Believe
1 Único
Notas iniciais
Estava quase tropeçando nos próprios pés, os sapatos apertados demais. Desceu as escadas de casa, devagar, segurando o longo vestido. A mãe olhava-a do hall de entrada, as lágrimas escorrendo pelo rosto. Sorria.
_Você está linda, querida. Maravilhosa! – e limpou uma lágrima com o dedo indicador, estendendo uma mão para que a filha pegasse.
_Mãe, eu não sei... – murmurou, mexendo a saia. Se sentia desengonçada, como uma pata. Amou o vestido na vitrine, mas ao vesti-lo, encontrara tantos defeitos em seu corpo.
_Você está linda sim! Está parecida com uma princesa, querida, estou tão feliz por você...
A mãe abraçou-a, ainda fungando. Rose revirou os olhos, dando tapinhas nas costas de Hermione, que chorava descontrolada.
A buzina soou, como um gongo livrando Rose. Se despediu da mãe, pegando a bolsa em cima da mesa, e saindo pela porta, ainda ouvindo as recomendações da mulher parada à porta, acenando e chorando.
Scorpius estava radiante, sorrindo. Rose entrou no carro, evitando olhar em seus olhos. Ele percebeu a distância que ela se manteve, e preferiu não invadir. Quando deu partida no carro, revezava entre olhar a rua, e olhar a ruiva. Ela ainda permanecia distante.
_Você está linda – comentou, tentando quebrar a barreira que ela impusera.
_Por favor, Scorpius – olhou-o, as sobrancelhas arqueadas.
_Eu tô falando sério. Você está linda, Rose.
Ela crispou os lábios, e virou-se novamente para a janela do carro. Ele ainda a olhava incessantemente, sendo ignorado com 100% de sucesso.
_Sabe que eu só to...
_Indo comigo porque a Dominique pediu. Sim, eu sei – completou ele, fazendo-a novamente virar o rosto. – Não precisa fazer isso. Eu te devolvo pra casa agora mesmo, só você me pedir.
_Não. Já estamos aqui, não é? – ela quase cuspiu. Scorpius assentiu, mesmo sabendo que ela não estava vendo.
O caminho até Hogwarts era longo, e ele odiava o silêncio que os rondava. Por longos minutos pensou sozinho se devia ligar ou não o rádio do carro. Escorregou o dedo ao botão de ligar sem apertá-lo, esperando que a moça olhasse e intervisse.
Não aconteceu.
É o meu carro, afinal, pensou, e apertou. A melodia que tocava era agradável. Country. Ele sabia que ela amava country.
You may call it in this evening
But you've only lost the night
Present all your pretty feelings
May they comfort you tonight
And I'm climbing over something
And I'm running through these walls
Rose virou-se para olhá-lo, e ele sorriu. Ela tinha gostado. Scorpius sorriu, na esperança de seu sorriso ser recompensado com uma palavra ou outro sorriso.
Não foi isso que veio. Rose começou a cantar.
Ele fitou-a, quando a voz dela inundou o carro, a voz doce e melodiosa. Seu sorriso abriu-se ao vê-la, os olhos fechados, o sorriso a mostra e voz que soava solta. Surpreendeu-se ao vê-la aumentar o som, e seu sorriso abriu-se mais.
Arriscou cantar junto.
I don't even know if I believe
I don't even know if I believe
I don't even know if I believe
Everything you're trying to say to me
Ela começou a rir, a voz desafinada de Scorpius tentando acompanhar. Ela, pelo contrário, não se incomodou e aceitou o convite do dueto, entregando-se à música e à voz – horrível – de Scorpius. Ele sentia que estava atravessando a privacidade dela, e ficou satisfeito. Ela finalmente se abrira.
I had the strangest feeling
Your world's not what it seems
So tired of misconceiving
What else this could've been
Os braços dela se agitavam, numa coreografia suave, e Scorpius tentou imitar. Ela riu, se dividindo entre cantar e observar a tentativa falhada do rapaz.
Scorpius jamais percebera como Rose era linda. E doce. E gentil. Só havia conhecido o seu lado grosseiro, inteligente e rude. Passou por sua cabeça que esse lado era só com ele, pois era a primeira vez que Rose sorrira dirigindo-se a ele.
Aceitou ir ao baile com ele, por insistência da prima. Claro que Scorpius poderia ter saído com Alice Longbottom – que caíra a seus pés fazendo milhares de convites – mas o desafio de ir com Rose era tentador. Ficou sabendo que ela não iria, e fora convencido por Dominique para convidá-la. Era uma troca: ela emprestava Rose e ele emprestava Marcel.
E Rose? Bom, ela não iria ao baile. Estava estudando, queria passar no vestibular. A oportunidade de ir estudar nos EUA era uma em um milhão para a família Weasley. Queria cursar design e continuar o curso de fotografia. Era a profissão que queria seguir.
Ouviu o choro da prima durante dias até aceitar – forçada – a ir ao baile com um Malfoy. Sabia que estava desonrando uma rixa antiga do pai, mas era sua prima, afinal. E ela tinha que fazer.
