Bela Morta
10 Capítulo 9
Bruno havia voltado apenas de noite para casa no dia anterior, somente para se ajeitar para o dia de trabalho que viria e dormir. O domingo havia sido um dia agradável em família e ele sabia apreciar dias como aquele.
Na segunda com um bom humor diferenciado entrou em sua sala de trabalho e organizou os seus papéis pronto para começar a trabalhar, mas por um momento, seus pensamentos foram para longe, porém nem tão longe assim, só a alguns setores dali. Bruno havia lembrado da pequena compra que tinha deixado na casa de Ana e se perguntou se ela havia trazido sua sacola para devolvê-lo.
— Bom dia. — Tiago falou simpático interrompendo os pensamentos do amigo.
— Bom dia. — Bruno respondeu com um sorriso largo.
— Que bom humor! Isso tem a ver com sábado? — questionou com um tom de provocação, ele só estava esperando a oportunidade de fazer essa pergunta.
— Sábado? — se fez de desentendido ajeitando os óculos.
— Deixa eu refrescar sua memória, longa caminhada, acompanhado uma bela garota até a casa da mesma e talvez coisas mais interessantes. — respondeu.
— Tiago! Como você pode ser tão inconveniente? Por que você adora ver coisa onde não tem? — aquele comentário não convencia ninguém.
— Conta outra, Bruno. O que está acontecendo entre você e a Ana? — Tiago não o deixaria em paz até saber cada detalhe.
— Eu a abracei. — era para ter soado sem importância, mas o sorriso e o olhar satisfeito o fizeram fracassar.
— Eu esperava um pouco mais. — debochou.
— Você não entende. — nem ele mesmo entendia.
— O que eu entendo é que você está apaixonado por essa garota.
— Eu não vou discutir com você. E antes que eu me esqueça de novo, Felipe nos convidou para ir na festa da filha dele esse sábado, às 18hs, no salão de festa próximo a nossa antiga escola, vai ser uma boa oportunidade para revermos os amigos e se você quiser pode levar alguém.
— Boa notícia e já até sei quem levar. E você? Vai levar a Ana? — provocou mais uma vez.
— Eu desisto de você.
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No meio da tarde Bruno voltou a pensar em Ana e em seus pertences, na verdade, os pensamentos sobre os pertences era totalmente irrelevante, o pensamento era todo focado em Ana, no movimento dos seus quadris ao andar, na sua pele macia, suave e quente, no seu cheiro doce e moderado, e até mesmo nos seus olhos assustadores que não pareciam ser mais um problema para Bruno. Sim! Ele estava apaixonado. Depois de um bom tempo imune dos sentimentos que não fosse medo e estranheza, os atrativos de Ana provocaram o sentimento mais traiçoeiro e inebriante, a paixão.
Aquilo não podia estar acontecendo, aquilo não fazia parte do Plano. E por falar em plano, Bruno só então percebeu que não andava se preocupando com o Plano. Desde que Ana havia entrado em sua vida, desde aquela manhã na contabilidade, seus pensamentos e atitudes foram mudando de forma sutil.
Ana não era a mulher ideal para se encaixar no Plano de Vida do Bruno, ela não tinha os requisitos da lista, talvez só os físicos, mas sem dúvida, ela não tinha os quesitos otimista, alegre e extrovertida. Os pensamentos de Bruno começaram a criar a alternativa de que o Plano pudesse ser adaptado a Ana, mas a questão era: o plano de Ana poderia ser adaptado a Bruno?
A jovem sem emoções não aparentava ter nenhum tipo de interesse em Bruno, estava claro para qualquer pessoa normal, que os sentimentos só viam dele e nada mais. Só que em um momento Bruno percebeu que não se trava de estar apaixonada por Ana e ela não responder, isso era o de menos. Ele percebeu que não desistiria dela, não desistiria de provocar emoções nela, ele já havia começado esse trabalho mesmo sem perceber e mesmo que quisesse desistir não poderia.
Com a desculpa de que iria atrás das suas compras, o rapaz foi atrás de Ana em seu setor. Andando a passos apressados pelos corredores largos da Leictreonach Corporation, Bruno voltava pouquíssimos anos da sua idade cronológica e agia como um verdadeiro adolescente apaixonado, seu coração chegava a bater mais forte.
E por mais clichê que tudo isso possa parecer, Bruno realmente nunca havia se sentido assim. Ele nunca tinha se apaixonado dessa forma, ele estava perdendo o controle. E por mais estranho que isso pudesse parecer, essa perda de controle era boa para o jovem rapaz. Porque cá entre nós, o jeito controlado e sistemático de Bruno não era a coisa mais normal do mundo.
