Bela Morta
27 Capítulo 26
Mesmo atrás das cortinas, o sol já conseguia iniciar seu trabalho de enfraquecer a luz artificial que iluminava a sala de estar da casa de Bruno, o mesmo dormia sentado, com a cabeça largada sobre o sofá de qualquer jeito, enquanto todo seu mundo também dormia com a cabeça cuidadosamente apoiada em suas pernas.
Ana sentia todo seu corpo dolorido e antes mesmo de abrir os olhos levou as mãos a cabeça, a sentido latejar forte. Seu coração batia em um ritmo lento e as lembranças da noite anterior começaram a vir pouco a pouco. Reunindo coragem para abrir os olhos, ela os abriu, assistindo o movimento lento e quase imperceptível da camisa azul de Bruno, que respondia a sua respiração. Com todo cuidado que sua cabeça latejante lhe permitia, Ana levantou das pernas de Bruno sentando-se ao seu lado, voltada para o seu rosto, que parecia mais bonito do que nunca.
Bruno estava sem óculos e isso permitia que Ana pudesse ver cada centímetro de seu rosto sem obstáculos. Ela sentiu seu coração pular, algo similar e mil vezes menos intenso já havia acontecido, mas agora ela finalmente tinha despertado de um coma emocional, e só agora podia compreender, estava apaixonada por ele.
Com muita hesitação, a mão branca e quente, tocou o rosto do rapaz, que suspirou forte, enfim despertando. Os olhos de Bruno se abriram com dificuldade, ao mesmo tempo em que seu rosto se contorcia em uma careta de dor, aquela posição não tinha feito nada bem ao seu pescoço e as dores no resto do seu corpo eram latentes, mas ao focalizar o rosto apreensivo de Ana e os seus novos olhos vivos, um sorriso logo brotou nos seus lábios, mesmo com os olhos inchados devido a noite de choro, os cabelos despenteados e a face avermelhada e amassada, ela era a coisa mais linda que ele já tinha visto.
— Desculpa. — foi a única palavra que Ana conseguiu dizer, ainda com a mão no rosto de Bruno.
— Eu poderia acordar todo dia ao seu lado. — a sinceridade fluiu de sua boca, ignorando as desculpas que para ele pareciam infundadas.
— Bruno... você está muito machucado?
De todas as emoções que Ana podia voltar a experimentar, sim, ela escolheu a culpa.
— Esquece isso.
Ainda com um sorriso tonto nos lábios, Bruno fechou os olhos se concentrando apenas em sentir o toque quente de sua amada, que se sentiu conduzida a acariciar o rosto do rapaz que agia como um filhotinho carente. Mesmo com toda a dor, Bruno só conseguia sentir o prazer do toque de Ana.
— Eu te bati.
De todos os sentimentos que ela podia escolher naquele momento, por que o de culpa? Os seres humanos eram realmente especialistas em escolhas idiotas, tinham capacidade de criar tecnologia e arte, porém na maior parte do tempo preferiam gastar suas vidas em escolhas torpes e inúteis.
— Eu te machuquei. — continuou com pesar, fazendo Bruno abrir os olhos.
— Na verdade, o que me machucou foi a queda do seu telhado, mas eu vou ficar bem, pode desfazendo essa cara de culpa. Eu não quase me matei para você retomar suas emoções ficando triste. — rebateu acariciando a mão que tocava seu rosto.
— Por que você fez tudo isso? — ela era grata, mesmo sem ainda entender isso muito bem.
— Porque eu te amo! Não é óbvio? E antes de continuarmos essa conversa, acho que você precisa ir ao banheiro, lavar o rosto, se você quiser, tomar um banho.
— Um banho? Eu não tenho roupas. — constatou esquecendo um pouco de sua culpa.
— A proposta é bem esquisita, mas vai servir. Eu tenho uma cueca novinha nunca usada e uma camisa de futebol americano que fica bem grande em mim e vai ficar um ótimo vestido em você. — ela já estava acostumada com ele sempre ter soluções para faze-la aceitar suas ofertas.
— Ok, eu aceito tomar um banho.
— Ótimo, vá para o banheiro que vou pegar a roupa para você. — falou animado segurando seu rosto e depositando um beijo cheio de carinho em sua bochecha.
