— Mas por que você não tem mais aulas de Oclumência? — perguntou Hermione, enrugando a testa.

— Eu já falei— resmungou Harry. — Snape acha que posso continuar sozinho, agora que já aprendi o básico.

— Quer dizer que você parou de ter sonhos esquisitos? — perguntou Hermione, incrédula. Amélia, que estava sentada ao lado de Harry, revirou os olhos, mas não se deu o trabalho de parar de fazer o seu dever.

— Quase — respondeu Harry.

— Bom, acho que Snape não devia parar até você ter certeza absoluta de que é capaz de controlá-los! — disse Hermione, indignada. — Harry, acho que você devia voltar lá e pedir…

— Não — disse Harry enfaticamente. — Esquece, Hermione, o.k.?

Era o primeiro dia do feriado de Páscoa e Hermione passara uma grande parte do dia preparando os horários de revisão de todos, o que os garotos falaram ser algo habitual. Rony até se assustou quando descobriu que só faltava seis semanas para os exames.

— Como isso pode ser surpresa para você? — perguntou Hermione enquanto coloria cada quadradinho do horário de Rony com um toque de varinha de acordo com a disciplina.

— Não sei — comentou Rony -, tem acontecido muita coisa.

— Bom, terminei — disse ela, entregando-lhe o horário. — Se seguir o que está aí vai se dar bem.

Rony examinou o pergaminho deprimido, mas logo se animou.

— Você me deu uma noite de folga por semana!

— Para o treino de Quadribol.

O sorriso desapareceu do seu rosto.

— De que adiante? — disse desanimado. — A nossa chance de ganhar a Copa de Quadribol este ano é a mesma de papai virar ministro da Magia.

— Ei! — Amélia reclamou. — Se…

Mas Hermione não a deixou terminar de falar, ela agora olhava Harry, que estava imóvel a parede oposta da Sala Comunal enquanto Bichento dava patadinhas em sua mão pedindo para o garoto lhe coçar as orelhas.

— Que foi, Harry?

— Quê? — disse depressa. — Nada.

Ele apanhou seu exemplar de Teoria da Defesa em Magia e começou a ler -ou fingir. Bichento considerou-o um mau negócio e foi para o colo de Amélia, então teve que dividir carinho entre ele e Lucky.

— Vi Cho hoje cedo — disse Hermione. — Parecia muito infeliz, também... vocês brigaram outra vez?

— Qu... ah, foi, brigamos — disse Harry, parecendo agradecido no lugar de chateado.

— Por quê?

— Aquela dedo-duro amiga dela, a Marieta.

— É, bom, eu faria o mesmo! — disse Rony zangado, baixando o horário de revisões. — Se não fosse ela..

Rony saiu desfiando reclamações sobre Marieta Edgecombe, que Amélia achou bastante irritante, então voltou sua atenção para o livro de Transfiguração e a escrever seu resumo, mas logo se desconcentrei novamente, viu Jorge e Fred conversando do outro lado do Salão Comunal.

Sentia que as lembranças dos momentos que viveu junto a Jorge a devorariam por dentro. Teve tanta certeza de que iria ficar junto para o resto da vida, mas agora sabia que não era para ser, mesmo que ainda estivesse doendo.

E as provas estavam cada vez mais perto e junto com elas, seu nervosinho e ansiedade vinham junto, o que a deixa mais preocupada, não gostaria de se prejudicar por causa deles. Não poderia esquecer, é claro, da saudade que sentia dos pais que a sufocava cada vez mais, e com as férias chegando, tudo ficava ainda pior, como iria ser sua vida fora daquele castelo? Para onde iria? Será que Hermione poderia deixar que ficasse na casa dela por um tempo? Poderia pedir a Rony, mas achava que na sua casa não caberia mais ninguém, além de que havia Jorge, sabia que Harry, mesmo que quisesse, não poderia, por causa dos tios dele.

O tempo se tornou mais ventoso, claro e quente com a passagem das férias da Páscoa, mas Amélia e os demais alunos do quinto e do sétimo ano estavam prisioneiros, revisando as matérias, indo e voltando da biblioteca. A garota fingia que seu mau humor e desânimo não tinham outra causa senão a proximidade dos exames, e, como seus colegas da Grifinória também estavam fartos de estudar, a desculpa não era questionada.

