Begin Again
5 Uma lembrança dolorosa
Notas iniciais
P.V.O. Annabeth
Chegamos em frente de casa, parei na porta e fechei meus olhos, eu sabia que hora dessas meu pai já estava lá dentro. Sinto alguém pegar minhas mãos, abro meus olhos e vejo meu irmão preocupado, acaricio seu rosto. Bob é tão igual a Mattew, mas somente por fora porque o coração de ambos são totalmente o oposto. Juntos viramos a maçaneta e a porta é aberta. O local estava uma zona, comidas espalhadas pela casa, garrafas de pinga vazias e jogadas para todo lado, e o cheio de cigarro e álcool misturados no ar. No sofá, esparramado estava meu pai Frederick acabando de virar uma garrafa de 51 no bico, era triste ver uma cena dessas. Ele se levantou e calambiou até nós. Bob passou seu braço na minha cintura e me puxou para mais perto.
— Garoto sobe – falou com a voz embargada – Preciso ter uma conversinha com a lindinha da sua irmã.
Bob me apertou mais contra si.
— Não sou louco de deixar ela sozinha com você – disse duro, mas sua voz demostrava medo. Frederick riu.
— Não estou perguntando se você vai deixar, estou mandando subir agora – ele se aproximou mais, ficando frente a frente com nós. Eu não conseguia me mover – Então obedeça seu pai, pivete.
— Você deixou de ser meu pai a muito tempo.
Frederick se aproximou ainda mais, ficando a poucos centímetros de Bob, e agarrou seu cabelo puxando para trás, meu irmão ficou imóvel para não sentir dor, mas sua expressão mostrava o contrário.
— Olha aqui moleque, eu posso fazer com você aquilo novamente, se lembra? Eu iria adorar, o que acha?
Ele ficou calado, o pânico começou a tomar conta de mim, eu não queria que Bob sofresse aquilo novamente, me partia o coração não poder fazer nada.
— Agora suba para seu quarto agora.
Meu irmão ainda ia revidar, mas eu o impedir.
— Bob, por favor, suba, vai por mim – supliquei, tinha mais medo do que poderia acontecer com ele, do que comigo.
Hesitando, subiu as escadas.
— Espere aqui, vou garantir que ele não nos interrompa.
— O que você vai fazer? – perguntei entrando em desespero, mas Frederick apenas gargalhou e subiu as escadas cambiando. Depois de uns 5 minutos decidi ir atrás. Meu pai estava trancando a porta do quarto de Bob, ao me ver gritou.
— EU FALEI PRA VOCE ESPERAR LÁ EMBAIXO – agarrou meu rabo de cavalo e saiu me puxando para a sala, eu gemia de dor. Chegamos e ele me empurrou para o sofá, mas errou a mira e eu cai no chão apoiada nos cotovelos.
— O que você quer? – perguntei, Frederick abriu outra garrafa de pinga que estava na mesinha e tomou tudo de uma vez, jogou o litro para um canto e apontou pra mim.
— Seu diretor me ligou hoje, sabia? – gelei – Então você aprendeu a lutar?
Neguei com a cabeça, ele se aproximou e ajoelhou. Com uma mão pegou meu rosto e ficou analisando.
— Você é igual a sua mãe, os mesmos olhos e cabelos. Mas será que é estúpida igual ela?
Frederick passou dos limites chingando minha mãe, juntei minha raiva e cuspi em sua cara. O mesmo limpou e começou a rir, apertou ainda mais minhas bochechas.
— Eu tenho nojo de você garota. O único filho que eu tenho é minha cachaça, ela é minha única família.
Aquelas palavras me machucaram e muito, deixei uma lágrima escorrer pela minha face. Meu pai soltou meu rosto.
— Você está chorando? – perguntou e começou a rir, mas ficou sério na mesma hora. – GENTE DO MEU SANGUE NÃO CHORA SUA IMBECÍL – gritou comigo, juro que tentei me controlar, mas não consegui lágrimas saíram sem permissão – VOU TE ENCINAR A CHORAR DE VERDADE.
E sem esperar, recebo um tapa na cara, levo a mão aonde recebi o golpe, ardia e latejava.
— VOCE É UM MONSTRO – grito de volta, mas logo me arrependo, pois ele arranca o cinto e começa a me dar chibatadas. Cada cintada que eu recebia só diminuía o amor que eu tinha por aquele homem. Quando estava satisfeito pelo seu trabalho, largou o cinto de lado e me puxou pelo cabelo, fazendo eu ficar de pé cara a cara com ele, meu rosto manchado e vermelho pelas lágrimas.
— Brigue de novo e se juntará a sua mamãezinha querida – dito isso, me empurrou para o chão novamente, onde bati minha cabeça na mesinha que tinha ali, minha visão foi escurecendo, a última coisa que me lembro, foi Frederick subi as escadas praguejando e bater a porta, depois apaguei.
