Behind the Story

4 Capítulo IV – Caça às Bruxas


Notas iniciais
No gif do capítulo: Salazar Slytherin.

“Dig up her bones but leave the soul alone

Let her find a way to a better place

Broken dreams and silent screams

Empty churches with soulless curses

We found a way to escape the day”

Bones, Mr Ms

★

No dia seguinte, fui a primeira a acordar.

O barulho forte da batida contra a porta de madeira fez-me ter uma estranha sensação de déjà vu. Ainda estava meio grogue, como se fica ao acabar de acordar, mas percebi que chamavam alguém. Esfreguei os olhos com força e franzi as sobrancelhas em concentração, em poucos segundos consegui discernir o som. Sr. Slytherin.

O tom urgente da voz que clamava do outro lado da porta me afetou e desvencilhei-me de Rowena descuidadamente, sem me preocupar em não acordá-la. Salazar, diferentemente de Godric e Benjamin, dormia com a postura ereta e com ambas as mãos repousadas sobre o colo. Quem dorme do mesmo jeito que assiste a um culto? Pensei, mas logo resolvi focar no que era prioridade.

Tentei sacudi-lo pelos ombros, mas seu corpo era mais pesado do que realmente parecia, então não estava surtindo muito efeito. A voz não parava de chamar e isso só fazia com que eu me sentisse mais pressionada. Comecei, então a chamar junto e sacudir com mais força. Algum tempo depois, Salazar abriu os olhos. Sua expressão, porém, estava raivosa, como se eu tivesse tirado-o de um bom sonho.

— Estão te chamando, parece ser importante! — tratei de explicar rapidamente.

Desviou os olhos de mim para a porta e foi até lá, espreguiçando-se no meio do caminho. Àquela altura, todos já estavam, ao menos, semi-despertos. Eu estava curiosa e queria ir junto de Salazar até a porta, mas não sabia o quão confidencial poderia ser o assunto.

— Sr. Slytherin, por Deus, pensamos que nunca o acharíamos! — alguém berrava.

Desisti da etiqueta e simplesmente cheguei minha cabeça para o lado para conseguir espiar. Notei que era uma serva, por suas vestes e que provavelmente era uma mulher de meia idade, pois tinha vários fios grisalhos despontando entre os cabelos escuros. O que mais chamava atenção, porém, era seu semblante completamente desesperada.

— Eles pegaram-nas! Disseram que estavam praticando bruxaria! Foram tão violentos, Sr. Slytherin! Não conseguimos impedi-los, sentimos tanto!

— Se acalme, mulher! — Salazar segurou a senhora pelos ombros com firmeza, mas sem ser grosso. — Quem foi pego?

— As meninas gêmeas... — Ela fez uma pausa, respirou fundo e olhou nos olhos do moreno ao acrescentar: — E sua mãe, senhor.

Senti uma pontada repentina no meu coração, como se estivesse sendo comprimido, impedindo-o de bater por um momento. Um piscar de olhos depois e tudo ao meu redor era um borrão. Eu ouvi o ruído alto de pessoas se levantando apressadas, senti mãos fortes e calejadas se enroscarem em minha cintura e me levarem junto ao ritmo frenético pelos corredores. Percebi que havíamos chegado ao pátio quando a claridade machucou minha visão e uma multidão de pessoas começou a me espremer, o que fez com que o aperto na minha cintura se intensificasse.

Tinha uma consciência parcial do que acontecia a minha volta, mas minha mente não estava ali. Estava procurando por algo. Eu era pequena, menor do que a maioria das pessoas que ali estavam, mas com muito esforço e com os pés em ponta, consegui finalmente ver o que buscava. Havia uma elevação de madeira que servia como um palco, todos se debatiam e gritavam insanamente ao redor, como se aquilo fosse um show particular, pensamento que me encheu de nojo. As três estavam amarradas, cada uma a um poste de madeira.

Elas estavam completamente descompostas: tinham os vestidos rasgados, os cabelos desgrenhados e, em seus braços despidos, pude perceber várias marcas amplas e arroxeadas. Apesar disso, elas se comportavam de maneira completamente diferente: Cewyn mantinha a expressão impassível e despida de emoções, mas percebi que seus olhos vagavam nervosamente pela multidão, deduzi que procurasse por seu filho. Não pude conter um sorriso ao avistar Jocelyn. Ela era um furacão: xingava, blasfemava e se debatia contra as amarras vigorosamente. Quando corri os olhos para Cassandra (a gentil e maravilhosa Cassie que há poucas horas trançava meus cabelos), meu coração apertou novamente, ela estava encolhida, chorando copiosamente.

— Sempre soubemos que esse dia chegaria. Não vai acontecer nada com elas, fique tranquila — disse Salazar, apesar da frase, pude notar que ele parecia ligeiramente inquieto — Após a morte do meu pai, minha mãe teve medo de que algo ruim lhe acontecesse e eu terminasse sozinho, então criou uma poção que permitia a regeneração dos nossos corpos quando queimados. Nós a tomamos regularmente.

