“Você é uma fugitiva, mas você nem sabe do que você está fugindo [...]

Ela disse que quer dormir na cidade que nunca acorda”

- Arctic Monkeys (Old Yellow Bricks)

Claire olhou rapidamente em volta. Estava perdida em meio à massa de adolescentes e funcionários que se aglomeravam no pátio. Via alguns se cumprimentando, outros trocando abraços calorosos. Aquele era um cenário feliz.

O ar tinha cheiro de diferenciadas colônias, gel para cabelos, cremes, perfumes e desodorante, deixando o local com um ar carregado.

Mas realmente não importava. Claire só sentia medo. Não um medo forte daqueles nos quais você tem vontade de sair correndo. Aquele medo era daqueles de gelar a boca do estômago, era o medo de não se enturmar, medo de fazer algo errado. E Claire não podia se dar o luxo de errar.

O pátio ia se enchendo gradativamente naquela manhã, e Claire observava impacientemente enquanto o horário de entrada ia chegando. Ela havia avisado à sua mãe que não queria chegar cedo demais, mas a mãe dela tinha um compromisso no trabalho de manhã e não poderia levá-la mais tarde. Como se a ansiedade de Claire também deixasse com que ela dormisse aquela noite. Mas Claire continuava ali, muito acordada, com as mãos suadas e o nervosismo apertando seu estômago, e a mantendo inquieta.

Todos ali pareciam enturmados, menos Claire.

Claire tentava aparentar tranquilidade, indiferença, cruzando as pernas no banco de cimento azul aonde estava sentada no pátio. Mas Claire só queria alguém para conversar. Talvez isso soasse piegas mas Claire até sentia falta da mãe aquela hora, e desejava conhecer alguém ali. Mas como poderia? Claire estava ali porque tinha de estar ali, não porque queria. Não, de forma alguma.

Foi quando algo inesperado aconteceu. Um garoto se sentou ao lado de Claire no banco. Ele parecia abalado, mas era bonito de sua própria forma. Tinha cabelos escuros e emaranhados e usava uma roupa descente: Calças jeans escura, uma camiseta do Guns e um tênis Vans que de tão gasto estava na cara que o menino andava de Skate.

Claire gostava de gravar bem as pessoas, nos mínimos detalhes possíveis. Gravar o cheiro, a cor dos olhos, gravar cada detalhe, pois talvez precisasse mais tarde. Ou não. Ela só o fazia pois, de certo modo a acalmava, a fazia pensar em outra coisa ao invés da preocupação se ela seria uma total fracassada no colégio.

Enfim, o garoto nem parecia notar a sua presença, o que fez Claire ficar meio decepcionada. Ela viu quando ele sacou do bolso frontal de seu jeans um novinho iPhone e seus dedos começaram a deslizar pela tela. Sua expressão não parecia feliz. O que fez Claire sentir algo acima da ansiedade esmagadora. Compaixão. E uma vontade de abraçar o garoto e dizer que tudo ficaria bem. Mas se conteve. Nem conhecia o garoto e muito menos parecia que ele queria conhecê-la. Era um fantasma. Isso a fez se sentir estranha, o que ela achou estúpido, pois não deveria ligar para pessoas que não ligassem para ela, e então voltou à sua pose indiferente.

Claire se deu uma bronca mental. Aqui não era igual à outra escola aonde todos sabiam quem ela era. Aqui ela era mesmo uma fantasma. Ninguém podia saber como ela foi parar ali. Ela só tinha que levar uma nova vida. Se enturmar e esquecer o passado. E aquele garoto só iria atrapalhar de qualquer forma.

Depois de alguns minutos, olhando de canto de olho para o menino, uma estranho movimentação começou ali. Não uma movimentação por assim dizer, mas sim a falta dela.

E de repente uma voz soou do nada nas caixas de som que Claire não conseguia ver, a fazendo pular e dar um gritinho de susto.

Aquele foi o momento que o garoto que estava ao lado dela a notou e deu uma risadinha.

Ótimo disse Claire à si mesma, agora ele deve achar que eu sou tonta.

— Bom dia pessoal. — Disse a voz feminina ao microfone.

— Bom dia. — Disseram todos, menos Claire, em um coro desafinado. Até o menino ao lado balbuciou um “Bom Dia” super desanimado.