Saiu do treino de Quadribol apressada, ultimamente nem eles estavam lhe deixando animada, além do mais sempre acontecia algo que deixa todos preocupados e nervosos ou alguém machucado, dessa vez foi André Kirke, havia se derrubado com o próprio bastão. Em todo caso, Amélia correu o Salão Comunal para pegar suas coisas e tomar um maravilhoso e relaxante banho e ir dormir.


Como se quisessem enfatizar a importância dos exames, agora próximos, um pacote de panfletos, folhetos e avisos, abordando as várias carreiras para bruxos, apareceu nas mesas da Torre da Grifinória pouco antes do término das férias, ao mesmo tempo que um aviso no quadro dizia o seguinte:

ORIENTAÇÃO VOCACIONAL

Todos os quintanistas deverão ter uma breve reunião com a diretora de sua Casa durante a primeira semana do trimestre de verão para discutir suas futuras carreiras. Os horários das consultas individuais estão listados abaixo.

Amélia correu os olhos pela lista e descobriu que era esperada na sala da Profª McGonagall às onze da manhã de segunda-feira, o que significaria perder a maior parte da aula de Poções. Ela e outros quintanistas passaram uma boa parte do último fim de semana das férias de Páscoa lendo todas as informações sobre carreiras que haviam sido deixadas em sua Casa.

— Bom, não estou interessado em ser Curandeiro — declarou Rony na última noite das férias. Lia concentrado um folheto que tinha na capa um osso e uma varinha cruzados, o emblema do St. Mungus. — Diz aqui que preciso no mínimo de um "E" nos N.O.M.s de Poções, Herbologia, Transfiguração, Feitiços e Defesa Contra as Artes das Trevas. Quero dizer... caracas... não estão querendo nada, não é?

— Bom, é uma profissão de muita responsabilidade, não acha? — falou Hermione distraída. Ela examinava atentamente um folheto rosa e laranja intitulado: "ENTÃO VOCÊ ACHA QUE GOSTARIA DE TRABALHAR EM RELAÇÕES COM OS TROUXAS?" — Parece que não é preciso muita qualificação para fazer a ligação com trouxas; só pedem um N.O.M. em Estudos dos Trouxas: Muito mais importante é o seu entusiasmo, paciência e um bom senso de humor!

— Você precisaria muito mais do que um bom senso de humor para fazer a ligação com o meu tio — comentou Harry sombriamente. — Bom senso para saber a hora de se proteger, o que é mais provável. — Ele estava na metade de um panfleto sobre o sistema bancário bruxo. — Escutem só isso: "Você está procurando uma carreira estimulante que oferece viagens, aventuras e substanciais abonos do tesouro para compensar os riscos? Então pense em trabalhar para o Banco Bruxo Gringotes, que no momento está recrutando desfazedores de feitiços para emocionantes cargos no exterior..." Mas exigem Aritmancia: você poderia se candidatar, Hermione! E você também, Mel!

— Não gosto muito de bancos — Amélia respondeu vagamente, estava absorta na leitura de: "VOCÊ TEM AS QUALIDADES NECESSÁRIAS PARA TREINAR TRASGOS DE SEGURANÇA?"

— Ei — alguém chamou e Lucky, que estava no colo da dona, levantou a cabeça com o rabo incrivelmente agitado. Curiosa, Amélia se virou: Fred e Jorge tinham ido se reunir a eles. — Gina nos deu uma palavrinha sobre você — disse Fred, esticando as pernas na mesa em frente e fazendo vários livretos sobre carreiras no Ministério da Magia escorregarem para o chão, Jorge olhou para Amélia e trocaram um meio sorriso, logo depois a garota abaixou a cabeça. — Ela diz que você precisa falar com Sirius?

— Quê? — disse Hermione na hora, parando no ar a mão que estendia para apanhar "ESTOURE NO DEPARTAMENTO DE ACIDENTES E CATÁSTROFES MÁGICAS".

— É... — disse Harry tentando parecer displicente — é, achei que gostaria…

— Não seja ridículo — disse Hermione, se levantando e encarando-o como se não conseguisse acreditar no que ouvia. — Com a Umbridge metendo a mão nas lareiras e revistando as corujas?

— Bom, achamos que podemos contornar isso — disse Jorge, se espreguiçando sorridente e virando para Harry. — Basta simplesmente promover uma distração. Ora, você talvez tenha notado que andamos muito quietos no front do caos nas férias de Páscoa?

