Before the Storm

2 The first sunrise


Notas iniciais
Demorei horrores, sei bem. Me desculpem, mas minha vida é bem corrida, entre faculdade, trabalhos, estágios e os bicos, fico sem tempo para escrever :D

Era aula de cinética química, e apesar da maior parte da turma saber exatamente o que o professor Hall estava explicando, eu não estava muito interessado em saber. Não me levem a mal, achava que entrar para a acadêmia havia sido o maior erro da minha vida. Nenhum amigo. Nenhuma possibilidade para namorada. Nenhuma coragem de mostrar minhas ideias aos professores. A única pessoa com quem trocava mais do que apenas um "oi" era a minha mãe, que estava a quilômetros de distância, e não entendia nada sobre os meus possíveis projetos.

Estava rabiscando mais uma ideia que teria que colocar em prática trancado dentro do meu quarto, enquanto todo mundo estaria se divertindo, conversando, ou qualquer coisa que eles pudessem fazer... Estava tudo ocorrendo como sempre, até que todas as pessoas começaram a levantar e andar de uma lado para o outro.

— Você é o outro inglês, né? — Era uma voz feminina e com o forte sotaque britânico.

Levantei o olhar imediatamente, não era sequer pouco usual falarem comigo, apenas nunca acontecia. Era uma garota da minha idade, para minha surpresa, incrivelmente bonita, afinal, que garota bonita falaria logo comigo? De toda forma, ela sorria para mim e seu sorriso pareceu iluminar todos os tristes pensamentos que passavam em minha mente.

Ela era pálida, o que contrastava com o seu cabelo castanhos, contudo, o que mais chamou minha atenção foram os seus expressivos olhos castanhos que pareciam se conectar com os meus, como se criasse um laço além das palavras, preenchendo-nos com o outro por aquele simples segundos.

— Escocês. — Corrigi por instinto.

Seu sorriso cresceu ainda mais e, em um piscar de olhos, estava sentada ao meu lado, dividindo comigo uma das mesas do laboratório educativo de cinética química.

— Todo mundo que não é do Reino Unido acha que todas as pessoas que são de lá são ingleses, é uma tristeza. O sotaque é tão diferente, não acha? — Tagarelou sem tirar os olhos de mim, e esse ato me fez sentir especial.

— Totalmente diferente. Até mesmo a Inglaterra tem vários sotaque diferentes. Por exemplo, você é do norte da Inglaterra, certo? Doncaster ou Sheffield?

Por nunca ter tido muito amigos, passei boa parte do meu tempo livre no ensino médio estudando sotaques, inclusive o americano, o qual ainda estava aprendendo.

— Sheffield. Você nem é inglês e reconheceu. Não sei qual a dificuldade. — Revirou os olhos dramaticamente.

Assenti rapidamente e passei a observar as pessoas ao nosso redor, elas estavam começando a sentar-se novamente, contudo, ainda estava bem barulhento.

— O que acabou de acontecer? — Murmurei baixinho, com vergonha de falar diretamente com a garota.

— Você não ouviu? — Neguei com a cabeça. — Professor Hall mandou que escolhessem os nossos parceiros de laboratório com cuidado, pois teremos que assistir todas as aulas, fazer todas as anotações, trabalhos, resumos, projetos e qualquer tipo de atividade avaliativa com o parceiro escolhido. Deu quinze minutos para escolhermos.

Demorei alguns segundos para reunir coragem o suficiente para transformar meus pensamentos em palavras.

— Você não deveria estar procurando alguém? — Sussurrando e encarando o meu caderno, respirei o mais fundo que consegui para fazer o verdadeiro pedido.

— Oh não. — Riu baixinho. — Não pense em fugir daqui. Encontrei o parceiro perfeito em dois minutos e agora ele quer fugir de mim. Sinto muito, você está preso a mim... Como é o seu nome?

Um sorriso bobo surgiu em meu rosto, como uma criança que acaba de ganhar o seu doce favorite.

— Leopold Fitz, engenheiro. — Olhei dentro do seus olhos enquanto dizia aquelas palavras.

— Jemma Simmons, bioquímica.

(...)