— Mas não poderemos continuar aqui — disse Rowena, apertando as mãos com força. — Precisamos estar preparados para a fuga, tão cedo quanto possível.

— Vou cuidar dos preparativos, encontrem-me no estábulo — disse Benjamin, se distanciando com rapidez.

Observei o menino sumir entre as pessoas, até que uma voz grave e masculina atrás de mim chamou pediu a atenção de todos. Pelas roupas negras, os movimentos mórbidos e o grande crucifixo dourado no peito, eu deduzi que fosse um padre.

— Irmãos e irmãs, vivemos em um mundo de escuridão e trevas, dominado pelo que é maligno e demoníaco! — ele dizia de uma forma tão aterrorizadora que eu mal conseguia piscar. — Nós devemos ser a luz do mundo, luz que põe fim à escuridão. E por isso estamos aqui nesta manhã...

Parei de prestar atenção no discurso perturbador e olhei em volta, percebi que Godric tinha as duas mãos ocupadas, uma paternalmente enlaçada em minha cintura e a outra no ombro de Salazar, cujo rosto estava completamente focado no que acontecia a sua frente, assim como o de Rowena. Segui o olhar deles e notei que vários homens de elmo e armadura se aproximavam com suas tochas em uma mão e suas espadas em outra. Aparentemente, Jocelyn também havia notado porque havia engasgado momentaneamente com a próxima blasfêmia, para logo depois se recompor e voltar a gritar ainda mais alto.

— Godric — chamei, atraindo a atenção dele para mim. — A poção tira a dor do fogo?

Ele me encarou com pesar, sem dizer nada, o que já serviu como resposta.

— Não precisa ver, se não quiser, Helga — ele disse, abrindo um sorriso afável. — Apenas feche os olhos e se imagine em um lugar feliz.

E eu imaginei. Imaginei um lugar onde Cassie cantarolava ao mexer no meu cabelo, onde Jo me ensinava suas melhores receitas. Onde Rowena lia histórias, Godric e Salazar duelavam e Cewyn abria um de seus belos sorrisos para mim. Até mesmo o quieto Benjamin estava lá. Surpreendi-me ao perceber a onde de conforto que aqueles simples pensamentos causaram em mim.

Isso até ser tirada desse lugar da por um grito quase desumano. Abri os olhos e me surpreendi ao ver que aquele som havia saído da tão contida Rowena. Aquele som acabou passando despercebido, pois foi abafado por vários outros, quase tão horrendos e viscerais quanto.

Ao olhar para frente, prendi a respiração, sentindo-me incapaz de soltar o ar em meu peito. Lá estava a cena que povoaria meus pesadelos até depois de minha morte. Não havia fogo, mas havia sangue por toda parte. Muito sangue. E parecia jorrar mais a cada segundo, como água de uma nascente, deixando o palco de madeira vermelho e pegajoso. Uma espada longa e prateada havia sido cravada através do pescoço de cada uma delas, congelando seus rostos para sempre em um misto de dor e surpresa. Os soldados retiraram as espadas rápida e friamente. E quando eu pensei que a tortura havia acabado, tornaram a enfiá-las (acompanhados por um gemido esganiçado e involuntário meu), dessa vez exatamente no meio do peito, onde deveria ficar o coração, levando quaisquer esperanças que eu ainda poderia nutrir.

Só então, veio o fogo. As tochas desceram de uma maneira estranhamente sincronizada sobre seus corpos. Começaram tímidas, mas cresceram em pouquíssimo tempo, devorando tudo que havia em seu caminho. Senti o braço de Godric pender sem força da minha cintura e soube que havia acontecido o mesmo com o que estava sobre o ombro de Salazar.

— Que voltem para o lugar ao qual pertencem! — exclamou o padre, pondo-se a frente das chamas crescentes. Ele pisava sobre o sangue derramado e as faíscas alaranjadas pareciam dançar ao redor dele, tornando a situação ainda mais horrenda — É sabido por todos nós, porém, que ainda existem bruxas nesse território. É nosso dever acabar com essa raça e com todos aqueles que as ajudam. Eu vos digo, cacem-nos! Juntos, meus irmãos, recuperaremos a santidade do nosso mundo.

Todo o ar que estava preso em mim saiu pela minha boca de uma só vez, como um ganido de desespero.

— Devemos ir, agora! — disse Rowena com a voz trêmula.

Godric concordou silenciosamente, se sentindo impossibilitado de pronunciar alguma coisa. Começamos a virar as costas, mas a voz de Rowena surgiu novamente:

— Salazar, temos que ir. — ela repetiu, mas ainda assim não obteve reação nenhuma do rapaz. Acrescentou, então, com mais suavidade: — Salazar...

Observando com cautela, pude perceber que seus ombros tremiam discreta e involuntariamente e que seus punhos estavam cerrados com tanta força que as juntas dos dedos estavam brancas. Ele virou a cabeça vagarosamente, olhando-nos primeiro por cima dos ombros e, depois, aos poucos, diretamente. Seus olhos verdes estavam vermelhos, cheios d’água e com as pupilas dilatadas, mas ele não havia derramado nenhuma lágrima e parecia estar se esforçando para continuar assim.