Agora Claire via de onde a voz estava saindo. Uma mulher baixinha usando calças sociais pretas meio que lembrando a calça bailarina, estava no centro do pátio. Claire quase não conseguia vê-la pois haviam jovens ao redor, tapando visão dela.

Bem vindos há mais um ano letivo no colégio Good Lord. Todos já sabem as regras mas mandaremos os supervisores entregarem elas escritas para vocês em um folheto, assim que estiverem nas suas respectivas salas. Bom, para quem não me conhece sou a Coordenadora Educacional, Sra. Miller e serei eu que tomarei conta da escola por enquanto um novo diretor não seja transferido. — A mulher, quer dizer, Sra. Miller dá um breve sorriso, e então continua: — Enfim, vamos ao trabalho! Vou entregar os horários para cada um. No verso tem um mapa da escola para os novos. Após o recebimento do Horário e do manual e as regras vocês já podem ir para suas salas.

O pátio fica em silêncio enquanto a Sra. Miller fala. Mas volta ao seu antigo frenesi assim que os supervisores começam a entregar os papeis.

Não demora muito até um papelzinho de cor laranja escrito de cabeçalho “HORÁRIO” de um pequeno livro com uma cruz na capa escrito: “OS DIREITOS E OS DEVERES DO ALUNO. Good Lord High School”, vir parar nas mãos hesitantes de Claire.

Claire dá uma olhada no Horário e logo se sente estúpida por não ter vindo na primeira visita a escola, semanas atrás.

A primeira aula de Claire era Inglês Avançado SALA 40. Ela não tinha ideia de onde ficava a sala de Inglês Avançado. Mas não queria ser a ultima a sair dali. Se levantou, dando um ultimo olhar no garoto do iPhone e se dirigiu para aonde todos estavam indo.

Seguindo o fluxo de pessoas, Claire chegou à área do corredor cheio de portas, com luzes brancas e superficiais que jogavam uma leve impressão de estar em um corredor de hospital, só que um hospital bem agitado e com jovens de roupas coloridas e perfumes fortes.

Caminhando e olhando para o número das portas, Claire foi contando Sala 15, 16, 17... Suspirou. Ia demorar para encontrar a sala de aula. Claire continuou caminhando, se esquivando de um time de futebol alegre com suas bermudas vinho e suas camisetas da mesma cor com o título frontal: LEÕES GOOD LORD e logo após, de um grupo de Líderes de Torcida vestidas com o uniforme vinho e listras brancas, estavam entusiasmadas com o próximo ensaio, mas para o azar de Claire, bateu de frente com uma loira definida, munida com um iPhone brilhante e unhas enormes e bem feitas, que olhou com uma cara feia para Claire quando, no esbarrão, deixa seu precioso iPhone cair, fazendo algumas pedrinhas se descolarem da capinha.

— Desculpe... — pede Claire, com o coração na boca, paralisada.

A menina apenas lançou mais um olhar furioso e sibila:

— Olha por onde anda, novata.

E sai andando atrás das outras Líderes de Torcida.

Com o coração na boca, prestes a ser vomitado, Claire respira fundo e decide voltar a procurar a sala, afinal o sinal já ia tocar.

Mas Claire se sentia horrível. Só estava no máximo meia hora no colégio Good Lord e já havia arrumado briga com uma das Líderes de Torcida e já havia feito aquele menino bonitinho dar risada de sua cara. Em sua outra escola isso não teria acontecido. Na verdade, na outra escola eram as outras meninas que esbarravam em Claire de propósito para ver se chamavam a atenção dela. O fato era: em sua antiga escola, todos queriam andar com Claire, e Claire era popular, não, popular era pouco para descrever o círculo de amizades de Claire. Claire nunca estava sozinha, nunca ia para lugar algum sem que ninguém a seguisse, pedindo conselhos, querendo de alguma forme chamar-lhe a atenção.

Mas nesse colégio de fim de mundo, Claire não era ninguém. E ser ninguém era o pior fundo do poço que alguém como Claire Harris poderia afundar.

Mas logo Claire se recompõe. O dia mal havia começado, ainda havia chance de de Claire ter amigos. Amigos menos espalhafatosos e chamativos como Líderes de Torcida e jogadores de Futebol. Seu pai já havia a alertado disso.

