e cheio de hematomas iluminado pelas lâmpadas do lugar. Mirei aquela estrutura dura, dos pés descalços até o cabelo molhado e o rosto vermelho.
Ele era poderoso, e a forma como acertava o saco fazia com que até mesmo eu me encolhesse. Mordendo os lábios, tirei o capuz e caminhei sem chamar atenção para um dos banheiros cheios de armários. Por sorte, em cima de um dos bancos, havia umas bandagens vermelhas para mãos.
— Não seja covarde. — murmurei para mim mesma.
Caminhei até elas e abaixei o zíper da jaqueta. Retirei-a e depois fiz o mesmo com a camisa de baixo, ficando apenas com um top preto, logo fiz o mesmo com a calça jeans, mesmo que a vergonha tenha me assolado só com pensamento de ficar de calcinha na frente de Liam.
Pare com isso, pelo menos ela se parece com um mini-shorts.
Sem minhas roupas, ajeitei meu cabelo em um coque alto e comecei a enrolar as bandagens nas mãos, olhando bem como deviam ficar. Durante uns minutinhos me aqueci, e quando achei que estava bom, voltei para onde estava o novato.
Ele nem sequer tinha parado para descansar, só acertava aquele punho de pedra contra o pobre saco. Cruzei os braços e fiquei a certa distancia dele antes de arranjar voz.
— Devia procurar alguém do seu tamanho — O incrível corpo congelou e depois virou rápido como raio. O peito lufando para cima e para baixo enquanto seus olhos tornavam-se enormes de acordo com o que via a sua frente.
Ele primeiro passou pelas minhas pernas, barriga, onde ficou durante um tempo por causa da minha nova atadura, e depois meus seios pequenos e o rosto, que apostava um dólar, estavam com o olho tão roxo quanto a bochecha dele.
— Jodie? Mas o que...
— O que estou fazendo aqui? — interrompi. Dei de ombros e caminhei para mais perto — Talvez porque temos que resolver um assunto pendente e porque você anda agindo como um grande idiota — Meu estômago revirou quando acompanhei seus olhos deixarem meu corpo ao escurecerem.
— Quem é você para me dizer isso? — questionou duro — Não devia ter vindo — Ele me deu as costas, e quando o infeliz voltou a atacar o saco, eu bufei, e irritadiça, peguei uma das luvas que estava na prateleira e as coloquei. Fiz tudo sem ele me observar.
— Você não está com raiva desse saco novato. — provoquei, o circulando, ele nem sequer me olhou — Venha, desconte a raiva em quem mais deseja.
— Sai. Daqui. — Tentei não me magoar com as palavras rosnadas e continuei a cutucar.
— Vamos, não seja covarde novato. — dei uma risada baixa — Lute comigo! — Eu sabia que eu estava ficando louca, mas o bom disso era que nunca tinha me considerado normal.
Quando Liam voltou-se para mim, tinha uma expressão assassina, seus olhos vorazes centravam-me como duas laminas em chamas. Ele andou para mim, mas eu não afastei, só enfrentei enquanto ele ofegava por cima de sua respiração acelerada.
— Sabe que não pode me vencer — grunhiu ele. Eu sorri, erguendo o queixo e cheia de marra.
— Vamos ver então? — desafiei, e logo andei para o tatame, sentindo como Liam me seguia perigosamente quieto.
Fomos ambos para centro, onde o novato não deixou de me assistir estralar o pescoço e os ombros. Sua testa franziu quando mais uma vez capturou a visão do curativo que Harlow tinha feito.
— Pensei que já não precisasse de curativo — falou aleatoriamente e focou em meu rosto, curioso — Também não tinha percebido que seu rosto estava machucado. Hoje de manhã não estava...
— Vamos conversar ou lutar? — perguntei, acabando com aquela ladainha mais para desviar o assunto. Com certeza ele ficaria pior se soubesse como consegui aquele olho roxo.
Caminhei sobre toda parte do tatame me dando espaço.
