Notas iniciais
Yay, segundo capítulo! Resolvi me apressar, já que ele já estava escrito. Aproveite!

Sim, fui atropelada. Não, não cheguei tão perto da morte, mas fiquei desacordada um bom tempo.

Abri os olhos, confusa, e a Lívia estava com os dela arregalados na minha direção.

— Meu Deus, você acordou. – disse franzindo as sobrancelhas – Como você tá se sentindo?

— Mal. O que aconteceu?

— Um carro te atropelou em frente ao prédio da redação. Você não se lembra de nada?

— Que horas são? – perguntei sentindo minha cabeça, as costas, uma das pernas e um dos pés doendo bastante.

— Duas da tarde.

— Eu fiquei desacordada esse tempo todo?

— Ficou, mas tá tudo bem. Você bateu a cabeça e vai ter que ficar internada.

— Nossa, tá tudo ótimo então. – falei revirando os olhos, imóvel, e ela deu uma risadinha – Tudo dói.

— Seu pé tá torcido e com uma tala até o joelho. – disse levantando um pouco a coberta – Fora isso só tem alguns curativos por conta da batida. Tem uns arranhões e uns roxos, mas isso sai rápido.

— Pára de falar do quanto eu estou quebrada, por favor. – falei fechando os olhos – Eu só lembro que desci do uber apressada em frente ao prédio porque estava atrasada, depois disso não sei de mais nada.

— Bem que o motorista disse que você que se enfiou na frente do carro. Pára com esses pensamentos suicidas, Rebeca. – brincou.

Eu queria sorrir, mas estava dolorida demais pra isso. Minha cabeça doía tanto que parecia que iria explodir. Além disso, eu só pensava o quão burra eu havia sido por não prestar atenção naquela avenida enorme e movimentada.

— O médico disse quanto tempo vou ter que ficar aqui? – indaguei, preocupada com o trabalho e com a nossa reportagem em andamento.

— No mínimo até amanhã, mas depois disso você vai ter que ficar em casa por alguns dias. Se você tá pensando na reportagem...

— O que o Bruno disse? – perguntei curiosa.

— Ele ligou, achou que você já pudesse falar, mas quando soube que você ficaria internada por conta da cabeça, pediu pra dizer que é melhor você procurar se recuperar. Vão utilizar o que você produziu, mas vão colocar outro repórter para ajudar o Afonso.

— Não acredito... – reclamei completamente frustrada.

— Esse curativo aí não é à toa.

— O que? Que curativo? – perguntei assustada, levando a mão com uma agulha espetada até a cabeça.

Me dei conta de que estava com parte da testa enfaixada e respirei fundo.

— Eu sou muito idiota... Meu Deus, eu sou completamente idiota, Lívia. Como dou uma bobeira dessas?

— Outras oportunidades vão surgir pra você, Rebeca. Nada acontece por acaso e nem por idiotice. – falou ironizando as minhas palavras – Além do mais, você ainda vai contribuir pra reportagem pela entrevista que você fez, a diferença é que não vai concluir.

Expirei desapontada e fechei os olhos por alguns segundos. Eu estava me sentindo péssima, no sentido físico e mental. Minha segunda feira não poderia ter sido melhor.

O barulho da porta se abrindo fez com que eu abrisse os olhos involuntariamente. Direcionei-os para ela e vi minha irmã se aproximando.

— Rebeca! – ela disse com as sobrancelhas franzidas de preocupação – Como você está?

— Dolorida. – respondi sem reação alguma, tentando lidar com o fato de que a Alícia estava ali.

Eu a amava muito, mas confesso que nossa convivência sempre se desgastava após alguns dias juntas. Entretanto, querendo ou não, ela era minha parente mais próxima no Brasil, já que meus pais estavam morando em outro país.

— Rebeca, eu vou ter que voltar pro trabalho... – a Lívia disse discretamente.

— Você chegou de viagem hoje? – perguntei interrompendo-a, lembrando que ela tinha viajado com o Afonso para fotografar.

— Eu tinha acabado de pisar na redação quando falaram que você tinha sido atropelada lá embaixo. – respondeu sorrindo de leve.

— Tudo bem, então. Vocês têm muito trabalho por lá. Obrigada por ter ficado aqui. – agradeci e ela mandou um beijo com uma das mãos, saindo do quarto.

— Eu quero te matar, Rebeca. – a Alícia disse quando a Lívia saiu, me fulminando com o olhar.

— Quase que você não precisa se dar ao trabalho. – ironizei, tentando sorrir mais uma vez.

— É por isso mesmo! – disse arregalando os olhos – Como você é atropelada assim, do nada?

