Bela Morta
2 Capítulo 1
Era sábado, um dia de descanso para uns, mais um dia de trabalho para outros e dia de começar a realizar seu Plano de Vida para Bruno.
O caminhão de mudanças estava na frente da casa que um dia havia sido do seu avô e hoje era sua por herança. A casa ainda tinha a mesma fachada de 1942, agora restaurada e com espaços adaptados para outras funções como garagem. Já a casa por dentro não tinha mais nada de 1942, a não ser algumas paredes. A fachada só continuava a mesma, porque Bruno gostava de como ela lembrava seu avô e de como ele havia comprado a casa para começar sua nova vida, assim como ele estava fazendo agora.
Dona Omara mãe de Bruno, não gostou nem um pouco da decisão do seu filho de 21 anos, recém-formado, que conseguira ser efetivado em uma empresa multinacional de eletrônicos, onde tinha estagiado para concluir seu curso de administração, que logo seria complementado com uma especialização em marketing, sua paixão e área onde trabalhava na empresa. Seu cargo não era um “senhor cargo”, mas era o ideal para quem estava começando e o salário era perfeito para iniciar o Plano de Bruno.
Dona Omara sabia que Bruno estava pronto para o Plano, sabia que ele podia se cuidar e sabia mais ainda que ele não desistiria, então simplesmente se deixou levar e até presenteou o filho com um tapete para a casa nova, não tão nova assim, afinal, seu bebê não era mais um bebê.
Mas afinal de contas, que raio de Plano é esse? Você pode estar se perguntando e se não estiver respondo mesmo assim. Era simplesmente o Plano de Vida do Bruno, ele mesmo o havia intitulado assim e o próprio nome define o que ele era. O Plano consistia em se forma na faculdade, feito. Arrumar um emprego, feito. Se mudar, feito. Começar uma especialização em marketing, esse tópico teria que esperar até o fim do ano, pois a própria empresa havia oferecido a Bruno, bancar sua especialização após concluir um ano de trabalho, então era quase feito. Mas Bruno não marcaria em sua lista algo que não tivesse de fato concluído. Sim, ele tinha uma lista com todos os objetivos escritos e detalhados e nela não poderia ter rasuras.
O Plano de Vida não se resumia só as coisas já citadas, ele ia além. Na lista tinha o item carro, esse seu pai lhe havia prometido de aniversário, mas isso demoraria um mês, então não marcaria como feito. E logo abaixo do item carro estava em vermelho e em letras garrafais "ACHAR A MULHER DA MINHA VIDA". Pobre Bruno, ele sabia como esse item seria difícil de achar, e como sabia. Bruno já vinha trabalhando nesse item fazia algum tempo, ele sabia que era difícil de achar, mas ele persistia, afinal, era necessário achar esse item para realizar os outros objetivos listados, como casar, ter dois filhos, comprar uma casa de campo, ter um cachorro caso as crianças não nascessem alérgicas, coisas desse tipo, mas estava difícil.
Não era porque Bruno não tinha jeito com as mulheres, ele realmente não era o conquistador, o perigo da mulherada, não, nem de longe. Mas Bruno tinha seu charme, era alto, um pouco magrelo, porém isso combinava com seu jeito meio nerd, sua pele café com leite era impecável, quase não teve espinhas na adolescência e seu melhor amigo dizia de forma zombeteira que Bruno tinha a pele de uma menininha, mas ele apenas ignorava e dizia que era pura inveja. Seus cabelos eram castanhos e bem alinhado, os olhos da mesma cor logo atrás dos óculos quadrados, que combinavam bem com seu rosto e seu jeito tímido. Bruno era o que podia se chamar de nerd fofo.
Seu jeito lhe havia garantido namoradas e com elas ilusões e desilusões, várias delas, mas Bruno não desistia. Além da lista Plano de Vida do Bruno, existia também uma lista Qualidades da Mulher Ideal, essa era bem mais interessante, tinha de características físicas até as espirituais.
A mulher ideal para Bruno devia ser simpática, alegre e extrovertida. Ele acreditava que uma mulher cheia de vida compensaria seu jeito tímido e quieto. Bruno também tinha pensado no histórico familiar, ele queria uma mulher que tivesse uma família grande e que principalmente tivesse irmãos, para garantir que seus filhos tivessem tios de sangue, como ele tivera.
E se você está curioso para saber sobre as características espirituais ideais, essas não tinha nada demais, ele só queria uma mulher que acreditasse em Deus e em seu grande amor pela humanidade, sem dúvida ele queria uma mulher otimista.