— De que adiantava, nós nos perguntamos, estragar a temporada de lazer? — continuou Fred. — De nada, respondemos. E, naturalmente, estaríamos também atrapalhando as revisões dos colegas, o que seria a última coisa que íamos querer fazer.

Fred sacudiu a cabeça fazendo cara de santo para Hermione. Assim como Amélia, ela ficou bastante surpresa com a sua consideração.

— Mas amanhã recomeçamos vida normal — continuou ele animado. — E, se vamos causar um certo tumulto, por que não fazer isso de modo que Harry possa bater um papo com o Sirius?

— Sei, mas ainda assim — falou Hermione, com ar de quem explica uma coisa muito simples a alguém muito obtuso — mesmo que vocês promovam uma distração, como é que Harry vai falar com o padrinho?

— Na sala da Umbridge — disse Harry baixinho.

Parecia ter andado pensando nisso há algum tempo.

— Você... enlouqueceu? — exclamou Hermione num sussurro.

Rony baixara o folheto sobre carreiras no Comércio de Fungos Cultivados, e observava a conversa desconfiado, Amélia apenas fingia ler um panfleto qualquer sobre ser um comerciante, mas ouvia tudo.

— Acho que não — respondeu Harry, sacudindo os ombros.

— E como é que você vai chegar lá, para começar?

Harry parecia preparado para a pergunta.

— O canivete de Sírius.

— Como?

— No Natal do ano retrasado Sirius me deu um canivete que abre qualquer fechadura — explicou Harry. — Então, mesmo que a Umbridge tenha enfeitiçado a porta, o que aposto que fez, um Alorromora não vai adiantar…

— Que é que você acha? — perguntou Hermione a Amélia.

— Eu? — levantou a cabeça assustada e todos olhavam para ela.

— Sim.

— Hermione, acho que Harry é grandinho o suficiente para fazer o que ele quiser — falou olhando para ela e virou para Harry -, assim como para enfrentar as consequências de seus atos — Jorge, observou pelo canto do olho, levantou uma sobrancelha e deu um leve sorriso antes de abaixar a cabeça de novo.

Ela bufou, mas não iria desistir tão fácil, então repetiu a pergunta a Rony.

— Não sei — disse Rony, assustado que alguém lhe pedisse para dar uma opinião. — Se é o que Harry quer fazer, ele é quem decide, não é?

— Você falou como um verdadeiro amigo e um autêntico Weasley — disse Fred, dando um forte tapa nas costas do irmão. — Certo, então. Estamos pensando em fazer isso amanhã, logo depois das aulas, porque causará maior impacto se todos estiverem nos corredores; Harry, vamos começar em algum ponto da ala leste para tirar a Umbridge imediatamente da sala; imagino que poderemos lhe garantir, o quê, uns vinte minutos? — perguntou olhando para Jorge.

— Fácil.

— Que tipo de distração vai ser? — Amélia perguntou diretamente a Jorge.

— Você verá, Mel — disse Jorge e depois piscou um dos olhos, enquanto se levantava com Fred. — Ou pelo menos verá se estiver andando pelo corredor do Gregório, o Lambe-botas amanhã por volta das cinco da tarde.


Amélia acordou muito cedo no dia seguinte, teve um pesadelo horrível. Seus pais olhavam diretamente para ela no corpo de outra pessoa, os dois sem varinhas, abraçados na mira da varinha que a garota segurava. Era a quarta vez que tinha aquele sonho e em todas as vezes, acordava com a luz verde que preenchia toda a sala.

Depois de abrir os olhos, continuou na cama por mais algum tempo, tentando fazer o coração voltar a bater no seu ritmo normal, quando enfim conseguiu levantou sem fazer barulho, foi até a janela ao lado da cama e contemplou a manhã realmente gloriosa. O céu estava azul-claro, enevoado, opalescente, ficou observando os jardins quando uma coisa chamou a sua atenção: um movimento na orla da Floresta Proibida. Apertou os olhos contra a claridade do sol e viu Hagrid saindo de entre as árvores. Parecia mancar. Enquanto observava preocupada, ele cambaleou até a porta da cabana e desapareceu em seu interior. Amélia continuou a observar a cabana durante vários minutos. Hagrid não reapareceu, mas saiu uma espiral de fumaça de sua chaminé, o que indicava que não poderia estar tão machucado que não fosse capaz de acender o fogão, então a garota ficou mais aliviada.

