Believe - Heiress of Death
11 Capítulo Dez - Contos de terror ou histórias reais?
Notas iniciais
O café local era um ótimo lugar para passar o tempo com os amigos. Diversos grupinhos, de estudantes a empresários, costumavam se reunir por lá em qualquer hora do dia. O ambiente era bem decorado de forma moderna, mas aconchegante. Bem colorido, com poltronas confortáveis e o delicioso aroma de café, se tornava irresistível para qualquer um.
Escolhemos uma das ótimas mesas ao fundo. Era redonda e com poltronas confortáveis. Os pedidos foram atendidos com rapidez, para a gratidão de uma Mandy esfomeada, que logo se pôs a devorar um dos três cupcakes que havia pedido.
Bebi um gole do meu cappuccino preferido, saboreando o creme de cima com os pensamentos longe. A descoberta sobre uma parte da vida de Nathan e a última conversa ainda martelavam em minha cabeça.
– O que acha, Angelique?
– Hum...? O que acho o que?
Friedrich havia perguntado alguma coisa, mas visivelmente eu não prestara atenção.
– Bem vindo a minha vida, Fred. Logo vai ver como é difícil manter essa gata ligada o tempo inteiro.
Limitei-me e fazer cara feia para ela, enquanto Fred ria divertido com mais uma de nossas briguinhas bobas.
– Eu me ofereci para ajudá-las no jornal. Não tenho muita experiência no assunto, mas entendo de esporte. Poderia ajudar a cobrir as competições do colégio. – Repetiu ele, com toda atenção.
– É claro, acho uma ótima ideia, Fred! – Respondi com sinceridade. Esportes não eram o meu forte e nem mesmo de Mandy, diga-se de passagem. – Sua ajuda será muito bem-vinda.
– Hum, também acho! – Completou ela, terminando de engolir mais um pedaço de seu bolinho.
Não pude deixar de rir com a empolgação que demonstrava. Para ela, nada como ficar mais algumas horas ao lado de Friedrich, imaginei.
– Valeu a recepção então, garotas. Parece que a seleção começa na semana que vem. Já vou procurar mais sobre o assunto com o professor de educação física, ficar por dentro e mantenho vocês informadas.
– Perfeito para mim. Normalmente vamos para a sala do jornal segundas e quartas, assim temos tempo para preparar tudo, já que as edições saem na quartas e sextas. – Informei, fazendo uma breve pausa para mais um gole de cappuccino. – Mas se precisar de alguma coisa antes, é só falar com a gente. Farei uma chave da sala para deixar com você também.
A partir daí a conversa só foi melhorando. Fred era realmente um cara legal e parecia se entender bem com Mandy, o que era ótimo. Minha melhor amiga era incrível, apenas um pouco... Difícil de lidar em alguns momentos.
Por uma hora foi até fácil me manter ligada na conversa, para surpresa de Amanda. Talvez eu continuasse ligada se não fosse alguém acenando da porta do café, tentando chamar a minha atenção.
Era uma garotinha, por volta dos sete anos, vestida como uma boneca antiga. Seus cabelos loiros caiam em cachos, mas estavam marcados em alguns pontos, parecendo que tinha se revoltado com um penteado que incomodava e arrancado os grampos de qualquer jeito. Seu vestido era rodado, cheio de babados e, como era o nome daquilo... Anáguas? Fazia um grande volume debaixo da saia, com a ideia de aumenta-la. Me parecia demais para uma criança.
Ela parecia nervosa, acenava como se desejasse que eu fosse até ela e batia os pés de frustração. Bem, ela não parecia ter atitudes de uma boneca.
Respirei fundo. Mandy provavelmente iria me matar por sair assim, mas eu não tinha muita alternativa. A menina não estava com cara de que iria desistir.
– Pessoal, eu tenho que ir. Acabei de me lembrar que preciso renovar a data de entrega de um livro, lá na biblioteca.
– Serio, Davis? Você sempre tem que ir a biblioteca, devia morar lá de uma vez. – Cruzou os braços, apoiado as costas na poltrona de cara emburrada.
– Eu sei... Eu sei... Me desculpe. Encontro vocês mais tarde. Fred, cuide dela por mim. – Virei para Mandy, piscando. Pude notar que ela se segura para não rir satisfeita.
– Deixa comigo.
Peguei a mochila ao lado da poltrona e fui em direção a porta, procurando a menina. Ela já estava na esquina, me chamando energeticamente.
– Ótimo! – Resmunguei, enquanto apertava os passos para segui-la.
