Begin Again
4 Determined
Notas iniciais
Eu encarei o apartamento que haviam me dado até que eu tivesse me habituado a Terra, ainda parado na porta do lugar com as chaves nas mãos.
Não era exatamente grande, mas também não era pequeno. Era cômodo, perfeito para uma única pessoa viver confortavelmente. Tinha uma sala misturada com cozinha, com todos os moveis básicos distribuídos de modo equilibrado e uma porta de vidro que se abria para uma bancada, com uma vista perfeita da cidade no quarto andar. No meu lado direito saia um corredor que provavelmente levava até ao quarto e ao banheiro e do meu lado esquerdo havia uma porta semiaberta que eu percebi que guardava a lavanderia.
Comum e vazio, sem toques pessoais. Esse seria o meu trabalho, de acordo com a graciosa alma chamada Pequena Gota Rosa que me recebera no prédio. Conforme o tempo, eu iria deixar aquele lugar mais habitável e até poderia virar o meu lar.
Eu me lembro de tentar sorrir animadamente para ela e falhar miseravelmente. Eu tentei explicar para a gentil mulher de cabelos loiros que ela não havia feito nada de errado e que eu estava bem e não tinha necessidade de contatar meu Curador. Tentei falar sem dizer a verdade horrível que eu só estava abalado com tudo aquilo e um tempo sozinho para me organizar seria o suficiente para me ajudar.
Não tinha motivos para me sentir nervoso, porque nenhuma Alma negaria um pedido, mas mesmo assim não consegui encarar aqueles olhos azuis cheios de preocupação por mim.
Eu não merecia aquilo.
Aquele corpo, meu corpo poderia ter o sangue da família daquela alma nas mãos e eu não saberia. Eu tinha como saber, mas eu não queria porque eu era covarde demais para procurar. Covarde demais para enfrentar as memórias. E mesmo se Pequena Gota Rosa não fosse uma das vitimas, eu não merecia a preocupação de uma gentil e carinhosa alma quando eu havia posto meu medo acima do bem-estar geral da minha espécie.
Joguei-me no sofá, largando as coisas que haviam me dado no chão.
Eu queria chorar.
Não seja patético, disse a fonte de todos os meus problemas e que não deveria existir mais. Eu gemi e fechei meus olhos. Chorar por algo tão estúpido como culpa, ainda por cima uma culpa tão sem sentido como essa.
Não espero que você entenda meus sentimentos, mas você poderia ser menos desagradável? Eu retruquei, respondendo pela primeira vez aos pensamentos de Loki desde que havíamos saído do Centro de Cura.
Eu poderia, mas qual seria a graça nisso? Ele disse com escárnio. A sua culpa por ser egoísta é tão lamentavelmente patética quanto divertida e eu não tenho muito que fazer.
Grunhi e me virei no sofá, me arrependendo de ter dito qualquer coisa. Daquele ser só saiam palavras afiadas e acidas, como flechas embebedas em veneno mirando diretamente no coração do inimigo. E eu, é claro, era o principal e maior inimigo dele. Depois de apenas dois dias de convivência, já havia aprendido isso.
Depois de ter conseguido desvendar como falar livremente em minha cabeça, Loki não poupou palavras e nem esforços em ser o mais desagradável possível a cada passo que eu dava. Ele dissecou meu horror quando descobri as verdades do corpo que eu estava usando e expôs meu medo de tentar desvendar suas memórias sobre uma lente de aumento com um holofote ligado. Enfiou com crueldade uma lamina cega na ferida que meu egoísmo me abriu e desde então vem jogando acido sobre ela.
Minhas tentativas de me distrair eram facilmente dissolvidas por seus comentários casualmente cruéis e qualquer novidade curiosa e divertida era facilmente tingida de cinza por seus pensamentos rancorosos.
Dois dias e eu já estava em um dos piores estados emocionais que aquele corpo podia estar.
Tristeza.
Se não fosse por um único fator, eu provavelmente teria pedido para trocar de hospedeiro a essa altura, porque eu não conseguia me importar com algo tolo como orgulho (se é que esse sentimento tivesse algum cabimento nessa situação) quando eu pensava que usava as mãos de um assassino para comer. Que o cérebro a qual havia me ligado com 827 ligações de modo firme e voluntário era o mesmo que havia planejado milhares de homicídios sem nem um piscar de olho. Porque deveria eu me importar futilmente com o que pensariam de mim diante da possibilidade de pesadelos todas as noites sobre criaturas sensíveis morrendo diante meus olhos, enquanto minha boca (que não deveria ser considerada minha, de acordo com Tecedor de Céus, porque não fora eu, a minha consciência, que decidira fazer aquilo, mas o meu interior revirava de culpa do mesmo modo, porque o corpo que eu usava sustentava aquele passado) se abria em um sorriso satisfeito e indiferente.