— Tem que aprender a não me provocar doçura — falou com seu olhar em mim — Saía daqui antes que se machuque e me deixe em paz. Não era isso que você queria? Que eu fosse embora? — Meu coração torceu cheio de culpa, mas não demonstrei, apenas agi ao falar.
— Querer que você se afaste é diferente de querer que você se torne um babaca. — Cerrei os olhos, centrei meu peso, e me movi. Acertei seu rosto com uma direta só para dar um breve aviso de que aquilo era para valer.
Liam xingou.
— Porra. Jodie! — Esfregou a mão contra a mandíbula e grunhiu — O que você quer de mim?! — berrou.
— Que me ataque caralho! — Pulei contra ele novamente, mas dessa vez ele esperava, pois desviou e fez uma careta repleta de desgosto ao me olhar por inteira.
Não precisei da confirmação quando ele avançou subitamente em cima de mim, desviei por instinto e seu punho sem luva passou raspando por meu rosto. Recuei dando duas cambalhotas para trás e despois saltando para meus pés novamente.
O olhei sorrindo.
— Sorte de principiante — cuspiu. Não resisti o risinho que saiu de dentro de mim, mas o apaguei assim que o monte de músculos veio para mim e jogou uma de esquerda, que infelizmente acabou acertando no meu ombro e me fazendo desequilibrar.
Gemi enquanto o novato sorria.
— Desiste?
— Nunca — Juntei as mãos enfrente do rosto e joguei contra seu estômago, porém, como eu não tinha massa muscula e nem força o suficiente, tudo que consegui foi lhe dar um simples susto para que pudesse se afastar. Sim. Vencê-lo seria impossível para alguém como eu: Uma garota que nunca treinou de verdade. No entanto, o que eu queria era mais do que vencer uma luta, eu queria trazê-lo de volta.
— Como se sente Liam? — Escapei de um golpe no rosto circulando-o e o mirei — Por que está se afundando?
— Isso não da sua conta — rugiu, e como Jack disse hoje mais cedo na van, me atacou com tudo, sem parecer aquele mesmo Liam que eu conhecia. Se não tivesse me abaixado e rolado para o outro lado, o infeliz teria me nocauteado facinho.
— Sim, é! — rebati vendo-o impe ventilar — É da minha conta quando começa a tentar se matar. Não era para ser assim Liam. Não por minha causa.
— E quem disse que é por sua causa? — sua voz aumentou mais que uma polegada— Não se ache tanto doçura — Ele tentou me dar uma rasteira, mas pulei por cima e lhe acertei o ombro, o que fez ele ficar muuuito vermelho.
— Seja sincero consigo mesmo caramba. Olhe para você! — O mirei brava, pousando a visão em cada hematoma — Está todo machucado. Porra. Você voltou a lutar, não quer ver mais nossos amigos. Está se trancando por conta do que eu disse! Isso não é você Liam.
— Não faz nem ideia do que eu sou ou deixo de ser. Aliás, você nem tem o direito de saber desde que me mandou passear como se ordena um cachorrinho a rolar e deitar. Tratou-me como um garotinho sem noção quando tudo que eu queria era te ajudar. — Ele me deu as costas e passou a mão nos cabelos. Eu tomei fôlego, olhando-o quando se curvou contra as laterais do tatame e suspirou. Tirei as luvas, e deixando-as no chão, fui até ele.
— Vocês queriam me levar a um médico...
— Era um psiquiatra Jodie — corrigiu exaurido — Para o seu bem. Não para tortura-la.
— Eu sei, mas quando vi você decidindo as coisas por mim e depois gritando com Linnea... Eu me descontrolei. — Olhei para meus pés, tentando não falar nenhuma besteira — Quantas vezes tenho que dizer como sou? Quantas vazes tenho que te dizer que isso está sendo difícil? Quando te mandei embora era porque eu tinha medo. — Liam pareceu de respirar um pouco, sua cabeça levantou e ele se virou.
— Medo?