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Ana foi até o banheiro, já havia se passado 10 minutos que ela estava lá e só então resolverá de fato tomar banho, mas antes que pudesse tirar a primeira peça de roupa, sua mais nova fonte de emoções bateu na porta.
— Ana, vim deixar as roupas.
— Obrigada. — respondeu ainda com uma voz arrastada e reservada, mas agora aquela era voz de uma pessoa tímida e confusa, não de uma pessoa morta.
— Eu estou preparando o café, enquanto você toma banho eu vou arrumando a mesa. Gema mole ou dura? Tem também a opção ovos mexidos.
Mesmo que Bruno tentasse muito não conseguia esconder a empolgação, aquilo tudo era melhor que um sonho realizado.
— Tanto faz. — respondeu apertando as roupas dele contra si, sem saber que emoção selecionar no momento.
— Tudo bem! Agora vou te deixar em paz. — um último sorriso de lado escapou antes de se afastar.
Assim que Bruno virou o corredor, Ana voltou a fechar a porta do banheiro e colocou as roupas sobre a pia. Tudo parecia muito confuso, as emoções tinham voltado, mas não a habilidade em controlá-las. Ela estava treinada a não sentir, e mesmo quando Bruno começou a provocar suas emoções, se condicionou a não deixá-las fluir, porém agora as coisas tinham mudado, algo no seu interior havia sido liberto assim que a carta de seu pai fora rasgada, a ex Bela Morta não conseguia mais sufocar as emoções. Os sentimentos estavam por todas as partes e aquilo era assustador. Assustador. Medo também era um sentimento e Ana não estava mais acostumada com ele.
De baixo da água fria, a jovem deixou suas emoções rodearem sua mente, ela podia sentir seus cabelos molhados grudando em suas costas, enquanto lembrava de cada detalhe do rosto de Bruno naquela manhã, mesmo com toda confusão, ela já sabia que o amava e isso era maravilhoso, um leve sorriso tímido se formou em seus lábios, mas também era angustiante, os olhos até então fechados se abriram.
A dor de ter perdidos os pais e o irmão havia voltado, não era igual ao dia da notícia do acidente, mas a dor estava ali. O medo de perder Bruno surgiu, ela o amava e ele podia morre, assim como as pessoas que ela amava. Por que as emoções ruins sempre pareciam mais representativas que as boas?
Após se secar e vestir, Ana tomou a breve decisão de voltar a aprender controlar suas emoções com a ajuda de Bruno, ele a guiaria nesse caminho, afinal, ele tinha quase morrido para devolver suas emoções e já estava acostumado com elas a mais tempo. Porém, esse era só o plano inicial, mais tarde ela tomaria as rédeas do próprio aprendizado.
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Bruno estava muito empolgado, ele havia conseguido. Tinha caído de um telhado, ficado bêbado e sem controle de si na frente de todos, tinha ido até uma cidade distante em busca de algo que ele nem fazia ideia o que era, e o principal, nem lembrava que seu Plano de Vida existia, mesmo ele tendo encontrado um dos itens mais importantes do Plano, a mulher de sua vida. Pelo menos era nisso que ele acreditava.
A mesa estava posta, não era aquelas mesas de café da manhã de filme e novela, mas Bruno tinha se esforçado para criar algo apresentável. A razão de suas loucuras, estava na sua casa e mais uma vez tomaria café da manhã com ele, aquilo pedia no mínimo o seu melhor e ele daria sem nem ao menos hesitar.
O jovem apaixonado estava colocando o último alimento sobre a mesa quando Ana adentrou o recinto. Mesmo sem os óculos Bruno podia ver bem, muito bem. Assim que seus olhos se deslocaram da mesa e foram em direção a entrada da cozinha, ele sentiu seu coração parar. Aquela era a mais bela visão que Bruno havia tido em toda a sua vida. A blusa larga lhe cobria até metade das coxas, os cabelos estavam soltos e molhados sobre os ombros e os olhos estavam vivos como um desejo realizado.
— Você é a coisa mais linda do mundo! — as palavras escorregaram por sua boca sem ele nem ao menos sentir.
— Obrigada. — respondeu tímida ao se aproximar.