Então Claire achou, sozinha o caminho da Sala 40, que por puro azar já havia começado a aula lá dentro, Claire percebeu, olhando pela pequena janelinha da porta.

Droga, pensou Claire, antes de virar a maçaneta e entrar, atraindo trinta pares e poucos pares de olhos para si. Princialmente da professora rechonchuda que havia acabado de escrever seu nome no quadro negro: SRA. KANE, que lhe lançou um olhar carrancudo e mal humorado.

Claire nem olhou direito para a professora. Se sentou na primeira carteira que viu e torceu para que a professora não lhe chamasse.

Mas, parece que a professora tinha o poder de ler mentes ou algo do tipo.

— Ei, mocinha! — Chamou a professora com uma voz gélida e estridente. — Qual é seu nome?

Claire gelou. Literalmente. A professora estava falando com ela. Droga, foi novamente o pensamento que Claire teve quando respondeu tremulamente:

— Claire... hã... Harris.

— Srta. Harris, quero que saiba que não tolero atrasos em minha aula. E muito menos atrasos que interrompem minha aula. — Grasniu a professora. — Ficou claro?

Claire sentia suas bochechas queimando, e se forcou a balançar a cabeça.

— Ótimo. E que isso não se repita. — A professora lhe lançou mais um olhar hostil antes de se voltar para o resto da classe e continuar: — Então, como eu estava falando antes dessa incômoda interrupção... Meu nome é Valery Kane e eu serei sua professora de Inglês Avançado. Vocês estão nesta aula pois foram considerados relativamente bons na prova. Então mostrem que te capacidade, pois se não o fizerem serão esmagados igual à insetos pelos seus outros colegas e no futuro trabalharão de gari, e morarão em baixo de uma ponte.

Parece que a professora não pode deixar de evitar a olhar para Claire.

Á partir deste exato momento Claire decidiu odiá-la. Mas faria isso esfregando na cara dela que ela era a melhor aluna em Inglês que ela jamais teve.

Enquanto a professora explicava seu método de ensino, Claire estudou a professora. Ela era rechonchuda, mas não totalmente gorda. Usava uma calça jeans simples, uma blusa preta que a professora deveria julgar ser folgada, mas estava apertada em pontos que desfavoreciam seu corpo. Deixando visível suas “dobrinhas” nas laterais de sua barriga, jogando um avental bordado em cima de toda aquela roupa, como se ela estivesse dando aula para crianças do jardim, o que Claire achou totalmente desnecessário. A professora usava um daqueles sapatênis, que na opinião de Claire eram horríveis em qualquer situação. Mas afinal, gosto é gosto, concluiu ela.

Depois de longos 35 minutos – pois Claire havia chegado 10 minutos atrasada para a aula -, o sinal finalmente tocou. A professora rechonchuda passou uma pesquisa para casa e dispensou os alunos, que começaram a arrumar suas coisas para seguiram para outras salas, ou seja, para suas respectivas aulas.

Claire joga o caderno e a caneta que havia pego para copiar os tópicos da pesquisa que a Sra. Kane havia passado, na bolsa carteira jeans que eu a mesma havia escolhido em uma loja de departamentos do centro da cidade. Joga a alça da bolsa sobre o ombro e desliza da carteira, se pondo em pé, sem muita vontade de ir para a próxima aula. Se todas as aulas do dia fossem assim, Claire estava perdida, e desejaria desesperadamente ir para casa. Mas quando estava chegando na porta da sala de aula uma voz a chamou.

— Grande entrada, Claire Harris – Disse a voz. Era jovem e masculina, e quando Claire se virou para ver de quem pertencia, ficou surpresa em ver que a voz era do garoto do iPhone e da camiseta do Guns 'n' Roses.

Claire e o Garoto da Camiseta do Guns saíram da sala, dando de cara com um corredor movimentado. Quando Claire olhou para frente, percebeu que no fim do corredor uma enorme cruz estava pendurada na parede. Aquilo lhe causou calafrios.

— Obrigada, mas eu não chamaria de grande. Foi um desastre. — Diz ela, se surpreendendo com a facilidade que as palavras escapam de sua boca. — A professora deve me odiar.

— Ah não. A professora te detesta. — Diz ele sorridente, seu sorriso era uma coisa bem agradável de se ver. — Brincadeira.

