Before The Sunrise
28 "Tá Todo Mundo Louco?!"
Notas iniciais
EU DEMOREI E SEI DISSO, mas a culpa é toda do meu pai e dos estudos, que cortaram completamente a minha inspiração! u_ú Mas, problemas pessoais à parte, prometo tentar escrever nessas férias do meio do ano, se alguém ainda estiver lendo isso, ok? :D Desculpem o capítulo. Tem algumas parte que eu queria cortar, mas acabei desistindo porque não sabia o que colocar no lugar delas QQ, eu to virando uma autora péssima. Anyway, espero que gostem, esse capítulo era pra ser engraçado. Ah, e foi totalmente inspirado nos reviews do capítulo passado de vocês! :D Me avisem por MP as partes que não entenderam porque não lembram da estória, mando flashbacks para vocês -q.
Boa leitura!
28. “Tá todo mundo louco?!”
Brian
Abri caminho entre os alunos do colégio, tentando desesperadamente não pensar em meus colegas de almoço.
Já não era mais a mesma coisa entre mim, Freddie e Trevor. E o pior era que, por mais que eu estivesse chateado com aquilo e quisesse descontar em alguém, sabia que não havia culpados. A não ser, talvez, Orazón. Aquele maldito lugar sentenciou morte lenta à minha amizade com os meninos no momento em que me atraíra para lá. Agora, eu só desejava ter percebido antes.
Parei em frente a meu armário e respirei fundo, tentando reencontrar o fôlego.
Não que eu tivesse fugido de Freddie e Trevor em qualquer intervalo desde a minha queda no redemoinho escarlate. Mas minha presença e nada fora praticamente a mesma coisa, já que eu tinha ficado alheio à conversa por estar entretido demais com os pensamentos sobre uma terra de sombrios. E a chegada de Riley só contribuíra para o nosso processo de afastamento. Afinal, eu ficaria surpreso se Freddie ou Trevor tivessem tido tempo para sentir falta da minha companhia ou reparar em mim – uma vez que a garota não parava de falar.
Suspirei. Segundos atrás, eu tinha corrido da abordagem que o Gilbert e a ex-Blair quase me fizeram na porta de entrada. Por mais que me doesse admitir, não suportava mais vê-los juntos. Quando estavam os dois e Trevor, tudo bem. Mas, só Freddie e Riley...
Era difícil de explicar. Um forte laço se estabelecera entre eles – maior do que eu achava ser possível nos poucos dias que haviam se passado. Desde então, toda e qualquer conversa entre os dois era surpreendentemente fácil de começar e inacreditavelmente difícil de acabar; Freddie e Riley haviam descoberto um número de afinidades impressionantes e um deleite pela voz um do outro que estava quase se transformando em fascínio. Creio que era isso o que me fazia ficar deslocado cada vez que eu tinha de entrar no meio do bate-papo entre eles. Não havia espaço para mim, pois era como se eles só enxergassem um ao outro.
Trevor era uma das poucas pessoas capaz de romper essa bolha, só de Freddie e Riley, e se incluir no assunto. E mesmo assim não me ajudava em muito quando ele estava por perto, já que Trevor também havia se distanciado razoavelmente de mim.
Ou seja: eu ficava excluído de qualquer jeito.
Zangado, escancarei a porta do armário, desejando que todos os meus problemas pudessem desaparecer com mágica.
Humpft! Mágica. Ironicamente, era como eles haviam sido concebidos.
– Você sempre foi mesmo péssimo em arrumar desculpas, Brian.
Virei-me de modo abrupto, apenas para me deparar com Catherine sorrindo para mim.
Tonto de alívio, retribuí seu sorriso. Que coisa! O pensamento de que poderia ser Freddie ou Riley – quero dizer, Freddie e Riley, já que os dois não andavam mais separados – realmente tinha me incomodado.
– É, você tem razão – respondi. – Acho que “preciso falar com a coordenadora” não foi muito inteligente, já que o dia de folga da Monica é justo hoje.
Ela riu e tratou de me esmagar como se não me visse há séculos.
– SURPRESA! – berrou. Só fui entender quando puxou Lizzie Johnson pelo braço, introduzindo-a em meu campo de visão.
– LIZZIE! – Não me contive e parti para cima da garota.
Ela gargalhou quando eu a pressionei contra mim com carinho.
– Ah, Brian! – Liz retribuiu afetuosamente.
– Senti sua falta. – Murmurei, emocionado. – E fiquei preocupado com você!
– Todos ficamos. – Cathy sorriu.
Larguei Lizzie devagar e, analisando-a bem de perto pela primeira vez naquele dia, soltei uma exclamação de surpresa.
– UAU! – Embasbaquei. A Johnson estava simplesmente deslumbrante! – Lizzie, que visual é esse? – soltei uma gargalhada de descrença.
Ela enrubesceu de leve e revirou os olhos.
– Só resolvi me arrumar um pouco mais para vir ao colégio hoje, tá legal?
– Está uma gata. – Elogiei, abrindo um sorriso que a fez corar terrivelmente.
Era verdade. Lizzie exibia uma leve maquiagem no rosto, que realçava seus olhos verdes, e, além disso, a blusa que estava usando fazia seus seios parecerem maiores.
Catherine riu com gosto.
– Foi exatamente o que disse a ela! – A morena sorriu maliciosamente. Lizzie virou-se para Catherine e semicerrou os olhos na mesma hora, como se não acreditasse em tal descaramento.
– Catherine, quer parar de pôr lenha na fogueira? Eu já te falei que assim você me mata de vergonha!
– Então, como vão Mack e Glynda? – desconversei.
Quis livrar Lizzie do incômodo de ser o centro das atenções. Eu sabia que ela devia estar muito sem graça com aquilo.
– Ah, vão muito bem. Eles já se adaptaram bastante ao nosso mundo! Mas depois dou detalhes sobre isso. – Catherine balançou as sobrancelhas. – Agora, tenho boas notícias para dar!
– É mesmo? Quais? – perguntei, curioso.
– Eu e Mack somos almas gêmeas! – Ela deu um pulo e comemorou com palminhas empolgadas.
– O QUÊ?! – eu e Lizzie berramos ao mesmo tempo.
Ficamos um tempão só de queixo caído. Catherine gargalhou, absolutamente deliciada com nossas expressões de estupefação.
Cara! COMO ASSIM?... Espera! MACK E CATHERINE? Mas em Orazón eles não... Ai-meu-Deus! Isso faz algum sentido? Pera, acho que ainda não entendi.
– Você não me contou isso! – Liz ficou perplexa.
– Poxa, amiga, não fica com raiva... Eu queria contar, mas estava esperando o Brian para anunciar a vocês dois ao mesmo tempo! – Os olhinhos dela brilharam.
– Ah-meu-Deus. – Após um segundo desconcertado, abri um largo e sincero sorriso de felicidade para Catherine. – MEUS PARABÉNS! – abracei-a.
– AMIGA, QUE BOM, QUE TUDO! EU NEM ACREDITO, ESTOU TÃO FELIZ POR VOCÊ – Lizzie juntou-se a nós, emocionada.
– EU SEI, NÉ?! – Catherine praticamente gritou, a voz embargada. – GENTE, EU NÃO MEREÇO... ELE É TÃO LINDO, E INGÊNUO, E FIEL, E PROTETOR, E PERFEITO! – começou a chorar descontroladamente.
– Nossa – Lizzie riu da situação. – Calma, amiga! – Afastou-se um pouco dela, só para enxugar suas lágrimas com os polegares e sorrir. – É claro que merece, Catherine. Acredite, existem poucas pessoas no mundo tão especiais quanto você.
– Ela tem razão, sabia? – Ajuntei sorrindo.
– AH, COMO EU AMO VOCÊS!
Catherine se lançou contra nós na intenção de nos dar outro abraço, mas investiu tão forte que quase caímos para trás.
Rimos da situação como três bobos enquanto tropeçávamos, buscando equilíbrio.
– Mas, estava comentando com a Glynda... demorou tanto para se manifestar, não acham? – Cathy arqueou uma sobrancelha ao nos soltar, desconfiada.
– É mesmo... – Lizzie refletiu, franzindo a testa.
Eu apenas dei de ombros.
– Um encontro de almas gêmeas nunca é algo que se possa explicar totalmente. – Repeti, num tom sábio, um dos ensinamentos de nossos amigos sombrios.
– Ah, Brian! – Elas balançaram a cabeça negativamente para mim, rindo.
– Gente, detesto cortar o barato, mas... – Lizzie franziu os lábios, pensativa, antes de prosseguir. – Que história é essa agora do Freddie andando com a Riley?
Eu e Catherine imediatamente nos entreolhamos e engolimos em seco.
Não existia um jeito fácil de contar à nossa melhor amiga sobre como o West Side vinha espantosamente virando pelo avesso desde a tão bombada festa de Stella D’Amore. Ou tinha?
– Ahn, sabe, Lizzie, é que... – Tentei começar, sem sucesso.
– É uma longa história – Catherine suspirou, obviamente dando-se por vencida. Ela olhou brevemente para mim antes de continuar. – Está bem. Escute e tente não pirar. Riley e Freddie ficaram na festa da Stella, e desde então Riley vem exibindo um comportamento estranho e legal demais para uma patricinha. Além de não largar do pé do Freddie. Ela até se afastou dos populares e fez um pacto comigo para começarmos do zero!
Lizzie arregalou tão drasticamente os olhos que parecia que... bom, sei lá o que parecia.
– É O QUÊÊÊÊÊÊÊÊ?! – Como esperado, ela surtou mesmo, e geral. – RILEY MITCHELL?
– E desconfio que eles não sabem, mas são tão candidatos ao próximo Casal Ternura do colégio que chega dá nojo. – Acrescentei, fazendo uma careta.
O queixo de Lizzie desabou, o que foi perfeitamente compreensível. Quem ia esperar que Frederick Gilbert e Riley Mitchell um dia pudessem se envolver? Ainda mais com o risco de se tornarem o próximo Casal Ternura do colégio. O último Casal Ternura do West Side tinha sido Cliff Ryder e Joanne Foster, que só se desgrudavam na hora de ir ao banheiro. Ficavam o tempo todo se paparicando e se chamando por apelidos ridículos, além de se pegarem para valer e não raramente aos olhos de todos, na escada próxima ao refeitório. O grude dos dois tinha durado seis muito insuportáveis meses – que mais pareceram um milênio.
– Eu realmente não esperava ouvir isso, ainda mais hoje que estava pensando em perdoá-lo! – Lizzie exclamou, indignada.
– O quê? – me perdi. – Você estava disposta a perdoá-lo?
Ninguém disse nada por alguns segundos.
Lizzie apenas nos fitou com uma cara indecifrável. Catherine e eu ficamos calados enquanto digeríamos a informação.