Afastou-se da janela, voltou para o seu malão e começou a me vestir. Ante a perspectiva de Harry forçando a porta da sala de Umbridge para entrar, não esperava que o dia fosse tranquilo, mas não levará em conta as quase contínuas tentativas de Hermione de dissuadir Harry do que pretendia fazer às cinco horas. Pela primeira vez, ela estava, no mínimo, tão desatenta ao que o Prof. Binns dizia em História da Magia quanto Harry e Rony, não parando de cochichar recomendações que Amélia teve que fazer grande esforço para continuar com sua atenção para a aula.

— ... e se ela apanhar você lá dentro, além de expulsá-lo, poderá concluir que você andou falando com Snuffles, e, desta vez, imagino que o forçará a beber a Poção da Verdade e a responder às perguntas dela…

— Hermione — disse Rony em voz baixa e indignada — você vai parar de brigar com o Harry e escutar o que o Binns diz ou vou ter de copiar as anotações de Amélia?

— Faça você as anotações para variar, não vai morrer por isso! — Amélia cochichou.

Na altura em que chegaram às masmorras, nem Amélia, Harry ou Rony estavam falando com Hermione. Sem se importar, ela se aproveitou do silêncio para manter um fluxo ininterrupto de sérios alertas, falando em voz baixa e sibilando com veemência, mas Amélia deu graças a Merlin por ter se lembrado da orientação vocacional com a Profª McGonagall.

— Desculpe, professora — falou, fechando a porta.

— Não tem importância, Belmont.

Mas, quando falou, alguém fungou a um canto. A Profa. Umbridge se achava sentada ali, com a prancheta sobre os joelhos, um babadinho exagerado em torno do pescoço e um sorrisinho medonho no rosto.

— Sente-se, Belmont — disse a Profª McGonagall secamente.

Suas mãos tremiam um pouco enquanto rearrumava os muitos panfletos que se amontoavam em sua mesa. Amélia sentou de costas para a Umbridge e fez o possível para fingir que não a ouvia arranhando a pena na prancheta.

— Bom, Belmont, esta reunião é para discutirmos as ideias sobre carreiras que você já tenha, e ajudá-la a decidir que disciplinas você deve fazer no sexto e sétimo anos — começou McGonagall. — Você já pensou no que gostaria de fazer quando terminasse Hogwarts?

— Ah…

Amélia estava achando aquele ruído da pena arranhando o papel muito incômodo.

— Sim? — incentivou a professora.

— Bom, eu gostaria muito em escrever um livro, sabe? Mas como é uma área arriscada e difícil, pensei, talvez, em ser auror — murmurou.

— Você precisaria de notas excelentes para isso — disse a Profª McGonagall, puxando uma folhinha escura de baixo dos papéis em sua mesa e abrindo-a. — Exige-se um mínimo de cinco N.I.E.M.s, e nenhuma nota abaixo de "Excepcional", pelo que vejo. Depois você teria de passar por uma série de testes rigorosos de caráter e aptidão, na Seção de Aurores. É uma carreira difícil, Belmont, em que somente se aceitam os melhores. De fato, não me lembro de terem aceito ninguém nos últimos três anos.

Neste momento, a diretora deu um pigarrinho, como se estivesse experimentando para ver se era possível dá-lo bem baixo. McGonagall ignorou-a.

— Suponho que queira saber que disciplinas precisará estudar, não? — continuou a professora elevando um pouco a voz.

— Na verdade, eu sei de algumas. — Amélia falou, um pouco mais animada. — Mas gostaria de saber das outras.

— Vejo que pesquisou, senhorita — disse a Profª McGonagall com vivacidade. — Eu aconselharia…

A diretora tossiu outra vez, mais audivelmente agora. McGonagall fechou os olhos um instante, reabriu-os e continuou como se nada tivesse acontecido.

— Eu aconselharia Defesa Contra as Artes das Trevas, naturalmente, Transfiguração também, porque os aurores muitas vezes precisam se transfigurar e destransfigurar em seu trabalho. E devo preveni-la, Belmont, que não aceito alunos nas minhas turmas de N.I.E.M que não tenham obtido "Excede as Expectativas" ou notas mais altas no N.O.M, mesmo que sua média seja "Ótimo" no momento, irá ter que se esforçar para continuar assim. Depois, terá de estudar Feitiços, sempre útil, e Poções — acrescentou. — Venenos e antídotos são disciplinas essenciais para os aurores. E devo lhe dizer que o Prof. Snape absolutamente se recusa a aceitar alunos que não tenham obtido "Excepcional" nos N.O.M.s, portanto…

A diretora deu a tossida mais forte até aquele momento.