Apesar da conexão que eu e Simmons tivemos, fiquei com muita vergonha de dizer um "oi" para ela no corredor diversas vezes, por isso, sempre que a encontrava, abaixava a cabeça e andava mais rápido, sem fazer contato visual, ou falar qualquer coisa. E assim que virara o corredor, ficava me corroendo por dentro por não conseguir dizer a droga de um "olá".

Qual era a merda do meu problema?

E assim se passou quase uma semana, a aula de cinética química seria na sexta e já era quinta a noite, quase uma da manhã, eu não conseguia parar de pensar que sentaríamos lado a lado, dividiríamos a mesma mesa e eu não sabia como saudá-la no outro dia. De repente, o som de batidas à porta ecoaram pelo quarto.

Não ecoaram, até porque foram tão fraquinhas que pensei estar imaginando coisas.

Mas elas se repetiram e eu tive que ver o que era.

Ao abrir a porta, encontrei os olhos castanhos expressivos emoldurados por olheiras me encarando severamente. Simmons estava com o cabelo assanhado, vestida com o moletom da acadêmia completamente amarrotado e os braços cruzados com força, tremendo levemente pelo frio. Seus pés estavam descalços, o que me surpreendeu. Como ela podia andar naquele chão frio? Deveria estar congelando, o clima já começara a esfriar a espera do inverno rigoroso.

— Simmons? — Pisquei várias vezes, para ter certeza que não estava alucinando. — O que...

— Por que, pelo sangue da rainha, você está me evitando? — Sua voz era furiosa. — Sério? O que eu fiz? Melhor, qual o seu maldito problema?

Após vociferar as palavras, adentrou ao meu quarto, sem pedir permissão, e sentou-se em minha cama, escondendo os pés na manta de couro.

— Eu não faço a menor ideia. — Murmurei enquanto fechava a porta.

Logo em seguida, caminhei até perto da cama e fiquei encarando-a, sem saber ao certo como proceder com aquela situação além do estranho.

— O que aconteceu? — Seus olhos encontraram os meus e vi a pontada de tristeza que ali estavam. — Achei que tinha sido divertido conversar com você e, bem, eu não sei.

Ela passou a encarar a manta e apertá-la entre seus dedos com insistência, um sinal de nervosismo, obviamente.

— Vai parecer uma desculpa ridícula, quer dizer, é uma desculpa ridícula. — Remexi-me desconfortável, sem saber como dizer isso. — Eu fiquei com vergonha. — Sussurrei baixinho, quase inaudível.

Seu rosto levantou e pude notar se seu nariz estava avermelhado, provavelmente pelo frio.

— Vergonha? De falar comigo? — Suas feições eram as de uma adolescente inocente, exatamente o que ela era. — Por que?

Encarando os meus sapatos, sem poder analisá-la e provavelmente com o rosto combinando com as roupas do Papai Noel, admiti a razão de todas as minhas inseguranças.

— Eu não tenho muitos... — Pigarreei. — Não tenho amigos, nenhum amigo. Nunca tive, então, não sei muito como agir. — Enfiei as minhas mãos nos bolsos da calça de moletom, totalmente envergonhado.

— Pobre Fitz. — Senti suas mãos tocarem meus antebraços, puxando-me para mais perto. — Desculpe, por favor, desculpe-me. — Logo meus joelhos já encostavam na cama e suas mãos passavam a tocar, levemente, o meu rosto. — A partir de agora, eu sou sua amiga. Não tenha vergonha, pode sempre falar comigo. Qualquer coisa, absolutamente tudo!

Seus braços agarraram o meu pescoço, em um abraço terno e inesquecível.

Jemma Simmons ganhou minha devoção naquele dia. A partir do momento em que ela me arrancou de dentro da minha concha de depreciação, eu faria qualquer coisa para tê-la do meu lado. Não que aquilo importasse. Éramos adolescentes bobos e nenhum mal poderia nos atingir.

Mesmo assim, sendo o grande covarde que eu era, seria capaz de enfrentar o mais frio dos invernos russos ou as chamas mais quentes do inferno para mantê-la segura, para mantê-la ao meu lado.

Ela foi a primeira pessoa a escolher estar ao meu lado.

Notas finais
O que acharam?
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.