Soube que o que havia ali não era apenas tristeza.

Era mais do que isso.

Era mágoa.

Rancor.

Ódio.

Ele cerrou as pálpebras e abaixou a cabeça. Com um suspiro pesado, abriu os olhos. Sem nos encarar novamente, puxou o capuz escuro sobre a cabeça e começou a se distanciar com rapidez entre a multidão.

★

Estava começando a me sentir sonolenta.

Ainda estávamos nos estábulos, jogados sobre os montes de feno. Já estava bem tarde, todos estávamos quebrados, tristes, frustrados e cansados, mas a discussão parecia nunca ter fim. Salazar permanecia apático e inconsolável ao meu lado, sem desviar seu olhar das vigas de madeira da parede, como havia estado desde que ali chegamos. Eu não prestava atenção no que todos falavam há algum tempo, mas basicamente, Rowena dizia que descansar aquela noite e viajar pela manhã era mais sensato, enquanto Godric defendia com furor que deveríamos esperar um pouco mais de tempo antes de partir e até Benjamin parecia ter uma opinião formada própria sobre o momento da partida.

Para mim, não fazia tanta diferença. Partiríamos, de qualquer forma.

Resolvi que voltar a escutar os argumentos, era a melhor forma de evitar ser tomada pelo sono que eu teria para o momento, mas não fiquei muito animada com o que captei:

— Por que tudo sempre precisa ser do seu jeito, Rowena? Nem sempre é o melhor! — exclamou Godric.

— São dois pontos completamente diferentes! — retrucou Rowena — Não é porque é o meu jeito. Aquele monstro nos quer mortos. Todos nós!

Bufei baixinho. Aquilo com toda certeza ainda iria levar bastante tempo.

— Vê, não vê? — sussurrou Salazar de uma forma que apenas eu escutasse.

— Vejo o que? — franzi o cenho, confusa e surpresa pela abordagem repentina.

— O quão estúpidos estão sendo — resmungou com amargura — Estão esperando, mas não temos pelo que esperar. Elas não virão. Não hoje, não amanhã, não mais.

Eu permaneci em silêncio e tentei livrar meu rosto da expressão piedosa. Não era isso que ele estava procurando e eu sabia. Então, apenas estiquei o pescoço, de forma que permitisse que ele encostasse sua cabeça em meu ombro e foi o que ele fez.

— A lembrança mais forte que tenho de quando meu pai era vivo vem de um sombrio dia ensolarado. — ele disse, seu tom de voz era distante, como se sua alma não estivesse realmente ali. — Godric e eu havíamos corrido pelos jardins durante todo o dia e quando chegamos, cansados, suados e contentes, o clima estava pesado. Mais tarde, naquele mesmo dia, meu pai me chamou para conversar. Há muito tempo, um velho amigo de meu pai havia sido morto, ele disse, cruelmente assassinado. E, naquele dia, o filho do assassino aparecera em nossas terras. Quando cheguei, meu pai havia acabado de despachar guardas para expulsá-lo de lá.

— Não é justo. A morte do amigo de seu pai não foi culpa do rapaz — respondi.

— O sangue, derramado injustamente, não suja apenas as roupas de quem mata, Helga. Suja o caráter, as vestes e, acima de tudo, suja seu próprio sangue. O sangue que corria nas veias do assassino do amigo de meu pai corria nas veias daquele garoto. — ele fez uma pausa pequena e me encarou. — E assim também é com aquelas pessoas hoje na praça. Mesmo que nem todas tenham enfiado a adaga, eram todas assassinas. Omissas. Cúmplices. Elas são pessoas ruins e sangue ruim corre por suas veias. Não devemos nos associar a esse tipo de gente.

— Eu te entendo, mas discordo — disse, calmamente. — Se o que está dizendo fosse verdade, estaríamos fadados a viver em um mundo de assassinos, o que é algo no qual eu me recuso acreditar.

— Eu também me recuso.

— Salazar, acabou de dizer que...

— Não isso. Acredito no que eu disse, mas não acredito que estejamos fadados a viver nesse mundo — interrompeu-me Salazar e, abrindo um sorriso de quem guarda um ótimo segredo, acrescentou: — Nós deveríamos criar um novo.

Notas finais
Se você chegou até aqui: olá, tudo bem? Foi difícil escrever esse capítulo, mas ele precisava existir. Sempre achei que o ódio de Salazar pelos nascidos trouxas era algo intenso demais para ter nascido de algo tão aleatório quanto o acaso. Rancor é um sentimento perigoso que ainda vai bagunçar bastante a vida do nosso Slytherin. 3 Fora isso, espero que tenham gostado! Deixem um review com críticas e sugestões, para eu saber o que estão achando da história. Beijinhos, até o próximo capítulo! :)