— Posso lhe oferecer uma pastilha para tosse, Dolores? — perguntou McGonagall, secamente, sem olhá-la.

— Ah, não, muito obrigada — disse Umbridge com aquele sorrisinho afetado que todos tanto odiavam. — Estive pensando, será que posso fazer uma mínima interrupçãozinha, Minerva?

— Acho que você vai descobrir que pode — disse a Profª McGonagall por entre os dentes cerrados.

— Eu estava me perguntando se a Srta. Belmont tem o temperamento adequado e as companhias certas para ser auror — disse meigamente.

— Estava é? — disse a Profª McGonagall insolente. — Bom, Belmont — continuou, como se não tivesse havido interrupção — se a sua ambição é séria, eu a aconselharia a dedicar as revisões, principalmente, para que suas notas permaneçam "Ótimas". Em Transfiguração e Poções você tem uma facilidade impressionante. Vejo que o Prof. Flitwick concorda com minha opinião. Quanto à Defesa Contra as Artes das Trevas, mais que impressionantes, devo dizer, o Prof. Lupin particularmente achou você... tem certeza de que não gostaria de uma pastilha para tosse, Dolores?

— Ah, não precisa, muito obrigada, Minerva — disse sorrindo afetadamente, acabará de tossir ainda mais alto que das últimas vezes. — Estava preocupada que você talvez não tivesse as notas mais recentes de Belmont em Defesa Contra as Artes das Trevas. Tenho quase certeza de que incluí um bilhete.

— O quê, essa coisa? — perguntou McGonagall num tom de repugnância, puxando uma folha de pergaminho cor-de-rosa da pasta da aula. Ela a leu, as sobrancelhas ligeiramente erguidas, e em seguida tornou a guardá-la na pasta, sem fazer comentários.

— Bom, como eu ia dizendo, Belmont, o Prof. Lupin achou que você demonstrava uma acentuada aptidão para a disciplina e, obviamente, para ser auror…

— Você entendeu o meu bilhete, Minerva? — perguntou Umbridge docemente, esquecendo de tossir.

— Claro que entendi — respondeu McGonagall, com os dentes tão cerrados que as palavras saíram um pouco abafadas.

— Bom, então, estou confusa... Receio não entender como é que você pode dar a Srta. Belmont a falsa esperança de que…

— Falsa esperança? — repetiu a Profª McGonagall, ainda se recusando a olhar para a outra. — Ela obteve uma das notas mais altas em todos os exames de Defesa Contra as Artes das Trevas…

— Sinto muito ter de contradizê-la, Minerva, mas, como pode ver no meu bilhete, Belmont tem obtido resultados muito fracos nas minhas aulas…

— Eu devia ter falado com mais clareza — retrucou a Profª McGonagall, finalmente se virando para encarar Umbridge nos olhos. — Ela obteve uma das notas mais altas em todos os exames de Defesa Contra as Artes das Trevas aplicados por um professor competente.

O sorriso de Umbridge desapareceu com a mesma rapidez de uma lâmpada queimando e o de Amélia apareceu tão rápido quanto, não conseguia acreditar que estava vendo aquela cena de camarote. Ela se recostou na cadeira, virou uma folha na prancheta e começou a escrever realmente muito depressa, seus olhos saltados correndo de um lado para o outro. A Profª McGonagall tornou a se voltar para a garota, suas narinas estreitas arreganhadas, seus olhos em chamas.

— Alguma pergunta, Belmont?

— Sim. Que tipo de testes de caráter e aptidão o Ministério aplica no candidato, se ele tiver N.O.M.s suficientes?

— Bom, você precisará demonstrar capacidade de reagir bem às pressões, perseverança e dedicação, porque o treinamento para auror leva mais três anos, para não falar na habilidade excepcional em defesa prática. Significará muito estudo mesmo depois de ter terminado a escola, mas não vejo que não é problema para a senhorita, já que vive…

— Acho que você também descobrirá — disse Umbridge, a voz muito fria agora — que o Ministério examina a ficha dos que se candidatam a auror, além das fichas dos amigos. A ficha policial.

— ...estudando com a senhorita Granger…

— O que significa que esta garota tem tanta chance de se tornar auror quanto Dumbledore de algum dia voltar a esta escola.

