Before You - 3 Temporada
1 HERANÇA
Notas iniciais
“As pessoas dizem que tudo começa com uma escolha…
mas ninguém fala sobre as coisas que já estavam quebradas antes disso.”
POV BELLA
A primeira coisa que você aprende quando nasce em uma família como a minha… é que nada é real.
Não o sorriso.
Não o carinho.
Não o amor.
Tudo é ensaiado, polido, moldado para parecer perfeito sob a luz certa, no ângulo certo, para as pessoas certas. A casa onde cresci era exatamente assim: grande demais, silenciosa demais, impecável demais. Cada objeto parecia ter sido colocado ali não porque alguém gostava dele, mas porque alguém precisava que os outros vissem aquilo. Quadros caros, móveis claros, flores sempre frescas , como se até a natureza precisasse seguir um roteiro dentro daquelas paredes.
E eu… nunca fiz parte disso.
Eu estava sentada à mesa naquela noite, exatamente no meu lugar de sempre, com as mãos apoiadas no colo e as costas perfeitamente retas, como minha mãe me ensinou desde criança. O vestido que eu usava era bonito, caro, escolhido por ela, mas ainda assim parecia errado em mim, como se tivesse sido feito para outra pessoa. Talvez tivesse. Talvez tudo naquela casa tivesse sido feito para outra versão de filha… uma que nunca fui.
A luz do lustre refletia nos talheres de prata, criando pequenos pontos brilhantes que me distraíam por segundos demais, e o som dos pratos sendo organizados pela empregada preenchia o espaço antes que o jantar oficialmente começasse. Minha mãe já estava sentada, impecável como sempre, o cabelo perfeitamente alinhado, a maquiagem sutil demais para parecer natural, mas trabalhada o suficiente para mostrar que nada ali era realmente espontâneo.
Renée Higginbotham não fazia nada sem intenção.
— Bella, postura — ela disse sem sequer olhar diretamente para mim, apenas ajustando o guardanapo sobre o colo.
Eu endireitei ainda mais a coluna, mesmo sabendo que já estava perfeita.
— Desculpa — murmurei.
— Não peça desculpas — ela respondeu, finalmente me olhando, com um sorriso leve que não alcançava os olhos — Apenas não erre.
Simples assim.
Sempre foi.
Meu pai chegou logo depois, com o mesmo ar distante de sempre, como se estivesse fisicamente presente, mas mentalmente em outro lugar. Carlisle Higginbotham era o tipo de homem que as pessoas admiravam sem realmente conhecer. Elegante, respeitado, influente… e completamente ausente.
Ele beijou a testa da minha mãe.
Não a minha.
Nunca a minha.
— Boa noite — disse ele, puxando a cadeira.
— Boa noite, querido — respondeu Renée, com aquele tom doce que ela nunca usava comigo.
E então…
Emmett entrou.
O som da risada dele veio antes mesmo da presença física, preenchendo a sala de uma forma que ninguém mais conseguia. Ele tinha aquele tipo de energia que atraía tudo ao redor, atenção, carinho, aprovação. Alto, forte, bonito de um jeito fácil, natural, como se o mundo tivesse sido desenhado para favorecer pessoas como ele.
Meu irmão gêmeo.
Meu oposto.
— Cheguei atrasado? — perguntou, passando a mão pelo cabelo e se jogando na cadeira ao lado do meu pai.
— Você sempre chega atrasado — disse minha mãe, mas dessa vez… sorrindo de verdade.
Eu observei.
Como sempre.
— Foi o treino — ele respondeu, dando de ombros.
— Claro que foi — Carlisle disse, com um orgulho que não tentava esconder.
Silêncio.
Eu estava ali.
Mas não estava.
Nunca estive.
— E você, Bella? — Emmett virou o rosto na minha direção, apoiando o braço na mesa — fez alguma coisa interessante hoje?
Pergunta simples.
Mas o tom…
Era diferente.
Era genuíno.
Eu dei um pequeno sorriso.
— Nada que você fosse achar interessante.
Ele franziu levemente o cenho.
— Eu sempre acho você interessante.
E ali…
Ali estava o problema.
Porque ele era a única pessoa naquela casa que realmente me via.
E isso tornava tudo pior.
O jantar seguiu como sempre.
Conversas controladas, risadas calculadas, pausas estratégicas. Minha mãe falava sobre eventos, sobre pessoas, sobre reputação. Meu pai concordava, acrescentava algo pontual, voltava ao silêncio. Emmett comentava sobre o dia dele, sobre o treino, sobre amigos… e era nesse momento que o nome surgia.