Mas era também exatamente por todos esses mesmo motivos que eu não havia aceitado a sugestão de trocar de hospedeiro. Eu já estava causando problemas demais com o meu medo. Eu não tinha o direito de querer forçar outra alma a enfrentar aquilo tudo devido minha covardia – isso porque eu sabia que, se eu desistisse, outro seria selecionado para ocupar o lugar do qual eu havia fugido. Nesse aspecto, Construtor de Cristais Azuis não deixou duvidas.
Talvez a persistência daquele Buscador em infligir seres da sua própria espécie a algo como Loki...
Oh, isso deveria me ofender? Desculpe, não havia percebido. Ofensa devidamente anotada.
... deveria me irritar, mas eu sabia melhor. Nas 40h em que passei ao seu lado, eu pude ver que ele era alguém que tinha a visão do bem em grande escala, como todas as almas supostamente deveriam ter e eu não pude não concordar com sua opinião que, se fosse para o melhor de todos, pequenos sacrifícios individuais tinham que ser feitos.
Eu vi em seu rosto sério que, apesar disso, ele não gostava de pedir isso a outros e eu entendi que se eu, uma das supostas almas mais corajosas, não aguentasse aquilo e desistisse Construtor de Cristais Azuis não faria outro sofrer o que eu sofri. Um único reflexo de seus olhos escuros me deixou claro que ele tomaria as rédeas da situação para ele mesmo.
Minha admiração por seu caráter de espírito me venceu no medo e recusei a oferta tentadora. Uma alma nobre como Construtor de Cristais Azuis não merecia isso, não merecia ter de lidar com um assassino em sua cabeça.
Mas mesmo com essa momentânea hora de coragem, quando eu relembrava no inferno que Loki havia me jogado quando tentei olhar mais a fundo suas memórias... aquilo ainda fazia meu estomago revirar perigosamente e minha coragem sumia como pó ao vento. Eu provavelmente nunca conseguiria virar um Curandeiro como um dia havia querido – a visão do sangue provavelmente me faria vomitar devido à lembrança que havia sido queimada em minha mente.
Patético. Tanto drama sobre uma das minhas memórias menos violentas e você me diz que vocês conquistaram mais de cinquenta planetas sozinhos. Minhas duvidas tem suas fundações, eu creio. Suas palavras enganosamente educadas me cortaram o enjoo e uma onda feroz de um sentimento que eu ainda não havia me acostumado devido sua intensidade, me invadiu.
Raiva.
Só porque sua raça acha que a violência é a resposta para tudo não significa que ela é única resposta para outros também. Eu retruquei, tentando não gritar em minha própria cabeça.
Senti sua diversão com minha irritação enquanto aquela risada gélida que eu já havia aprendido a odiar invadiu minha cabeça. Porque atacar pelas costas, tomar um corpo e uma vida que não lhe pertence enquanto engana as pessoas que amaram a consciência que você assassinou é muito melhor que defender reinos de invasores perigosos.
Foi como levar um soco no estomago ouvir uma acusação daquelas. Senti-me de repente doente e mais furioso ainda. Usamos dos meios que o Universo nos deu para sobrevivermos, nunca fazemos mais do que precisamos e não causamos dor intencionalmente. Muito pelo contrario, tentamos evita-la o máximo que somos capazes.
Eu digo o mesmo.
Seu povo anseia a guerra e a violência. Não sou tolo, não precisa me mostrar para saber que tortura é algo aceitável para você.