Ambos sabíamos que a razão pela qual Lizzie precisava perdoar Freddie era porque o tinha visto bêbado e em estado deplorável na noite anterior. Até então, Liz não sabia sobre as bebedeiras pra valer de Freddie – que só costumavam ocorrer nas festas de Stella, mas aquele dia fora exceção – e precisava entender o porquê do Gilbert ter escolhido guardar, há tanto tempo, esse segredo dela (inclusive nos arrastando na tarefa). O mais esquisito era que nenhum de nós tivesse se pronunciado sobre o assunto até o momento. Xinguei-me mentalmente por não ter lembrado aquilo antes.
Claro que, por eu – ainda – ser amigo de Freddie, já sabia de todo o lado dele na história.
Freddie me contou que não se lembrava de tudo sobre ontem à noite; a memória estava falha por causa da bebida. Ele me disse que não recordava muito mais do que ter sido encontrado por Catherine – e, claro, de Lizzie tê-lo pego no flagra. Pediu até que eu lhe contasse o que mais acontecera, já que, fora isso, ele só se lembrava de estar na sala de espera de um hospital. Fiquei temeroso em preocupá-lo, mas acabei contando sobre o desmaio de Lizzie e o fato de ele ter ajudado a carregá-la. Supus que Freddie não se lembrava nem mesmo de Aiden, ou do carro-do-ano deste, porque não mencionou uma palavra sobre isso. Contudo, essa foi uma parte que fiz questão de não lhe lembrar.
Muitos espaços ficaram em aberto e eu sabia que, assim que o Gilbert se tocasse, ele viria me perguntar sobre o resto. No entanto, não era aquilo que mais me preocupava no momento. E sim a possibilidade de que Lizzie ficasse de mal com Freddie – ou mesmo comigo e com Catherine – pelo resto da vida, agora que tinha descoberto tudo.
Não me permitiria realmente acreditar nisso. Ainda mais agora que ela tinha dito planejar desculpá-lo.
– Quero que me respondam uma coisa. – Lizzie pediu, e eu e Catherine assentimos lentamente. – Sejam sinceros. Vocês sabiam sobre a bebedeira de Freddie, não sabiam?
O olhar incisivo que ela lançou sobre nós não nos permitiria mentir mesmo que quiséssemos. Percebi, desnorteado, que nunca pensei que aquela hora fosse chegar.
Eu e Catherine suspiramos pesadamente ao mesmo tempo.
– Sim. – Cathy foi a primeira a admitir. – Estávamos conversando um dia, e ele deixou escapar que estava com uma baita dor de cabeça pela bebedeira na festa de Stella no dia anterior. Eu até dei uma bronca nele, mas tentei ser compreensiva o quanto pude, e disse que ele não precisava do álcool para se sentir melhor, eu estaria lá se ele quisesse conversar. Claro que ele não ouviu a última parte, mas desde então não teve mais receio em me contar quando, onde e às vezes até por que... bebia. – Parou para franzir os lábios. – Apesar de que, até ontem, eu nunca o tinha visto bêbado de fato. Ele sempre me fez prometer que não contaria para você, Lizzie. Sinto muito. Concordei porque sabia que você não ia aprovar, e mesmo assim teria te contado se tivesse percebido antes o quanto foi... – estremeceu – horrível de nossa parte, como amigos, guardar segredo de você.
– Catherine tem razão. – Foi a minha vez de confessar, relutante. Soltei o ar contido em meus pulmões. – Desculpe. De verdade. Devíamos ter percebido antes o quanto estávamos sendo injustos com você. Mas só queríamos proteger o Freddie... – mordi o lábio. – E, também... era meio óbvio que as garrafas que ele virava durante as festas iam para algum lugar. Eu sempre fico do lado dele nesses eventos, então... – baixei o olhar – não tinha como eu não saber.
O silêncio que se seguiu foi angustiante e cheio de expectativa.
Quase doeu esperá-lo passar.
– Está bem – foi a vez de Lizzie soltar o ar, hesitante. Eu e Catherine erguemos os olhares para ela com uma pontinha de esperança. – Eu... entendi. Não têm com o que se preocupar. Eu os perdoo por terem escondido coisas de mim, e pretendo falar com Freddie na hora do intervalo e dizer que ele ainda é um dos melhores amigos que eu poderia ter. – Ela sorriu, verdadeira. – Não gostaria de perder nenhum de vocês por isso.
Eu e Catherine nos entreolhamos, pasmos. Em seguida voltamos a nos virar para Lizzie, e abrimos os sorrisos mais luminosos que já tínhamos dado para qualquer outra pessoa.
Liz abriu os braços, fazendo-nos um convite mudo e desnecessário.
– AAAAAAAAAAAAAH! – berrei de puro contentamento, antes de correr e agarrá-la. Ambos rimos, e mais ainda quando Catherine se juntou a nós, apertando-nos de modo implacável.
– Eu te amo tanto, amiga! – Cathy gargalhou. – E estou tãããão orgulhosa de você! Sabia que ia nos perdoar!
– Eu também acho que sabia – sorri em meio ao gostoso esmagamento. – Você tem mesmo um grande coração, Lizzie. Só não esperava, ou tinha menos certeza das coisas, quanto ao Freddie. Estava com medo por ele.
– É mesmo. – Catherine refletiu enquanto nos afastávamos. – Foi muito nobre da sua parte resolver fazer as pazes com ele. Ainda mais tão rápido. – Ela piscou para Lizzie e sorriu.
Lizzie retribuiu o sorriso, e em seguida suspirou.
– Depois de o Aiden ter me narrado o quanto o Freddie se preocupou comigo e o quanto foi atencioso durante o tempo em que fiquei desmaiada... cheguei à conclusão de que não poderia odiá-lo, mesmo se quisesse.
– Quer dizer que o Aiden disse isso a você? – Catherine indagou numa voz suave, porém levemente surpresa. Ela arqueou uma sobrancelha. – Isso ajudou no processo de desestressar com a gente?
– Muito. – Lizzie abriu um lindo sorriso doce e sapeca.
– Não é que aquele gostoso não para de subir no meu conceito? – A morena riu, esbanjando satisfação.
– Ele teve razão em contar. Foi verdade. – Balancei a cabeça, enquanto me transportava para aquela noite tenebrosa. – Agora me lembro. Em meio à nossa tempestade num copo d’água, todos em pânico e com medo por Lizzie, Freddie foi o que mais tomou conta de você. Ele não parou um segundo sequer de olhá-la, e, às vezes, acariciava o seu rosto de um jeito tão... – Franzi a testa, procurando o adjetivo que melhor se encaixava para o que vi. – Puxa... tão... terno.
Por algum motivo que não tive tempo de processar, Lizzie corou.
– Sem mais segredos entre nós, certo? – Cathy sorriu exageradamente. – Nunca mais vamos esconder coisas um do outro! Todos concordam? – De repente Lizzie ficou muito pálida e engoliu em seco, o que me fez unir as sobrancelhas de incompreensão. [N/A: Caso alguém não lembre, ela tá escondendo que beijou o Aiden! AHAHAHAHA] Catherine, contudo, não pareceu notar. – Ahm... Gente, escuta, tenho uma coisa ruim para contar também. – Ela apertou os lábios.
– Ahn? O quê?
O sinal tocou antes que ela pudesse responder.
– É, fica pra próxima. – Cathy sorriu amarelo enquanto os alunos começavam a se atropelar nos corredores para chegar às suas salas. – Nos vemos no almoço. Tchauzinho! – Mandou um beijo no ar para mim e Lizzie antes de desaparecer.
Quando olhei para o lado, nem sinal da Johnson também.
POXA VIDA, por que será que eu sou tão lerdo?! Ajeitei a mochila por sobre o ombro, e respirei fundo antes de entrar na multidão.
***
As aulas passaram rápido. Quando dei por mim, já estava na hora do almoço, e foi só quando o sinal tocou que a consciência do que estava por vir instalou-se gradativamente em meu cérebro.
Riley, Freddie e Trevor perdidos de novo numa conversa sem mim – ou com muito pouca participação minha. Lizzie e o papo sério que pretendia ter com Freddie. Catherine e sua má notícia. Ei, espera aí! Eu não ia passar o intervalo com ela e Lizzie. Isso queria dizer que eu ia ter de esperar até a hora da saída para saber do que se tratava?
AH, QUE INFERNO!
Não se você simplesmente mudar de mesa hoje.
O pensamento me atravessou como um raio, mas senti o poder de sua tentação muito depois disso. Lentamente, dele cresceram tentáculos que se fixaram à minha mente e me fizeram esboçar um sorriso engenhoso. Sim, sentar-me com as meninas ia resolver tudo. O problema da minha curiosidade, o problema da minha exclusão...
Entristeci ao refletir afundo sobre tudo aquilo. Doeu constatar que eu tinha sido substituído, e, além disso, que não parecia ter volta para mim e os meninos. Ao menos, o grupo estava com a mesma quantidade de membros que sempre teve. E tudo graças à Riley.
Sorri ironicamente comigo mesmo ao ver por aquele ângulo.
Ah, quer saber? Tudo bem. Não me levaria a lugar algum ter raiva de Riley. Tá legal que ela tinha tomado o meu lugar no grupo, mas a garota não merecia o meu ódio. Ela tinha feito por onde conquistar um espaço na lista de amizades de Freddie e Trevor. Fora divertida, engraçada e agradável; uma companhia perfeita que os rendera muito boas risadas. Com certeza a entrada dela no grupo não implicara na minha saída, na verdade, tinham sido as próprias circunstâncias que se encarregaram disso.
Suspirei, tentando recuperar o foco enquanto me levantava de minha banca e marchava rumo ao refeitório do colégio.
Ao chegar lá, me deparei com a cena chocante e petrifiquei.
Arregalei os olhos e senti todo o sangue fugir do meu rosto enquanto observava Catherine, despreocupada – e provavelmente enlouquecida! – sentada à mesma mesa de Aiden.
Todos os que passavam por ali não deixavam de reparar neles, para logo em seguida ficarem boquiabertos. Os dois conversavam qualquer coisa enquanto Aiden catava as batatas fritas de seu prato e Catherine cutucava sua comida com o talher. Ela estava de costas para mim, de modo que não pude identificar o que estava comendo, embora apostasse que fosse salada. Mas QUE DIABOS os dois estavam fazendo?! Pra que fizemos questão de manter o disfarce até agora então, se era para eles nos desmascararem dessa maneira?!
Espera. Estávamos mantendo o disfarce até agora, não estávamos?