— Eu tava apressada, meu carro não pegou e eu tive que chamar um. Quando ele me deixou no trabalho, atravessei a rua sem prestar atenção.

— Conversei agora com o médico que te atendeu, ele disse que você deve ficar por aqui mais uns dois dias. Vou ficar com você, já que além de tudo, você ainda torceu o pé.

— Vou amar passar esses dias com você. – brinquei de forma irônica e ela revirou os olhos.

— Vim o mais rápido possível assim que soube. Nossos pais quase tiveram um ataque quando eu contei.

— Eu imagino. – respondi, me limitando nas palavras por conta da dor – Você quer deixar suas coisas lá em casa? O Bartô vai ficar sozinho lá, preciso que você dê uma olhada nele. Minhas chaves devem estar por aí. – ofereci.

— Vou querer. Está tudo bem mesmo?

— Não, mas vou fazer o quê? Além de estar toda arranhada, dolorida, com a cabeça enfaixada e o pé torcido, ainda perdi uma boa reportagem que estava escrevendo. Agora sim quero morrer.

— Pára de falar besteira. – disse se virando e procurando minhas coisas – Eu volto daqui a pouco então. Você se importa de ficar sozinha?

— Não. Preciso fechar os olhos e tentar dormir pra esquecer essas dores.

— Vou mandar uma enfermeira ficar aqui na porta. Eu volto rápido.

— Não precisa preocupar. Daqui eu não saio. – ironizei.

Eu estava extremamente melancólica. Só pensava mesmo na minha falha, mas não adiantaria questionar nada, não é? Então pronto. Já era.

O fato de não gostar de depender de ninguém fez com que os dias no hospital fossem péssimos. Eu precisava de ajuda pra tudo, então me sentia minúscula a cada momento em que isso acontecia.

Cheguei em casa na manhã de quarta com uma muleta e as dores ainda presentes. Assim que a Alícia abriu a porta, eu fui direto para o sofá e respirei fundo, tentando não pirar. Sorte que o Bartô logo se aconchegou ao meu lado e pudemos matar a saudade que estávamos um do outro.

— Até que esse quartinho que você arranjou não é dos piores, Rebeca. – ela disse se referindo ao meu apartamento.

Ok, ele não era bem um apartamento e nem atingia os padrões que a minha irmã gostava. Era pequeno, mas não tinha nada no mundo mais meu do que aquele lugar. Era o que eu podia bancar por mim mesma, então era maravilhoso.

— Eu não vou discutir com você sobre suas vaidades e nem agradecer por não ter denotado meu apartamento agora. – falei esticando as pernas no sofá.

— Eu to falando sério, poxa! Você tem bom gosto dentro do seu estilo diferente.

— O que seria o meu estilo diferente? Não querer aquele palácio que custa uma fortuna que você chama de casa? E com o dinheiro dos nossos pais!

— Engano seu. Você pensa que eu não mando bem na empresa, Rebeca, mas eu to indo bem demais.

— Aham, to sabendo. – retruquei, me lembrando da suposta parceria com a ArteMil.

Preferi não falar nada sobre o que eu tinha escutado na sexta. Eu não queria ter que retrucá-la mais uma vez.

— Quando você volta a trabalhar? – ela perguntou mudando de assunto.

— Com toda certeza, antes do atestado vencer.

— Porque você está com tanto sangue no olho assim? Eu sei que você gosta muito do que faz, mas não to entendendo.

— Eu tava com uma ótima oportunidade de crescer nas mãos e aí fui atropelada. Agora não vai mais dar tempo de concluir da forma que eu queria.

— Mas se não vai mais dar tempo, você devia preocupar em se recuperar. – argumentou da cozinha enquanto pegava uma água.

— Se bem que eu to realmente precisando. Minha cabeça ainda dói e esses arranhados e roxos estão bem péssimos.

— Eu não queria dizer nada, mas estão mesmo. Não dá nem pra passar uma maquiagem aí?

Fitei-a com um olhar de preguiça e ela se calou. A Alícia sabia bem como eu era, mas ainda assim insistia em enfiar seu jeito em mim.

(...)

— Você vai mesmo ficar aqui trancada comigo o dia inteiro? – falei observando a Alícia sentada no sofá enquanto eu tentava me distrair no computador, na bancada da cozinha.

Era sábado, eu me sentia melhor, mas mesmo assim continuava em casa de repouso. No dia seguinte ou na segunda provavelmente sairia a reportagem sobre a ArteMil, então eu queria mesmo me afundar na minha cama e só me levantar quando todas as dores passassem. Além disso, eu também não aguentava mais passar o dia inteiro com a Alícia. Ela estava me ajudando muito, mas eu precisava tomar um ar. Mesmo que fosse ela a pessoa a tomar o ar saindo de casa e me deixando sozinha um pouco.

