Belakane
1 Prólogo
Algo se mexia por entre os arbustos de artemísia, e olhando com um pouco de atenção, podia-se ver o que era, e não era algo bom de se encarar. A garota estava assutada, havia andado por vários dias sem parar para comer algo, emagrecera muito e seus olhos arregalados tentavam achar algo que não queria, a sua pele morena estava também cheia de hematomas e tinha um corte raso na perna esquerda, que mesmo assim a impossibilitava de andar de modo normal.
Mancou até perto de uma árvore e se encostou na mesma, arrastando as costas pelo tronco até sentir o chão. Estava ofegante, suava muito e a ponto de chorar. Sentia-se sozinha naquela floresta tão escura e sombria.
Os animais não pareciam existir ali. Ou se escondiam da sua presença, invasora e estranha
–Cérin, Archie... — Sussurrou com uma voz chorosa e sem ânimo ou energia, mas não obteve resposta. As lágrimas começaram a ficar pesadas, a ponto de lhe causarem dor de cabeça — Por favor, não me deixem, eu... Eu preciso de vocês...
O ser voltou a se mexer atrás dela, lhe causando mais receio. Pegou sua diadema no chão e a observou, agora ela não serviria mais para nada, e percebeu também que o medo já não era o sentimento presente. Agora sentia um completo vazio e, pensando em nada começou a sentir que desmaiaria a qualquer segundo, acabando por morrer ali mesmo. Esperava que os amigos voltassem mas até o momento, nada havia acontecido. Um som cortou o ar, tirando-lhe do transe
–Bela... Kane...
A voz lhe era conhecida. Em milésimos de segundos a adrenalina tomou conta do seu corpo que involuntariamente deu um pulo, se levantando e procurando o dono da voz. Por meia hora o fez e não achou nada. A garota começou a achar que ficara louca. Arranhou o próprio rosto, gritou, chutou o chão inúmeras vezes, em pleno desespero. Mas, quando fez menção de se sentar novamente já cansada, ouviu passos que vinham em sua direção
–Belakane! B-Belakane! Onde você está?
–Cérin! — Ela correu em direção á uma silhueta masculina atrás de algumas árvores.
Encontrou o que tanto queria: Seu melhor amigo estava lá, vivo e inteiro. Ou não. Depois de cambalear por alguns metros de forma desesperada, deu-lhe um longo abraço pelas costas, e o observou ainda da mesma forma
–Cérin, que bom que você está bem! Onde está o Archie? — O sorriso era mais do que verdadeiro, mas o cansaço o fazia parecer forçado
O garoto se virou. Os raios de Sol que entravam pelas frestas das copas açoitavam seus cabelos ruivos e brilhantes, porém sujos de terra. O corpo de Belakane tremeu ao ver a cena: Os olhos do garoto, que outrora foram de um azul vívido e chamativo, agora perderam sua cor. Estavam totalmente brancos, a ponto de quase não poder ser diferenciada a pupila, a íris e sua esclerótica. O sangue escorria dos mesmos em sua face, se extiguindo na gola do seu uniforme de soldado e ele, estava pálido como um morto. Sua voz doce e galante ecoou medonha no meio da clareira, que estava em profundo silêncio
–Princesa... Eu... Eu não estou enxergando nada!
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