Os olhos de Scorpius se encontraram com o de Rose, as sardas na bochecha dela se acendendo, o cabelo perfeitamente escovado, o vestido impecável. Ela estava realmente deslumbrante.
I don't even know if I believe
I don't even know if I believe
I don't even know if I believe
Everything you're trying to say to me
Ela ainda cantava como se nada estivesse acontecendo, como se o cara que ela mais odiasse não estivesse levando-a ao baile. E estava tudo bem, era a música dela que tocava no rádio. Estava se divertindo e por alguns minutos havia se esquecido que acompanhava Scorpius Malfoy. Sim, Scorpius Malfoy. Ela ainda estava incrédula. Teve a capacidade de aceitar, e não estava sequer arrependida?
Haviam milhares de garotas na escola, todas prontas para ir com Scorpius a qualquer lugar. E ele estava indo com Rose Weasley. Estaria inconformado se não estivesse gostando. Vendo a moça se divertindo, ao seu lado, como nenhuma outra faria, o satisfazia mais do que qualquer outra coisa.
So open up my eyes
Tell me I'm alive
This is never gonna go our way
If I'm gonna have to guess what's on your mind
Era incrível. Nenhuma outra garota já havia cantado para ele assim. Com uma voz daquela. Na verdade, não se lembrava da última vez que uma garota tinha feito com que ele se divertisse daquela maneira. O jeito que riam, que cantavam juntos, que agitavam os braços como uma dança nova, era incrível. Sentia-se com 7 anos de idade de novo, e estava feliz. Conhecia a felicidade.
Say something, say something
Something like you love me
Less you want to move away
From the noise of this place
Nem percebeu que Scorpius já estacionara o carro. O universo era um só, e estava todo concentrado naquele carro, naquela música, naquele canto. Sempre que abria os olhos, podia sentir os olhos dele em si. E gostava disso. Estava gostando de chamar atenção, de ter alguém olhando-a. Fechava os olhos de novo, sabendo que isso deixava ele mais feliz ainda de tê-la por perto naquela noite.
E ela também estava.
I don't even know if I believe
I don't even know if I believe
I don't even know if I wanna believe
Everything you're trying to say to me
O olhar dele demonstrava 20% da alegria que ele sentia. 80% era impossível de descrever com olhares, com sorrisos ou com palavras.
Ela fingia não ligar para a presença dele ali, olhando-o por, mesmo assim, gostar de estar com ele. No fundo, não admitia para ninguém, mas gostava de estar indo ao baile com Scorpius. Iria à qualquer lugar com ele. Se sentia fútil demais quando pensava nisso, mas era o que realmente sentia por dentro.
So open up my eyes
Tell me I'm alive
This is never gonna go our way
If I'm gonna have to guess what's on your mind
Rose focava sempre sua vida nos estudos. Não se sentia errada por isso, mas era o que devia fazer. Sabia que só iria à algum lugar estudando.
Scorpius era tão diferente. A vida dele era conhecer o corpo – de ponta a ponta – de todas as meninas da escola, da cidade, do país. E se fosse possível alguém realizar tal proeza, Scorpius conhecia pelo menos 40% disso. 90% de sua cidade já esteve em sua cama, pelo menos, uma noite. Ele se orgulhava disso, mas no momento, colocara tudo numa balança.
_Se prepare para agora, Scorpius... Não me decepcione– gritou Rose, anunciando a última parte da música e ele assentiu.
So open up my eyes
Tell me I'm alive
This is never gonna go our way
If I'm gonna have to guess what's on your mind
Mas, não cantaram. Scorpius se preparou e puxou a moça ao seu lado pelo pescoço, depositando-lhe um beijo nos seus lábios. Preparou-se para o tapa que receberia em breve, mas ele não veio. Não sentiu movimento brusco vindo de Rose. Ela estava retribuindo-lhe o beijo, na mesma intensidade.
Por dentro, Rose sentia dúvidas. Imaginou milhares de vezes durante o beijo que era um jogo, e que ela caíra. Não estava arrependida, deveria estar?
Scorpius puxava-a para mais perto, sentindo medo de que ela escapasse de seus braços. O beijo seguia, ritmado, quando a música acabava. Ela nem dera ouvidos ao anúncio do locutor. Ele nem ouviu. O cheiro que invadia o nariz dele era do mais delicioso perfume. Como nunca encontrou aquele perfume na vida?
Rose sentiu-se tentada a segurar a gravata dele, desmanchando toda a pose de galã que ele tinha. Porém, segurou-se. Entregou inteiramente ao beijo, tudo o que ela era e queria. O medo de não ser correspondida era enorme, mas afinal, era Scorpius. A probabilidade de ser decepcionada era grande.
Onde você esteve, Rose Weasley? Por todo esse tempo?
Queria perguntar, queria saber. Mas perder a oportunidade de beijá-la, era quase um crime.
Foi então, que ela afastou os lábios dos dele. Encostaram a testa, e os olhos se chocaram. Incríveis olhos azuis com olhos maravilhosamente cinzas. Ele sorriu. Ela sorriu.
Sabiam que não podiam ter feito aquilo. Que era errado.
Mas não estavam arrependidos.
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