Ao chegar na contabilidade, os olhos ansiosos e quase infantis buscaram pelo seu maior desejo, mas tão decepcionante quanto ganhar meias no Natal, Bruno não encontrou sua bela colega de trabalho esquisita.
— Oi! Você sabe me dizer onde a Ana está? — perguntou a um senhor que trabalhava próximo a mesa de Ana.
— Hoje ela teve que resolver alguns assuntos na loja do centro, só vem para cá amanhã. — informou.
— Obrigado, eu volto amanhã. — respondeu com um sorriso forçado antes de voltar para sua sala.
Mesmo que se sentisse bobo por isso, Bruno havia ficado muito decepcionado por não ter encontrado Ana em sua mesa. Ele estava ansioso pela oportunidade de revê-la, talvez tocá-la e se ele estivesse bem fora de si, poderia cheirá-la novamente, mas nada disso aconteceria, pois ela não estava lá.
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No dia seguinte os planos de Bruno de ir direto na contabilidade atrás de Ana foram frustrados. Fábio o supervisor de Bruno e Tiago os havia chamado para uma reunião de última hora, ele obviamente não poderia recusar para correr atrás da garota morta viva, pela qual ele havia se apaixonado de um jeito inexplicável e que ainda não conseguia aceitar bem.
— Rapazes, eu preciso conversa com vocês sobre o projeto? — Fábio informou com uma postura séria.
— Tem algum problema com o projeto? — Bruno questionou nervoso, esquecendo por um tempo que Ana existia e voltando a focar na sua vida antes dela.
— Eu sabia que sua reação seria essa, eu não canso de ver sua postura preocupada. — Fábio comentou achando graça do jeito do funcionário.
— Ele sempre foi assim desde criança. — Tiago emendou também achando graça.
— Eu não acredito que vocês vieram aqui só para zombar de mim. — resmungou visivelmente irritado.
— Não, Bruno. Não chamei vocês aqui para zombar de você, apesar de ser algo bem divertido. — o supervisor respondeu sorrindo. — Eu chamei vocês aqui para parabenizá-los pelo andamento bem sucedido do projeto. E lhes oferecer uma nova função.
— Nós ficamos muito felizes com a parabenização. E o que seria essa nova função? A gente vai ganhar mais? — Tiago falou animado.
— Na verdade vão sim. Já foi confirmado minha promoção a gerente de marketing agora que o Ernesto se aposentou. E a vaga de supervisor ficou vaga, porém conversando com o nosso diretor, concluímos que devido a implementação do projeto de vocês e novas funções que estamos planejando, o cargo de supervisor e a responsabilidade de acolher os novos estagiários, não poderia ser só de uma pessoa. Então decidimos que o melhor a se fazer é tornar vocês dois supervisores desse setor. — informou satisfeito em ver os olhares de alegria a sua frente.
— Isso é mais do que a gente esperava agora. — Bruno falou com uma surpresa positiva.
— Mas com certeza a gente aceita. Né? — Tiago falou afoito olhando para Bruno ao lembrar que a decisão não era só dele.
— Sim, a gente aceita. — respondeu por fim com um sorriso gigante.
— Perfeito, sexta-feira teremos uma outra reunião, para eu poder esclarecer melhor, suas novas funções e por enquanto vocês continuam focados no projeto e adiantando algumas etapas do mesmo. -
— Pode deixar com a gente, Fábio. Você não vai se arrepender. — Tiago garantiu.
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Após a breve reunião os dois melhores amigos de infância voltaram para sala que compartilhavam, com uma alegria típica da época em que se conheceram. E assim que sentaram de frente para suas mesas começaram a trabalhar com um ânimo renovado em seu projeto.
— Já finalizei as compras através do site. Depois de hoje a Ana vai ter muito trabalho na prestação de conta. — Tiago comentou com o amigo já no final da tarde.
Bruno havia passado o dia fugindo do seu inconsciente, que tentava roubar sua atenção para Ana, mas a empolgação e a responsabilidade finalmente tinha conseguido fazer o rapaz não se perder em pensamentos pela moça, mas escutar o nome dela tão claramente fez a dona dos seus pensamentos reassumir seu posto. Com um olhar distante Bruno se afastou da mesa.
— Meu Deus! Foi só falar o nome dela para você ficar assim. — o amigo implicou como de costume.