Subitamente confuso e depois enfurecido, comecei a caminhar até lá para pedir uma explicação. O que eu não percebi até chegar foi que era uma péssima ideia. Minha ação só serviria para piorar o caso e dar ainda mais corda à imaginação dos fofoqueiros do colégio para explicar aquela cena. Com certeza aquilo os deixaria eufóricos! Não era todo o dia que se podia ver um popular almoçando com a ralé – ainda mais sendo Aiden Hills, com dois zés-ninguéns.
Estaquei assim que percebi meu deslize, mas já era tarde demais. Estava a um passo da mesa deles.
– Brian! – Para a minha surpresa, Catherine abriu um grande sorriso ao me ver, como se só estivesse me esperando. Voltei a arregalar os olhos, estupefato. – Senta aí com a gente! – Deu um tapinha na cadeira ao seu lado.
Devo ter perdido a cabeça nessa hora, pois obedeci Catherine automaticamente, ou melhor, meu corpo obedeceu-a automaticamente, já que meu cérebro não foi consultado na tomada da decisão. Minha consciência só retornaria segundos depois, deixando-me completamente horrorizado com o que eu tinha feito.
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH! Gritei mentalmente. Por que DROGA eu me juntei aos lunáticos?!
– Seus loucos, por que estão juntos?! Piraram de vez? – indaguei num sussurro alterado, assim que meu bom senso se recuperou. Fitei Aiden à minha frente e continuei com os questionamentos: – Por que logo você está aqui?
– Cole e Jeremy saíram para gasear na última aula antes do almoço e não apareceram até agora. – Ele deu de ombros, respondendo com uma incrível casualidade enquanto analisava uma batata frita que pegara de seu prato. Então ele a enfiou toda na boca e me encarou, mastigando elegantemente: – Devem ter preferido almoçar em alguma lanchonete em vez de aqui. Aí Catherine me perguntou se eu não queria sentar com ela.
– E você aceitou? Simples assim? – Estava totalmente incrédulo. – Aiden, você poderia sentar com quem quisesse! Até na mesa dos populares, caramba.
– Eu sei. – Ele mostrou os dentes num sorriso vaidoso. – Mas eu e Catherine conversamos e percebemos que uma hora ou outra as pessoas iam ter de tomar conhecimento da nossa amizade. Vai ser chocante de qualquer maneira, que diferença faz se souberem agora ou depois?
– Exato! – Catherine ergueu a cabeça de seu prato para concordar. Estava com a boca cheia e tinha um pedaço de macarrão pendurado para fora.
É, pelo visto, me enganei. Ela estava comendo espaguete.
Joguei as mãos para cima, desistindo daqueles dois.
– Tá, que seja. Mas, Catherine, você não deveria estar com Kayla, Nicole e as outras?
Ela engoliu a comida e deu de ombros.
– Na verdade, não. – Ela sugou o macarrão e limpou a boca com um guardanapo, olhando para mim em seguida. – Kayla, Whitney, Nicole e Sophie vão ser as únicas pessoas nesse refeitório a não estranharem me ver com Aiden. – Cathy abriu um sorriso engenhoso. – Hoje, na aula de Física do Owen, que nós sempre gaseamos, falei com Soph e Whit. Expliquei que andávamos fugindo de todo mundo no intervalo porque Lizzie está com crises existenciais e um problema de autoestima terrível. – Baixou o olhar para mesa e levou a mão ao peito, fazendo, na certa, uma reprise de como tinha atuado perto de Sophie e Whitney. – Oh! E eu disse a elas que tinha tomado o problema todo para mim, porque não queria incomodá-las. Então o Aiden nos achou aquele dia na biblioteca. Nem eu sabia por que ele estava lá, mas ele, com todo o seu charme, prestatividade e amor ao próximo... – Catherine dramatizou geral, fechando os olhos e levando pausadamente a mão a eles como se fosse chorar. Eu me esforcei para não rir. – Meu Deus... Aiden fez a minha melhor amiga rir novamente! E desde então, eu a mantenho o mais perto possível dele e o mais longe possível de todo mundo. – Finalizou, fungando e finalmente desviando o olhar para nós. – Então?! – Sorriu e abriu os braços, com claro orgulho de si mesma. – Não sou a melhor atriz e formuladora de desculpas do mundo?!
– Ô, se é! – Gargalhei, impressionado com a cara de pau dela.
– Que idéia mais maluca. – Aiden revirou os olhos. – Mas brilhante. Afinal, deu certo, não foi? – ele retribuiu o sorriso de Cathy.
– Sim! E agora minhas amigas te amam ainda mais do que antes, Aiden – Catherine riu. – Principalmente a Sophie! À essa altura, elas já devem ter contado para Nikki e Kayla.
Fitei o lugar vazio ao lado de Aiden e percebi que havia uma bandeja ali.
– Ei, pessoal, cadê a Lizzie?
– Lá. – Aiden apontou com súbita seriedade.
Desviei o olhar para onde ele indicava e logo entendi sua atitude.
Lizzie estava de pé no meio do refeitório, muuuitos metros à direita da nossa mesa, conversando com Frederick Gilbert.
– Ah. – Gemi alto.
– Apesar de eu ainda estar com raiva do Freddie por não ter me contado sobre a Riley, espero que esses dois se entendam – Catherine suspirou.
– É. – Aiden assentiu.
Ficamos observando o par à distância, até Lizzie e Freddie finalmente trocarem sorrisos de compreensão e se abraçarem com vontade.
Suspirei com alívio, e um sorriso se espalhou involuntariamente por meus lábios. Lizzie começou a voltar para nossa mesa, então Catherine pigarreou e olhou para nós, tratando de puxar assunto:
– Ah, Brian, falei para o Aiden o lance de eu e Mack sermos almas gêmeas. Eu já disse que estamos namorando? – Se empolgou naturalmente com o tema, já que aquilo a fazia tão feliz.
– Não, mas isso era meio óbvio. – Ri da boba apaixonada.
Liz nos alcançou e puxou o assento vago da mesa.
– Do que estão falando? – Ela quis saber ao sentar-se.
– Catherine e seu novo namorado. – Aiden respondeu com um meio sorriso. – Caramba, nem sei dizer o quanto estou feliz por vocês, Cathy. Sério mesmo.
– Aaawn, obrigada, Aiden! – Catherine agradeceu, toda emotiva.
Lizzie arqueou uma sobrancelha para mim logo que percebeu que eu não tirava os olhos dela.
Ops.
– O que foi, Brian?
– O que foi o quê? – Até pensei em perguntar como tinha sido lá com o Freddie, mas não tive coragem. Então, engoli em seco e tratei de armar um sorriso falso: – Ah, só tinha me esquecido de como você estava bonita hoje.
TU VAI ARDER NO INFERNO, Brian Harris, seu cínico!
Lizzie corou e baixou a cabeça.
– Obrigada, mas... por favor, para de dizer isso. – Riu, constrangida.
– Nossa! Aposto que já escutou vários elogios desses hoje, não foi? – Catherine sorriu, orgulhosa.
– Pra dizer a verdade, foi. – Ela sorriu. – Meu Deus, não estou acostumada com tanta atenção! – Liz levou a mão à testa.
– Eu não ia falar nada, mas já que o assunto surgiu, não posso deixar de concordar – Aiden murmurou inesperadamente, fitando-a em seguida. – Você está linda mesmo.
Lizzie ficou tão vermelha que por um momento me lembrou a pimenta favorita da minha mãe: a malagueta.
– E-eu... – Ela gaguejou, desconcertada.
– Ah, que coisa mais meiga! – Catherine levou a mão ao coração, sorrindo como se fosse ter um troço diante daquela cena. – E você ainda teve coragem de odiar esse cara um dia, Lizzie. Dá pra acreditar?!
– Tenho de admitir que eu não ia muito com a cara dela, também. – Aiden foi o primeiro a gargalhar diante da própria confissão, e eu e Catherine o acompanhamos assim que o espanto passou. Puxa, o dia não parava de se mostrar cada vez mais surpreendente! – Mas tudo isso é passado e agora somos amigos. Não é mesmo, Lizzie?
Ao nos virarmos para Liz, porém, constatamos que ela ainda estava vermelha e incapacitada de raciocinar.
– C-com li-i-cença. – Num tom preocupante e com os olhos vidrados, ela começou a se levantar da mesa, mas Catherine a impediu.
– Espera aí! – Empurrou o ombro da amiga, fazendo-a sentar de volta na cadeira. – Aonde você pensa que vai?
Lizzie respirou fundo, parecendo que começava a voltar a si.
– Colocar molho. Esqueci. – Referiu-se a seu hambúrguer, apontando para ele em seguida.
– Mesmo? – Os olhos de Catherine cresceram como se ela tivesse acabado de tramar algo. Ela pigarreou antes de voltar a tocar Lizzie. – Amiga, está a fim de ganhar aquele pôster do Orlando Bloom e do Johnny Depp que eu tenho há um tempão e você sempre botou olho grande?
Lizzie ficou boquiaberta de repente e sua expressão deformou-se numa careta assustadora de empolgação.
– AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH! – gritou, quase me deixando surdo. – TÁ FALANDO SÉRIO?!
Catherine riu, ao mesmo tempo em que confirmava com a cabeça.
– Sim. Você só tem que fazer seu percurso tranquilamente até a fila da cantina, bonitona do jeito que está, e... – um sorriso malicioso começou a se formar nos lábios da morena – com uma coisinha a mais.
– O quê? – Lizzie indagou, curiosa. – Eu faço qualquer coisa por aquele pôster, caramba! DIZ LOGO!
É, nem eu sabia que ela era tão fanática assim pelo Orlando Bloom e pelo Johnny Depp.
Maldosa, Catherine continuou com seu sorriso no rosto ao estender uma das mãos na direção da blusa de Lizzie. Todos observamos confusos, até que ela alcançou o zíper prateado no meio da peça de roupa roxo-escura, e...
Eu e Aiden prendemos a respiração para o que veio a seguir.
Catherine deixou à mostra uma parte generosa do busto de Lizzie, descendo o zíper até uma linha indiscutivelmente provocante. Lizzie, por sua vez, ficou ainda mais ruborizada do que antes e parecia que a qualquer hora ia explodir de puro constrangimento.
Desviei o olhar o mais rápido que pude.
– QUE DIABOS VOCÊ ESTÁ FAZENDO? – Alterada, ela tapou o lugar assim que Catherine recolheu sua mãozinha travessa.
CARACA! Ofeguei em pensamento, estupefato. Embora não houvesse perversão nenhuma em minha mente, e suspeito que Glynda tivesse alguma coisa a ver com isso, eu ainda estava impressionado com a visão que acabara de ter.
– Um favor a você e a todos os caras desse refeitório. – Cathy gargalhou, mas de repente ficou séria. – Esse é o meu preço. Uma voltinha por esse lugar, com esse decote tentador, e então meu pôster – ela voltou a sorrir, obviamente divertindo-se com a situação – será todo seu.