— Sabe muito bem o que aconteceu entre nós dois no meu quarto — Seus olhos se estreitaram um pouco e eu rolei os meus. — Eu conversei com Jack e os outros e... Eles me fizeram perceber que ter medo do que aconteceu entre nós é... err. Normal. E que estava sendo meio cruel com você por afastá-lo de mim. E para falar verdade, eu fiquei com raiva por ver vê-lo todo machucado hoje de manhã e não saber o porquê — suspirei — Acabei ligando para Jack querendo uma pequena atualização. — O rosto de Liam demonstrava toda sua surpresa.
— Você ligou para Jack só porque estava preocupada comigo? — Franzi a testa.
— Com você falando dessa forma faz parecer idiota — murmurei insatisfeita — Eu fiz isso. E fiquei ainda mais zangada quando descobri o que anda fazendo no, como é mesmo o nome? Ah, sim, Death House — Apertei os olhos para ele totalmente severa — Serio? Como assim vai subir no tatame novamente? Aposto que é só para ver meu rosto naqueles brutamontes com quem vai lutar. Como pode ser tão idiota? — Liam continuou calado apenas me olhando, seu cabelo castanho caindo sobre a testa e os lábios entreabertos em uma mínima abertura.
Ergui uma sobrancelha e cruzei os braços.
— Eu não bati em você tão forte para que pareça um bobão — Ele se moveu, e enquanto eu observava os sutis movimentos de seu corpo se aproximando de mim, meu estômago queimou como se tivesse engolido alguma coisa muito quente. — O-o que estava fazendo? — dei passos para trás, mas meu passo em falso fez com que eu tropeçasse nas luvas que estavam ao chão. Agarrei na única coisa que tinha a minha frente e acabei por levá-la comigo.
— Droga — O novato caiu por cima de mim da forma mais lamentável, seu corpo inteirinho pressionou-se contra mim e por um instante, achei que seus músculos relaxaram. Isso até eu sentir a falta de ar.
— Ai meu Deus. Estou vendo a luz! Vou morrer! — O grande corpo tremeu, e como uma linda miragem, o som de seu riso percorreu o lugar antes dele usar as mãos para erguer um pouco de seu peso.
— Melhor? — Abri os olhos quando conseguia respirar novamente e assim, dei de cara com o rosto dele próximo do meu, praticamente nos tocando.
Em seus olhos, aquele ar cansado não estava mais, pelo contrário, ele brilhava juntamente ao seu sorriso enorme.
— Por que está me olhando tão fixamente? — sussurrei. Ele inclinou o rosto um pouco para o lado.
— Porque quanto mais eu a conheço — Pulei quando alisou minha bochecha com seus dedos — Mais eu me surpreendo. Não achava que pudesse ser ainda mais adorável. Mas você brilha quando está preocupada comigo — Apertei os olhos cerrados para ele e fiz um bico.
— Você vai continuar me chamando assim? Mas que merda é essa? Eu não sou doce, eu sou amarga, ruim, eu te quebrei lembra? — O sorriso de Liam diminuiu lentamente, olhando-me de repente, triste.
— Eu gosto de você Jodie, e você sabe disso — Apertei os lábios fechados, e como uma incrível covarde, desviei os olhos dos dele. — Jodie, por favor, não olhe para outro lado. — Sua mão endireitou meu rosto novamente e azul mar fitou azul céu, com um movimento lento, tocou uma mecha do meu cabelo e depois a colocou atrás de minha orelha. Meu coração, já acelerado com o susto da queda, batia rápido demais.
— Liam...
— Você veio até aqui porque se preocupou comigo. Seja sincera e responda — Eu não soube muito o que dizer, então acabei por balançar a cabeça de cima para baixo positivamente. Liam sorriu satisfeito — Ótimo. — Ele me encarou com olhos impossivelmente mais escuros, exercendo a mesma atração de uma barra de chocolate tamanho família para uma garota em TPM: Impossível resistir! Ele se mexeu por cima de mim e obrigou a nós dois ficarmos sentados, porém, suas mãos seguraram meu rosto para depois, descerem até meus braços onde apertaram e depois me puxaram.
— Liam! — gritei, quando de repente acabei por estar em cima dele, com as pernas uma de cada lado de sua cintura.
Ele agarrou meu rosto com força na intenção de me fazer focar nele.