— É... Ótima maneira de começar as coisas. — Responde ela, tentando esconder a decepção.

— Então, qual é a sua próxima aula? — Pergunta o Garoto.

Claire abaixa os olhos para o papelzinho laranja e vê: História Avançada I SALA 47. Repete isso em voz alta.

— Sabe como chegar até lá? — Pergunta ele.

— Sei... — Diz Claire sem muita convicção, mas se arrependendo imediatamente quando olha para ele. Não posso ficar mentindo assim para as pessoas, muito menos se quero ser amiga delas, pensa ela. — Não... Eu estou totalmente perdida aqui.

Ele sorri para Claire.

— Então, como um cavaleiro devo ajudá-la. — Diz ele, oferecendo o braço à Claire, como um cavaleiro medieval que tinha uma queda por salvar donzelas em perigo. — Se me permite...

Claire pega com hesitação no braço estendido do garoto, e ele a guia pelos corredores brancos e extremamente iluminados do colégio, que eram agraciados com a presença de um ou outro vaso de planta aqui e ali. E Claire deixa ser guiada, sem nem mesmo perguntar o por que de repente aquele garoto estava sendo gentil com ela, se na hora do pátio ele a havia ignorado, e até dado risada de sua cara. Ela concluiu que ele deveria estar com pena dela, ou talvez ele sentisse que ela fosse a obra de caridade dele do momento, ou, como já havia comparado antes, ele tinha uma queda por salvar donzelas em perigo.

Mas Claire não estava em condições de recusar. Ela era novata e ele, ao que tudo indica, veterano, e ninguém parecia o encher. Além do mais, ela concluiu, ele não era tão bonito assim para ser perseguido por garotas ou fazer parte de algum clube badalado, o que, por breve segundos, fez Claire ficar um pouquinho desapontada. O Garoto da Camiseta do Guns era a pessoa perfeita para andar, isso se, claro, ele quisesse andar com ela.

Logo o menino a estacionou ao lado da sala 47, que ainda estava com a porta aberta. Graças ao bom Deus, agradeceu Claire mentalmente. Ele rapidamente retirou seu braço do dela.

— Obrigada. — Disse ela, com uma sinceridade na voz. Já fazia tempos desde que alguém fizera algo por ela.

— Disponha, bela donzela. — Responde ele sorrindo, fazendo uma reverência floreada.

— Sério, obrigada mesmo. Espero que consiga chegar à sua sala à tempo. Não quero que se prejudique por minha causa.

O menino afastou a preocupação de Claire com um abano da mão esquerda.

— Não se preocupe comigo, Claire. Você já tem problemas o suficiente sendo aluna nova neste colégio. — Diz ele, ainda sorrindo. — Bom, vou indo. Agente se vê!

— Tchau — Respondeu ela.

Claire já ia se virando para entrar na sala de História Avançada I, quando se lembrou da pergunta que queria fazer desde a hora do pátio para o Garoto da Camiseta do Guns.

— Ei! Qual é seu nome? — Perguntou ela, se virando para ele.

Mas o menino já havia sumido no meio da multidão.

Claire desconcertada, torcendo para que ninguém a houvesse visto falando supostamente com o nada, entrou de cabeça baixa na sala de aula. O professor ou professora ainda não havia chegado, por isso quando Claire entrou, a conversa estava alta, mas pareceu virar apenas um burburinho quando ela se sentou. Claire sabia que se quisesse ser amiga das populares tinha que se sentar ao lado de uma. Mas o fato era: Claire não podia, então sentou em um canto qualquer, longe de qualquer contato com os populares, que estavam do lado direito da sala se você olhasse de frente, perto das janelas.

Agora, Claire podia observar melhor as pessoas em sua volta, pois não havia nenhum professor ainda para chamar-lhe a atenção.