Lizzie xingou, claramente dividida com a resposta que ia dar.
– Pode crer que não tem nada demais em sair por aí mostrando um decotezinho. Não é, meninos? – A única coisa que consegui fazer foi encarar Catherine de volta com os olhos arregalados. Pela primeira vez na vida, senti-me completamente incapacitado de falar.
– Até parece que eles vão dizer que sim. Eles não se importam com os meus seios! – Lizzie jogou as mãos para o alto, sem nem se incomodar em olhar para nós e ver a minha cara de idiota. – Pensando bem, eu não tenho nada para mostrar mesmo. Aposto que ninguém se importa. – Assim, tomando uma resolução precipitada, levantou-se da mesa com a bandeja em mãos. – Fui!
E ela foi mesmo, sujeitando-se a quebrar um pouco seus princípios e exibir um super decote por aí, apenas para ganhar o tal pôster. O mais triste era que, conhecendo-a, eu sabia que ela estava mesmo crente de que ninguém ia ligar para seu corpo. Puxa vida, a baixa autoestima de Lizzie era uma tapa na cara de qualquer um, às vezes!
Encarei Catherine e seu olhar nas costas de Lizzie era de pura satisfação.
– Eu não sou uma gênia? – Ela suspirou dramaticamente com um ar distante, antes de sorrir para mim. – O que achou?
Balancei a cabeça para os lados, reprovando-a; mas logo em seguida retribuí seu sorriso.
– Maquiavélica... mas brilhante. – Mordi o lábio inferior, mais sapeca do que nunca.
Ambos gargalhamos ao mesmo tempo, antes de nos virarmos para Aiden.
– CARAMBA, eu acho que ele está em estado de choque! – Catherine estendeu seu braço em diagonal para tocá-lo, e quando sua mão finalmente alcançou o rosto de Aiden foi que ele estremeceu e recuperou o foco. – Você está bem?
– A-acho que sim... – balbuciou.
Alguma coisa no jeito com que os braços de Aiden ficaram tensos me indicou que ele estava fechando as mãos em punho por debaixo da mesa.
– Nossa, o que aconteceu com você? – quis saber, enrugando a testa.
– Nada – Aiden murmurou fitando a mesa, mais como se tentasse se convencer.
– Ah, meu Deus. – Catherine, de repente, esqueceu toda a preocupação e gargalhou. – Você está ficando vermelho?!
– Não!
A negativa de Aiden o fez ficar mais corado ainda, numa intensidade que até eu reparei e ri dele.
– Você está sim! Caramba, você NUNCA fica vermelho. – Um entusiasmo sinistro inundou os olhos de Catherine. – Eu já sei o que está acontecendo! Você gostou do que viu, não foi? É por isso que está com vergonha!
Aiden nem precisou responder. Pelo modo como arregalou os olhos e o embaraço instalou-se em cada brecha de sua expressão, foi impossível não declará-lo culpado.
Eu e Catherine nos viramos um para o outro e demos uma gargalhada tão alta, descontrolada e espalhafatosa, que fizemos todos os alunos das mesas em volta nos olharem como se fôssemos loucos.
– AIDEN TÁ A FIM DA LIZZIE! AIDEN TÁ A FIM DA LIZZIE! – Catherine cantarolou infantilmente, com um deboche tão prazeroso em seu tom de voz que daria nos nervos de qualquer um.
– EU NÃO ACREDITO QUE VOCÊ ESTAVA MESMO BABANDO PELO DECOTE DA JOHNSON! – Incrédulo, ri tanto que quase engasguei com minha própria saliva. – LOGO VOCÊ!
– EU SABIA! SABIA QUE TODO AQUELE ÓDIO NÃO PASSAVA DE TESÃO REPRIMIDO! – Catherine acusou, batendo na mesa com um tapa tão forte e convicto que me assustei, antes de voltar a gargalhar.
– NÃO ERA... – Aiden começou, alterado. Mas, ao dar-se conta de que assim estava fazendo o nosso jogo, tratou de abaixar o tom – tesão reprimido. – Estremeceu ao fim da frase.
Percebendo que ele tinha ficado perturbado, resolvi maneirar.
– Relaxa, a gente só está tirando onda – contendo o resto da risada, fui solidário e dei tapinhas no ombro dele. – A sua reação... àquilo... tirando a parte de entrar em estado de choque... foi bem normal. – Mordi a bochecha internamente com força. – Eu também fiquei meio hipnotizado na hora, apesar de ter a Glynda como alma gêmea.
Meu comentário sincero pareceu fazer Aiden relaxar. Depois de alguns segundos, ele respirou fundo antes de falar novamente:
– Tem razão. Não sei por que fiquei tão nervoso com isso. – Fitou-me. E então começou a refletir, os olhos azuis perdendo-se no desconhecido. – Acho que só... nunca tinha parado para pensar na Lizzie desse jeito.
Houve uma longa pausa.
– Como uma garota que pode ser... interessante?
As palavras suaves de Catherine trouxeram Aiden de volta à Terra, e ele imediatamente desviou o olhar para ela.
Meio sem saber o que esperar, fiz o mesmo.
O semblante da morena estava entristecido, tomado ao mesmo tempo por uma estranha compreensão. A melancolia fluía pelas linhas do rosto de Catherine, do mesmo modo que, segundos atrás, fluíra por sua voz. Gentilmente, ela arqueou então uma sobrancelha, e de algum jeito eu soube que Aiden não iria lhe negar a verdade.
Senti um ligeiro e desconhecido aperto no peito. Devagar, voltei minha cabeça outra vez na direção dele.
Aiden assentiu lentamente para Catherine, ou quem quer que fosse a dona daqueles olhos castanhos penetrantes.
– Sim. – Ele confirmou por fim, com uma hesitação breve. – Nunca parei para pensar nela... como uma garota que pudesse ser interessante. Quer dizer... já, mas... não para um cara como eu.
Catherine concordou com a cabeça, baixando os olhos em seguida. Então, ela voltou a prestar atenção no prato.
Aiden virou o rosto para mim na mesma hora, lançando-me um olhar questionador.
E essa agora?!, pensei. Fiquei completamente perdido. Apenas dei de ombros, demonstrando que não sabia de nada. Afinal, o momento esquisito foi dos dois lá! EU é que não deveria estar entendendo patavinas!
Um tempo depois, Lizzie estava de volta, depositando tranquilamente sua bandeja sobre a madeira, e ainda com o zíper indecentemente aberto. Revirei os olhos comigo mesmo ao perceber que, mesmo depois de tudo o que acabara de acontecer... eu ainda estava louco da vida para dar mais uma olhadinha.
É, eu sei. Quando foi que virei tão tarado?
– Voltei! – Ela anunciou enquanto arrastava sua cadeira para frente, reacomodando-se nela.
Como nenhum de nós respondeu, Lizzie arqueou uma sobrancelha.
– Qual é o problema? – preocupou-se.
– Nenhum. – Embasbaquei ao perceber que a resposta viera de Aiden, numa voz surpreendentemente casual.
Virei-me para ele e o maluco encarava Lizzie milagrosamente recomposto, esboçando um sorriso que quase parecia despreocupado e calmo. Meu queixo despencou imediatamente com a cena. QUE DESCARADO!, pensei. Como ele podia responder aquilo depois de tudo o que acontecera na ausência dela?
Lizzie pigarreou e demorei a perceber que ela tinha ficado ligeiramente afetada pelo sorriso arrebatador de Aiden.
UM. MINUTO. AÍ.
Desde quando ela se deixava afetar por ele? Isso NUNCA aconteceu quando ela o odiava!
Será que o fato de Lizzie ter feito amizade com Aiden estava finalmente fazendo-a reparar nele? Que estranha coincidência, notei, e tive de prender o riso outra vez. O destino só podia estar de sacanagem com a cara dos dois. Isso é o que eu chamo de ironia da vida! Apostava que Deus poderia estar sentado em sua cadeira imponente no céu agora mesmo, gargalhando dos dias em que Lizzie e Aiden não se suportavam.
– Então, sobre o que conversaram enquanto eu estava fora? – O interesse de Liz dessa vez era puro fingimento, observei. Parecia que ela perguntara aquilo mais na tentativa de se recompor.
– Você não iria acreditar. – Catherine murmurou.
Um silêncio estranho se seguiu. Depois disso, notei Catherine prendendo uma nova risada e levando uma mão à boca para disfarçar.
Aquilo me deixou confuso e intrigado por um segundo. Só depois reparei que o olhar malicioso de Catherine era distante, para além da melhor amiga. Procurei olhar na mesma direção que ela e rapidamente entendi o porquê da nova expressão de Catherine, travessa e alegre.
Lizzie tinha deixado uma fila relativamente grande de admiradores para trás.
– Meu Deus! – Arregalei os olhos.
Vários caras, mas vários caras mesmo, incluindo populares, membros do time de futebol, nerds esquisitos, skatistas, roqueiros, pessoas não-tão-nerds e parecidas conosco, pessoas marginais e nada a ver com a gente, o escambal e etc. – enfim, tudo quanto era garoto naquele refeitório! – encontravam-se parados, ligeiramente boquiabertos e com os olhos arregalados e fixos na direção de uma certa garota que estava almoçando comigo. A maioria tinha uma bandeja vazia em mãos, o que só tornava a situação deles mais ridícula.
Mais precisamente, eles eram como migalhas de pão marcando o caminho que Lizzie tinha percorrido de ida até a cantina e volta. Tive de me controlar para não tirar uma com a cara de todos ali mesmo. Afinal, poucas coisas descreveriam a situação prazerosa de observar todos aqueles idiotas, que sempre haviam desprezado Lizzie, babando por ela ao perceberem que ela era mais do que um par de olhinhos brilhantes.
Lizzie, como sempre ingênua, ainda não tinha percebido nada.
– O que foi? – Ela franziu a testa quando nós dois a encaramos com as mesmas expressões repletas de safadeza.
– Talvez queira olhar para trás. – Catherine não conteve o sorriso largo e maldoso.
Liz o fez. E tomou um susto, pulando na cadeira ao finalmente dar-se conta do que estava acontecendo. O instantâneo rubor que veio sem trégua, logo em seguida, preencheu-lhe as maçãs do rosto sem piedade.
Ela tratou de virar-se de novo para nós. De imediato baixou a cabeça, cobrindo a testa com uma mão, excepcionalmente constrangida.
– Nossa. – Gemeu de vergonha, demorando alguns segundos para voltar a nos encarar. Ainda estava toda vermelha quando o fez. – Vocês...! – Até quis nos repreender de algum modo, mas não conseguiu. Afinal, era impossível mesmo discutir a proposta de Catherine ou questionar o meu silêncio sem parecer uma estúpida metida.