James Hunter.
— O James vai vir amanhã — disse Emmett, cortando o bife com facilidade. — A gente vai resolver umas coisas.
Meu estômago revirou.
Discretamente.
— Que coisas? — perguntou Carlisle.
— Negócios — respondeu Emmett.
Negócios.
Mentira.
Ou pior…Verdade demais.
Eu não gostava de James.
Nunca gostei.
Não era só pelo jeito como ele me olhava, como se estivesse sempre avaliando algo que eu não queria oferecer, ou pelo sorriso fácil demais, pelas palavras sempre no limite entre charme e invasão. Era mais do que isso. Era instinto.
E eu sempre confiei no meu instinto.
— Ele não deveria vir aqui com tanta frequência — eu disse, antes de perceber.
Silêncio.
Pesado.
Minha mãe pousou o garfo lentamente.
— E por quê exatamente? — perguntou, a voz suave demais.
Erro.
— Eu só acho que ele não combina com a nossa família.
Emmett riu.
— Bella, você nem conhece ele direito.
Eu olhei para ele.
— Conheço o suficiente.
Minha mãe inclinou levemente a cabeça.
— Interessante… — murmurou — porque, ao contrário de você, ele agrega valor ao ambiente.
Aquilo…
Aquilo foi cirúrgico.
Eu abaixei os olhos.
— Desculpa.
— Não peça desculpas — repetiu ela, com um leve sorriso — melhore.
Depois do jantar, eu subi para o meu quarto.
O corredor parecia mais longo à noite, mais silencioso, como se a casa respirasse de forma diferente quando as visitas invisíveis ,expectativas, julgamentos, mentiras, se acomodavam nos cantos. Meu quarto era o único espaço que ainda parecia… meu. Não perfeito, não impecável, mas real o suficiente para eu conseguir respirar sem pensar no ângulo em que estava sendo observada.
Eu fechei a porta atrás de mim e me apoiei nela por alguns segundos.
Respirando.
Sentindo.
Pensando.
Porque, no fim…Eles chamavam aquilo de família.
Mas pra mim…Sempre pareceu um teatro.
A única coisa real na minha vida… estava do lado de fora daquela casa.
Alice Brandon foi a primeira pessoa que me fez rir de verdade.
Não aquele riso educado, contido, calculado… mas o tipo de riso que escapa antes que você tenha tempo de controlar. Pequena, leve, com olhos atentos demais para alguém que fingia ser distraída, Alice enxergava tudo. E mesmo assim… escolhia ficar.
— Você tem cara de quem quer fugir — disse ela naquela tarde, sentando ao meu lado no gramado da escola.
Eu olhei para ela.
— E você tem cara de quem já fugiu e voltou.
Ela sorriu.
— Talvez eu só saiba escolher melhor onde ficar.
Alice sempre foi assim.
Livre, mesmo presa.
Jasper estava com ela, como sempre.
Quieto, observador, com aquele tipo de presença que não invade, mas ocupa espaço de qualquer forma. Ele não falava muito, mas quando falava… era como se cada palavra tivesse sido pensada antes.
— Você não precisa ir pra casa hoje — ele disse, simplesmente.
Eu encarei ele.
— Eu sempre preciso.
Silêncio.
Rosalie Turner apareceu logo depois, impecável até fora de ambientes que exigiam isso. Cabelo perfeito, postura firme, olhar afiado. Rosalie não gostava de muita gente… mas gostava de mim.
E isso dizia mais sobre ela do que sobre mim.
— Seu irmão tá vindo — ela disse, cruzando os braços. — Com o James.
Meu corpo ficou rígido.
— Ótimo.
— Você odeia ele — comentou Alice.
— Eu não odeio — respondi.
Mentira.
— Eu só não confio.
Paul e Quill chegaram juntos, como sempre.
Eram diferentes de tudo que eu conhecia antes deles. Leves, intensos, verdadeiros. Paul mais impulsivo, mais direto, enquanto Quill equilibrava tudo com calma e humor. Eles se encaixavam de um jeito que fazia sentido… mesmo quando o mundo ao redor não fazia.
— A gente vai sair hoje — disse Paul, animado. — Vocês vêm?
Alice já levantou.
— Óbvio.
Rosalie suspirou.
— Eu vou, mas se for ruim, eu vou embora.
Jasper apenas assentiu.
Todos olharam pra mim.
E por um segundo…Eu hesitei.
Porque sair com eles significava esquecer.