Uma risada fria como o inverno. E o que vocês fazem é de algum modo melhor? Tomam planetas que não são seus para assassinar aos montes. Se cinquenta é o verdadeiro numero, vocês “almas”, nesse momento sua voz desceu de tom, cada palavra pingando de ódio e veneno de tal nível que recuei atordoado e acuado, mesmo sendo apenas uma voz em minha cabeça e não uma ameaça física real, são homicidas maiores do que Asgard em todas as suas guerras, assassinos mais-
“NÃO SOMOS ASSASSINOS!” Eu gritei, a raiva me subindo pelo peito mais uma vez, porque eu não conseguia mais ouvir aquilo. Nossas raças, nossas vidas, nossas existências não eram de modo algum parecidas como aquele... aquele monstro queria me fazer pensar! Eu nunca atravessei o peito de ninguém e sorri satisfeito, nunca encarei os olhos de algo que eu chamaria de inimigo para ver a luz de a vida sumir-lhe somente para sentir um prazer de vitória sem sentindo, nunca planejei como arrancar a cabeça de outra criatura sensível por mera diversão! “Nenhuma vida, nenhum corpo é descartado a não ser que não tenha nenhum modo de salva-lo! Nenhuma criatura é exposta a-“
A risada cruel e fria ressoou em meu crânio novamente e não pela primeira vez naquelas 48 horas eu quis ser capaz de cala-la. Essa é a sua definição de assassinato? Tão infantil quanto seus medos. Seu riso cessou de repente e sua voz, sua cadencia ficou afiada e sibilante. Como uma cobra, minha mente me forneceu. Para mim, para esse mundo, assassinato é quando você extingue a existência de alguém. E existência é definida pelo eu, pela consciência e é isso o que vocês, “almas”, fazem. O que é o corpo sem sua consciência? Uma carcaça condenada ao apodrecimento, uma concha vazia. Vocês criam conchas vazias aos montes para vocês mesmo, vermes rastejantes e patéticos, possam ocupa-las enquanto se enchem de conversinhas dizendo que isso é o melhor para o planeta, enquanto que na verdade vocês roubam e matam pelo que vocês não podem ter naturalmente: um corpo de verdade. Porque essa é a definição de parasita, meu caro, uma criatura incapaz de sobreviver sem se aproveitar dos outros. O que você chama de cinquenta conquistas, eu chamo de cinquenta infecções, cinquenta planetas onde sua espécie se proliferou e dominou exatamente como uma doença, um vírus. Assassinou mais de cinquenta espécies inteligentes e ainda tem a audácia de dizer que minhas memórias são violentas? Essa é a coisa mais tola, mais infantil, mais hipócrita que já ouvi. Quantas famílias, amigos e amantes vocês separaram com suas “puras intenções” enquanto que eu apenas lutava para proteger minh-
Do nada, Loki interrompeu seu monologo, sua voz que estava extremamente próxima de gritar em minha cabeça, com escárnio, ódio e desprezo pingando a cada palavra como veneno pingando em minhas feridas, simplesmente parou – como um radio sendo repentinamente desligado. E o silencio que eu tanto desejava reinou.
Voltei a respirar num estalo, notando somente agora que havia parado de respirar. A confusão ergueu-se dentro de mim, furando meu balão de raiva cada vez maior e sobrepondo minha náusea e mal-estar. O que havia acontecido?
Esperei, sem entender o que estava acontecendo. Porque do silencio repentino e sem motivos. Eu não o conhecia há muito tempo, mas eu sabia o suficiente para saber que Loki não gostava de ser interrompido e nenhuma frase sua tinha o risco de ser interditada por ele mesmo, já que ele planejava cuidadosamente o que iria dizer. E eu sabia que não era ele sumindo como deveria ter sumido dês do inicio, porque eu ainda o sentia na minha cabeça – uma presença além da minha, outra linha de pensamentos que não eram meus.
Então eu vi. Sua muralha impenetrável e impecável dissolveu-se por alguns segundos para mim devido a um choque arrebatador que eu não entendia e pela primeira vez eu consegui ver o que se passava na mente de Loki. E eu vi o que o fizera congelar de repente.
Ele estava para dizer minha família.
(enquanto que eu apenas lutava para proteger minha família e meu lar!)
Por que...?
E então a muralha ergueu-se novamente, fechando-me para fora com violência e um rancoroso Não.
Sacudi para fora a raiva tão facilmente inflamável naquele corpo e me concentrei no que havia acabado de ver. Uma parte pequena do interior do meu hospedeiro. Uma vantagem e uma curiosidade que eu não conseguia suprimir com bom senso (isso era meu ou dele?). Qual é o problema? Eles são sua família, não são?
Loki sibilou para mim em puro veneno e eu tentei conter um tremor involuntário. Isso não é da sua conta, parasita!
Recuei automaticamente, surpreendido e acuado por sua raiva tão poderosa me atingindo como um tapa. Mil vezes maior, mil vezes pior, mil vezes mais descontrolada que a minha própria. Entretanto engoli esse medo sem sentido, porque ele não era nada mais que uma voz na minha cabeça, uma consciência que se mantinha por pura força de vontade e se agarrava a existência teimosamente, sem controle nenhum. Aquele momento quando ele conseguiu usar meus lábios para falar foi apenas porque eu estava ainda tomando controle sobre um corpo novo, eu ainda estava fraco naquela nova vida. Depois de ter acordado, embora sempre perverso e cruel Loki não conseguira fazer nada parecido como aquilo – e não fora por falta de esforço.
Eu era mais forte do que ele e não importa o quão imponente ele soasse a cada palavra, nós dois sabíamos que somente um de nós poderia fazer real dano ao outro. Eu não tinha porque ter medo.
Tentei cravar isso na minha mente. Eu não tenho porque ter medo.
Oh, mas você tem sim, meu caro usurpador de corpos. Loki sussurrou com suavidade e um nó frio se formou em meu estomago. Eu posso não ser capaz de te matar com minhas próprias mãos...