— Desculpe-me por qualquer coisa que fez você passar raiva ou ficar preocupada. Parece que não estou sendo muito claro com você. E nem posso culpa-la por não entender o que sinto. Não depois de tudo que você passou — tentei fechar os olhos com a pontada de dor que acertou meu coração, mas ele não permitiu e sorriu um pouco para mim, como se me quisesse tranquilizar — Não estou me saindo muito bem com isso. Mas essa é primeira vez que me apaixono tão intensamente. Nunca antes quis uma garota como quero você — Senti o tremor percorrer cada centímetro de meu corpo. A emoção que me dominou era tão desconhecida quanto a tontura que me atingia. E, antes que eu pudesse sequer dizer qualquer coisa, suas mãos se encaixaram em meu queixo e seus lábios pressionaram os meus delicadamente. O mundo pareceu não existir mais, tudo que tinha perto, tudo que queria era aquela boca pressionada contra mim.
Suspirei, achando isso tão errado quanto certo, e Deus, tudo rodava a uma velocidade enorme em minha cabeça, minha pele estava arrepiada e meus dedos agarrados nos ombros de Liam com tanta força que achei estar cravando minhas unhas contra a pele sensível.
— Es-está... apaixonado por mim? — perguntei, incapaz de me separar por completo. Liam percorreu meu rosto com os lábios, voltando sempre a minha boca para transferir um beijo modesto.
— Sim — sussurrou — Me apaixonei no momento em que percebi o tamanho da confusão que isso tudo iria me trazer. — Abri os lábios por puro reflexo, e quase ofeguei quando uma língua quente passou por lá me atiçando — Não sabe como me deixa, Jodie — murmurou. Eu sorri de lado, sem poder me conter ao mover meu próprio rosto até ele.
— Acho que faço uma ideia — falei. Ele também sorriu, e quando abrimos os olhos, percebi que não havia mais nenhum resíduo de raiva em sua feição, porém, não consegui deter as palavras que vieram — Desculpe pelo que eu disse. Não queria te machucar de verdade. Só queria protegê-lo de mim mesma — suspirei, olhando seu lábio inchado e a bochecha roxa.
Fiz uma careta terrível e nervosa.
— Fiz um péssimo trabalho.
Liam sorriu ainda mais e beijou meu rosto.
— Tudo bem doçura. Eu não me sinto mais triste, e agora... — Seu braço circulou minha cintura, elevando-me um pouco e me colando contra seu peito. Eu ri por sua ousadia — Me sinto mais que feliz com você aqui comigo. — Encostou nossas bocas novamente, e dessa vez eu falei.
— Você está sendo libertino novato. Não permiti que me beijasse — Ele ergueu uma sobrancelha para mim, e então um sorriso malicioso curvou em sua face.
— Isso não foi um beijo doçura... Isso, é um beijo — E assim eu cheguei ao céu. Minha pele pinicava, meu nariz estava cheio de seu aroma masculino e ele turvava meus pensamentos. É claro que, quando sua boca encontrou a minha meu corpo reagiu e minhas intenções provocantes caíram por terra. E lá estava eu. Outra vez, agarrada a ele de forma nada educada, sem me importa se o mundo acabasse ou se alguém entrasse e nos visse. Eu apenas deixei de lado e permiti que aquela chama crescesse e se expandisse até certo ponto que eu e Liam estávamos sem fôlego algum, e rolando pelo chão colchoado do tatame.
Minhas mãos estavam avidas assim como as dele, iam dos ombros para as costas, das costas para o rochoso peito. Era tão bom, tão familiar mesmo que aquele corpo não me pertencesse... Refreei meus pensamentos com raiva de mim mesma.
Como assim aquilo tudo não era meu? A porra que não. Eu estava beijando, eu estava agarrando. Então era meu sim! Pelo menos até que isso estivesse acontecendo.
Com um sentimento de pura obsessão, passei os braços em torno daquele corpo enorme e sorri contra sua boca, alisando suas costas para em seguida, realmente marcar minhas unhas em sua apele. Liam estremeceu, arqueando-se sobre mim e depois soltando um gemido tão sexy que quase derreti.
