Believe In Me
19 Capitulo 19 — Um paraíso
Notas iniciais
Eu corri por varias horas tentando despistar dos outros, tentei andar por entre os becos para que ninguém me visse, eu que não queria ter um monte de gente ao meu redor fazendo perguntas por estar coberta de sangue. Não querendo ir para casa parei dentro de um beco vazio e peguei meu celular.
Eu sabia quem podia me ajudar então não hesitei ao digitar o numero.
— Linnea Lewis — Tentei achar minha voz para responder, mas tudo veio tremulo, desconecto. Não sabia que porra estava acontecendo comigo, mas eu simplesmente me sentia fraca. — Oi, quem é? Eu não estou entendendo — engoli em seco e respirei fundo.
— Linnea… Sou eu, Jodie — fechei os olhos atrás de algum controle.
— Ah, Jodie, como vai querida? — minha resposta foi um maldito soluço. Que merda! Quando eu havia começado a chorar? Quando meu rosto passou a ser uma cachoeira de gotas salgadas?
A linha ficou muda e depois ela falou mais docemente.
— O que foi criança? Está chorando?
— Linnea será que… Você pode me ajudar? — gaguejei.
Ouvi passos, como se ela tivesse saindo de algum lugar.
— Fale filha. O que está havendo?
— Eu, eu estou em um beco… Estou suja e não queria que meu pai me visse assim — funguei — Você poderia me ajudar?
— Claro que sim menina. Diga-me o nome da rua que eu vou buscá-la — Meio fungando, eu passei o endereço rapidamente — Não se reocupe meu anjo, eu já estou indo.
— Obrigada — falei e desliguei o celular.
Deslizei pela parede e fechei os olhos enquanto me torturava com a droga de mais lembranças.
~*~
Narrador.
A face dela estava pálida, seus lábios tremiam a cada palavra que tentava dizer, a casa silenciosa só fazia aquele momento mais doloroso para a pequena figura ao seu lado. Marissa estava doente, seu leito sendo tão inquietante que fazia a fraca mulher suplicar para um descanso.
Jodie não podia fazer nada além de acariciar seu cabelo, enquanto julgava seu pai por deixá-la daquela forma depois de tudo que fez. Sentia tanto medo agora que era impossível descreve-lo.
— Filha — Ela chamou, sua voz quase inaudível — Preciso lhe contar uma coisa — A menina piscou as lágrimas e se juntou mais ao lado da cama, sua mão segurando a dela firmemente.
— O que foi mamãe? — perguntou aflita. Os olhos dela deixaram as lágrimas rolarem.
— Me desculpe meu amor… Por te fazer passar por isso — Marissa acariciou seu rosto carinhosamente — Eu tentei, mas não consigo mais — Ela chorou o lamento doloroso, esse rondou o quarto da maneira mais cruel. Sua filha, empurrando os fios loiros para trás da orelha, chorou com a mesma intensidade, apenas a ouvido falar — Queria poder me levantar agora e levar você e sua irmã para longe daqui — A menina arregalou os olhos drasticamente, surpresa tingindo seu rosto já abatido.
— Irmã? — Marissa fungou e depois fez uma careta de dor — Mamãe…
— Você tem uma irmã, filha — disse reprimindo a dor — Ela é pequenina e está segura junto da sua avó — Jodie soluçou, fungando e respirando rápido.
— Uma irmã?... E ela é bonita? — Sua mãe, pela primeira vez depois de tanto tempo, sorriu com alegria e apertou a mão da menor.
— Ela linda… Assim como você — sorriu um pouco e ela continuou a falar — Eu queria que você estivesse com ela agora… Não aqui dentro desse inferno — respirou — Minha menina… me perdoe. Nunca achei que um dia isso fosse acontecer, Edgar sempre foi bom para mim. Nunca foi bruto, e casar com ele foi ótimo no começo. — Então, como se estivesse pressentindo que algo aconteceria, ela começou a contar como tudo isso começou, lágrimas e soluços estiveram presentes na maior parte, vindo de Jodie e também dela, seu coração se apertava a cada suspiro cansado que escutava ela soltar, a preocupação só aumentou quando, ao final da noite, sentiu a mão de Marissa começar a tremer.
— Mãe o que foi? — perguntou apavorada, ela tossiu forte.
— Não se preocupe meu anjo... Apenas vou dormir — sussurrou sem forças, e o medo de Jodie gritou, essas palavras a apavoraram.
