Notas iniciais
Espero que gostem!

Bruno era o tipo “apaixonadinho consciente”, romântico, carinhoso e atencioso, mas não era o tipo que largava tudo para atender sua amada ou ficava pensando nela o tempo todo. Mesmo na adolescência o rapaz não gastava muito tempo pensando na garota por quem estava apaixonado, o amor nunca havia tirado sua atenção dos estudos, do seu trabalho e responsabilidades em geral, os estudos e o trabalho sempre vinham antes da paixão e do encantamento.

O jovem responsável sempre fora excessivamente equilibrado, raras eram as coisas que tiravam o seu foco profissional e acadêmico, e hoje uma dessas raras coisas estavam acontecendo, não era algo grande ou grave, porém já era sexta-feira e desde quarta algo conseguia constantemente afastar sua atenção por alguns segundos.

As mãos, o olhar e a voz de Ana não saiam da cabeça de Bruno, volta e meia ele estava pensando em cada uma dessas coisas. Não! Ele não estava apaixonado e essa pequena distração não chegava a atrapalhar seu trabalho, mas essa situação o perturbava.

Nenhuma das características de Ana as quais Bruno pensava sobre, eram apaixonantes ou atraentes, talvez as mãos delicadas, mas só. O olhar dava medo, a voz estranheza e todo o jeito causava aquele desconforto por estar perto de algo que considerava bizarro.

Bruno tinha consciência de que talvez estivesse exagerando ou impressionado demais, Tiago também havia achado a moça esquisita, mas longe do bizarro e se não estivesse tão convencido de que o amigo estava apaixonado por Ana tentaria sair com ela novamente.

— A mão dela é quente, eu jurava que era fria. — falou com ele mesmo a caminho de sua sala. — Eu estou ficando doido! Pensando na temperatura da mão de uma mulher que eu mal conheço.

Bruno sacudiu a cabeça tentando afastar os pensamentos desnecessários e ao entrar na sala começou a se organizar para o trabalho.

Tiago chegou calado, com óculos escuros e a cara amassada, denúncia clara de sua ressaca, o melhor amigo costumava fazer comentários de reprovação por sua situação, mas dessa vez ficou quieto. Bruno estava muito concentrado nos resultados e nas tarefas das primeiras etapas do seu projeto que já estavam sendo bem sucedidas.

Após o almoço Bruno organizava as notas fiscais dos itens já comprados para o projeto, ele havia combinado com Ana que guardaria todas elas e só próximo aos relatórios finais as entregaria a ela. Contudo, o rapaz não conseguia parar de pensar em como a mão, o braço e toda a pele de Ana em si, deveria ser muito macia, uma curiosidade desconhecida se apossou dele e de alguma forma inexplicável ele precisava tocar a pele de Ana.

— Eu vou até a contabilidade entregar as notas fiscais para Ana. — informou a Tiago levantando-se repentinamente.

— Eu implicaria com você, mas hoje eu realmente estou sem condições físicas para isso. — respondeu com o rosto cansado e um meio sorriso.

Bruno não falou mais nada, apenas arrumou a pasta com as notas e recibos e saiu em direção a contabilidade, com uma velocidade desnecessária. Ele estava ansioso por tentar tocar a pele de Ana, mesmo que isso não fizesse sentido nenhum, além dele não ter a mínima ideia de como faria isso sem parecer um perfeito maluco.

Ao chegar a mesa de Ana não a encontrou e em nenhum outro lugar do setor, mas não havia problema para Bruno, perguntou algum dos colegas de trabalho aonde ela estava e logo responderam que não sabiam ao certo, mas logo estaria de volta. Ele resolveu esperar, porém se sentia estranhamente desconfortável e resolveu se sentar na cadeira mais próxima, no caso a cadeira de sua contabilista.

— O que faz aqui? — Ana questionou ao voltar para sua mesa.

— Vim entregar as notas. — respondeu colocando a pasta sobre a mesa e se levantando.

— Não precisava entregar agora.

— Eu preferi deixá-las com você, acho mais seguro do que deixá-la ao alcance das mãos do Tiago. — deu uma desculpa.

— Tudo bem, seu amigo realmente parecer o tipo de pessoa que devemos ser cautelosos. — o comentário não tinha um tom de maldade ou severidade, mas era claramente uma crítica ao jeito despreocupado e impetuoso de Tiago.

— Ele é uma boa pessoa, só exagera vez ou outra. — concordou.

— Além das notas, mais alguma coisa? — Ana parecia um pouco mais normal, mas os olhos sem emoção não tinham sofrido alterações.