Com isso, Lizzie voltou a fechar a boca, mordendo os lábios nervosamente.
– Também nem sei o que dizer. – Aiden atraiu minha atenção de volta para ele com o comentário. Ele franziu os lábios, e me vi arqueando uma sobrancelha para o cara, na dúvida se ele tinha reparado na situação de Lizzie só agora.
Catherine ainda estava com aquele infame sorriso safado na cara, que, droga, deixava o seu estado de espírito para lá de contagiante. Até eu ficava com vontade de fazer piadinhas sacanas assim!
– Mas que droga, gente! – Lizzie bradou em um estado de espírito muito nervoso e louco, que eu nem soube dizer qual era. Talvez uma estranha mistura entre raiva, agitação, timidez, deleite, orgulho e muuuuuuuuita vergonha. – Foi só um pouquinho de lápis de olho, brilho labial, blush e rímel! – socou a mesa, angustiada. – Não pode estar TÃO bom assim!
– Com licença. – Todos nos viramos assustados para encarar o sujeito que se materializou ao lado de Lizzie, do nada. – Eu acho que ainda não fomos apresentados. – Ele exibiu um discreto e galante sorriso, e sou forçado a admitir que o cara era bonito, o que só tornava aquela situação ainda mais surreal. – Qual é o seu nome, princesa?
Minha cara foi ao chão na hora em que ele tomou a mão de Lizzie delicadamente entre as suas e depositou um beijo ali.
UM CARA ACABOU DE BEIJAR A MÃO DELA? Surtei por dentro. AAAAAAAAAAAAAAAH, COMO ASSIM?!
– Jared?! – Lizzie arregalou os olhos.
Só aí o reconheci.
Jared Petrovski tinha estudado conosco no West Side a vida inteira, desde o Jardim da Infância. Era apenas um ano mais velho. Ele também estava entre um dos membros mais conhecidos do time do futebol – especialmente entre as garotas, com “aquele sorriso matador, aqueles olhos verdes lindos e aquele abdômen ostentando divisões perfeitas”. Moreno e alto, Jared era mesmo um golpe na autoestima de qualquer um, na verdade, exatamente naquele momento, eu estava me sentindo meio deprimido e feioso. Era óbvio que ele conhecia Lizzie e, pior, todos nós ali daquela mesa. Embora talvez não soubesse os nossos nomes – com exceção do de Aiden, claro. Mesmo assim, aquilo invariavelmente não podia dar em outra coisa senão mico, assim que ele percebesse o engano de achar que Lizzie era nova aluna.
– É. Você me conhece? – Jared piscou, surpreso. Em seguida, a compreensão cintilava em seu olhar quando ele o pousou sobre mim e Catherine. – Lizzie Johnson? – Voltou-se novamente para ela, assombrado.
Engolindo em seco, Lizzie confirmou timidamente com a cabeça e, para a surpresa de todos nós, Jared riu.
– Caramba, se eu soubesse que você era tudo isso, teria corrido atrás há muito tempo! – sedutor, ele voltou a abrir seu sorriso perfeito. – Então – Jared voltou a pegar a mão de Lizzie, olhando bem nos olhos dela. – Quer sair comigo qualquer dia?
– Não!
Aiden tinha acabado de responder por Lizzie?
Absolutamente chocados, eu e Catherine nos viramos para encará-lo. O QUE PESTE TINHA DADO NELE?Será que ele tinha perdido um parafuso? Para mim, aquela era a única coisa que podia justificar ele estar respondendo no lugar dela!
Ou não estou certo?
– Ela não quer. – O louco repetiu, devagar.
– NÃO?! – eu e Cathy esbravejamos em uníssono.
– Não?! – Lizzie estava incrédula.
Por mais incrível que possa parecer, Aiden apenas virou-se para ela com uma sobrancelha arqueada, quase como se Lizzie fosse obrigada a concordar com ele. Perplexo, observei, mais atônito ainda, quando uma súbita compreensão inundou as feições da garota. Era quase como se ela tivesse entendido exatamente o motivo por trás da atitude de Aiden e, agora, estivesse disposta a cooperar.
Foi extremamente aturdido que vi Lizzie pigarrear e se virar para Jared:
– Erm, hum, ele tem razão, eu não posso.
O QUÊ?
DESDE QUANDO AIDEN E LIZZIE NAMORAVAM ESCONDIDO E POR QUE EU NÃO SABIA?!
Ok, Brian, se acalma, isso é uma hipótese ridícula. Deve haver uma explicação totalmente plausível para Aiden ter recusado por Lizzie, e ela ter concordado com ele, e eles NÃO namoram escondido. Jamais namorariam.
Eu estava só começando a acreditar no pensamento quando Aiden aproveitou toda a concentração de Lizzie em Jared para dar mais uma espiadinha no decote dela.
QUE SAFADO!
É claro que o meu queixo caiu pela milésima vez àquele dia.
– Aiden Hills? – Jared ergueu uma sobrancelha para Aiden, tranquilo demais para o meu gosto, ao reconhecer o recém-pirado. – Que estranho ver você aqui. O que está fazendo com...?
Mas ele interrompeu sua pergunta bruscamente, como se outra coisa tivesse lhe ocorrido. E então fitou Lizzie com um olhar desconfiado, antes de dirigir o mesmo a Aiden.
– Você por acaso não está...
– Não! – Aiden respondeu rápido demais, fazendo Catherine voltar a reprimir um risinho. Pelo visto, ela não iria parar de tirar onda dele nem tão cedo depois daquele dia. Já podia até imaginar... “AIDEN TÁ A FIM DA LIZZIE!” pelo resto da vida. Melhor o bonitão de olhos azuis estar preparado. – É claro que não estamos juntos! – proclamou, determinadamente. – É só que...
Ei, espera aí!, penseide repente. Por que ninguém parece estar compartilhando a minha frustração por não saber de nada?!
– Ele sabe o quanto estou ocupada essa semana. – Lizzie interrompeu, virando-se para Jared e abrindo um sorrisinho amarelo.
– Ahn... isso aí! – Aiden tratou de concordar às pressas.
– Ah – Jared voltou a ficar simpático. – Então, quem sabe na pró...
– Ei, Jay! – Virei o pescoço para a direita, só para ver a cara de um dos amigos de Jared, risonho. Dois integrantes do time de futebol (sei disso porque estavam com as jaquetas típicas), cujos nomes não sei, pareciam para lá de bem-humorados e ansiosos às costas dele. – Depois você dá em cima da menina, vamos perder o espetáculo!
– Tem razão. – Jared rapidamente voltou a pegar uma das mãos de Lizzie e a beijou outra vez. – Agora eu preciso ir, minha deusa, mas prometo voltar para marcarmos um dia. Fui!
Num piscar de olhos, ele e os amigos desapareceram de nosso campo de visão.
– Voltar para marcarmos um dia? – Catherine repetiu, um sorriso enorme começando a se espalhar por sua cara surtada.
– Espetáculo? – murmurei, confuso.
– Minha deusa?! – Aiden e Lizzie exclamaram, bestificados.
Ainda atônitos pelo encontro com Jared, nós observamos Stella D’Amore adentrar o refeitório repentinamente.
Revoltada, a patricinha escancarou as portas com tudo. O ruído foi alto o suficiente para atrair a atenção de todos. Metade dos alunos parou o que estava fazendo para olhá-la, enquanto a outra metade externava sons de espanto pela boca. Parecendo enlouquecida, ela ignorou todos os olhares. A passos largos, dirigiu-se à mesa que ficava exatamente no centro do local. Demorei a perceber que Jake Hanson estava em seu encalço. O Mais Mais do colégio corria com um braço estendido à sua frente, numa inútil tentativa de parar Stella.
Meu coração acelerou involuntariamente quando ela subiu na mesa dos populares, munida de seu conhecido megafone. Patrick Smith, Olivia Dickens e as demais pessoas descoladas que estavam na mesa ofegaram de espanto, totalmente pegas desprevenidas.
Pressenti a merda que estava por vir.
– ATENÇÃO! – Stella berrou no megafone, e tive de tapar os ouvidos. – EU QUERO QUE TODOS DESSA MALDITA ESCOLA ME ESCUTEM MUITO BEM, TENHO UM ANÚNCIO A FAZER. ESTÃO VENDO ESSE IDIOTA AQUI DO MEU LADO? – Apontou para Jake, que prendeu a respiração. – POIS BEM! EU SEI QUE MUITOS DE VOCÊS SE PERGUNTAM, E HÁ MUITOS ANOS, PORQUE O INFELIZ NUNCA QUIS ME NAMORAR. BEM, A RESPOSTA É SIMPLES. – Ela o encarou, uma carranca possessa inflando-se no lugar do rosto.
Jake a encarou de volta, só que sua expressão estava preenchida pelo medo. Pela primeira vez, ele pareceu-me frágil. Não vi sombra do garoto popular, seguro e arrogante que perambulava pelos corredores da escola. Em vez disso, havia ali alguém quase... humano. Um ser que parecia quase normal, como eu, Lizzie, Catherine e todos os outros não-populares do West Side. Quase digno de compaixão e pena, como todas as outras pessoas do mundo.
Não costumava ser algo que os populares necessitassem.
O queixo de Stella tremeu em fúria. Então, ela continuou. Pronunciando as palavras que levariam todo o colégio à insanidade:
– JAKE HANSON ME PEGAVA SÓ DE FACHADA. ACONTECE QUE ESSE CRETINO É GAY! – Todos naquele refeitório arregalaram os olhos, estupefatos. A essa altura eu já nem sabia qual era o meu nome. Aquilo era LOUCURA! – É ISSO AÍ MESMO QUE VOCÊS OUVIRAM! GAY! G-A-Y! EU O VI AGORINHA NAS ESCADAS DANDO UNS AMASSOS... SABEM EM QUEM? – Ela riu descontrolada, mas sem nenhum humor. A cara de Stella era tão homicida que me encolhi na cadeira, amedrontado. – DEAN SOMMERS! ISSO MESMO! DEAN SOMMERS!
Os sons de horror que tomaram conta do refeitório foram altos e incessáveis.
Ninguém conseguia acreditar, muito menos eu. Levei as mãos à boca, sentindo que o mundo tinha inexplicavelmente e aterrorizantemente virado de cabeça para baixo. Alguns dias atrás, Jake era o bonzão do colégio e eu era o suposto gay. Agora, eu era o namorado de uma das garotas mais bonitas do mundo enquanto Jake era o mais novo recém-forçado-a-sair-do-armário?
Passei as mãos pelo rosto, antes de expressar o que eu estava sentindo:
– PORRA! – berrei tão alto que assustei meus colegas de mesa. – SERÁ QUE TÁ TODO MUNDO LOUCO?!
Eles ficaram paralisados, sem saber o que me responder.