Ele mordeu-me, preencheu cada espaço vazio de minha boca. Suas palmas deleitando-se de meu corpo quase nu, conhecendo as partes cobertas com apertos e caricias enlouquecedoras. Minha respiração começou a falhar e uma torrente de sentimentos e medo me assolou quando Liam subiu a mão por minha barriga e finalmente, descansou sobre meu seio.
A merda era que eu não sabia o porquê de eu ter gemido ao sentir o toque, também não sabia o que tinha dado em mim por me curvar e empurrar contra sua palma como se pedisse mais. Ele sorriu, e relutante obviamente, deixou minha boca enquanto descia beijos por meu o pescoço. Impedi que um grito saísse minha boca quando ele mordeu o pouco da pele que o top deixava a mostra, olhei para baixo e vi como a minha pele branca ficou rosada rapidamente. Liam me olhou nos olhos e ele transbordava de desejo, transbordava de paixão. Foquei em sua boca vermelha e inchada pelos beijos e engoli ao morder os lábios. Queria beijá-lo novamente.
— Se você soubesse como fica linda me olhando dessa forma — Liam sussurrou, e como se lesse meus pensamentos, beijou-me de novo profundamente.
Segurei seu rosto e, seguindo minha grande vontade de tocar aqueles fios rebeldes, enrolei os dedos em seus cabelos. Suspirei totalmente entregue, ou foi isso que pensava antes de sentir a mão atrevida de Liam invadir meu pequeno top e descobri o que havia por baixo.
Arranquei a boca da dele na mesma hora
— Oh meu Deus! — jurei, sentindo-o circular meu mamilo com uma precisão que me fez revirar os olhos e gemer mais alto. Porém, o pânico me fez puxar sua mão para fora e me afastar.
— Jodie? — Me sentei, empurrando para longe enquanto tentava achar meu próprio botão de desligar. Puxei ar e pousei a mão sobre o peito, justamente onde o coração pulsava loucamente. Durante todo o processo Liam permaneceu quieto esperando eu tomar meu tempo.
Quando tudo ficou mais sóbrio, eu tomei coragem e levantei meu olhar.
~*~
— Você está bem? — A voz preocupada de Liam perguntou pela terceira vez enquanto acariciava meus braços de cima para baixo. Fechei meus olhos para absorver aquele carinho por um momento, depois assenti novamente com a cabeça.
— Estou. Já disse, eu só... — balancei a cabeça ao lembrar o porquê de meu medo de repente ter aparecido. Estremeci ao notar que meu seio ainda estava rijo só pelo breve toque de Liam.
— Só o que bonita? — Insistiu ele tão suavemente, que acabei por morder a unha do polegar enquanto evitava olhar sobre meu ombro para ver como era sua expressão.
— Eu só fiquei... insegura — Limpei a garganta desconfortável e abaixei a cabeça quando ele se remexeu atrás de mim.
— Com o que? — Ele segurou meu queixo e puxou meu rosto para ele, forçando-me a enfrentá-lo — Diga-me — Mordi os lábios, indecisa.
— Promete não rir de mim? — Ele tinha a feição séria ao falar.
— Eu nunca zombaria de você por estar aflita por seja lá o que for — Respirei mais aliviada e tentei mais uma vez desviar o olhar, mas foi impossível. — Jodie. Diga.
— Bem. É que... eu nunca, sabe... tive relações com alguém — senti quando meu rosto ficou vermelho e não pude evitar fechar os olhos só para não encará-lo — Se você rir eu quebro sua cara e...
— Hey... Acha mesmo que faria isso? — Franzi a testa ao notar a normalidade de sua voz. Ele nem mesmo parecia surpreso.
Intrigada, abri um olho, só para encontrá-lo sorrindo de lado para mim.
— É por isso que se afastou então — concluiu. Hesitante, balancei a cabeça. Ele suspirou — Perdão meu doce. Eu devia ter percebido e ido com calma. Eu apenas tinha duvidas sobre isso, e depois daquela brincadeira maldosa que você fez na biblioteca, eu fiquei ainda mais desconfiado de que você já tivesse...
