Believe - Heiress of Death
3 Capítulo Dois - Loucura ou Desejo?
Notas iniciais
Não lembro bem de como cheguei à biblioteca, mas cheguei. Foi só então que me dei conta de que deixara o livro dentro do carro da minha mãe, decidindo pegar apenas o celular, que agora fazia volume no bolso da calça jeans. Sentei na escadaria da biblioteca na esperança de que ela não demorasse.
Juntei as pernas e apoiei a testa nos joelhos, tentando manter a calma. A última coisa que eu precisava era deixar o nervoso me dominar a ponto de ficar enjoada, mas meu coração estava acelerado e meu estômago revirado.
Minha mente voava de volta ao colégio, tentando entender o que tinha visto e ligar aquilo com os acontecimentos anteriores. O garoto era exatamente como os outros que eu via, assim como Charles: quase totalmente transparente, com o dom de aparecer e sumir quando bem queria. Me sentia cada vez mais confusa enquanto tentava encontrar respostas.
Perdi a noção do tempo, que não deve ter sido muito, quando uma buzina me despertou. Levantei o rosto e deparei com a minha mãe acenando de dentro do carro. De um salto me pus de pé e segui até lá.
– Olá, querida. Esperando há muito tempo?
– Acabei de chegar, na verdade. – Pensei se deveria contar o que acontecera. Era melhor não. Nunca comentei com ela que algumas vezes vira Chuck me observar.
Não estava sendo fácil para ela lidar com a morte do filho, imagina se descobrisse que a filha começava a enlouquecer. Elizabeth Miller sempre fora uma mulher guerreira, trabalhou duro para ser uma grande advogada familiar. Era reconhecida graças ao seu esforço. Depois de casar com meu pai, passou a usar o sobrenome Davis e essa foi a única mudança. Com relação à personalidade e forma de viver, nada havia realmente mudado. Minha mãe não era exatamente o estilo dona de casa, ainda que gostasse de cuidar de suas flores e nunca deixasse nada sair do controle em seu lar. Era forte e tinha muita personalidade. Não era de abaixar a cabeça para nada, ainda que sempre se dedicasse a ouvir e entender todos os lados da história. Elizabeth era uma mulher justa, sempre.
Coloquei o braço para dentro da janela que estava aberta e alcancei o livro no banco do carona.
– Só vou devolver, não demoro.
– Tente não se perder entre as estantes! – gritou.
Sorri. Minha mãe conhecia bem minha paixão por livros. Era sempre difícil resistir a eles. Nos últimos meses, a biblioteca se tornara ainda mais o meu refúgio, tornando-se um dos poucos lugares que me sentia bem sozinha. Podia me perder em histórias ao lado dos personagens, viver outras vidas e esquecer um pouco da minha. Me proporcionava conforto, ainda que por um breve momento.
Algumas horas mais tarde, depois de um maravilhoso banho quente, uma janta de comida congelada e da louça lavada, subi para o quarto com a desculpa de que precisava ligar para Mandy e marcar um horário para o dia seguinte.
Mas não foi o que eu fiz.
Sentei na cadeira, puxando-a para frente e abri o notebook sobre a mesa do quarto. Tamborilei os dedos com ansiedade enquanto o esperava ligar. Abri na página do melhor buscador e digitei: verdades e mitos sobre fantasmas.
É aqui que você pensa: “Ok, Angelique, você está mesmo ficando louca.” Provavelmente eu estava. Mas não ia conseguir passar a noite sem pelo menos tentar entender alguma coisa. Chuck provavelmente iria tirar sarro de mim ou fazer alguma piada irritante como, “quer dizer que você é o anjo da morte?”.
Suspirei. Quase podia senti-lo atrás de mim.
Diversas páginas falavam sobre várias histórias e formas diferentes de fantasmas. Palavras como alma, espírito e vida após a morte apareciam diversas vezes, só que a maioria parecia um monte de mentira. Nenhuma parecia ter uma explicação razoável para o que acontecia comigo. O mais próximo que encontrei me lembrou Harry Potter: pessoas que passavam por experiências de quase morte ou que presenciaram uma morte, seriam capazes de ver o que outros não viam. Imaginei a Luna Lovegood dizendo que eu era tão normal quanto ela e tive que rir.
Suspirei fechando o navegador. Definitivamente, eu estava ficando louca e tinha mais o que fazer do que dar asas à imaginação.
Coloquei uma playlist já salva das minhas músicas preferidas e aumentei o volume. Abri o armário e, quando comecei a passar as roupas, tentando decidir o que usar no dia seguinte, ouvi uma batida na porta que estava entreaberta.
Minha mãe se encontrava parada no portal com duas sacolas nas mãos e um sorriso tímido. Abaixei o som, deixando apenas um ruído no fundo.
– Decidindo o que usar amanhã? – Nem mesmo me deu tempo para responder e continuou. – Pode parar. Já tenho tudo aqui.
Seu sorriso foi ficando mais animado enquanto balançava as sacolas em minha direção.
– Mãe, eu não vou usar um vestido estilo princesa, nem adianta! Não é nem mesmo um baile, apenas um evento.
– O que eu faço com você? – Perguntou, revirando os olhos. – Não é nada princesa.
Elizabeth entrou no quarto e largou as sacolas em cima da cama.
Muitos diziam que me parecia com ela. Os mesmos cabelos escuros, o mesmo formato do rosto. Eu não acreditava nisso. Ela era linda e eu não. Além disso, podia vestir um macacão sujo de terra, como fazia quando ia cuidar do jardim, ou roupas e vestidos sociais, como quando ia trabalhar, que ficava linda. Eu ficaria ridícula em qualquer um dos dois. Sua altura, acima da média das mulheres, ajudava muito quando precisava se impor. Seu corpo era bem cuidado assim como a pele naturalmente hidratada. Jamais aparentavam ter mais de 33 anos. Normalmente usava apenas um pouco do cabelo preso, deixando o resto cair em perfeitas ondas.