***
Acordei com uma dor de cabeça insuportável, olhei em volta e percebi que ainda estava no chão da sala e já estava escuro, foi ai que me toquei do que havia acontecido antes. De meu pai me batendo e meu irmão... MEU IRMÃO!!! Levantei ignorando a dor no corpo e subi a escada correndo, parei em frente à porta dele, tentei abri-la, mas estava trancada, lembrei-me de um truque que a Talia havia me ensinado. Peguei um grampo no meu cabelo, agachei e coloquei o grampo no buraco da fechadura, mexi com ele e depois de alguns segundos a porta se abriu, sorri, mas meu sorriso desapareceu quando vi Bob desmaiado perto de sua cama. Corri até ele, e me ajoelhei ao seu lado, peguei sua cabeça e coloquei em meu colo, vi que no canto de sua boca havia um pequeno corte que sangrava.
— Bob – o chamei, mas ele nem se moveu – Acorda mano, por favor, não faz isso comigo – minhas lágrimas estavam ameaçando escapar. Estava começando a entrar em desespero quando vejo um copo em cima do criado mudo, e tive uma ideia, bom pelo menos nos desenhos animados funcionava. Peguei o copo, fui até o banheiro e o enchi com água, voltei para perto do meu irmão e joguei a água em seu rosto, para meu alívio, ele se sentou correndo e assustado, e então me olhou.
— Annie – me abraçou forte, e ali em seu ombro eu chorei, chorei não pela dor física, mas sim pela dor das perdas. Perdi minha mãe, meu outro irmão, meu namorado estúpido e agora perdi meu pai, essa dor emocional, remédio nenhum cura. Junto com minhas lágrimas vieram às lembranças. Os olhos de minha mãe, o jeito doce e meigo que ela nos tratava, o modo como trançava meu cabelo e quando o mundo parecia que ia desmoronar ela vinha com aquele sorriso e falava que aconteça o que for, sempre estaria com a gente. Como eu sentia falta dela, da sua voz melodiosa, das suas mãos percorrem meu rosto até eu adormecer, e principalmente do beijo que depositava em minha testa antes de cair no sono, dizia ela que estava plantando sementinhas do sonho em minha mente. Mas desde que ela se foi, levou contigo todas as sementinhas e eu nunca mais sonhei. Não sei quanto tempo fiquei abraçada a Bob, encharcando sua camisa com minhas lágrimas, até que me acalmei e nos afastamos, ele também chorava. Nos levantamos e ele me abraçou novamente.
— Eu te amo choquito.
— Também te amo minha princesa.
— Eu vou cuidar desse machucado, senta aí – Bob se sentou na cama, fui até o banheiro e peguei um kit de primeiros socorros, cada um de nós tinha um kit para momentos iguais a esse. Comecei limpando o corte com um algodão molhado com soro fisiológico, depois passei merthiolate e finalizei colocando um band aid – Prontinho.
— Obrigada – ele analisou meus braços e vi raiva brotar de seus olhos. Esse era um dom que eu tinha, acho que herdei da minha mãe, eu podia ver os sentimentos das pessoas apenas no olhar – Ele te machucou novamente?
Abaixei a cabeça, Bob pegou meus braços com cuidado, e percebi que tinha vários vergões, uns até com sague.
— Não podemos mais viver assim – falou.
— Mas o que podemos fazer Bob, se você não percebeu temos apenas 16 anos, somos menores de idade, não podemos simplesmente morar sozinhos, e não temos contato com nenhum parente nosso.
— O que eu não posso fazer é ficar vendo ele te bater sempre.
Dei um beijo em sua testa.
— Vamos dar um jeito – ele acariciou meu rosto.
— Sei que vamos – sorrimos – Vou tomar um banho e dormir.
Já estava na porta do quarto, quando sinto mãos pegarem meu pulso.
— Não vou deixar você ir sozinha, hoje vou dormir contigo – sorri, ultimamente a gente estava dormindo todas as noites juntos. Esperei ele tomar banho e fomos para meu quarto, onde eu entrei no banheiro, me despi e fui para debaixo do chuveiro. Deixei a água gelada cair em mim, e quando entrava em contato com meus machucados eu estremecia de dor, a calça jeans ajudou, pois nas minhas pernas as marcas estavam somente avermelhadas. Terminei meu banho, vesti meu pijama, escovei os dentes e sai do banheiro. Bob estava trancando a porta e vi que ele tinha uma pizza na mão.
— Com fome? – perguntou, neguei e me deitei na cama ligando a televisão. Em menos de dez minutos, ele devorou doze pedaços de pizza, fiquei de boca aberta.
— Com você consegue comer tanto?