Está certo, eu precisava começar a praticar exercícios. Depois de correr por cinco quarteirões eu estava completamente sem fôlego. Para completar, a menina sumira de vista.
Apoiei as mãos nos joelhos, com a mochila pesando toneladas em meus ombros, tentando controlar a respiração e acabar com as dores nas costelas. O suor escorria por meu rosto, uma gota fez meu olho arder.
– Que droga. – Sequei o rosto com as costas das mãos, me dando conta de onde estava. Era uma parte da cidade praticamente abandonada, esquecida por todos. Alguns arruaceiros e vândalos que se aproveitavam do lugar. Casas antigas estavam em ruínas, com pichações e lixos modernos e antigos misturados pelo chão.
Eu não costumava ser muito medrosa, mas aquele lugar me dava arrepios. É, eu falo com fantasmas e lugares abandonados que me dão arrepios. Vai entender.
Dei uma volta, olhando com atenção as casas e finalmente localizei a menina. Ela estava para de costas para mim, voltada para uma casa antiga que antes devia ser amarela com grandes janelas de madeira pintadas de branco. Engoli o medo e fui até ela.
– Olá? – Chamei, parada a alguns passos de distância.
– Você veio. Obrigada! – Fala com um sotaque diferente, com certa dificuldade. Parecia que aquele não era bem o dialeto dela. – Eu olhei você uns dias, sabia? Vi que podia me ver também. Ninguém nunca me vê. – Seus olhos eram tristes, distantes.
– Pois é, tem alguma coisa errada com a minha cabeça. – Ri sem humor, mas ela deu um sorriso divertido por poucos segundos, me deixando ver a menina linda e feliz que já devia ter sido.
– Eu vivia aqui com a minha família... Mas um dia, um monstro veio e depois tudo ficou escuro. – A voz da menina era tão dura, com tanta dor. Não era certo. Seus olhos percorriam a casa.
– Me diz o seu nome e me conte sua história. – Pedi da forma mais delicada que conseguia, inclinando levemente a cabeça para o lado.
– Meu nome é Maria Antonieta... Mas me pode me chamar de Mayita! E você, como se chama? – Vi um vestígio de sorriso.
– Angelique.
– Venha comigo, menina anjo... Eu vou te contar. – O jeito dela me surpreendeu, mas não pude resistir a mãozinha delicada e fria que segurou a minha, puxando-me em direção a casa.
A porta estava tombada para o lado, não foi difícil passar pela abertura, ainda que um tanto estreita. Só teria que explicar o arranhão nos meus braços.
Apesar da destruição e poeira do interior, meu queixo caiu. Depois de um hall de entrada, demos em uma sala enorme com uma escada luxuosa – ainda que acabada – e mais corredores. Devia ser uma linda casa. Não tive muito tempo para imaginar. Maria Antonieta me puxou escada acima.
– Eu dormia aqui. – Foi contando, logo que chegamos no segundo andar. Devia ser um quarto, mas a porta estava fechada. O corredor era longo e com muitas portas, mas a menina parou logo na segunda. – Aqui era o quarto dos meus pais, onde o monstro acabou com suas vidas.
Ok, eu não tinha mais vontade nenhuma de continuar a ouvir a história. Confesso, aquilo me dava calafrios como um filme de terror.
Com certo esforço, Mayita empurrou a porta que rangeu em protesto, dando espaço para que eu entrasse. Cruzei os braços, escondendo as mãos que tremiam e entrei, seguida de perto por ela.
O quarto era enorme, os poucos móveis que restavam estavam quebrados. Não devia haver nada inteiro no lugar. O que chamou a minha atenção foram as marcas escuras no chão. Com a curiosidade superando o medo, dei alguns passos, abaixando próximo a uma das marcas.
– Eles foram mortos bem aqui, Angelique. – Novamente a voz da menina estava cheia de dor. Eu ouvi os gritos, mas não pude fazer nada. Os monstros eram grandes e fortes. – Fantasmas podiam chorar? Parecia que ela ia cair em prantos enquanto abaixava ao meu lado, mas quando levantou o rosto novamente, estava séria. As mulheres de outras épocas eram educadas para serem duras e fortes quando se trava de sentimentos, não deviam demonstrar nada.
– Sinto... Sinto muito.
Nuca gostei dessas palavras. Na verdade, de nenhuma palavra dita diante da perda de alguém. Por experiência própria eu sabia que de nada adiantavam. A dor não passava, o medo não ia embora, a saudade não desaparecia. O que normalmente ajuda era um abraço, a certeza de que os outros amados não iriam sumir.