— Eu preciso falar com ela. — respondeu se levantando.
— Falar o que? Que está com saudades?
— Não, claro que não. É que no sábado eu deixei minhas coisas na casa dela e eu preciso disso de volta. — se defendeu ciente de aquilo só era uma desculpa.
— Por que não assume logo que está apaixonado?
— Eu estou apaixonado. — soltou voltando a sentar surpreso com a própria confissão.
— Como? — questionou tão surpreso quanto o amigo.
— Por que a surpresa? Você não sempre falou isso? — questionou olhando o amigo confuso.
— Sim, mas era só para te irritar.
— Mas é verdade, eu estou apaixonado e muito assustado.
— Assustado? Você já se apaixonou outras vezes.
— Não desse jeito. Eu penso nela mais que o normal e eu me sinto na obrigação de fazer ela sentir o mesmo, ou pelo menos, sentir algo. — Bruno não conseguia acreditar nas palavras que saia da boca dele.
— Vai com calma, cara! O que você pensa em fazer? — Tiago estava preocupado com os sentimentos do amigo.
— Não faço ideia, mas eu preciso fazer algo. — seu olhar tinha uma determinação que Tiago desconhecia.
— Pelo visto você já está fazendo.
— Estou? — Bruno estava tão entorpecido pelo desafio que Ana representava, que não conseguia reparar o quão próximo já estava dela.
— Você já foi na casa dela, sempre tem uma boa desculpa para revê-la. Só precisa continuar a criar essas situações... Por exemplo, pede ajuda dela para comprar um presente para filha do Felipe. — o jovem conquistador sempre tinha algum método para se aproximar de uma garota.
— Ela não aceitaria. — respondeu desanimado.
— Faça ela te dever um favor.
— Pensando bem ela já me deve, eu a ajudei com as bolsas do mercado no sábado. — ponderou.
— É isso! Use isso a seu favor, esse é o momento de esquecer a nobreza dos favores gratuitos. Se você quer mesmo essa garota, vai ter que usar todas as suas armas, porque ela é uma garota realmente difícil.
— Eu não acredito que vou dizer isso, mas você está certo.
— Eu vou fingir que isso não é uma ofensa. — revidou com um sorriso forçado.
— Eu vou lá falar com ela, já consegui terminar as coisas aqui mesmo.
— Isso, vai lá. Porque mesmo que você não tivesse terminado, não ia conseguir fazer mais nada pensando nela.
Bruno nem rebateu o comentário do amigo, sabia que era a mais pura verdade. Decidido a tentar de tudo para fazer Ana ter sentimentos por ele, o jovem rapaz praticamente correu pelos corredores até a contabilidade, torcendo para que ela estivesse lá.
Os lábios de Bruno se esticaram em um sorriso involuntário ao ver sua bela morta, sentada diante de sua mesa, com sua mesma postura sem vida concentrada em seu trabalho. A cada segundo Bruno se achava mais louco por estar apaixonado por uma mulher como ela.
— Ana. — chamou sem conseguir parar de sorrir já de frente para mesa da moça.
— Olá. — respondeu com seu tom habitual.
— Tudo bem, com você? — emendou tentando ser simpático.
— Tecnicamente sim. — se Tiago estivesse ali perguntaria, quem foi o engenheiro de robôs que tinha dado esse laudo a ela.
— Que bom. — falou ignorando o fato dela não ter perguntado o mesmo. — No sábado eu esqueci uma bolsa minha, junto com as suas, eu queria saber se você achou.
— Eu ainda não mexi em todas as bolsas, não reparei se não tinha uma que não fosse minha. — respondeu como sempre, mas Bruno sabia que tinha algo errado.
— Bem, eu tenho certeza que a minha bolsa está lá... Será que depois do trabalho eu posso ir até a sua casa pegá-la? — ofereceu assim que a ideia surgiu em sua mente, seria uma ótima oportunidade de estar mais tempo com ela.
— Não é melhor que eu traga amanhã?
— Eu realmente preciso das coisas que estão lá. — Bruno até se sentiu um pouco culpado pela mentira, ele nem lembrava ao certo o que tinha na bolsa, mas não perderia a oportunidade.
— Sendo assim, eu saio às 19 horas. — informou sem questionar, com aquele mesmo olhar morto.
— Eu também! Então daqui a pouco eu volto aqui para irmos. — falou demonstrando uma alegria que ele não pretendia demonstrar, mas isso não parecia fazer diferença para Ana.
— Tudo bem. — respondeu simplesmente.
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