Bruno havia concluído sua especialização e junto com Tiago e havia sido promovido no final do mês, para comemorar essas conquistas, resolveram fazer uma confraternização pequena na casa de Bruno, Tiago ainda não tinha chegado, mas seu Ruben e Dona Omara já estavam lá ajudando a Bruno a arrumar as coisas.

— Será que Tiago vai trazer a namorada? — Omara questionou colocando uma garrafa de suco sobre a mesa.

— Ela não é namorada dele, quer dizer... eles são esquisitos. — Bruno respondeu sem ainda conseguir entender a relação de Tiago e Melissa, que voltaram a sair um ano depois da festa de aniversário da garotinha que havia ganhado um urso de pelúcia de Bruno.

— Realmente, mas acho que finalmente Tiago vai sossegar, eles se entendem.

— Realmente.

— E você, meu filho? Quando vai arruma alguém?

— Não começa mãe.

— Desde que aquela garota foi embora você não ficou com mais ninguém. — Omara não se sentia confortável falando o nome dela.

— O nome daquela garota é Ana. — respondeu sem problemas.

— Já faz três anos, Bruno! Você tem que esquecer a obsessão por essa moça.

— Eu já esqueci. Quantas mil vezes vou ter que repetir? — respondeu sincero.

— Eu deveria ter levado você naquele haras, você poderia ter virado jóquei e nunca teria feito administração, trabalhado nessa empresa e conhecido essa moça. — falou fazendo o filho ri.

— Eu sou muito alto para ser jóquei. — respondeu simplesmente sem querer alongar a conversa.

— Acho que acabamos aqui. — comentou se afastando da mesa e mudando de assunto.

— Terminamos, agora é só esperar os outros. — concordou indo até a sala, onde Ruben jogava vídeo game sentado no tapete.

— Chegou o mais querido do Brasil! E trouxe a sua correspondência, parece ter algo interessante aqui. — Tiago entrou de repente sem cumprimentar ninguém, com uma pilha de cartas em uma mão e um envelope dourado na outra.

— Eu esqueci de ver minha caixa de correios. Apesar da falta de educação, obrigado. — Bruno respondeu pronto para pegar as cartas.

— Vamos com calma. — o amigo brincou entregando a pilha, mas mantendo o envelope dourado consigo. — Como pagamento por ter pego sua correspondência, quero que abra esse envelope agora, estou curioso para saber o que é. — o jeito de Tiago denunciava algo.

— Deve ser alguma loja tentando vender uma bugiganga qualquer. — respondeu tentando tirar o envelope da mão do amigo, mas Tiago recuou.

— Eu tenho certeza que não é isso. Abra aqui na nossa frente e com carinho. — recomendou finalmente entregando o envelope para Bruno.

O dono do envelope deixou as outras cartas sobre o sofá e segurou o envelope com as duas mãos, analisou brevemente o papel dourado em busca de alguma pista que dissesse do que se tratava aquela carta, mas apenas uma etiqueta branca com seu endereço e nome. Abriu o envelope com cuidado para não rasgar o que tinha dentro, retirou o papel dobrado em três, pronto para ver do que se tratava e logo o cabeçalho denunciava o assunto.

— Isso é sério mesmo? — Bruno perguntou com um sorriso maior do que seu rosto suportava.

— Mais sério impossível, meu amigo. — Tiago respondeu satisfeito com a reação do amigo.

— O que está acontecendo? — Dona Omara perguntou confusa.

— Isso... — Bruno não sabia muito bem o que dizer e apenas entregou a carta para mãe.

Dona Omara desdobrou a carta e a leu com atenção, denunciando em sua face que não acreditava muito de que aquilo que estava ali era realmente uma boa notícia, e que seu filho não deveria ter ficado tão feliz e esperançoso.

— Dona Omara, não faça essa cara. Eu acho que essa é uma ótima oportunidade para resolver as coisas. — Tiago interviu na leitura.

— Mas se ele quiser aproveitar essa oportunidade é melhor correr. — informou sem animação.

— Como assim mãe? — o filho pediu se sentindo ansioso.

— O lançamento do livro dessa menina é hoje. — respondeu devolvendo a carta ao filho que a pegou rápido.

— É verdade, daqui a 20 minutos. — constatou dobrando a carta e a colocando no bolso da calça.

— Você passou muito tempo sem olhar a sua caixa do correio, ainda bem que vi essa manhã que Ana lançaria seu livro sobre como superou seu estranho estado de depressão e voltou a viver, hoje na principal livraria da cidade. — Tiago falou orgulhoso por ajudar, ele era o único além de Bruno que acreditava que um dia o amigo voltaria a se encontrar com a sua amada.

No começo Tiago havia ficado com raiva, queria que Ana sumisse da face da Terra para sempre, mas depois da conversa de Bruno com Fabrício as coisas tinha mudado, Tiago começou a perceber as mudanças positivas do amigo, ele estava mais leve, menos rigoroso e controlado, a obsessão por Ana não mais existia, porém, ao mesmo tempo, Tiago começava a notar que nenhuma garota conseguiria complementar Bruno como Ana.

— O que você está fazendo, Bruno? — Omara exigiu ao ver o filho correndo de um lado para o outro pegando as chaves, carteira e os sapatos.