— Não, só isso. E desculpa por ter invadido sua mesa assim e sentado na sua cadeira. — com a curiosidade mais forte que ele, segurou o antebraço de Ana enquanto falava, antes de passar por ela se afastando da mesa.

— Tudo bem, se precisar de alguma coisa é só vir aqui. — respondeu ignorando o toque e sem parecer desejar a volta de Bruno a sua mesa.

— Você prefere que eu venha resolver as coisas aqui, do que o Tiago? — outra curiosidade que havia surgido em seu peito e ele não pode controlar.

— Não faz diferença, atenderei os dois da mesma forma. — ela parecia sincera e mesmo que Bruno não quisesse admitir isso o havia desagradado.

— De qualquer forma acho que eu serei o que mais virá até aqui, Tiago não gosta muito da sua área de trabalho.

— Tudo bem. — respondeu simplesmente começando a mexer em alguns papéis em cima de sua mesa.

— Até a próxima, então. — se despediu e mais uma vez ela não fez o mesmo, mas pelo menos, dessa vez eles conseguiram ter um diálogo que possa se chamar de real.

xxx

Ana estava de frente para o portão de sua casa, com a bolsa entreaberta buscava as chaves perdidas no fundo da mesma, ao pegar os objetos metálicos e escutar seu barulho característico, parou repentinamente as segurando firme. A jovem moça foi atingida pelas lembranças do seu dia, mais especificamente de seu encontro com Bruno. Isso não era algo recorrente, Ana não costumava repassar seus dias por sua mente, ela não era do tipo que apreciava as lembranças.

A jovem moça esquisita não sabia o motivo de seu cérebro a fazer lembrar de Bruno, ela não via sentido naquilo e não sentia nada ao lembrar dele, para ser franca, ela não sentia nada nunca. Então, por que lembrar do responsável rapaz apaixonado por seu projeto? Por que parar uma tarefa tão simples como pegar as chaves, para lembrar do toque da mão do rapaz sobre seu antebraço? Ana não tinha as respostas, mas também não se importava com elas, apenas apagou as lembranças e continuou sua tarefa de abrir o portão.

Ao entrar jogou a bolsa sobre o sofá, foi até o banheiro lavar as mãos e caminhou até a cozinha pronta para preparar seu jantar, algo simples que ela pudesse comer enquanto assistia ao noticiário antes de ir para o computador se ocupar com alguma notícia sobre economia e números.

Com o prato nas mãos e sentada com as pernas sobre o sofá, começou sua refeição de frente para TV, o noticiário estava no intervalo e a propaganda de uma novela estava sendo exibida, o mocinho fala algo sobre como sofria por estar longe da mocinha e de como tudo havia sido uma armação para separá-los, coisas típicas de novelas, Ana já tinha visto cenas como aquelas milhares de vezes nos comerciais e até mesmo nas próprias novelas quando deixava a TV ligada enquanto fazia outra coisa, a diferença é que dessa vez Ana prestou atenção na cena.

Ana não via novelas ou séries, filmes muito raramente e teatro nunca era uma opção, ler até que lia bastante, mas romances não faziam parte da sua estante, música talvez fosse o único produto de artes e entretenimento que Ana consumia, mas, mesmo assim, parecia não falar a suas emoções. Mas algo no dia de hoje estava diferente, Ana continuava sem emoções, porém de forma inconsciente um miserável, quase nulo, interesse por elas começava a surgi.

Após o noticiário Ana levou o prato até a cozinha, o lavou e guardou como de costume, mas diferente de todos os outros dias voltou para o sofá e assistiu a novela que seguia após o noticiário.

A novela não havia provocado reação nenhuma em Ana, ela havia passado a maior parte do tempo analisando as técnicas de atuação, o cenário e quanto ele deveria ter custado, e por vezes se perguntou o motivo de está assistindo aquilo. Ao termina o capítulo, Ana desligou a TV e foi fazer o que costumava fazer, arrumou as coisas e dormiu cedo.

No dia seguinte Ana levantou cedo, limpou a casa, lavou as roupas, fez coisas de sábado, pelo menos coisas de sábado para ela. Checou a despensa e notou a necessidade de fazer compras, fez uma lista e se arrumou para ir ao mercado.

Observa Ana em sua rotina podia se torna sua nova definição de algo extremamente entediante. Era impressionante como aquela mulher parecia um robô de carne e osso, e todas as mínimas atitudes distintas e fora do seu normal, realizadas do dia anterior haviam sumido, hoje Ana continuava tão morta quanto sempre.

Notas finais
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