— Mas irá acorda depois não é mamãe? Vai levantar para ficar comigo, não é? Não vai embora igual a nossa vizinha não. Ela dormiu e nunca acordou e deixou o filhinho dela sozinho. Você vai me deixar também? Por que mãe? Você não pode ir! — Chorou em desespero e ela fez o mesmo, só que seu choro parecia muito mais doloroso que o de sua filha.
— Me perdoe bebê… Mas eu sinto que… chegou minha hora — Ela apertou sua mão e seus olhos desviaram da filha — Não queria te deixar aqui… Mas não dá, eu não… eu não aguento mais — Jodie mordeu os lábios, descansando a cabeça em seu peito.
— Me leva com você… Não me abandona.
— Eu não posso… — tossiu — Você ainda… precisa viver. Mas eu te prometo querida — soluçou — Que sempre vou olhar por você, vou te ajudar em tudo… Filha? Olhe para mim — Ergueu os olhos para ela e Marissa sorriu entre lágrimas — Eu te amo meu amor, nunca se esqueça disso... E por favor — Ela apertou mais sua mão — Nunca se entregue a ele.
Por uns momentos mãe filha se olharam, um sorriso se formando nos lábios cecos de Marissa, mas depois seus olhos começaram a se fechar, sua mão amoleceu contra a de Jodie, e então tudo acabou.
Ela se foi.
Jodie chorou.
E ficou sozinha.
~*~
Narrador/off:
— Santo Deus! — A voz de Linnea me trouxe de volta a realidade.
Olhei para ela e meus olhos transbordaram novamente.
— Eu não aguento — falei, e voltei a chorar como um bebê, porém dessa vez, eu não impedi os soluços, minha armadura e a fachada de durona havia se partido no momento em que as lembranças tomaram conta da minha cabeça. Minhas inalações ficaram mais fortes e as exalações mais curtas à medida que tentava, em vão, reconquistar a postura daquela maldita garota de fibra. A bastarda que enfrentava os idiotas do colégio.
Não conseguiu. Nada aconteceu, e o mundo pereceu.
Eu acreditava que não tinha um coração propenso a se partir. Suspeitava por muito tempo que isso era resultado de meu lado revoltado e sem sentimento, um tipo de condição congênita que me endureceu diante de coisas que faziam a maioria das mulheres se perderem nesse sentido.
Contudo, descobri que estava errada.
Ao recordar das faces cheias de lágrimas e preocupação de meus amigos, e assistir Liam e seu enorme corpo se tremer por aflição a mim, fez o órgão que batia atrás de meu peito quebrar-se como um espelho.
Nada além de cacos.
Estava absoluta e completamente arruinada, e o pior é que eu não queria estar.
Linnea, espantada, se aproximou de mim e passou o braço por cima de meu ombro.
— Vamos querida, meu carro está logo ali — Ela me levou até o carro deixando que eu escondesse o rosto em seu peito, minhas mãos a envolvendo pela cintura e sujando seu vestido verde escuro, com todo aquele sangue.
Ninguém pareceu nos notar, e isso era um alívio. Quando chegamos em frente à um Mercedes preto, ela abriu a porta do passageiro e me colocou dentro, para depois ajeitar o cinto para mim e por fim, dar a volta para o lado do carro.
Descansei a cabeça contra a janela e limpei as lágrimas que caíram com a manga da jaqueta imunda
Quando Linnea entrou, deu partida no carro e me olhou com preocupação.
— O aconteceu criança? Quem lhe machucou? — perguntou suavemente.
— Ninguém me machucou — falei, e mostrei as mãos para ela — Eu estava com raiva, e por isso não percebi ao cravar minhas próprias unhas na pele — Ela arregalou os olhos e passou a mão pelo rosto.
— Cristo! Quando eu te vi sentada naquele beco chorando, e assim toda suja de sangue — Ela respirava com rapidez, e achava que esse era o motivo por ela ter aberto a janela — Nunca me apavorei tanto na minha vida — falou, colocando a mão no coração.
Isso me fez sentir mal.
— Me desculpe, não sabia que ia se sentir tão mal — murmurei, e coloquei um mexa de cabelo para trás da orelha — Se quiser pode me deixar aqui, eu posso encontrar o caminho de casa sozinha.
— O que? — perguntou pasma — Acha que vou lhe deixar andar pelas ruas assim? Nunca Jodie! Irei te levar para minha casa e cuidarei dos seus machucados — sorri piscando as lágrimas. Ela secou uma com a mão — Não se preocupe meu anjo, irei cuidar de você… Depois conversamos sobre o que aconteceu certo? — funguei, e fraca demais para recusar, assenti.
