Beijo De Sangue
1 Capítulo 1
Notas iniciais
-Eu não acho que eles entenderiam... – Ela suspirou ao vento enterrando os dedos na terra úmida e macia, a luz opaca da tarde tragava-a enquanto o sol desaparecia ao longe. Ninguém poderia ouvir suas palavras aqui, nem eles nem o resto do mundo que não se importava, realmente ninguém...
- E porque haveriam de entender? – Respondeu a si mesma, sempre era assim, sempre, sempre... Por quê?
-Tente esquecê-los... Nunca sentiram sua falta, agora não será diferente. – Sim, sim, nada era diferente, nada poderia ser diferente porque a vida é sempre a mesma, monótona, chata e sem sentido... Como ela.
-Vamos... – Suspirou, a terra sob suas unhas parecia acalmá-la e o frio penetrando pelo fino agasalho de lã cinzenta era um abraço carinhoso, o único abraço que ela já conhecera. – Por que medo?
-Essa é uma boa pergunta. – Outra voz respondeu num tom irônico. A garota assustou-se, tentou encontrar de onde vinha a voz. Mas ninguém poderia estar aqui, não hoje.
- Quem é você? – Toda a paz que havia construído em si naquelas horas de solidão desmoronou-se, porque aquele desconhecido havia interrompido seu plano perfeito? E aquela voz era tão familiar... Em momentos como esses ela culpava sua memória por nunca ser capaz de ligar nomes com vozes, aquele poderia ser qualquer um!
-Pensei que lembrar-se-ia de mim. Tsc, tsc. Que decepção, Janet. – Ele saiu das sombras, deslizou por entre as árvores altas silenciosamente até entrar no campo de visão da garota, mesmo assim nunca deixou de ser uma sombra... A sombra de alguém que conhecia...
-Lembraria se pudesse vê-lo! – Lágrimas começavam a marear seus olhos castanhos, ela não queria chorar frente a ele, não podia! Chorar era fraqueza, suas lágrimas eram segredos, cada derramada era perdição. Não, não, não!
-Mas pode ver-me. Sei que pode. Estou bem aqui, minha querida. – A sombra riu e ela chorou, não sabia por que tinha tanto medo.
-Não posso! Não posso!- Sacudiu sua cabeça desesperadamente, os cabelos compridos assemelhavam-se a bandos de pássaros esvoaçando em volta de seu rosto rosado. Ela queria saber quem ele era e ao mesmo tempo temia sabe-lo.
-Tente um pouco mais, minha querida. Ou prefere que eu me aproxime? – Ela acenou afirmativamente, olhou para o chão de terra e grama molhados por um minuto tentando encontrar neles a calma que um dia existia.
Um passo a frente, ela ouviu os pequenos gravetos quebrando sob o peso e a grama cedendo, a terra afundando ao toque do corpo, indefesa. Outro, e outro e a repetição dos sons, sempre com uma pequena diferença, um graveto a mais ou a menos ou uma pequena flor esmagada e morta. O rosto do estranho ficou visível e ela tornou-se estática, movida somente por curtos espasmos de medo. Medo completamente justificável agora.
-Mas... Mas... Você foi... Eu fiz... – Ela não conseguia escolher as palavras muito menos expressá-las.
Aquela manhã mesmo o pescoço daquele rapaz estivera entre suas mãos, ele havia gritado por misericórdia, clamado por compaixão enquanto ela acabava com sua vida. Ela ouviu seus gritos cessarem e seu corpo contorcer-se em morte, os membros pendendo ao lado do corpo. Ele havia morrido por suas mãos e mesmo assim perseguira-a.
-Matou-me? Realmente pensa que poderia matar-me com essas suas mãos imundas? – Ele riu mais uma vez, riu como o louco que era do sofrimento da pobre garota.
-Eu pensava... – Parou sem saber o que falar. Não havia palavras para o momento, somente o sorriso insano daquele homem, sua voz a dela e seu calor aproximando-se.
Ele abaixou-se sobre o corpo franzino e indefeso de Janet, ela fechou os olhos enquanto as lágrimas continuavam a correr livremente, todos os segredos que ele já conhecia...
-Acha realmente que isso a ajuda? – Os dedos longos e finos acariciaram o laço em volta de seu pescoço, o mesmo que ela falhara em amarrar na árvore e causara uma dolorosa mas inofensiva queda, não a morte, descaram para a marca rubra em seu pescoço onde a corda havia mordido a carne antes de deixa-la como um amante cansado na manhã.
-Não... – Ela suspirou, concordando com sua ignorância e inocência. Uma corda arrebentada nunca ajudaria ninguém, mas o laço firme na árvore que a sufocaria até a morte sim.
-Aceite-me então. – Ela concordou com a cabeça, não concordando com a alma. Sabia que não havia outro jeito. Ouviu quando ele ajoelhou-se frente a ela, seus rostos em mesmo nível e o calor de seus corpos compartilhado no ar frio. – Sabia que seria assim.
Quando seus lábios tocaram os dela ela não reagiu, deixou-o sentir sua boca avidamente, violentamente até com a língua quente e sempre desdenhosa, sentiu seu gosto e a ânsia de ir para bem longe onde aqueles olhos e aquela boca nunca a encontrariam. Também sentiu o gosto do sangue quando acidentalmente fechou a mandíbula com alguma força exagerada naquela língua que odiava, ouviu o grito cortando o ar e a boca afastando-se deixando um pedaço de carne morna entre seus dentes.
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