— É só questão de fome – rir, enquanto o mesmo escovava seus dentes para logo em seguida se jogar em minha cama.
— Me dê seus braços – pediu, eu os estendi e ele começou a enfaixa-los.
— Para que isso? – perguntei
— Porque se esses machucados ficarem sem nenhuma proteção, pode pegar no cobertor e arder. Terminei – olhei e meus dois antebraços estavam enfaixados.
— Obrigada – ele me deu um beijo no rosto.
— Ah! E amanha não vamos para escola – essa me pegou de surpresa, ele vendo minha expressão me explicou – Nossos amigos nos encheriam de perguntas, sobre as manchas no seu braço e o corte em minha boca – não tinha pensado nisso. Bob tinha razão.
— Tudo bem – concordei – E como ele fez o corte?
— Me deu um soco pra mim desmaiar e não impedi-lo, eu tentei segurar ele, mas quando Frederick bebe se transforma no incrível Huck – rimos.
— Você tentou, e isso é que conta – ele sorriu e bagunçou meu cabelo.
— Vamos dormir que nosso dia foi exaustivo – Assenti e me aconcheguei nele, em pouco tempo estávamos dormindo.
Sonhei com minha mãe.
Era uma manhã de domingo, lá estávamos nós, no nosso balanço atrás da casa, ela trançava meu cabelo enquanto Bob e Mattew brincavam de carrinho na grama verde. Meu pai não tinha dormido em casa, mas isso não me importava, pois eu estava com a pessoa que mais amava na vida: minha mãe. Depois que ela terminou meu cabelo, fomos brincar com os meninos. Brincamos de pega-pega, esconde-esconde, corremos e rolamos na grama, nós quatro como uma verdadeira família feliz. Até que meu pai chegou, gritando e chutando tudo que estava em seu caminho, eu não entendia o porquê que ele sempre chegava assim. Minha mãe nos deixou brincando e foi atrás do meu pai. Algum tempo depois Atena aparece lá fora com os olhos vermelhos e com uma marca debaixo do olho esquerdo. Ela me abraça depois abraça meus dois irmãos. Então olha para os três e pronuncia.
— Seja qual for o motivo, sempre vou estar com vocês. Porque os três são minhas pedras preciosas, e eu amo muito cada um está bem.
— Também amamos você mamãe – falamos untos, ela sorri e nos abraça novamente.
Passamos o domingo ali, juntos brincando, eu poderia dizer que foi o melhor dia que eu já tive mas...
Atena tinha acabado de colocar Bob e Mattew para dormir, e agora estava no meu quarto me cobrindo com o cobertor, assim que eu estava coberta, ela se sentou do meu lado e acariciou meu rosto.
— Você está tão crescida bonequinha – eu sorrir, adorava quando me chamava assim – Quero lhe dar um presente.
— Um presente? – animei-me.
Ela tirou do bolso uma correntinha de prata, com um pingente em formato de coruja, e me entregou seguido de um abraço bem apertado.
— Feliz aniversário querida – a olhei segurando a corrente.
— Mas mamãe meu aniversário é só amanha – ela sorriu e passou a mão em meus cachos, mas não falou nada apenas me deitou e depositou uma sementinha dos sonhos em minha testa.
— Eu te amo querida, nunca se esqueça disso – falou segurando o choro.
— Também te amo mamãe.
Ela ia sair, mas hesitou e virou-se para mim.
— Annie, espero que um dia você possa me perdoar.
E saiu, adormeci com aquelas palavras na cabeça e com a correntinha na mão. Mamãe sempre dizia que a coruja de alguma forma me protegia e que era o símbolo da sabedoria. Acordei coloquei a correntinha em meu pescoço e desci a escada feliz da vida esperando receber os parabéns de todos, mas o que eu recebi foi a pior notícia de todas. Aquela notícia acabou com os meus aniversários e literalmente acabou com a minha vida.
— Annabeth – falou Mattew chorando – A mamãe morreu.
Meu mundo tinha acabado completamente, segurei minha correntinha e meu choro. Dali em diante eu decidi fechar-me em meu mundo, só eu e minha vida, mais ninguém.
***
Acordei assustada, olhei no relógio e ele marcava 04:00 da manhã, olhei para Bob que dormia tranquilamente, levantei com cuidado para não acorda-lo e fui até o banheiro, não foi um sonho que tive e sim uma lembrança. A lembrança do ultimo dia que vi minha mãe, no dia que completei treze anos. Lavei o rosto e olhei no espelho, segurei a correntinha que eu nunca tirava. Eu sentia muita falta dela. Tirei esses pensamentos da cabeça e me deitei novamente. Dormir quase de imediato, e desta vez sem sonhos ou lembranças, apenas a escuridão do meu subconsciente.
Notas finais
Até semana que vem.
Beijinhos
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