— Senta! — pediu após um tempo contemplando a beleza da moça, que o observava incerta de que atitude tomar.
— Você está bem? — apesar da tentativa desazada de alimentar a conversa, ela realmente queria saber sobre o seu bem estar.
— Estou. Fique tranquila, daqui uns dias essas dores somem. E você, como está?
— Eu não sei. Eu... — seus olhos vagaram pela cozinha demonstrando sua confusão.
— Eu acho que isso é normal. Você tinha se desacostumado a sentir e de repente veio a dor, a raiva... a gente. — ele conteve o sorriso de lado no final da frase.
— Depois do que aconteceu ontem, eu me sinto diferente.
— Exatamente, você sente.
— Eu sentia antes.
— É mesmo? Não parecia.
— Eu já gostava de você, só não conseguia entender e demonstrar. — seus olhos se voltaram para os dele, tendo a oportunidade de ver o lindo espetáculo de alegria que se manifestou neles.
Bruno não se conteve, aquilo era inconscientemente uma autorização e um convite para o que viam a seguir, em um impulso ele se inclinou para frente beijando Ana de surpresa, aquilo poderia ser considerado um beijo roubado, mas eles já tinham passado dessa fase. Ana já o conhecia e agora com sua nova capacidade de sentir, mesmo sem entender bem, ela sentia ele.
No começo foi apenas um encostar de lábios impulsivo, mas finalmente, o pequeno milagre de Bruno aconteceu, Ana respondeu ao seu beijo, de forma tímida ela moveu seus lábios contra os dele e tocou seu rosto, lhe dando apoio para aprofundar o beijo. Aquele era até então, o melhor momento da vida de Bruno em seu julgamento pessoal, aquilo era mágico, intenso, finalmente existia emoções reais e fortes em um ato de carinho de sua bela amada, não mais morta, Ana. Ele se sentia pleno, sua mão alcançou a cintura da moça, sentindo seu calor sob a camisa larga, seus lábios se separam dos dela para logo em seguida, juntá-los novamente dando um novo fôlego aquela ação.
Ana sentia as emoções dançarem em seu peito, o toque de Bruno dissolvia as emoções ruins que ela havia tomado para si logo que recuperou a capacidade de sentir. Os lábios dele pareciam a melhor coisa a ser sentida naquele momento, ela nunca mais havia beijado ninguém desde seu último namorado, que nem passava por sua cabeça no momento, mas o jeito como suas bocas se encaixavam e como sua língua respondia a dele, parecia que aquela era uma atividade diária na vida dela.
Se Ana já tivesse toda noção e entendimento sobre suas emoções, ela com certeza ficaria assustada com a forma como sua pulsação, seu toque, sua mente se ligavam a ele de uma forma única e jamais experimentada, aquilo era intenso de uma maneira que ela ainda não tinha dimensão, mas Bruno tinha e isso fazia seu coração pular no peito.
Os lábios deles se afastaram mais uma vez, mas desta vez Bruno iniciou uma trilha de beijos sobre o queixo e maxilar de Ana, chegando próximo ao seu pescoço onde a acariciou com nariz sentido seu cheiro, sentindo-se plenamente confortável com tudo aquilo, descansou a cabeça na curva de seu pescoço, se alimentando do seu cheiro de uma forma que talvez ele nunca conseguisse explicar, porém ele tinha uma certeza, aquilo era uma das melhores sensações do universo.
— Bruno?
A junção do seu nome na voz de Ana sem o tom monótono e arrastado, até mesmo com um toque de carinho, mais o prazer de sentir seu cheiro tão de perto, ao mesmo tempo que tinha a oportunidade de sentir seu calor sob suas mãos, deixava Bruno a um passo do êxtase. Mas ele não podia simplesmente ficar ali apreciando aquele momento, ele precisava respondê-la.
— Pode falar. — respondeu ainda incapaz de se afastar de seu pescoço.
— Olhe para mim, por favor. — pediu se sentindo incapaz de continuar uma conversa naquela posição.
— Desculpa, pode falar agora. — respondeu se afastando sem vontade e voltando a se ajeitar na cadeira.
— Me ajude a entender como tudo isso aconteceu? Como você soube da carta?