— Então, é uma ótima chance.

— Ela anda com criminosos de todo tipo — disse Umbridge alto.

— Alguns foram absolvidos de todas as acusações — disse McGonagall ainda mais alto. E então Amélia não sabia mais se estavam brigando por ela, por Harry ou por causa de suas diferenças.

A Profª Umbridge se levantou. Era tão baixa que isso não fazia muita diferença, mas sua atitude meticulosa e afetada cederá lugar a uma fúria implacável que fazia seu rosto largo e flácido parecer estranhamente sinistro.

A Profª McGonagall se levantou também, e, no seu caso, o movimento foi muito mais impressionante; era bem mais alta que a outra.

— Belmont — disse em tom retumbante — eu a ajudarei a se tornar auror nem que seja a última coisa que eu faça na vida!

— O ministro da Magia jamais empregará uma amiga de Harry Potter! — exclamou Umbridge, sua voz se elevando furiosa.

— Poderá muito bem haver um novo ministro da Magia até Belmont estar pronta para se candidatar! — gritou a Profª McGonagall.

— Aha! — berrou a Profª Umbridge apontando o dedo curto e grosso para a colega. — Éééééé! Com certeza! Isso é o que você quer, não é, Minerva McGonagall? Você quer ver Cornélio Fudge substituído por Alvo Dumbledore! Você pensa que chegará aonde estou, não é: subsecretária sênior do ministro e diretora também!

— Você está delirando — respondeu McGonagall, soberbamente desdenhosa. — Belmont, terminamos a nossa orientação vocacional.

Amélia jogou a mochila sobre o ombro e precipitou-se para fora da sala, sem se atrever a olhar para a diretora. Ainda podia ouvir as duas continuarem a gritar uma com a outra por todo o corredor.

A Profa. Umbridge parecia ainda mais nervosa quando entrou na aula de Defesa Contra as Artes das Trevas naquela tarde, respirava como se tivesse participado de uma corrida.

— Espero que você tenha pensado duas vezes sobre o que está planejando fazer, Harry — sussurrou Hermione, no momento em que abriram os livros no capítulo trinta e quatro, "Não-retaliação e negociação". — Umbridge parece que já está bastante mal-humorada…

De vez em quando Umbridge lançava olhares incandescentes a Amélia e Harry, que mantinha a cabeça baixa e os olhos desfocados na Teoria da defesa em magia, então a garota imaginou que se com ela havia sido aquela guerra, com Harry teria sido ainda pior, o que provavelmente o estava fazendo repensar no que Hermione andava lhe falando…

Podia bem imaginar a reação da Profª McGonagall se ele fosse apanhado invadindo a sala da Umbridge…

— Dumbledore se sacrificou para mantê-lo na escola, Harry! — sussurrou Hermione, erguendo o livro para esconder o rosto da Umbridge. — E se você for expulso hoje, ele terá se sacrificado em vão!

Amélia revirou os olhos, como se ela não soubesse que já o havia deixado bastante confuso. Não que ele não estivesse antes, mas agora parecia a beira de um surto.

— Harry, não faça isso, por favor não faça! — disse Hermione em tom aflito quando a sineta tocou ao fim da aula.

Estava na cara que ele não sabia o que fazer. Rony parecia decidido a não dar opinião nem conselho, assim como Amélia que não queria olhar para o amigo, embora, quando Hermione abriu a boca para retomar a tentativa de dissuadir Harry, Amélia falou em voz baixa, mas de modo que todos os outros três pudessem a ouvir.

— Dá um tempo, o.k.? Ele sabe decidir sozinho.

Estavam na metade do corredor quando ouviram o inconfundível barulho da distração começando ao longe. Havia gritos e berros ecoando em algum lugar acima; gente que saía das salas ao redor dos quatro parava de chofre e olhava para o teto com medo…

Umbridge precipitou-se da sala de aula o mais rápido que suas pernas curtas podiam levá-la. Puxando a varinha, correu na direção contrária: era agora ou nunca.

— Harry... por favor! — pediu Hermione sem ânimo.

Mas ele visivelmente se decidira; prendendo a mochila com mais firmeza no ombro, saiu correndo, desviando-se dos estudantes que agora corriam em direção oposta para ver qual era a confusão na ala leste.