— Eu vou até lá, preciso encontrá-la. — respondeu decidido calçando os sapatos já perto da porta.

— Você não disse que a tinha esquecido? — sua mãe não podia achar aquilo normal.

— Eu disse que tinha esquecido a obsessão, mãe. O que eu sinto por Ana não é obsessão ou cisma, é amor e eu sei que ficaremos juntos. — respondeu com firmeza abrindo a porta.

— Espero que ela sinta o mesmo, amigo. — Tiago comentou esperançoso.

— Eu também espero, mas só vou descobrir se eu for até lá... Droga! Meu carro está na oficina. — lembrou tentado pensar em outro plano.

— Eu te levo, meu filho. — Ruben se pronunciou pela primeira vez após dar pause em seu jogo e observar tudo calado.

— Você é o melhor pai do mundo! Vamos logo. — Bruno respondeu empolgado saindo de casa.

O caminho até a livraria foi silencioso, Bruno só conseguia se imaginar revendo Ana, olhando seu rosto de perto, seus olhos que haviam ganhado brilho e vida graças a ele, e principalmente conseguia se imaginar envolvendo seus braços envolta do corpo dela com todo carinho e amor.

— Estamos chegando. — Ruben informou começando a desacelerar.

— Muito obrigado, pai! — Bruno falou empolgado tirando o cinto pronto para sair do carro assim que ele parasse.

— Já pensou no que dizer para ela? — perguntou parando o carro.

— Não, mas não é necessário pensar, eu já fiz isso demais na vida. — respondeu com um sorriso confiante abrindo a porta do carro. — Obrigado por ter me trazido e não precisa me esperar.

— Boa sorte! — respondeu se despedindo do filho que correu em direção a livraria.

Bruno alcançou a livraria sem demora, o local estava cheio, porém nada insuportável, o clima era agradável e todos ali pareciam animados e ansiosos para o começo do lançamento que já estava atrasado uns cinco minutos.

O rapaz buscava por Ana com olhar em cada canto, mas não conseguia achá-la, até que percebeu uma movimentação de pessoas em uma porta no fundo da livraria, entre duas longas estantes de livros, ela deveria estar ali. Bruno não pensou duas vezes antes de se dirigir ao local em busca de sua amada.

— Com licença! Ana está aí dentro? — perguntou a um rapaz próximo a porta.

— Está sim, aguarde um momento que ela já está se dirigindo a mesa para começar o lançamento e sessão de autógrafos. — respondeu educado.

— Eu preciso falar com ela agora, eu preciso entrar. — devolveu como um pedido.

— Não posso deixar você entrar, só pessoas autorizadas podem entrar.

— Por favor, eu preciso muito falar com ela. — insistiu forçando passagem, mas o homem o deteve.

— Cara, não me arruma problema, pega um livro e espera sua vez. — pediu colocando a mão no peito de Bruno para impedi-lo de se aproximar.

— Eu vou ter que insistir, eu ... — Bruno estava pronto para implorar, mas foi interrompido por uma voz conhecida.

— O que está acontecendo aqui? — Ana perguntou saindo da sala.

— Esse rapaz está forçando a entrada. — o homem respondeu apontando para Bruno e pela primeira vez ali Ana olhou para ele.

— Você veio! Eu mandei o convite, mas não tinha certeza se você viria. — Ana não conseguia esconder a alegria e a surpresa de ter Bruno ali bem diante dos seus olhos.

— Você me enviou um convite. — respondeu se aproximando dela sem mais interferências.

— Eu pensei que você fosse ignorá-lo... já faz tempo que eu fui embora. — comentou sem jeito.

— Quase três anos para ser mais exato. — comentou sério e ainda mais próximo.

— Eu precisava me conhecer melhor, eu não podia usar o amor por você como uma muleta, como algo essencial para minha vida. Eu sabia que seria difícil, até pensei que meus sentimentos por você mudariam e que eles só eram daquele jeito por causa de tudo que você fez por mim, mas mesmo depois desse tempo eu continuo sentido as mesmas coisas, eu não espero que você sinta o mesmo, nem mesmo que você não tenha raiva de mim por ter ido embora, eu só.... — Ana discursava sobre seus sentimentos e expectativas quando Bruno impaciente tomou seu rosto entre as mãos e selou seus lábios a calando.

Ana não esperava aquela reação, ela não conseguia acreditar naquele gesto, depois de três anos tudo que Ana esperava era diferente daquilo. Talvez, Bruno estivesse com outra, até mesmo casado e com um filho, mas aquilo era bom demais para ser verdade. Sentir os lábios dele nos seus, a forma como eles ainda se encaixavam completamente e como cada movimento era um pequeno êxtase, fazia Ana se perguntar como havia conseguido ficar tanto tempo sem beijá-lo. Com a respiração ofegante e sorrisos tontos nos lábios o casal desfez o beijo encostando as testas.

— Você não desistiu de mim. — Ana sussurrou com a terna felicidade talhada em cada palavra.

— Eu aprendi que nunca vou desistir de você. — Bruno respondeu rápido, intenso e convicto, voltando a beijá-la com saudades e a certeza de que nunca mais a deixaria partir.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!