Ela sentou entre duas meninas, na segunda fileira da sala, bem no meio. A da frente era uma menina com um corte de cabelo bagunçado e repicado, mas de um jeito bonito. A cor de seu cabelo era indefinida, mesclando do preto pro castanho hiper escuro e vermelho cintilante. Ela era uma figura esguia e bonita, mas se sentava de um modo curvado e falava entusiasmadamente com uma garota ao seu lado, uma garota com os cabelos curtos e enrolados puxados firmemente para trás em um rabo de cavalo, e usava um arquinho grosso. Bem afrente da menina de cabelos castanho-preto-avermelhados, havia uma menina de cabelos pretos enrolados com cachos nas pontas de ombros largos, que estava lendo um livro que Claire já havia lido, ela era avantajada na região dos seios – o que deixou Claire com um pouco de inveja, mas só um pouquinho — e parava de ler em intervalos de tempo para conversar com uma menina magricela ao seu lado de cabelos castanhos claros e meio indefinidos se eram lisos ou enrolados. Na carteira da frente, Claire observou, havia uma menina de pele escura e esguia que estava falando e gesticulando animadamente também com a menina magricela. Logo chegou outra menina magricela, só que essa tinha o cabelo cor chocolate ao leite com mechas mais claras nas pontas. Sua pele também era de uma cor chocolate muito bonita, o que estragava nela, eram os dentes separados que tinha, e os traços exóticos exagerados.

Elas quatro – contando também a menina do livro – conversavam sobre um assunto da qual Claire olhando por fora, parecia interessantíssimo, fazendo Claire desejar entrar na conversa. Ora, e afinal por que não? Claire estava na turma certa, ela supunha. Precisava ficar com os menos populares e aquelas meninas pareciam as menos populares dali, pois elas conversavam somente entre si e não com mais alguém da sala. Pareciam o escudo perfeito para o segredo de Claire, claro, não que a mesma fosse revelá-lo. Claro que não, afinal as ordens de seu pai foram claras no dia anterior, antes de o mesmo ir viajar à trabalho para as Filipinas: “Claire, você não pode, de jeito nenhum, se expor, está me entendendo? Com isso eu quero dizer: Sem amigas espalhafatosas, nem namorados, principalmente sem namorados. E por favor filha, por tudo o que é mais sagrado, não chame atenção desnecessária para você. Nós estamos te mudando de escola para sua própria segurança. Então não estrague tudo.”. Mas ela precisava de amigas, não? Para se misturar, se esconder no meio da multidão.

E Claire não ia estragar tudo. Não desta vez. Ela faria exatamente o que seu pai havia lhe mandado.

Claire ficou em silêncio. Claire podia ser a mais popular em sua outra vida, mas aqui tinha que passar uma imagem totalmente diferente.

Claire desejou ter um livro para ler naquele momento. Qualquer que fosse o professor/professora da aula de História Avançada I, não era muito pontual. Claire encarou as unhas que não pode fazer. Fazer as unhas era uma lembrança da vida antiga, e Claire queria que tudo ficasse para trás. Suas mãos eram delgadas e finas, lisas e macias sem nenhum calo, pois nunca havia precisado trabalhar.

Claire percebeu um burburinho vindo da turma de meninas, que a encaravam timidamente e viravam os rostos para esconder o interesse. Elas cochichavam algo que Claire preferiu não ouvir e voltou a encarar suas unhas. Revirando o anel fino que havia em seu dedo anular – a única lembrança da vida velha que se permitiu usar — , percebeu que uma das meninas se levantou e foi em sua direção, se prostrando ao lado de sua carteira. A garota de rabo de cavalo olhou com seus olhos angulosos para Claire com uma curiosidade evidente.

— Olá. Meu nome é Jane Adams, tudo bem?

— Tudo sim. — Responde Claire, voltando seu olhar para o dela. Estendendo a mão delgada para Jane. — Claire Harris.

Jane abre um sorriso sugestivo. O por quê, certamente Claire nunca saberia.

Jane assente para que as outras garotas cheguem mais perto.

A garota de cabelos pretos e abundantes seios foi a próxima à se apresentar:

— Victória Chandler.

— Lucy Melbourne – Disse a menina de cabelos castanho-preto- — avermelhados, sorrindo.

— Anne Cotton – Apresentou-se a menina magra de cabelos indefinidos, piscando timidamente.

— Beatrice Longbotton, mas pode me chamar de Bea – Disse a menina de traços exóticos exagerados, abrindo um sorriso amarelo com seus dentes espaçados.

— E por fim mas não menos importante, eu! — Disse animadamente a menina de pele escura, batendo palmas. — Brincadeira, meu nome é Liza Simon, seja bem vinda ao colégio Good Lord.