– Fiz uma escolha mais a sua cara dessa vez. Confie em mim.
Suspirei, algo que andava fazendo muito. Não era um pedido fácil quando estava relacionado a roupas, mas não adiantava discutir. Sentei na ponta da cama.
– Tudo bem. Vamos ver o que tem ai.
Ela bateu palmas algumas vezes, tão animada que estava, e começou a abrir a primeira sacola. Era difícil resistir aquela empolgação. Nos últimos meses era bem difícil encontra-la assim, então eu devia deixar aquilo durar o máximo que podia.
– Primeiro você coloca isso... – Ela retirou uma meia calça preta da sacola. Era relativamente mais grossa que o normal e lisa. Franzi o cenho. – E depois isso... – Então tirou mais uma coisa da sacola.
– Oh.
Não consegui dizer mais nada sem entregar que havia gostado.
– Não é lindo? – Perguntou, levantando um vestido na minha frente.
O pior é que a resposta era sim. Tratava-se de um vestido xadrez vermelho e preto, tomara que caia (isso poderia ser um problema). Ia justo até a cintura e então a saia abria, levemente rodada, até o meio da coxa. Por baixo, um centímetro de renda preta ficava visível, dando um ótimo acabamento.
– Uau, mãe! Ele é realmente lindo! – Sério, eu disse isso sobre um vestido?
– Sabia que ia gostar! – Deixou-o sobre a cama e estendi a mão puxando-o para examinar melhor. – E antes que reclame da falta de alças. Você também pode colocar isso. – Estendeu algo preto, dobrado.
Desdobrei para descobrir que era jaqueta de couro preta, com a manga que ia até a altura do cotovelo.
– Assim é melhor... – Tentei não parecer tão empolgada quanto começara a me sentir.
– E para que não pense em ir com seu coturno horrível, também tem isso. – Ela retirou uma caixa de dentro da última sacola e a abriu. Levantou então um par de lindas botas pretas de cano alto e com um salto baixo, apenas para dar um toque extra.
– Ok, porque tudo isso? Eu fui eleita presidente e não sabia? – Perguntei, virando-me para ela.
Ela abriu um sorriso encantador e sentou ao meu lado na cama.
– Só queria te agradar. Você merece depois de tanto trabalho e depois de tudo que aconteceu nos últimos meses... – Aproximando o rosto do meu, me beijou na testa. – Você não tem culpa, precisa aceitar isso. Charles ia querer que se divertisse dessa vez.
Fiz uma careta. Era difícil manter o controle das minhas emoções quando os olhos dela começavam a brilhar de lágrimas. Sempre que falava de Charles seus olhos ficavam tristes, era incontrolável, eu sabia disso, ainda assim, bem difícil de lidar.
– Eu não sei... Mas obrigada, de qualquer forma. Realmente gostei. – Consegui pelo menos sorrir.
– Muito bem, já é um começo. – Respondeu, sacudindo delicadamente o rosto para afastar as lágrimas... – Você vai arrasar amanhã, minha princesa Angelique.
– Ah, mãe. Pare com isso. – Resmunguei. Desde sempre ela me chamava assim. Mas quando se está com 17 anos isso começa a ficar chato. Ela apenas riu e desejando boa noite, saiu do quarto.
Respirei fundo e levantei da cama olhando para meus presentes. Chuck provavelmente seria o escalado para me levar a festa. Papai estava sempre ocupado com suas provas a serem corrigidas.
Há dias que não me permitia chorar, mas nesse momento foi inevitável. Meus olhos foram para o painel pendurado na parede cheio de fotos. Meus pais estavam em algumas, mas a maioria era ao lado de Chuck ou Mandy. Passeios do colégio, em família, momentos com as pessoas que eu mais amava e que agora traziam lembranças dolorosas.
– Você pode não gostar da ideia, mas a mamãe tem razão. Você ficará linda e precisa se divertir, Angel.
Virei de um salto. Parado ao lado da janela estava Chuck, me olhando com carinho e um sorriso de covinhas.
Eu tinha tanto a falar, tanto a perguntar... Mas pera aí. Ele não podia ser real!
Como se pudesse ouvir meus pensamentos, além de simplesmente aparecer depois de estar morto, ele riu e piscou, desaparecendo logo em seguida.
Demorei horas para conseguir dormir, como era de se esperar. Meus pensamentos estavam a mil. Por um lado eu acreditava que estava ficando louca. Qual seria a outra explicação? Talvez uma dose de tratamento pudesse fazer tudo aquilo desaparecer. O problema era que não tinha certeza se era isso que queria.
Por mais assustador que fosse ainda tinha algo bom em ver Charles. Era meu irmão, sempre fomos muito unidos. Brigas e brincadeiras e a irritante forma dele me chamar de Angel/Anjo... Eu sentia muito a falta dele. Uma vez li em algum lugar que a mente pode nos pregar peças ou fazer com que de alguma forma tenhamos o que mais desejamos.
Poderia ser isso? A saudade, o desejo de ver o meu irmão e de pedir desculpas por tudo que eu provocara, me fazia vê-lo?
Só que tinha uma falha nisso: não explicava o fato de ver outros mortos, porque só podia se tratar de mortos.
Em algum momento entre as teorias cada vez mais ilógicas e as lágrimas, o sono chegou como um salvador. Precisava descansar ou a confraternização do dia seguinte seria ainda mais desastrosa.
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