— Eu também não sei muito bem. A primeira vez que te vi fiquei muito assustado com seus olhos, sem vida e qualquer tipo de emoção, aquilo era aterrorizante. Contudo, aquilo ficou na minha cabeça e eu meio que me vi tomado por uma curiosidade de te entender. Mas aquilo foi só uma armadilha, à medida que eu ia te conhecendo e te sentindo, mesmo sem emoções da sua parte, eu fui me apaixonando até que me vi obrigado a te despertar desse coma emocional. — os olhos dela eram fixos nele, absorvendo cada palavra e pela primeira vez ele pode ver algo como admiração em seus olhos.
— Eu ainda não entendo como você conseguiu se apaixonar por mim. — provavelmente ninguém entendia. — E sobre a carta? — completou.
— Com as poucas informações que consegui de você, pesquisei mais, até encontrar um pouco de sua história em Pinheiral, para onde eu corri em busca de algo em seu passado que a fizesse despertar.
— Você foi até a minha antiga casa, ou algo assim?
— Algo assim. Sua antiga casa tinha sido vendida, então não fui até lá. Mas parece que o destino estava ao meu favor e não foi difícil encontrar seu ex-namorado. — os olhos de Ana se abriram um pouco mais com aquela resposta.
Era incrivelmente estranho e interessante, a forma como as emoções vinham para ela. Um misto de surpresa, carinho e uma leve tristeza vieram juntas. Ana não havia se lembrado de José por anos e nem dessa mistura de emoções, mesmo sem vê-lo ali, era como reencontrar um velho amigo, e apesar da tristeza das lembranças e de seu afastamento, era reconfortante aquele misto de emoções.
— Você se lembra dele? — ele sabia que sim.
— Lembro, crescemos juntos. Nossas famílias eram próximas. – junto a essa frase, um conjunto de lembranças de um tempo esquecido ressurgia, para sorte de Ana elas eram mais confortáveis do que dolorosas.
— Eu soube, fui a casa dele. Conheci Dona Augusta e ela me mostrou algumas coisas que pertenciam a sua família, me falou sobre seu pai e eu identifiquei a caixa de documentos em uma foto. Eles me contaram sobre a carta e eu senti que ali era o ponto chave. — por um segundo ele temeu um novo acesso de raiva, mas Ana apenas continuou a observá-lo com certa admiração, mesmo que agora também existisse um traço de tristeza em seus olhos.
— Você foi muito longe por mim. Você realmente gosta de mim. — ela parecia culpada e satisfeita com aquilo.
— Eu amo você e faria qualquer coisa por você. Mesmo sem as emoções, eu conseguia enxergar algo único que não consigo explicar. E agora que você sente como eu, me sinto completamente preso e rendido a você. — aquilo era profundo, exagerado e até mesmo dramático demais, mas era a pura realidade.
— Eu quero sentir como você, quer dizer, eu gosto de você, eu sei disso, mas ainda não consigo dimensionar, demonstrar. — ela parecia angustiada e Bruno logo tomou suas mãos tentando acalmá-la.
— Mesmo com as emoções de volta, você é tímida, eu sei. Já suspeitava disso e em Pinheiral tive essa confirmação, sei que é carinhosa, atenciosa e cuidadosa. Sabia disso mesmo quando não respondia aos meus sentimentos, porque sempre esteve do meu lado quando pedi e cuidou de mim quando não pude. Você me arrastou bêbado para casa! Você não precisa ficar ansiosa em demonstrar o que sente, eu sei quem você é, estava ciente de que teria que esperar seu tempo.
Ana finalmente teve a resposta para aquilo que ela nem sabia que havia perguntado, Bruno sabia quem ela era, mesmo que ela mesma ainda não soubesse no momento. Ele não iria se decepcionar ou desistir dela, quando mais para frente recobra-se sua consciência plena sobre suas emoções e se tornasse outra pessoa, porque ela não se tornaria outra pessoa, ela apenas encontraria a pessoa que Bruno já tinha achado.
— Eu quero ficar com você, Bruno. — era a única coisa que ela conseguia expressar, mas para ele era mais do que o bastante.
— Eu também quero. — seu sorriso era enorme e completo.
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