Claire ficou impressionada com a boa recepção daquelas meninas, apesar de seu coração estar batendo a mil. Claire nunca foi boa com apresentações – que eram continuamente ignorada pelas pessoas que a cercavam, pois queria de um jeito ou de outro estar perto dela, independente se Claire fosse chata ou não. Mas para Claire era vantagem. Aqui, isso não contava, Claire estava sozinha — , e agora que precisava esconder metade de sua vida e de sua identidade, seria difícil, mas não impossível, pensou ela.

— Oi. — Respondeu Claire as apresentações. — Meu nome é Claire Harris.

— De onde você vêm, Claire? — Pergunta a menina morena, Liza.

— Vim de outro país. Austrália. — Diz rapidamente Claire, lembrando do que seu pai a havia instruído a falar caso alguém lhe perguntasse de suas origens.

— Oh! Que legal! — Diz Jane, animada. — Nunca nem sai do estado.

— Nem eu. — Diz Victória com um certo rancor na voz.

-Mas este ano vai ter a viagem de fim de ano. Espero que seja para algum lugar legal. — Agora foia vez de Anne falar.

— E barata. — Completa Lucy.

— Você é a que menos pode falar, Lucy. — Diz Jane em um tom de desafio. — Seus antepassados eram donos de alguma cidade por ai. Você tem dinheiro.

— Não. Meus pais têm dinheiro. Eu ainda tenho que esperá-los morrer, ou dá-lo de boa vontade para mim. Dãard.

— Vire essa boca para lá, Lucy. Seus pais são mais legais do que os meus. — Diz Bea, um tanto revoltada. Mas dava para ver que ela só estava brincando. — Os meus não me deixam nem sair de casa.

— Pra você ver Bea, é isso que dá ficar se amassando por ai com seus namorados virtuais. Se é que me entende. — Diz Jane, piscando para Victória que riu.

— É, Bea. Sua situação não está muito favorável. — Responde Victória para Bea.

— Mas eu não me amasso com namoradinhos virtuais. Eu sequer tenho um namorado. — Responde Bea, agora parecendo indignada de verdade.

— Sei... — Diz Victória lançando um olhar significativo para Bea, que corou.

O barulho da porta da sala se fechando foi o que alertou a todas, que voltaram à seus respectivos lugares.

— Bom dia, classe. — Diz um homem, do qual Claire tinha certeza que era o professor. — Vocês já tiveram tempo o bastante para conversaram, colocaram o papo em dia, mas agora é hora de prestarem a atenção.

O professor de virou para o quadro negro de tamanho considerável e começou a escrever com uma letra redonda e meio garranchosa. Claire instantaneamente gostou dele. E ela não sabia o por quê.

— Meu nome é Harry Marshall. Mas vocês podem me chamar de Sr. Marshall. — Diz ele abrindo um sorriso. — Bom, vocês devem se perguntar porque alguém tão novo quanto eu estou fazendo aqui, dando aula de história para vocês.

Claire se impressionou. Era exatamente o que Claire estava pensando naquele exato momento. Aquele professora tinha cara de no máximo vinte e cinco anos. Ele usava um suéter estampado sem mangas por cima de uma camisa branca, uma calça jeans surrada (isso mesmo, um professor de jeans), e um All Star. Sério, um All Star.

— Bom é simples. — Ele continuou, interrompendo os pensamentos de Claire. — A História nos mostra fatos. Coisas que realmente aconteceram. Podemos reviver através de registros históricos, a primeira e a segunda guerra mundial, ou os tempos dos antigos egípcios, ou os tempos feudais. Podemos reviver na pele de nossos antepassados. Reviver a glória de conquistar uma terra, ou a dor da perda por uma doença. Enfim, foi por isso que eu quis ser professor de História. Pela paixão pelo antigo e pelo novo. História está em todos os lugares, em cada canto. E eu espero que ao longo do ano vocês venham se identificar com a matéria. Assim como eu.

A sala ficou em silêncio. Todos impressionados com o discurso inspirador do professor, que estava corado. Ele havia se excedido, e agora que ele havia percebido.

Claire achou fofo o fato de um professor se entregar tanto a matéria. E isso a fez gostar ainda mais dele. Talvez, mais do que deveria.

Continua....

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.