Flashes de imaginações que não eram meus me cegaram.
[... mãos de dedos longos e finos, elegantes, mas fortes o suficiente para lutar, sujas com um liquido prateado enquanto esmagavam-me entre as duas palmas...]
... Mas não pense por um segundo sequer que isso significa que você está seguro. Possa não te matar, mas eu vou te destruir.
Abri os olhos e engoli meu mal-estar, meu corpo tremendo por dois sentimentos distintos e poderosos que me seguiam fielmente desde que havia acordado sobre aquela pele.
Medo e raiva.
Você pode tentar e talvez descubra como minha espécie sobreviveu por tanto tempo mesmo sendo tão frágeis.
Ah é? Como? Seu tom era nada mais do que provocador.
Eu ignorei e respondi. Nunca desistindo daquilo que acreditamos.
Eu senti Loki se preparar para zombar, uma lista de motivos se abrindo diante de nos dois como sua cortesia e eu estava pronto para retrucar imediatamente quando um barulho alto e agudo interrompeu a nós dois, assustando-me.
De repente me encontrei encarando a porta, de pé no meio da sala em cima da mesa e ainda ligeiramente virado de lado, mantendo minhas costas voltadas para a parede. Pisquei os olhos, completamente confuso. Quando foi que eu subi na mesa? Aliais, quando foi que eu sequer levantei do sofá?
Preste atenção! Loki me sobressaltou, seu tom afiado. Mesmo que eu estivesse desorientado, o Deus das Mentiras mantinha o foco na porta, de onde aparentemente viera o som que nos assustara. Não fique desvairando feito um idiota! Por mais que seu instinto de sobrevivência seja nulo, você não vai levar meu corpo com você!
Foi você que nos ergueu? Eu perguntei assustado, ignorando seus comentários ácidos.
A sensação que eu tive é que se Loki tivesse olhos, ele teria os revirado naquele exato momento. Não, seu tolo! Foi o meu corpo. Talvez eu tenha esquecido de dizer, mas eu aparentemente cresci num lugar que venera a guerra e o combate onde se eu fosse impossivelmente lento e distraído como você teria perdido a cabeça há muito tempo atrás!
O alivio me invadiu. Ele não havia tomado controle, foi só uma reação automática de um corpo acostumado demais com lutas. Eu deveria ter concluído isso, eu acho. Fazia sentindo se um é criando num ambiente violento seria normal desenvolver instintos reativos ao desconhecido, embora isso me desagradasse.
Entretanto agora não era mais necessário isso, afinal eu estava vivendo entre os da minha espécie e nenhum perigo viria a mim enquanto estivesse ali.
Mais tranquilo, eu consegui ignorar Loki com mais facilidade, embora sua língua afiada ainda me fizesse recuar um pouco. Desci da mesa e me adiantei para a porta, agarrando a maçaneta de prata sem hesitar.
De repente um nó de nervosismo se formou em meu estomago e eu hesitei. Havia dito a Pequena Gota Rosa que eu queria ficar sozinho pelo resto do dia e eu sabia que ela teria espalhado meu pedido pelo resto do prédio para se assegurar que eu não fosse incomodado (bom, pelo menos é o que eu teria feito) e eu havia assegurado a Curador Tecedor de Céus e Buscador Construtor de Cristais Azuis que eu entraria em contato com eles no dia seguinte e que eu só queria descansar um pouco. Não consigo imaginar nenhuma dessas três almas (e nenhuma outra, aliais) ignorando um pedido simples como esse, a não ser que algo grave tivesse acontecido.
Ou talvez não. Talvez fosse outra coisa inteiramente e nem ao menos fosse uma alma, poderia ser um inimigo, um humano selvagem que soubera da minha chegada. Alguém com rancor de Loki (isso que conseguia ver muito bem) querendo se vingar agora que ele não poderia fazer nada. Ou podia ate mesmo ser Construtor de Cristais Azuis que havia mudado de ideia quando a minha decisão e-
Balancei a cabeça, chocado. O que eu estava pensando? Desde quando eu havia me tornando tão paranoico e desconfiado? Franzi o cenho. Pare de mexer com meus pensamentos!
Eu só abri possibilidades das circunstancias.
Grunhi e abri a porta de uma vez.
O que eu vi nenhum de nós dois esperávamos.
Notas finais
Só um aviso que o que foi dito nesse capitulo não resume, nem mesmo de longe, a real opinião ou os verdadeiros pensamentos de Loki (de certa forma, ele ainda é indecifrável, até mesmo para alguém que usa o mesmo cérebro que ele!) Sejamos pacientes, porque Insólito Triunfo e Loki só se conhecem a dois dias, ainda temos muito caminho pela frente.
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