Amélia olhou para os dois na sua frente e correram para se misturarem na multidão para não chamar a atenção, foram na direção do barulho e chegaram bem a tempo de ver Fred e Jorge sendo pegos pela diretora e serem arrastados até o Saguão de Entrada, cochichou algo para Filch que saiu correndo pela escada de mármore, assustada, Amélia cutucou Hermione que lhe lançou um olhar preocupado.

Era igual à noite em que Trelawney fora demitida. Os estudantes estavam parados junto às paredes formando um grande círculo (alguns deles, Amélia reparou, cobertos de uma substância que parecia palha-fede); professores e fantasmas também faziam parte da multidão. Destacavam-se entre eles os membros da Brigada Inquisitorial, todos parecendo excepcionalmente satisfeitos, e Pirraça, que flutuava no alto, observava Fred e Jorge no meio do saguão com o ar inconfundível de pessoas que acabavam de ser encurraladas.

Amélia passou os olhos pela multidão e conseguiu encontrar os olhares de Lisa e Benjamin lhe perguntando o que tava acontecendo, negou com a cabeça, depois viu Alex que olhava a prima enquanto falava algo para a namorada. Passou os olhos pelo Saguão novamente e pode ver Harry alguns degraus acima da diretora, contemplando do alto a multidão.

— Então! — disse Umbridge triunfalmente, contemplando do alto suas presas. — Então... vocês acham divertido transformar o corredor da escola em um pântano?

— Achei bastante divertido — respondeu Fred, encarando-a sem o menor sinal de medo, e Amélia, mesmo que apavorada e o achando idiota, sentiu orgulho dele.

Filch abriu caminho para se aproximar de Umbridge, quase chorando de felicidade.

— Apanhei o documento, diretora — disse rouco, acenando um pergaminho. — Tenho o documento e tenho as chibatas prontas... ah... me deixe fazer isso agora…

— Muito bem, Argo. Vocês dois — continuou ela, olhando para Fred e Jorge — vocês vão aprender o que acontece com malfeitores na minha escola.

— A senhora sabe de uma coisa? — disse Fred. — Acho que não vamos não.

Ele se virou para o irmão.

— Jorge, acho que já passamos da idade de receber educação em tempo integral.

— É, tenho sentido isso também — comentou Jorge alegremente. — Está na hora de testarmos os nossos talentos no mundo real, você não acha?

— Decididamente.

E, antes que Umbridge dissesse uma palavra, eles ergueram as varinhas e falaram juntos:

— Accio vassouras!

Qualquer pessoa daquele lugar, e provavelmente em todo o castelo, pode ouvir um estrondo ao longe. Olhando para a esquerda, Amélia pode ver Harry abaixar bem em tempo. As vassouras de Fred e Jorge, uma delas ainda arrastando a pesada corrente e o gancho de ferro com que Umbridge as pregara na parede, voaram velozes ao encontro dos seus donos; viraram à esquerda e pararam bruscamente diante dos gêmeos, a corrente batendo com estrépito no chão lajeado.

— Não a veremos mais — disse Fred à Umbridge, passando a perna por cima da vassoura.

— É, e não precisa mandar notícias — disse Jorge, montando a própria vassoura.

Fred correu o olhar pelos estudantes reunidos, para a multidão que assistia silenciosa à cena.

— Se alguém tiver vontade de comprar um Pântano Portátil, conforme demonstramos lá em cima, pode nos procurar no Beco Diagonal, número noventa e três: Gemialidades Weasley— disse em voz alta. — Nossas novas instalações!

— Descontos especiais para os alunos de Hogwarts que jurarem que vão usar os nossos produtos para se livrar dessa morcega velha — acrescentou Jorge, apontando para a Umbridge, e Amélia se segurou para não sorrir.

— IMPEÇA-OS! — gritou Umbridge, mas tarde demais.

Quando a Brigada Inquisitorial se aproximou, Fred e Jorge deram impulso no chão e se projetaram quase cinco metros no ar, o gancho de ferro balançando perigosamente embaixo. Fred olhou para o poltergeist que flutuava do outro lado do saguão no mesmo nível que os gêmeos acima da multidão.

— Infernize ela por nós, Pirraça.

E Pirraça, que ninguém nunca vira obedecer ordem de nenhum estudante antes, tirou o chapéu em forma de sino que usava e saudou os garotos, ao mesmo tempo que Fred e Jorge faziam a volta sob os aplausos dos estudantes e saíam em alta velocidade pelas portas de entrada abertas para um glorioso pôr-do-sol.