E esquecer…Sempre teve um preço.
— Eu vou — respondi.
E naquele momento…Eu senti.
Pela primeira vez naquele dia…
Algo próximo de liberdade.
Mas liberdade…Nunca dura muito.
E eu aprendi isso cedo demais.
Porque quando você nasce em um lugar como o meu…
Você não escapa.
Você apenas aprende…
A sobreviver melhor dentro dele.
E talvez…
Só talvez…
Eu já estivesse aprendendo coisas que não deveria.
Coisas que não tinham volta.
Coisas que…
Um dia…
Iam definir exatamente quem eu me tornaria.
E quando isso acontecesse…
Eu não poderia mais fingir que não sabia.
Porque no fundo…
Eu sempre soube.
Sempre.
A casa estava viva.
Não de um jeito bonito… não como aquelas festas em filmes onde tudo parece leve, espontâneo e memorável. Não. Aquilo era diferente. Era barulho demais, gente demais, energia demais, como se cada pessoa ali estivesse tentando provar alguma coisa o tempo inteiro. Status. Presença. Existência.
Los Angeles não aceita invisíveis.
E eu… sempre fui invisível demais para o meu próprio gosto.
O som grave da música vibrava no chão antes mesmo de alcançar meus ouvidos, atravessando meu corpo como um lembrete constante de que aquele não era o meu ambiente… mas também era exatamente onde eu precisava estar. Luzes coloridas cortavam o espaço em tons de vermelho, roxo e azul, refletindo nos copos de vidro, nas joias caras, nos sorrisos falsos.
Alice estava à minha frente, linda como sempre, completamente no controle da própria presença. O vestido dela parecia ter sido feito sob medida para chamar atenção, e funcionava. Jasper estava ao lado dela, a mão repousando de forma casual na cintura dela, mas os olhos… os olhos atentos, observando tudo ao redor. Ele sempre observava.
Rosalie encostada no balcão, impecável, inalcançável, perfeita demais para aquele lugar… e ainda assim parte dele. Quill e Paul no sofá, rindo de alguma coisa, completamente à vontade, como se o mundo fosse deles.
E Emmett…
Emmett era o centro.
Sempre foi.
Rodeado de gente, rindo alto, dominando o ambiente com uma facilidade que eu nunca tive. As pessoas gravitavam ao redor dele como se fosse inevitável, como se existisse algo nele que simplesmente puxava tudo.
E em mim…
Nada.
— Você precisa parar de olhar assim — Alice disse ao meu lado, sem nem virar o rosto.
Eu soltei um pequeno riso.
— Assim como?
Ela finalmente me encarou.
— Como se estivesse analisando quem merece viver ou morrer.
Silêncio.
Eu sorri.
— Eu não faço isso.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Você faz exatamente isso.
Talvez.
Talvez eu sempre tenha feito.
Mas naquela noite…
Eu não estava olhando para ninguém.
Até ele aparecer.
Não foi imediato.
Não foi como um raio ou um momento cinematográfico exagerado.
Foi… estranho.
Como quando você sente algo antes de entender o que é.
Meu olhar foi puxado sem esforço, como se alguém tivesse simplesmente decidido por mim para onde eu deveria olhar. E então eu vi.
Ele.
Encostado perto da porta dos fundos, meio afastado da multidão, como se aquele lugar não fosse exatamente dele… e talvez não fosse mesmo.
Mais alto do que a maioria, corpo forte, mas sem aquele tipo de arrogância exibida que eu estava acostumada a ver ali. A postura dele era diferente. Mais contida. Mais… real.
A pele mais escura, quente, contrastando com a luz fria da casa. O cabelo bagunçado de um jeito que não parecia calculado. A camiseta simples, jeans escuro, nada de marca gritando valor.
E ainda assim…
Ele chamava mais atenção do que qualquer um ali.
Os olhos dele percorriam o ambiente com calma, sem pressa, sem necessidade de aprovação. Ele não estava tentando impressionar ninguém.
Ele não precisava.
E isso…
Isso foi a primeira coisa que me fez sentir algo.
— Quem é aquele? — perguntei, antes mesmo de perceber que estava falando.
Alice seguiu meu olhar.
— Jacob — disse, simples.
O nome ficou.
— Jacob Black.
Eu repeti mentalmente.
Jacob.
— Amigo do Quill e do Paul — ela continuou. — Não é exatamente… do nosso círculo.
Claro que não era.
E talvez fosse exatamente por isso.
— Ele é interessante — murmurei, mais para mim do que para ela.