— Brincadeira? — O olhei com um ponto de interrogação na cara — Que brincadeira?
Ele sorriu e deslizou a mão enrolada com bandagem por minha mandíbula.
— Não se lembra? Aquela história de. “Não faço com chatos”. — Apertei os lábios, mas como já era tarde para segurar, gargalhei alto jogando a cabeça para trás.
— Oh sim. Havia me esquecido disso — O mirei sorrindo com toda minha travessura aparente — Você realmente acreditou naquilo? Só estava provocando você — Ele riu e deu de ombros.
— Não soube o que achar na hora, mas enfim, desculpe por agora pouco — Mais uma vez, minhas bochechas e orelhas queimaram mais que uma fogueira. Liam achou graça e riu. — Não fique tão envergonhada comigo doçura. — Eu bufei e lhe dei um soco no braço em que estava apoiada.
— Não estou com vergonha! — retruquei. Ao invés de gritar o infeliz riu, e segurou minhas mãos para que não pudesse movê-las.
— Seu rosto não está de acordo com suas palavras — disse, e antes que eu mandasse um “vai se foder”, percebi quando ele olhou para mim fixamente, e como se tivesse se lembrado de algo muito importante, sua expressão mudou — Sabe, eu já lhe disse como eu te acho linda sem maquiagem, mas agora que está sem ela — Ele soltou minhas mãos e segurou meu rosto, erguendo bem para cima. Franziu a testa e deu uma leve pressão em meu nariz, o que me fez ofegar e proferir uma palavra não muito bonita.
— Liam!
— O que significa isso Jodie? — Ele estava sério novamente e analisava meu nariz e o olho cautelosamente — Esse seu olho não estava assim hoje de manhã, e eu notaria mesmo com toda aquela maquiagem. Ah, e pelo que notei, seu nariz está sensível. — Arregalei os olhos quando de repente fui empurrada para trás e deitada no chão. A mão enorme do garoto foi exatamente para aonde eu temia.
— Espera. Liam... — Ele arrancou o curativo que Harlow havia feito hoje mais cedo e arregalou os olhos, só para depois praguejar.
— Quem caralhos fez isso com você?! — Ergui uma sobrancelha para ele, chocada.
Ele estava mesmo agindo como Bruce Banner prestes a se transformar no Hulk só porque eu levei a mal em uma briga? Não pude reagir a isso e só olhei sem expressão.
Liam rosnou.
— Jodie — Ele aproximou o rosto do meu — Fale quem é o merdinha que fez isso. Agora! — Uau. Era errado querer beijá-lo naquele instante? Ta certo que ele parecia muuuuito bravo, mas porra, ele estava excitante pra caralho.
— Por que quer saber? — Questionei. Ele cerrou as mãos em punho e apertou os olhos faiscando cada vez mais conforme o tempo que eu demorava em responder. Alguma coisa em sua reação estava me divertindo muito.
— Quero saber para que depois possa trucidar cada parte do maldito corpo — A fúria em sua voz me fez encolher os ombros, porém, sorri.
— Sinto muito, novato, mas quem fez isso vai receber uma lição de mim — Me arrastei para ficar sentada quando ele grunhiu e eu reclamei — Pare com isso. Você não poderia fazer nada, e não tem que lutar minhas batalhas.
— Quer apostar? — Ele rugiu, e quando vi, estava de pé como um raio. Pulei em pé também e corri para ele, segurando seu braço.
— Ei cavalinho. Vai com calma — Ele virou-se zangado — Não pode bater em ninguém.
— Por que, porra?! Machucou você!
— Isso porque me seguraram enquanto acontecia tudo e... — Isso com certeza não foi a coisa mais inteligente de se dizer. Percebi esse fato quando chamas assassinas pularam fora de suas íris — Liam...
— Seguraram você! — berrou. Estremeci.
— Merda. — Cocei a cabeça e ergui as mãos em um sinal de paz — Olha, já passou, prometo que vou socar muito a Helen e suas cadelinhas sem...
