Reina sôfrego e orgulhoso,

O belo Príncipe do Norte,

Que em deslumbre ambicioso

Do Rei Infernal foi consorte.

Com sedutor jeito cortês,

Esconde a alma obscura.

Mescla à inerente altivez

Alguma eterna brandura.

Esperança um dia caída,

Oculta no falar refinado,

Chora uma alma traída,

Eterno pranto encarnado.

E as alvas asas cortadas,

Silenciosas belas fugazes,

Com impuro amor dotadas

De perversos sonhos vorazes.

E com uma língua ferina,

Feita de mentira bonita

Onde a verdade mofina,

Perdida, por vezes habita.

Mas sedutor logro domina

Cada firme gesto ofídio.

Inebria mais que morfina,

Serve à alma de presídio.

Dotado de toques de prazer,

Em mais lânguido pedido,

Capazes de enlouquecer

Num triste olhar perdido.

Num olhar de gelo gris,

Onde sangue maldito verte,

A lágrima serve de atriz,

Ao atrevido e sofrido flerte

Que a tantos anjos fez cair

Imersos em impura paixão.

Viu servos de Deus servir

Apenas pecado e podridão.

Tal qual Sapho, pele branca

Perfumada, emana luxúria,

Sem dó o coração arranca,

Da Besta que reina Lemúria.

Impudico e imperativo gemido

Que incendeia todas as flamas

Escuta do casto, ávido pedido,

Convida às mais imundas camas.

Tendo nos corpos seu poder,

Disfarçado em beleza celestina,

Camufla-se o demônio que,

De diáconos despiu a batina.

Vendo no pecado uma diversão,

A cada filho incita indecência.

Tendo em Sodoma adoração,

Fez da cidade, orgia e demência.

E em sofrimento e maldição

Finos dedos tremem ávidos,

Buscam talvez por rendição,

Quem sabe por dias plácidos.

Iludindo-se a cada união

No mais torpe sentimento,

Há de restar nada, senão,

Ledo e profundo lamento.

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