Bruno mais uma vez acordou tarde e para tornar as coisas mais incomuns, despertou com o som do telefone tocando. Sem a menor vontade de atender o rapaz se arrastou para fora das cobertas e ainda zonzo andou até a sala, em busca do telefone que berrava sem parar.

— Olá! — falou com a voz arrastada.

— Bruno, você estava dormindo? Isso são horas? Por acaso está doente? — Dona Omara bombardeou o filho de perguntas.

— Bom dia para você também, mãe. — resmungou esfregando os olhos tentando ficar um pouco mais desperto.

— Bom dia. Agora responde minhas perguntas. — respondeu sem paciência.

— Eu não estou doente, mãe. Eu só fiquei até tarde assistindo séries, só foi isso.

— Você nunca foi disso, agora que está morando sozinho deu para fazer essas coisas.

— Mãe, por favor! Eu não tenho mais 12 anos! E ninguém morre e perde o rumo da vida por acordar tarde de vez enquanto. — falou agora mais desperto e irritado.

— Eu não vou ficar discutindo com você, Bruno. Só liguei pra te chamar para almoçar aqui em casa, seu pai está com saudades.

— Mesmo sendo um filho mau, que acorda tarde no domingo, ainda estou convidado? — brincou.

— Está sim, mas vem logo antes que eu desconvide.

— Ok! Eu vou tomar um banho e vou até aí.

— Tchau. — Dona Omara despediu-se rápido e desligou.

Após desligar o telefone correu para o banheiro, se arrumou depressa, pegou a carteira e as chaves e foi em direção a casa de seus pais. Um convite para almoçar sempre era muito bem-vindo, ainda mais agora que morava sozinho.

Bruno não se arrependia nem por um segundo da ideia de morar sozinho, a ideia de ser independente e aprender cuidar de suas coisas em sua plenitude havia de fato se concretizando, mas era inegável que o filhinho da mãe sentia falta de sua comida, na verdade senti falta de qualquer comida que não fosse a dele.

A ideia absurda e surreal de ter Ana cozinhado para ele passou pela cabeça de Bruno, na mesma hora em que pensou que podia ser Ana o convidando para almoçar e não sua mãe, e logo se repreendeu mentalmente. Bruno havia ficado curioso em experimentar algo feito pela bela morta viva, ele sabia que aquilo era muito improvável de um dia acontecer, mas ele não conseguia parar de pensar na ideia e em Ana na sua totalidade.

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Ao chegar a casa de seus pais, a mãe de Bruno logo o recebeu com um abraço, um beijo no rosto, seguido do gesto de segurar o filho pelos ombros e analisá-lo com os olhos na busca de algo fora do normal.

— Você emagreceu, com certeza não está se alimentando direito. Foi para isso que quis se mudar? — Dona Omara começou o seu discurso “mãe dramática, preocupada, exagerada”.

— Não mãe, eu não emagreci. — respondeu com um tom cansado revirando os olhos.

— Já está perturbando o menino, Omara. — Ruben repreendeu a esposa entrando na sala.

— Oi, pai! — Bruno falou sorrindo e indo até o pai para abraçá-lo.

— Oi, meu filho! Você parece muito bem, não ligue para sua mãe. — falou sorrindo sabendo a resposta da esposa que viria logo a seguir.

— Faz isso mesmo, Bruno! Não ligue para sua mãe, dê ouvidos só ao seu perfeito pai. — resmungou indo para cozinha.

— Ela anda implicando mais com você agora que eu fui embora? — Bruno perguntou indo até o sofá acompanhado do pai.

— Com certeza, mas daqui a pouco ela aceita de vez e para de reclamar.

— Eu espero mesmo, porque eu estou amando morar sozinho. Tem coisas que são bem difíceis, mas eu estou conseguindo me virar bem.

— Eu sei que está. Nós sentimos muito a sua falta, porém você precisa trilhar seu próprio caminho e a única coisa que podemos fazer por você é deixá-lo ir.

— Eu aprecio isso, pai. — comentou vendo nos olhos de seu pai como o mesmo confia nele, e isso para Bruno era mais o que o suficiente para seguir sua vida otimista.

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O almoço não demorou para ser servido e a família Lima pode almoçar toda junta como antigamente. Conversas sobre passado, presente e futuro fluíram durante a refeição e a promessa do carro como presente de aniversário foi refeita a Bruno, o que o deixou muito satisfeito.

Após o almoço Ruben e Bruno lavaram a louça, enquanto Dona Omara estendia as roupas na corda. No meio da tarde pai e filho sentaram no chão da sala para jogar videogame, era uma coisa que os dois gostavam muito de fazerem juntos e também era um dos raros interesses que os unia.

— Você está diferente, Bruno. — Ruben comentou depois de trocar o jogo.

— Também acha que estou mais magro? — perguntou brincando.

— Não, mas você parece mais feliz e toda hora seu pensamento voa.

Bruno se assustou ao escutar isso, ele não havia percebido que a sua falta de concentração indesejada já era possível ser detectada por outras pessoas. Ele sabia que realmente seu pensamento de hora em hora voava, era inevitável para Bruno não pensar em Ana e toda sua esquisitice, até compará-la mentalmente com uma das personagens de um dos jogos de videogame ele havia comparado.

— É impressão sua, pai. — desconversou sem ser convincente.

Ruben sabia que seu filho não estava lhe contando algo e já até desconfiava do que se tratava, mas decidiu não pressioná-lo, sabia que alguma hora contaria a ele o que estava acontecendo.