– Eu perdi meu irmão. Não tem muito tempo. – Agora eu que precisei de todas as forças para conter as lágrimas. A menina se aproximou de joelhos e, para minha grande surpresa, me abraçou.
Ainda que fosse fria, o abraço foi caloroso e agradável. Seus braços envolviam minha nuca enquanto seu rosto repousava na curva do meu pescoço. Podia sentir a inocência de uma criança, a pureza. Era estranho sentir isso mas parecia que tudo ficaria bem.
Ela me soltou do abraço, segurou minha mão e me fez levantar com ela, nos levando até o outro lado do quarto, onde as duas paredes se juntavam. Soltando a minha mão, abaixou ali no cantinho.
– O que está fazendo? – Ouvi barulho de madeira se soltando, mas o corpinho de Mayita não me deixava ver nada.
– Mamãe e papai sempre diziam que esse aqui o maior tesouro deles. Que se algo acontecesse, eu devia entregar a alguém de confiança. – respondeu a menina, enquanto levantava. Em suas mãos estava uma bela caixa de madeira com entalhes de flores, bem trabalha nos detalhes. Não era muita alta, mas comprida. Pude ver que fora tirada de um buraco na parede, tapado pela madeira do rodapé. – Quero que fique com ela, saberá o que fazer.
Minhas mãos tremiam, mas peguei a caixinha. O que fazia aquela menina confiar em mim? Eu não conseguia entender, ainda que me sentisse emocionada com aquilo.
– Prometo cuidar dela mas... O que tem aqui?
Ela sentou no chão, acenando para que eu fizesse o mesmo e abrisse a caixa. Depois que o fiz, não entendi metade de seu conteúdo. Pareciam registros, documentos. Um caderninho era uma espécie de diário, mas a escrita era antiga e com uma letra não muito legível. O que melhor entendi, foi um grande e belo medalhão. Peguei-o pela corrente, levantando na frente dos olhos.
– É lindo! – Sussurrei.
Ela sorriu concordando, fazendo um gesto para que eu virasse o medalhão. Do outro lado tinha uma frase. Levei algum tempo para entender que era espanhol.
– No todo silencio es olvido, ni toda ausencia es distancia. – Sussurrou a menina com um espanhol que me pareceu impecável. – Era da minha mamãe. Minha avó deu a ela quando meus pais vieram para cá. Eu nem era nascida ainda. – A menina sorria, mas seus olhos estavam cheios de saudade. – Quer dizer: Nem todo silêncio é esquecimento, nem toda ausência é distância. Mi abuela disse para mi madre que era para não se esquecer nunca de sua família.
– É muito bonito, Mayita. Como você. – Sorri meio sem jeito, devolvendo o medalhão a caixinha. A mãozinha da menina me impediu.
– Eu quero que ele fique para você! – Disse ela com um sorriso doce. – Você me ajudou e sei que tem bom coração. Ele é seu para que se lembre de mim.
Olha, eu tento ser durona e tudo mais... Mas aquela menina me desarmou. Meus olhos ardiam com as teimosas lágrimas que insistiam em escapar.
– Eu não posso...
– Por favor? Por favorzinho? – Diz ai, quem resiste a uma doce e triste menina? Bem, eu não consigo.
– Está bem, está bem. – Respondi rindo. A prata estava um pouco escura depois de tanto tempo, precisaria limpá-lo, ainda assim, para não correr o risco de perder, o pendurei em meu pescoço. – Vou cuidar bem dele, Mayita. Prometo! E já sei o que fazer com isso. – Juntei os documentos novamente dentro da caixa, fechando-a. – Tenho um conhecido que trabalha no museu da cidade. Ele sabe toda a história deste lugar, saberá o que fazer com tudo isso. Quem sabe até mesmo desvendar o que aconteceu! – Eu estava realmente empolgada com a ideia. Desvendar o que tinha acontecido e dar uma resposta para Mayita.
A menina levantou e fiz o mesmo, ainda com a caixa nas mãos. Ela sorria, mas levemente do que em qualquer outro momento que a vi sorrir.
– Obrigada, menina anjo. Você já foi muito boa. Eu volto para saber as respostas. Agora não posso ficar mais.
– Mas... – Eu tinha mais perguntas que teriam que esperar. Maria Antonieta já não estava mais lá. Apenas um antigo quarto vazio, carregado de lembranças e dor.
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