— Certo.
Fomos o resto do caminho em silêncio absoluto, fiquei observando as ruas que ela tomava para ir pra casa, gravando tudo caso eu queira voltar para a residência dela. Tudo era tão bonito que fiquei extasiada. Casas enormes e brancas, crianças correndo na rua e brincando, os risos altos eram um som tanto desconhecido, quanto novo para mim.
— Gostou do lugar? — Linnea perguntou, chamando a minha atenção.
Olhei para ela e não pude deixar de sorrir.
— É tudo tão bonito e... — Olhei para os meninos jogando futebol — Alegre.
Linnea me olhou com curiosidade e sorriu.
— Sim, é mesmo — concordou — Veja. Minha casa é ali — Ela apontou para uma casa grande e branca como as outras.
A calçada tinha gramado e um balanço que caberia duas pessoas. Olhei para ela com a boca aberta.
— Está falando serio? — perguntei duvidosa — Aquela casa é sua? — Ela riu.
— Bem, na verdade é minha e do meu marido — Franzi a testa.
— Você é casada?
— Sou, e também tenho uma filha de três anos — dessa vez, eu não consegui segurar o sorriso. Linnea com certeza merecia minha sinceridade, não minha violência.
— Uma filha? E qual é o nome dela? — Vi o brilho nos olhos dela enquanto falava de sua filha, era tão impressionante.
— É Ivy — respondeu — E o nome do meu marido é Carter.
De repente, eu me lembrei da minha situação e fechei o sorriso.
— Oh meu Deus, eles não estão em casa não é? Eu não quero que seu marido pense que sou uma louca — Ela riu. Mas quem disse que eu estava brincado?
— Não se preocupe, Carter está na empresa que trabalha e Ivy deve ter ido passear com a babá — Respirei aliviada — Eu estava no orfanato quando me ligou, fico lá direto, por isso contratamos uma babá.
— Oh, eu atrapalhei você no trabalho? — perguntei já me xingando de tudo quanto é nome, mas ela sorriu amável ao falar gentilmente.
— Eu não me importo querida, aliás, aquele orfanato é meu — Isso me surpreendeu também.
— Você é a dona?
— Sim. Ganhei de herança dos meus pais falecidos — Me encolhi.
— Sinto muito... Digo, por seus pais — Ela suspirou e me mandou um sorriso triste.
— Obrigada — falou e logo em seguida, estacionou em frente sua garagem — Vamos entrar.
Olhei para mim mesma e depois para as pessoas na calçada.
— Eles vão me ver — Ela olhou para trás e ficou em silêncio pensando por um tempo, depois ela sorriu e se inclinou para o banco de trás, de lá ela puxou uma coberta rosa.
— Se cubra e limpe o rosto, assim não vão ver nada — Assenti, e como mandado limpei o rosto com a manta.
Escondendo a parte suja, cobri meus ombros e sai do carro com Linnea, ela passou o braço por cima dos meus ombros quando uma menina veio correndo em nossa direção.
— Tia! Tia! Onde está a Ivy? — Uma garotinha loura que parecia ter sete anos perguntou. Tentei ao máximo ficar fora da visão dela, sempre desviando o olhar para que ela não me notasse e quisesse falar comigo.
Linnea sorriu amavelmente.
— Ela foi passear meu anjo, mais tarde eu peço à sua mãe para deixar você vir vê-la. Tudo bem?
— Tá legal — disse ela dando de ombros e depois olhou para mim. Droga!
Continuei com meu tralho e tentei não olhá-la, mas seu sorrindo curioso era difícil de não notar.
— Oi, você veio ver a minha amiga? — perguntou. Olhei para Linnea sem saber o que dizer e ela sorriu ao ver o desespero em meus olhos.
— Ela está querendo dizer minha filha — sussurrou. Murmurei um Ah, e voltei a olhar a menina.
Certo, eu não sabia como agir, mas ia tentar.
— Sim, eu vim vê-la — falei, com certeza parecendo um robô treinado. Eu era tão idiota.
A menina sorriu.
— Você vai ser amiga dela também? — Engoli em seco nervosamente.
Mas que caralho, era apenas uma criança! Por que eu tinha que agir assim?
— Hm, claro — respondi incerta.
— Quer ser minha amiga também? — Eu tive que focá-la mais um pouco depois dessa. A mocinha parecia tão confiante, risonha e meiga, que meus lábios pela primeira vez se curvaram com suavidade.
— Bem, por que não? Qual é seu nome? — perguntei, ela sorriu ainda mais.
— Loren, e o seu?