Alice me olhou de lado.
— Cuidado.
Eu sorri.
— Com ele?
Ela demorou um segundo.
— Não… — disse, voltando o olhar para a festa — com você.
Silêncio.
Mas eu já não estava ouvindo, porque ele tinha olhado para mim e naquele momento…O mundo não parou.
Mas ficou mais lento, foi sutil.
Um olhar direto.
Sem vergonha.
Sem jogo.
Sem aquele tipo de interesse vazio que eu já tinha visto milhares de vezes.
Era… curioso.
Como se ele estivesse tentando entender quem eu era.
E aquilo…
Aquilo foi perigoso.
Porque ninguém tenta entender.
As pessoas só consomem.
Mas ele não.
Ele observava.
E eu gostei disso.
— Você vai ficar aí parada ou vai falar com ele? — Rosalie apareceu ao meu lado, cruzando os braços.
Eu não tirei os olhos dele.
— Ele ainda não decidiu se quer falar comigo.
Rosalie soltou uma risada curta.
— Homens sempre querem falar com você, Bella.
Eu balancei a cabeça devagar.
— Não ele.
E então…
A música mudou.
Os primeiros acordes suaves começaram a preencher o ambiente, contrastando com o caos da festa de uma forma quase absurda.
“It’s you, it’s you, it’s all for you…”
Lana Del Rey.
Video Games.
E foi ridículo o quanto aquilo fez sentido.
Como se o universo tivesse decidido ser irônico.
Ou cruel.
Eu respirei fundo.
E fui.
Cada passo parecia calculado, mesmo que não fosse. O som da música envolvia tudo, criando uma atmosfera completamente diferente do resto da festa, como se aquele espaço tivesse sido isolado só para aquele momento.
Ele percebeu quando eu me aproximei.
Claro que percebeu.
Mas não se mexeu.
Não recuou.
Não avançou.
Apenas esperou.
— Você não parece estar se divertindo — eu disse, parando na frente dele.
Direto.
Sem introdução.
Ele me olhou por um segundo antes de responder.
— E você parece?
Eu sorri.
Pequeno.
— Eu estou observando.
— Eu também.
Silêncio.
A música continuava.
“Heaven is a place on earth with you…”
Eu inclinei levemente a cabeça.
— E o que você descobriu?
Ele deu de ombros.
— Que esse lugar não é meu.
Honesto.
Simples.
Sem vergonha.
— E mesmo assim você veio — comentei.
— Quill insistiu.
Claro.
— E você sempre faz o que pedem?
Ele me encarou.
— Só quando vale a pena.
Aquilo ficou.
Pesado.
Porque não era uma resposta qualquer.
Era escolha.
E eu gostei disso.
— E está valendo a pena? — perguntei.
Ele demorou um segundo.
Avaliando.
Não a pergunta.
A mim.
— Agora está.
Silêncio.
O tipo de silêncio que não incomoda.
Que puxa.
Que cria algo.
A música parecia mais alta agora, ou talvez fosse só a forma como eu estava sentindo tudo.
— Bella — eu disse.
— Eu sei — ele respondeu.
Eu franzi levemente a testa.
— Sabe?
— Seu irmão fala alto demais.
Claro.
Emmett.
Sempre Emmett.
Eu ri.
E aquilo saiu fácil demais.
— E você?
— Jacob.
— Eu sei — respondi.
Ele sorriu.
E foi ali.
Ali que alguma coisa dentro de mim… mudou.
Porque não era um sorriso ensaiado.
Não era charme.
Era… genuíno.
E eu não estava acostumada com isso.
— Você não pertence a esse lugar — ele disse de repente.
Eu congelei por meio segundo.
— E você sabe disso porque…?
— Porque você não está tentando parecer nada.
Silêncio.
— Só está olhando.
Eu respirei fundo.
— E isso é ruim?
— Não — ele disse, mais baixo agora. — É perigoso.
Meu coração bateu mais forte.
E eu sorri.
— Você deveria ter cuidado então.
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Com você?
Eu dei um passo mais perto.
— Com o que você acha que vê.
Silêncio.
A música continuava.
Lenta.
Hipnótica.
E naquele momento…
Eu entendi.
Não com lógica.
Não com razão.
Mas com aquela parte de mim que sempre soube antes de qualquer explicação.
Jacob Black…
Era o tipo de pessoa que você ama antes de perceber o quanto isso vai te destruir.
E eu…
Eu já estava começando.
E isso…Foi o primeiro erro.
Ou talvez…O primeiro acerto.
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