— Como é que é? — Caramba, agora ele parecia um eterno psicopata — Helen fez isso? — Bufei, e cansada daquilo, caminhei para fora do tatame e desci. Só cheguei até metade da porta do banheiro, pois Liam saltou na minha frente antes — Puta que pariu, Jodie! — Irritou-se.
— Okay. Foi aquela vaca sim e Lisa. As amigas delas me pegaram no corredor depois que agente se despediu na sala — Cruzei os braços com rancor. — Estava falando com Jack e os outros pelo celular e quando desliguei elas vieram com aquele papinho de merda. — Ele estreitou olhos nervosos.
— Que papo? — Gemi cheia de frustração, pois eu sabia como ele ia se culpar por aquilo. Liam cruzou os braços assim como eu, me encarando com um “Abra a porra da boca”.
— ElaMandouEuFicaLongeDeVocê — Ele franziu a testa e grunhiu sua insatisfação quando eu não fiz nenhum sentido.
— Jodie, fale mais de vagar e conte-me logo o porquê de Helen ter feito isso. — Olhei para outra direção, emburrada.
— Você é tão chato — Ele rolou os olhos sem se importar — Ela veio perguntar o que eu tinha feito com você — sussurrei, ele teve o corpo rijo e se inclinou para me ouvir melhor — Falou que era culpa minha você estar ignorando todos e estar diferente. Eu ia embora sem causar brigas, mas ela me segurou — Dei de ombros — Soquei a fuça dela depois de contar até três — Inesperadamente, Liam deixou de lado a expressão dura e sorriu. Minutos depois ele me puxou para perto e beijou minha testa.
— Essa é minha garota — Que droga. Eu me odiei por amar aquilo. — O que aconteceu depois?
— Helen surtou, e quando percebi, estava sendo segurada por Lisa e as outras meninas — Podia até ver o tamanho do bico que se formou em minha cara — Aquelas cadelas sem rumo, juro que vou arrancar as pernas delas da próxima vez. Se elas não tivessem me segurado...
— Shhh — Ele empurrou meu rosto contra seu maravilhoso peito, eu não reclamei, só deixei meu suspiro irritado sair — Sei que teria acabado com elas, doçura.
— Com certeza. — concordei rabugenta.
— Agora eu estou ainda mais nervoso — falou depois de um tempo — Não bato em mulheres — Sorri, e por impulso, movi os dedos em seu peito em um carinho lento.
— E o que eu sou então Sherloock?— perguntei de curtição — Que eu saiba você estava tentando me acertar agora pouco. — Os grossos braços me circularam quando ele falou com o mesmo humor na voz.
— Sabe que eu não iria lhe bater de verdade — murmurou o que me fez fechar a cara. Ele deve ter sentindo minha reação, pois apertou-me mais — Nem adianta ficar brava comigo. Isso é simplesmente uma questão de cavalheirismo, educação, e juízo.
— Juízo — zombei desinteressada — Eu sei me defender novato.
— E eu acredito nisso, mas é logica e realidade Jodie. Encare os fatos: Você não tem estrutura, maça muscular e nem força física o suficiente para me derrubar. Sei que é inteligente para entender isso. — Eu odiava quando ele tinha razão.
— Você é um bastardo — resmunguei. Ele tremeu com um riso e inclinou para frente, arrastou-se para minha frente e me observou com um olhar triste.
— Desculpe por isso meu doce — Ele beijou meu olho roxo bem levemente e depois meus lábios — Perdão por ter causado isso. Prometo falar com Helen e Lisa amanhã.
— Você não causou nada, e não quero que fale com Helen e nem Lisa. Elas são minhas! — Apontei-lhe um dedo — E ai de você se recusar isso — Era engraçado, mas somente no pouco tempo que estava ali naquela academia, apenas nós dois, eu percebi que Liam havia sorrido mais de duas vezes, e aquela trilha de dentes perfeitos e brancos era sempre para mim, e comparado a como eu me sentia antes de falar com ele, meu peito estava vazio e finalmente, calmo.
Estar ao lado de Liam, como eu pensava todos os dias, parecia o certo, aquilo era tudo que eu conseguia enxergar enquanto olhava o rosto luminoso de meu idiota favorito.
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