À minha volta, o colégio se transformava em um pandemônio. Garotas tinham começado a chorar desesperadamente e se jogavam no chão, desoladas, não se conformando com o fato de Jake Hanson ser gay. A maioria dos garotos apenas permanecia de olhos arregalados, embora os jogadores do time de futebol estivessem se acabando de rir da nova reputação do Mais Mais do colégio. Algumas pessoas ainda lançaram olhares acusatórios para ele, como se fosse crime. E outras, descaradas, levantavam as mãos para o alto, berrando: “EU SABIA! EU SABIA”, como se sempre tivessem desconfiado daquilo. FALA SÉRIO! Era algo impossível de qualquer um ter desconfiado até o momento!
Pálido, observei quando Jake subiu na mesa e tomou o megafone das mãos de Stella.
– PAREM! – ele pediu.
Em segundos, o refeitório inteiro estava em silêncio outra vez.
– E-eu... – Ele começou, hesitante. Depois, engoliu em seco. Aproveitei que todos estavam momentaneamente calmos para vasculhar o refeitório com os olhos, à procura de Dean, mas não o vi em lugar algum. – Escutem. – A voz dele pareceu triste e derrotada. – O que vocês acabaram de ouvir... é verdade. É a mais pura verdade. MAS, POR FAVOR! – bradou logo que os burburinhos recomeçaram e foram aumentando gradativamente. – Peço que não tornem isso ainda mais difícil... Para mim, é assustador estar assumindo. Ainda mais, perante vocês. Uma coisa que nunca imaginei fazer.
Ele baixou a cabeça e suspirou.
A breve pausa me permitiu fitar Aiden e Lizzie à minha frente. Aiden era inimigo declarado de Jake, e Lizzie, até onde eu sabia, uma grande fã. Eu esperava encontrar satisfação e um brilho vingativo no olhar de Aiden, e terror misturado a tristeza no olhar de Lizzie.
No entanto, ambos tinham a mesma expressão confusa e desnorteada, e a intensidade do olhar que dirigiam a Jake era maior e mais complexa do que eu previra.
– Mas eu estou fazendo isso. – Jake prosseguiu, roubando a minha atenção de imediato. – Estou assumindo. Porque eu percebi, nos últimos dias, que no fato de eu ser gay está toda a razão para o canalha que sempre fui. – Ele expirou, com uma expressão de arrependimento. – Não quero mais ser esse cara. Eu era convencido, esnobe, duas caras, e isso mesmo com aqueles que deviam ser meus amigos. E sabem por quê? Porque eu desprezava. Me obrigava a desprezar. Desprezava vocês, todos, tudo, o tempo todo. Era capaz de ser impiedoso e cruel com quem quer que fosse, desesperado por uma ilusória sensação de superioridade. Não me orgulho disso, mas cheguei a ser um idiota com meus próprios pais! – Os lábios dele tremeram levemente. – Foi o jeito que encontrei para me fazer sentir melhor... Desprezar. Como eu achava que seria desprezado caso um dia descobrissem o meu segredo. Mas eu estava tão... tão errado.
Jake estremeceu e parou de falar de repente.
Atordoados, todos os alunos o fitavam, com medo de respirar. Não havia mais gracinhas, acusações ou olhares cheios de ódio. Pelo contrário.
Havia apenas curiosidade e compaixão nos semblantes de quase todos ali.
– Temo que agora que a consciência me atingiu – Jake enfim retomou as palavras, fortalecido – já seja tarde demais para algumas pessoas me perdoarem. No entanto, queria pedir desculpas mesmo assim, e a todos vocês, porque de um jeito ou de outro sei que errei com todo mundo. – Ele ergueu um pouco mais o queixo. – Sinto muito se não ouvi os alertas, os conselhos, se não dei razão... a quem tentou me fazer abrir os olhos para enxergar o mal de minhas atitudes. – Jake olhou diretamente para Aiden. – Só que, agora, o que eu mais quero... é ser feliz com Dean. Queria simplesmente assumir nosso namoro e continuar com ele, sem críticas. Sem fofocas maldosas toda a manhã, sem olhares esquisitos no corredor. Mas... – Jake voltou a baixar a cabeça – como eu sei que isso é impossível, só... obrigado pela atenção.
Num piscar de olhos, ele deixou o refeitório. Pôs o megafone de Stella cuidadosamente sobre a mesa dos populares, e foi só quando o fez que percebi o olhar abismado de Patrick Smith. Ele era o mais incrédulo ali. Jake “desceu do palanque” antes de, provavelmente, ir procurar por Dean.
Jake Hanson foi embora deixando um silêncio estupefato e reflexivo para trás. Aos poucos, muito vagarosamente mesmo, os alunos recuperaram a fala. Mas conversaram baixo, a maioria num tom pesaroso.
Quando me virei para Aiden novamente, seus olhos eram cheios de pena.
– Eu nunca pensei que ele pudesse ter um motivo tão triste por trás de toda aquelas atitudes condenáveis. – Ele meneou a cabeça, impressionado.
– Quem diria. Jake Hanson era apenas um adolescente mal-resolvido com sua sexualidade – Catherine soou compreensiva, mas surpresa.
– Eu acho que ele merece ser perdoado. – Lizzie murmurou inesperadamente.
– Por favor – ri sem vontade –, me diga que isso não tem nada a ver com sua queda por ele... Afinal, agora ela é praticamente um crime.
– Não sou mais apaixonada por Jake. – Lizzie olhou para mim quase assustada, como se eu devesse saber daquilo há muito tempo.
Por um momento, fiquei só a encarando, sem piscar.
– O. Quê?
– Não sou. Mais. Apaixonada. Por Jake. – Lizzie repetiu devagar, deixando eu e Catherine pasmos. – Faz algum tempo. – Ela suspirou.
– Como eu não sabia disso?! – Cathy indignou-se.
Para a nossa maior perplexidade, foi Aiden quem respondeu por Lizzie. De novo.
– Ela estava comigo no hospital quando consegui dissuadi-la daquele “tombo” infundado por Jake. – Ele explicou, revirando os olhos.
– Espera aí. – A ficha caiu. – Você contou pra ela os motivos da briga entre você e o Hanson?!
Lizzie estava sabendo dos motivos secretos da briga entre Aiden Hills e Jake Hanson, o segredo mais bem-guardado do colégio, aquele que todo mundo queria saber, o mais misterioso do que algo trancado a oito chaves?!
Ei! Por que eu não? Magoei, agora.
– FORAM QUAIS? – Catherine ainda conseguiu ficar curiosa numa hora como aquela.
Aiden nos fitou pelo canto do olho e esboçou um singelo sorriso.
– Acho que agora isso é irrelevante. Jake me pediu desculpas afinal de contas, não é?
***
Na hora da saída, ainda estávamos com Aiden. Ele conversava com Lizzie animadamente (ela tinha, GRAÇAS A DEUS, fechado o zíper) enquanto eu e Catherine debatíamos sobre como os alunos iriam aceitar a boiolice de Jake. Eu achava que, depois daquele discurso, todos iriam pensar duas vezes antes de atormentá-lo. E ela achava que ele ia ser rebaixado de qualquer jeito na pirâmide de popularidade, e que sua vida seria, dali para frente, infernizada por todos.
As pessoas nem davam mais atenção ao fato de estarmos juntos. Jake e Dean eram o novo foco dos fofoqueiros de plantão; todos agora estavam exclusivamente concentrados neles.
– Tenho a impressão de que estou esquecendo alguma coisa... – Catherine parou para refletir em certo ponto de nossa discussão. – Ah, é! Meu Deus, gente! Com essa distração toda, esqueci de dar a má notícia. Mack e Glynda estão pensando em sair de Steklyn!
– O QUÊ?!
O susto foi tão grande que nós todos paramos de andar ao mesmo tempo no corredor.
– Precisamos impedi-los! – Catherine continuou, esbanjando determinação. – Precisamos encontrar um lugar para eles ficarem aqui e...
– Para tudo! – Lizzie interrompeu, angustiada. – Por que eles querem sair daqui, em primeiro lugar?!
– Como Glynda pode sequer pensar em me abandonar? – Arfei, sentindo perder o chão. – Eu sou... sou... a alma gêmea dela, caramba!
– É uma longa história. – Catherine soltou o ar devagar. – Mack me disse que um lugar tão perto da praia como Steklyn é um risco constante para eles. Além disso, várias almas gêmeas já tiveram de se separar por implicâncias do destino e estão vivas até hoje.
– NÃO! – berrei, em pânico.
– Espera um pouco! – Lizzie interrompeu outra vez. – Só temos de arrumar um lugar para eles ficarem. E, de preferência, que seja num bairro o mais afastado possível da praia. Certo? – Ela ergueu uma sobrancelha para Catherine.
– Certo!
– Então, não podemos ir embora agora! – Ela afirmou decidida, socando a palma da mão. – Precisamos ficar aqui no colégio mais um pouco, até dar o horário da zeladora noturna.
– HEIN? – Questionamos em coro, absolutamente perdidos.
– Catherine, não se lembra no ano passado, quando perdemos o Escolar várias vezes por causa daquele maldito trabalho em grupo? – Lizzie indagou com uma sobrancelha arqueada. – O de química, que nos fazia passar horas enfurnadas na biblioteca depois da aula?
– Ahn... Lembro, acho.
– Então. – Lizzie abriu um sorriso nostálgico. – Foi quando conhecemos Abigail Fletcher, a zeladora noturna. Ficávamos horas conversando com ela, até nossos pais finalmente aparecerem para nos pegar. Não se lembra das histórias que ela nos contava...?
– Sobre querer ter filhos e nunca conseguir? Sobre a infertilidade que descobrira no ano passado? – Catherine completou, abrindo o mesmo sorriso esperançoso de Lizzie.
– Isso!
– Agora eu gostei! – Animei-me.
– Abigail Fletcher – Aiden repetiu o nome devagar, pensativo. – Por que soa tão familiar?
– Porque ela é ninguém mais, ninguém menos que a esposa de David Fletcher, o dono das concessionárias Fletcher – Lizzie esclareceu.
Eu e Aiden ficamos boquiabertos na mesma hora.
– Não brinca! – exclamei, entusiasmado.
– O milionário que mora na parte luxuosa e alta da cidade? – Aiden sorriu, entendo tudo. – Caramba! Não podia ser mais perfeito! Lá é super longe da praia.
– Exatamente! – Lizzie riu. – Espera. Ele é milionário mesmo? Não é só rico?
– Santo Deus, por que é que essa Abigail trabalha?! – Aiden questionou, espantado.
– Porque ela não queria ficar em casa sem fazer nada? – Catherine supôs, dando de ombros. – Ah, quem se importa? Só temos de esperar um pouco para falar com ela!