— Eu estou mesmo combinando com alguns amigos daqui de São Paulo para sair hoje. Você se importa? – perguntou me encarando.

— Não! Claro que não! – falei imediatamente.

— Você tá querendo ficar livre de mim, já entendi. Sorte sua que eu também to querendo tirar uma folga de você. – disse se levantando e sorrindo – Vou me arrumar.

Continuei atenta ao que eu fazia e minutos depois a Alícia apareceu super bem arrumada na minha frente.

— Vou a um restaurante. Você quer que eu traga alguma coisa?

— Uma cerveja. – falei frustrada.

— Se não fosse seus remédios, traria até uma caixa. – disse colocando o celular na sua bolsa – Tô falando sério, vai querer?

— Eu também to falando sério. – reclamei, revirando os olhos – Não precisa se preocupar comigo. Pode aproveitar sua noite.

— Ok. Até amanhã. – disse acenando.

Assim que a Alícia saiu, coloquei algumas músicas pra tocarem bem alto, de forma que ecoassem por todo o apartamento. Eu precisava desestressar e colocar minha cabeça no lugar.

Eu estava deitada na minha cama no escuro enquanto a música tocava na sala, quando me assustei com meu celular chamando. Era meu pai.

— Oi, pai. – falei abrindo um sorriso sincero.

— Errei muito a hora? – perguntou se referindo ao fuso horário.

— Sorte sua que eu to vagando pelo apartamento e ainda não pensei em dormir.

— Como você está?

— To ficando bem, só minha cabeça que está a mil. Eu detesto não terminar o que eu começo.

— Ainda falando sobre o trabalho? – indagou.

— Sim, ainda. Sei que to remoendo isso demais, mas sei lá... Eu estava animada com o que foi colocado no meu colo.

— Sabe o que você vai fazer assim que puder sair de casa sem preocupações?

— O quê?

— Procurar se divertir, sozinha ou com amigos. Era isso que eu fazia sempre que me estressava na empresa. Depois eu voltava pra casa e dormia. No dia seguinte eu estava morrendo de ressaca, mas com a cabeça mais leve das paranoias.

Eu sorri fraco e me encolhi na cama.

— Eu vou fazer isso, com certeza.

— Que bom, porque eu sempre falo isso com a Alícia e ela me chama de louco. Pelo menos alguém me escuta. – respondeu dando risada, me fazendo sorrir também – Ela está aí?

— Não. Foi jantar com uns amigos daqui. Eu nem sabia que ela os tinha, mas ela foi.

— E quando ela volta pro Rio?

— Amanhã. Ela disse que precisa estar na empresa na segunda sem falta. – expliquei, bocejando.

— Tudo bem então. Fique bem aí, qualquer coisa liga. Mesmo estando longe, a gente dá um jeito de resolver, ok? Mais melhoras pra você.

— Ok, Senhor César. Um beijo e obrigada.

Desliguei o telefone e me aconcheguei na cama. O sono havia batido e eu tentei achar uma posição em que meu pé e minha cabeça não doessem, até que dormi.

Eu fiquei sob atestado até na quinta seguinte. A semana que havia passado tinha sido movimentada, mesmo que eu tenha ficado em casa durante todos os dias. A minha mente fazia questão de movimentar toda a minha vida quando meus pés não podiam fazê-lo.

No dia seguinte em que a Alícia foi embora, a reportagem saiu como uma das principais na capa do jornal. Eu respirei fundo quando li cada linha e senti meu coração acelerar ao ler meu nome como colaboradora. Não era o que eu queria, mas não tinha nada que eu pudesse fazer, já que eu havia sido atropelada.

Eu torci muito para que a reportagem não saísse enquanto a Alícia estivesse comigo. Se a parceria estava mesmo sendo feita, eu não queria ter que ficar em cima do muro na frente dela. Eu me sentia assim até mesmo sem saber se a parceria era real, imagina cara a cara?

Eu sabia que a Alícia tinha boas intenções, ainda que mal pensadas, mas também confiava no que o Afonso havia investigado. O jornal ainda tinha o benefício da dúvida, de apenas ter denunciado, já que a ArteMil revidaria com toda certeza. O problema é que ao mesmo tempo em que eu queria ver a denúncia desenrolar, como a jornalista curiosa que eu era, eu não queria que a empresa dos meus pais ficasse manchada de alguma forma por se relacionar com a rede de lojas.