— Pode me chamar de Jodie.
— Tudo bem. Mas agora mais tarde eu venho te ver, amiga, agora minha mamãe está me chamando, tchau — Ela acenou para mim e saiu correndo para a casa ao lado.
Olhei para Linnea, que riu me movendo até aporta.
— Loren é bem confiante, adora fazer amigos — sorri.
— Percebi.
Nós entramos juntas, e quanto ela virou para fechar a porta eu olhei em volta totalmente admirada. A sala era tão grande e linda. Havia dois sofás juntos formando um L no meio do local, tinha uma estante cheias de livros e outra com a tv com tela fina; DVDs estavam acomodados em gavetas, ao lado de uma janela tinha um abajur e no teto um lustre de cristal pequeno.
Andei mais a frente até uma saída, e dei de cara com uma escada com corrimão branco ao lado dela outro cômodo. Caminhei até ele e encontrei a cozinha.
Azulejo e piso em preto e branco, assim como os armários. Entrei lentamente vendo a mesa redonda de vidro com quatro cadeiras, micro-ondas grudado na parede, geladeira branca, olhei a pia mais uma vez surpresa.
— O fogão é grudado na pia? — perguntei espantada.
Da porta, Linnea riu alto e se aproximou.
— Sim, ele é — olhei para ela com a testa franzida.
— Como conseguiu fazer isso? — Ela riu mais alto.
— Eu não grudei o fogão na pia, é o modelo que é assim — fiz careta.
— O meu não é assim — Ela balançou a cabeça ainda rindo.
— Creio que não, pela surpresa acho que nunca viu um assim.
— Acertou em cheio — falei e me aproximei dela. — Não sou muito de ver anúncios na televisão. Então é difícil eu já ter visto um igual a esse. — Ela riu mais um pouco assentindo.
— Entendo — disse — Vamos lá em cima para que possa se limpar, depois deixo você conhecer a casa.
Eu concordei e segui-a pelas escadas.
Chegamos ao seu quarto rapidamente, ele também não era pequeno, e muito menos sua cama. Era tão grande que dava uma imensa vontade de pular e se aconchegar entre os cobertores.
Linnea entrou dentro de uma salinha, que distingui sendo como seu closet ao ver o tanto de roupas dentro.
— Você prefere vestido ou uma roupa fechada como essa que está usando? — Arregalei os olhos.
— Vai me emprestar uma roupa sua? — sorriu.
— Vou. Por que?
— É, bem… É que parecem ser caras — ela fez uma careta.
— E o que isso tem haver? — olhei para baixo — Ah, você acha que eu sou igual àquelas pessoas metidas que não dividem nada? — Ah olhei pasma.
— Oh não… Não é isso, é só…
— Não importa — disse me cortando — Vou te dar umas roupas que compro para levar para as crianças do orfanato, então… Vestido? — fiz careta.
— Não, uma roupa fechada, por favor, e se for preta melhor ainda — Ela assentiu e tirou dois saquinhos com roupas e me entrego.
—Você usa muito preto, não é? — perguntou voltado ao closet e tirando outro saquinho que pude ver, era de roupas intimas.
— Sim... O que é isso?
— Uma lingerie, eu comprei para a filha de uma amiga, mas como você precisa, aqui está… É um presente, e as roupas também — olhei para as roupas e depois para ela.
— Obrigada.
— Não precisa agradecer, apenas vá tomar um banho. O banheiro é ali, vou estar lá em baixo caso precise de algo — Assenti e caminhei ate o banheiro ao lado do closet.
— Oh. Meu. Deus. — Murmurei ao entrar. Tenho certeza que meus olhos brilharam ao ver aquela enorme e bela banheira. E ela estava a minha a disposição.
Sorri em entusiasmo e liguei a torneira para que enchesse banheira. Enquanto enchia dobrei o manto que estava usando para me cobrir e coloquei em cima do lavabo, soltei meu cabelo do coque e tirei minhas roupas, dobrando-as logo depois. Com a banheira cheia o suficiente, mordi os lábios com um sorriso e entrei.
Era literalmente um paraíso. Sabe quando você se imagina uma atriz famosa que tem tudo, e ainda mais? Pois é, eu estava me sentindo assim enquanto brincava com as bolhas de sabão que se espalhava pela água, onde afundei a cabeça varias vezes me sentindo mais leve do que nunca. A água ficou vermelha por conta do sangue, mas eu não me importei, pois aquele estava sendo definitivamente o banho mais divertido que já tomei em toda a minha vida.
~*~
Fale com o autor