– Preciso levar Cole e Jeremy para casa, mas depois volto para ficar com vocês – Aiden soou resoluto.
– Não precisa se incomodar, se não quiser – garanti, surpreso por ele parecer tão disposto a fazer de tudo para que Glynda e Mack ficassem, tal como nós estávamos. – Nós podemos falar com essa tal de Abigail. – Olhei para Lizzie e Catherine, enfatizando que o “nós” se referia a mim e a elas.
Aiden apenas sorriu fracamente.
– Eu quero. E depois, quem vai levar vocês para casa?
– Pegamos um ônibus comum. – Catherine deu de ombros, embora visivelmente desanimada com a ideia. – Eu não me importo – mentiu.
– Não é preciso. Meu pai pode levar todos nós – afirmei.
Aquilo era verdade, mas Aiden pareceu ler em minha expressão o quanto eu não queria incomodar Robert Harris.
– Mesmo assim, vou ficar. Ainda quero fazer isso. A não ser que me expulsem. – Ele olhou para nós, subitamente alarmado.
– Tudo bem, bonitão. – Catherine divertiu-se com a expressão dele, abrindo um sincero e enorme sorriso. – É claro que não te expulsaríamos! Obrigada. – Abraçou-o com força.
***
Aiden tinha acabado de voltar e estávamos perambulando pelo colégio, entediados, enquanto esperávamos a hora de Abigail vir trabalhar. De repente, me dei conta do que estava ao meu lado. Tínhamos parado bem em frente ao quadro de avisos do colégio.
– Ei, pessoal, olha só isso! – Chamei a atenção deles, apontando para um bilhete em específico. – Parece que os professores resolveram adiantar as provas para semana que vem. Que inferno, não?
Mal acabei de falar, ouvi um som de baque atrás de mim.
– AI-MEU-DEUS, LIZZIE! – Catherine desesperou-se e virei-me abruptamente.
– Ela desmaiou de novo? – Incrédulo, observei minha amiga caída no chão.
– Mas dessa vez não é de se surpreender. É claro que ela teve um troço, tadinha! Já tem problemas suficientes de nota com os pais. – Catherine agachou-se ao lado de Liz, como se fosse tentar a imprudência de erguê-la.
– É mesmo? – Aiden pareceu atordoado. Depois, parou Catherine pelo braço. Aturdida, a morena o fitou com confusão. – Deixe que eu a pego. – Explicou-se, enquanto se abaixava para realizar o feito.
Catherine apenas assentiu e afastou-se.
Assim que Aiden ergueu Lizzie nos braços, porém, uma preocupação silenciosa voltou a instalar-se no semblante de Catherine.
Durante algum tempo, ficamos todos inutilmente parados, apenas... contemplando Lizzie. Ela era indiscutivelmente linda, inconsciente. Seu peito subia e descia devagar, como se estivesse em nada mais do que um sono tranquilo. Quase me permiti acreditar naquilo por um momento.
Foi quando Aiden encarou Catherine. E ela abriu um sorriso completamente inapropriado para a ocasião.
Não havia malícia, nem segundas intenções (como eu esperava que tivesse, já que Cathy tinha inventado de sorrir naquela hora). Não, nada disso. Era um sorriso apenas diferente.
Sutil, emotivo e verdadeiro.
– Por favor, Catherine, não comece – Aiden pediu suavemente. Parecia que seus pensamentos tinham sido direcionados para a mesma linha de raciocínio que os meus. – Eu não estou a fim dela! E...
– Eu não ia dizer isso. – Ela o cortou, dando de ombros, fitando-o intensamente. – Não posso caçoar de você enquanto cuida dela. Quero dizer... é... sempre... tão natural. A forma como vem o seu zelo de origens desconhecidas para com ela. – Cathy baixou o olhar para Lizzie. – Não tenho dúvidas das boas intenções com que a ampara, Aiden. Sendo assim, não posso fazer graça com palavras maldosas ou piadinhas infames. Porque sei que o momento não permite isso. Só serviria para distorcer... um sentimento tão lindo.
Fiquei absolutamente impressionado com a profundidade da conversa.
– Desde quando viramos filósofos? – Inclinei o pescoço para o lado. Catherine olhou para mim e riu sem que eu esperasse.
Após o que pareceu uma eternidade, Aiden assentiu com a cabeça.
– Entendo. – Ele sorriu, amável e estranhamente compreensivo. Quer dizer que toda essa ladainha confusa e melosa de novela mexicana fazia sentido na cabeça deles, só não na minha? – Melhor assim.
Poxa vida. Catherine dizendo coisas profundas em ver de levar tudo para o lado da malícia? Aiden – Aiden Hills! – concordando com aquilo? Cadê toda a aquela superficialidade e zoação típica dos caras populares?!
Fiquei olhando surpreso para os rostos dos dois, absorvendo o quanto estávamos mudados.
Orazón.
Então eu abri um sorriso, e era um dos mais sinceros que eu já havia dado.
Sim, mudamos. E por causa de Orazón.
Orazón, como eu constatara antes, tinha mudado as coisas. Mudara a todos nós, a tudo. Os apuros por que passamos haviam feito Catherine, Lizzie, Aiden e eu nos tornarmos mais próximos do que já tínhamos sido de qualquer um dos nossos amigos. E Mack e Glynda, de alguma forma, se encaixaram profundamente nessa ligação; tendo se tornado parte de nós num nível significativo e surpreendente. Era verdade que Aiden e Mack, para mim, ainda não haviam alcançado a função de “confidentes”. Mas eu aprendera a acreditar neles de um jeito com o qual nunca havia acreditado em ninguém.
E eu me importava com os dois. Mais do que um dia já havia me importado com muitos amigos de longa data.
De repente, eu estava recordando a época de um Brian fraco e complexo. Eu costumava ter medo... tanto medo de tudo e de todos. Do futuro e das adversidades da vida. Das armadilhas do destino. Do novo, da adrenalina, da diversão, do diferente. E tudo isso mudara. Não sabia quando exatamente, mas mudara. E as razões se fundamentavam todas, principalmente, em Glynda. Quando eu olhava para o rosto dela... A simples pronúncia mental de seu nome, uma simples esperança de vê-la era capaz de me dar as forças necessárias para enfrentar tudo aquilo que viesse pela frente. Eu tinha essa maluca impressão de que sua presença era o suficiente para me sustentar por longos períodos de guerra; seu sorriso, mais do que o bastante para acalmar meus nervos durante milênios e... Ah! O fato é que só de pensar em perdê-la me dava calafrios!
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Era melhor viver com ela e enfrentar o mundo do que deixá-la ir. Não importava qual fosse o motivo, não importava de que forma.
Sacudi a cabeça, tentando dissipar as reflexões. Mas não foi difícil voltar à Terra, porque um grito desesperado me acordou.
– Ah, meu Deus, o que aconteceu?! – A voz de Freddie vinha de trás, alta e preocupada como eu nunca antes ouvira.
Virei-me em direção ao som, seguido por Aiden e Catherine. Antes que qualquer um de nós tivesse tempo de raciocinar, Freddie já estava parado de frente para Aiden, carrancudo.
– O que você fez a ela? – Altivo, Freddie exigiu uma explicação.
Ele se referia a Lizzie nos braços de Aiden, claro. Mas ver Freddie naquele estado nada simpático me desorientou tanto que demorei para perceber isso. Seu tom era tão frio e acusatório que me deu calafrios.
Aturdido, demorei também a notar uma ofegante Riley atrás do mesmo.
– Nada! – Aiden exclamou, abismado.
– Caras como você não costumam ser bonzinhos e ajudar sem motivo. – Freddie falou por entredentes, agressivamente, estreitando os olhos.
Apavorei-me com a ideia de que aquela situação podia acabar mal.
Aiden não pareceu se surpreender com a súbita hostilidade de Freddie. Só parecia indignado por alguém estar acreditando que ele poderia, de fato, pensar em fazer mal a Lizzie. Aquilo me intrigou. Era somo se, de alguma forma, Aiden já soubesse de toda a antipatia que Freddie nutria por ele.
– Espera um pouco. Você estava lá. – Aos poucos, Freddie foi arregalando os olhos, aparentemente se relembrando de mais um detalhe da noite anterior.
Droga! Resmunguei mentalmente.
– Desde quando...? – O Gilbert não conseguiu elaborar a pergunta, mas aquilo era compreensível.
Aiden não se incomodou em esclarecer as coisas.
– Olha, só porque você não gosta de mim, não quer dizer que eu seja um monstro. – Murmurou apenas, chateado. – Eu me importo com ela!
– Não me faça rir! – Freddie interrompeu na mesma hora, incrédulo. – Há quanto tempo a conhece de verdade, um dia? – Tecnicamente, como o tempo não passava quando estávamos em Orazón, Aiden e Lizzie se conheciam há só um pouco mais que isso, mesmo. – Como poderia? Você nem ao menos sabe o que...!
– Eu sei, Freddie. – Foi a vez de vez de Aiden interromper.
– Não. Não sabe. Nãopode saber...
O queixo de Freddie tremeu. E eu e Catherine nos encaramos confusos.
Não entendíamos nada do que Freddie estava falando. Não compreendíamos o momento que ele e Aiden estavam tendo. E, mesmo assim, os dois pareciam incrivelmente preparados para a afronta, como se sempre soubessem que aquilo ia acontecer.
Esperamos pacientemente pelo fim do longo silêncio que se seguiu.
– Mas eu sei. – Aiden começou, rouco. Limpou a garganta antes de prosseguir. – Não deveria saber, mas sei. – Seus olhos brilhavam ao encarar Freddie, cheios de determinação. – Sei como ela pode ser gentil e meiga nos momentos mais impróprios... – sua voz foi ficando mais branda. – Sei como cora absurdamente em quase todo o tipo de situação. Sei como se preocupa mais do que diz. Sei como morde a bochecha ou os lábios quando fica com raiva ou indecisa, para não falar nada que possa se arrepender depois, e... – olhou para baixo, para a garota que carregava. E sorriu cuidadosamente, com carinho – sei como fica uma gracinha quando dorme.
OK, PARA O MUNDO.
Quando era que o Aiden tinha aprendido tudo aquilo sobre Lizzie?!
– Como... você...? – Freddie balbuciou, confuso.
Eu estava quase tão desorientado quanto ele naquele momento.
– Foi por isso que você se apaixonou por ela, não foi? – Aiden cortou-o.
O silêncio e o arregalar de olhos de Freddie revelaram mais do que uma resposta propriamente dita.
Absolutamente perplexo, nem sequer tentei impedir meu queixo de cair. O QUÊ?, quis gritar bem alto, certo de que acordaria a qualquer minuto.