Bruno já tinha encontrado mulheres com as características da lista, uma se chamava Luna e tinha todas as qualidades e até mesmo os defeitos que Bruno já tinha previsto como possíveis e conseguia passar por cima, uma das qualidades mais marcantes de Luna era a espiritual, que era tão forte que acabou virando freira.
Teve também a Patrícia, essa não tinha todas as qualidades da lista, mas era tão alegre e otimista que era viável ao Plano, porém o jeito controlado e certinho de Bruno não a agradou e logo se despediu.
E claro, teve a Alice. Todas as qualidades da lista, aparentemente todas na medida certa, era a perfeita, mas Bruno não parecia ser o bastante para ela, ele acabou descobrindo que Alice tinha um caso com o primo, dela por sinal. Após Alice, Bruno resolveu colocar a característica fiel na lista só para garantir.
Alice tinha sido a última tentativa de Bruno até então, mas ele não tinha desistido. Apesar do jeito certinho e controlado, Bruno era um sonhador e nunca desistiria de encontrar sua Cinderela ou qualquer outro nome de princesa que quisesse dar.
— Até que a casa é bonita. — Tiago comentou na frente da casa nova do amigo com a última caixa tirada do caminhão.
— Você tem que ver por dentro quando tudo tiver no lugar. — Bruno respondeu orgulhoso.
— Então vamos começar, já que meu melhor amigo decidiu usurpa meu sábado com o objetivo de ajudá-lo na mudança. — reclamou pela milésima vez.
Tiago e Bruno eram amigos de infância, eles se conheciam desde sempre, foram vizinhos por toda a vida até a atual mudança de Bruno. Tiago era bem diferente do melhor amigo, era poucos centímetros mais alto, tinha bem mais músculos e gostava muito disso, ele não era um daqueles caras exibidos insuportáveis, mas era um daqueles caras exibidos suportáveis. Sua pele era um pouco mais escura do que a de Bruno, seus olhos e cabelos eram de um castanho bem forte e seu sorriso era fácil e contagiante, daquele tipo que conseguia quebrar qualquer gelo, ele sim era um conquistador, sem planos de se amarrar.
Tiago também tinha um plano de vida, mas não, ele não tinha uma lista detalhada e com título, ele só queria ter sucesso profissional, mais tarde comprar uma casa e ser feliz, o resto ele iria ver depois.
Assim como Bruno, Tiago trabalhava na Leictreonach Corporation, no mesmo departamento que o amigo e juntos eles estavam a desenvolver um projeto de marketing que poderia realizar o desejo de ascensão profissional de ambos.
— Eu mal posso acreditar que finalmente consegui me mudar. — Bruno comentou enquanto estendia o presente de sua mãe no chão.
— Eu pensei que sua mãe ia te amarra no pé da cama, para você nunca poder sair de baixo das asas dela. — seu melhor amigo respondeu em seu tom de provocação habitual.
— Não seja implicante, é difícil pra ela ver seu único filho saindo de casa.
— Eu sei. Ainda bem que quando chegar minha hora não vai ter todo esse drama, já que minha mãe ainda vai ter a fedelha.
— Acho que mesmo assim ela vai sentir, ela é mãe e mães são todas iguais.
— De qualquer jeito, isso ainda vai demorar um pouco. Depois eu penso nisso. Agora vamos falar sobre segunda-feira. — Tiago falou empolgado ajudando Bruno colocar o sofá no lugar.
— Eu estou um pouco ansioso, finalmente vamos apresentar nosso projeto ao Fábio.
— Eu também, mas também estou muito confiante. O projeto ficou muito bom e nós nos preparamos bastante para apresentação.
— É verdade! Mas mesmo assim vou passar amanhã o dia todo revisando a apresentação.
— Nem pensar! Amanhã depois que você for a igreja com a sua mamãe, nós vamos a praia. Precisamos espairecer, relaxar, dar em cima de umas gatinhas. — o rapaz falou decidido se sentando no sofá.
— Eu não vou à praia com você e não precisamos dar em cima de gatinha nenhuma.
— Claro que precisamos. Você não tem que achar a tal da mulher ideal? Ou desistiu depois daquele belo par de chifres? — Tiago tinha o dom de ser inconveniente.
— Você realmente não precisa me lembrar toda hora que Alice me traiu. E eu não desisti, só não acho que vou encontrar a mulher ideal na praia, exatamente na véspera de uma apresentação importante. Agora levanta daí, que a gente ainda não arrumou metade dessa casa. — Bruno puxou o amigo do sofá com força o direcionando as caixas com seus pertences.
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