Ah, meu Deus, agora tudo fazia sentido! Várias lembranças de imagens e cenas que eu vinha presenciando nos últimos dois anos, época em que Freddie entrara em nossas vidas, começaram a rodar como um filme em minha cabeça. Mostrando passagens delatoras, pequenos momentos que passaram despercebidos por mim, mas que agora pareciam gritar com toda a força que eu era um idiota... por não ter percebido antes o que estava bem na nossa cara, o que Aiden tinha proclamado e deduzido sem nenhum esforço.
Freddie gostava de Lizzie.
Olhei para Catherine e minha amiga estava mais assustada que mãe de primeira viagem na hora do parto.
É. Ela também não sabia de nada.
Ainda que esclarecedor, tudo aquilo me fez sentir desconfortável. Eu e ela fomos tolos, idiotas, ingênuos, e agora nos dávamos conta disso. Aiden, pelo contrário, parecia ter descoberto mais coisas sobre nós do que poderíamos ter previsto, nos poucos dias que passou a nosso lado em Orazón. E estava dando uma grande prova disso, ao enumerar tão detalhadamente as particularidades mais escondidas de Lizzie.
Ele fora capaz de perceber, em dias, o que eu próprio levara anos para descobrir.
Riley de repente riu sem humor, fazendo-me lembrar de que ela ainda estava parada atrás de Freddie. Foi um riso que, apesar de sarcástico, não tinha convicção alguma. Era apenas uma inútil tentativa da ex-patricinha de negar tudo o que tinha ouvido.
No entanto, as atitudes de Freddie continuavam a denunciá-lo. Aiden tem razão, tem toda a razão, elas diziam. Tanto que sua postura agressiva desaparecera, substituída por uma tristeza insuportável de olhar.
Mas o pior veio a seguir.
– Vai tomar conta dela? – Freddie indagou com suavidade para Aiden.
Aquilo foi demais para Riley.
Lágrimas encheram os olhos da garota, enquanto ela nos dava as costas e corria para longe daquela cena. Não tive dúvidas do quanto devia estar magoada. Eu sabia de toda a história que a levara a se sentar com meus amigos na hora do intervalo, afinal. Não era só a vontade de nunca mais ver Stella. Riley também carregava uma pequena carga de ressentimentos, de Jake Hanson e de outros caras populares ridículos que partiram seu coração. E agora, que um sentimento novo tinha acabado de instalar-se nela, pela primeira vez sem nada a ver com caras populares – mas com Freddie –, a bomba explodia bem em cima da cabeça de Riley. Outra vez.
Eu não era Riley, mas podia apostar que ela devia estar sentindo... como se não merecesse ser amada.
Suspirei, pesaroso.
Riley desapareceu pelo corredor. Freddie encarou intensamente Aiden, esperando por uma resposta. Quando Aiden enfim concordou com a cabeça, Freddie se virou, disposto a seguir Riley. Mas então ele parou de correr no meio do caminho.
– Tome cuidado. – O Gilbert pediu após uma breve pausa, olhando por cima do ombro para Aiden.
Estreitei os olhos enquanto Aiden baixava a cabeça para fitar rapidamente Lizzie em seus braços, mas logo voltou a erguer o queixo. Ela agora ressonava com tranqüilidade.
Ergui o olhar para meu mais novo amigo. Qualquer vestígio dos sentimentos que ele expressara anteriormente tinha desaparecido de seu semblante.
– Não tem com o que se preocupar – ele revirou os olhos, convicto. Seu tom era tão confiante e ligeiramente despreocupado que me lembrou, um pouco, do popular que ele costumava a aparentar antes de nos conhecermos em Orazón.
– Eu realmente espero que seja esse o caso. – Freddie falou devagar.
E lançou um último olhar penetrante a Aiden, antes de também desaparecer pelo corredor.
***
– Ok. MAS O QUE É QUE FOI ISSO?!
Catherine, histérica e surtada, gesticulava coisas incompreensíveis depois dos longos 20 minutos (ou teria sido uma hora? Duas?) em que ficamos em silêncio e parados no corredor da entrada principal do colégio, sem conseguir dar um pio. Ou expor em palavras nossa angústia interna com tudo o que tínhamos acabado de ouvir.
– COMO... Desde quando você sabia que o Freddie te detestava? – O tom altivo dela quase exigia uma resposta, na mesma medida que quase implorava. – Quer dizer, você sabia disso, não sabia? E como descobriu que ele gostava da Lizzie? QUANDO descobriu isso? E por que não me contou?! E por que eu não sabia, e por que...? – Ela continuou a tagarelar, jogando várias perguntas num jato.
– Catherine, pelo amor de Deus, se acalme! – Aiden pediu, sério. – Na verdade, não foi difícil descobrir tudo. Sou extremamente perceptivo e Freddie... É, ele é um bom ator, mas não me engana!
– Por mais que eu também esteja confuso com isso tudo e louco por umas respostas – fitei os dois com rancor –, acho que agora temos de nos concentrar no que fazer com Lizzie.
– Não acho que seja o caso de a levarmos para o hospital de novo. Eu entendo porque ela desmaiou e, além disso, daria outra dor de cabeça. – Catherine foi sincera.
– Também não acho que seja necessário. Ela parece apenas estar dormindo – opinou Aiden.
– Vamos ver se conseguimos acordá-la, então – sugeri.
– Não seja cruel, Brian! Além disso, dizem que interromper sonhos é perigoso e dá azar.
– Fala sério, Catherine! – Aiden fez careta.
Revirando os olhos e desrespeitando a vontade de Catherine Reynolds, a exagerada-mor, cutuquei Lizzie no ombro com o dedo.
– Ei, Liz! Acorda.
Ela remexeu-se nos braços de Aiden.
– Huuuuuuuuuuum... O quê...? Não, Brian, não tira a camisa de novo. Ninguém quer ver suas costelas. – Murmurou, ainda adormecida.
Fiquei extremamente ofendido enquanto Aiden e Catherine caíam na gargalhada.
– Não tem graça! – chateei-me com os dois.
– Ah, tem sim. – Aiden riu ainda mais.
– Descobrir as coisas quando os outros estão dormindo é massa! – Catherine quicou no lugar, entusiasmada. – Adoro essas confissões do inconsciente! Ou do subconsciente, sei lá...
– Cathy... para... de cantar, sua desafinada. – Lizzie resmungou, ainda em delírios sonâmbulos. Foi a minha vez de cair na gargalhada, juntamente com Aiden.
Catherine não gostou nadinha.
– Ah, é assim, é?! – A louca ficou mesmo indignada. – Tudo bem, vamos logo acordar ela! Que pilantra duas-caras! Como não gosta da minha linda voz? – Catherine estendeu os braços na direção de Lizzie, mais como se os dedos fossem garras, e logo saquei que ela iria mesmo acordá-la. Cruelmente, pelo visto.
– Ah, não. Tá maluca?! Agora eu quero ouvir o que ela tem a dizer! – Rindo, Aiden sacana-é-meu-nome-do-meio ergueu Lizzie, que ainda estava nos braços dele, para longe do alcance de Cathy.
– Aiden, eu... – Liz murmurou de repente. Tão baixo que, se não fosse pelo fato de não ter mais nenhum aluno no corredor, não teríamos ouvido. – Não... – Ela continuou ainda mais baixo e todos nos aproximamos, na ânsia de escutar. – Não... te odeio.
Aiden ficou surpreso e feliz.
– Só assim mesmo para ela admitir isso na minha frente e na do Brian! – Catherine riu.
– E... você...
Catherine parou de fazer ruído assim que Lizzie prosseguiu com a sessão inconsciente de descarrego. Para a nossa surpresa, Liz virou a cabeça na direção do peito de Aiden e inspirou profundamente.
– Você é... tão...
Não consegui ouvir o que ela disse a seguir, e arqueei uma sobrancelha. Teria sido “cheiroso”? E, sei lá, alguma coisa a mais. Com certeza esse “algo mais” foi algo bem constrangedor, pois Catherine começou a passar mal de tanto rir.
– NÃO ACREDITO! Finalmente admitiu, hein, Lizzie? – Cathy ainda provocou em meio às gargalhadas.
Deus, essa garota não presta mesmo!
– Er... Talvez devêssemos acordá-la agora. – Aiden sussurrou, desconcertado.
Revirei os olhos para tudo aquilo.
– Com prazer! – Bati palmas perto do ouvido dela.
– AH! – Lizzie acordou assustada. Quando olhou quem a carregava, assustou-se mais ainda. – AAAAAAAAAHHHHHHHHHHH! – debateu-se. Prendendo o riso, Aiden a colocou no chão. – O que aconteceu? – Nos fitou com inocência.
– Você desmaiou – expliquei. – E depois dormiu.
– E confessou que achava o Aiden gostoso enquanto dormia. – Catherine não perdeu a chance de passar na cara, gargalhando.
Peraí. O QUÊ?
Lizzie arregalou os olhos e foi a minha vez de cair numa ruidosa gargalhada.
– MENTIRA!
– Pior que é verdade. – Cathy voltou a rir comigo, impiedosa.
– Ei, ei, ei, ei! – Aiden tratou de cortar nosso barato, enquanto Lizzie corava. – Isso não é importante agora! – repreendeu-nos. – Devíamos estar pensando no que vamos falar para a tal de Abigail! Além disso, eu sei que sou lindo. Uma hora ela ia ter de reconhecer, não acham?
Catherine e eu paramos de rir (no caso de Lizzie, corar) e arqueamos a sobrancelha ao mesmo tempo para Aiden.
Zero modesto esse cara, hein?
– Acho melhor pensarem logo. O que vocês têm para falar comigo?
Todos nos assustamos e viramos para trás na mesma hora.
Demos de cara com uma mulher de meia-idade. Os cabelos loiro-escuros estavam presos para cima num coque mal feito atrás da cabeça, e ela usava um macacão cinzento com o símbolo da escola de vestimenta. Também empurrava um carrinho-balde com um esfregão e todos aqueles típicos equipamentos de um zelador. Quando a olhei melhor, percebi que a moça era provavelmente mais jovem do que aparentava, mesmo com o rosto já marcado e sulcado de veias.
Seu semblante, apesar de tudo, inspirava confiança. E estava praticamente estampado na sua testa que ela era espirituosa, alegre e sagaz. Alguma coisa em seu meio-sorriso engenhoso, combinado com a sobrancelha inteligentemente arqueada, me denunciou isso, assim como me deu a impressão de que ela já sabia exatamente o que tínhamos feito... e o que íamos lhe pedir.
– Você é...? – Estreitei os olhos quase que automaticamente.
– Abigail Fletcher. – Ela confirmou meus pensamentos, e logo em seguida abriu um sorriso caloroso. – Lizzie, Cathy! Ah, que saudades de vocês duas! O que fazem por aqui hoje... a essahora?
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