Before The Sunrise
23 Revelação em Meio aos Desafios
Notas iniciais
23. Revelação em Meio aos Desafios
Glynda
Eu procurava descer com cuidado, apoiando-me onde conseguia.
Estanquei com a mão em uma cavidade rochosa e os pés em outras. Olhei para baixo e Brian estava de pé ao lado de Mackembethor, sorrindo para mim. Não pude deixar de retribuir. Meu rosto se iluminava como o sol na presença daquele garoto.
Voltei a atenção para o que estava fazendo novamente, e continuei a descer pela parede de areia e pedra. Brian me ajudou no trecho pequeno final, embora meu equilíbrio estivesse razoavelmente bom. Ele me segurou pela cintura, e entendi o recado. Larguei as pedras e pulei, sem lhe dar realmente algum trabalho. Quando olhei para ele novamente, nossos sorrisos voltaram com a mesma força e resplandecência anterior, e ele pôs um braço ao meu redor num gesto estranhamente natural e possessivo. Assustei-me com o quanto eu e ele parecíamos um casal antigo.
Pior que ele era tão... humano. Tudo em Brian com relação a isso era gritante. Seus olhos, seu cabelo, seu coração descompassado e muito rápido; mas principalmente seu tom de pele, que não chegava nem perto do pálido-prateado dos sombrios. E o pior era que eu amava tudo nele. Se tivessem me dito, antes de conhecê-lo, que minha punição por ser uma aberração era ter uma alma gêmea humana, eu teria me derramado em prantos. Mas, agora, depois de tudo ter acontecido... eu não queria realmente nenhum outro. Brian era insubstituível. E eu estava bem assim.
– Ele é humano, você uma sombria – um sussurro atingiu meus ouvidos de repente. – Como isso é possível?
Eu me sobressaltei. Não tinha notado quando Mack (meus deuses, esse apelido contamina!), antes agachado ao lado de Brian e fitando o lago de lava, tinha se voltado para nós e ficado de pé.
A voz dele era um misto de curiosidade e incredulidade que eu tinha ouvido bastante nos últimos minutos, vindos do grupo de amigos de Brian. Suspirei.
– Eu não sei... – murmurei. – Mas tenho certeza que é ele.
Mack ainda não tinha dito nada em relação a Brian e eu termos nos reconhecido como almas gêmeas, de modo que eu acho que esperava uma enxurrada de incompreensão, pois me surpreendi quando ele nos sorriu com doçura.
– Bem. Acho que um encontro entre almas gêmeas nunca é algo que se possa entender.
Pisquei.
Meus olhos se encheram de lágrimas. Mackembethor era bom para mim de um jeito que nenhum sombrio jamais foi. Ele me ajudara muito desde que eu o tinha libertado do palácio, embora teoricamente devesse ter raiva de mim, pelo que meu pai fez a ele na prisão. E naquele momento ele parecia sinceramente feliz por mim, o que me emocionou. Nunca na minha vida alguém tinha ficado feliz por mim.
– Pode apostar que não é – Brian, embora envergonhado, arriscou um sorriso amigável para meu ex-súdito, que lhe foi retribuído.
E isso me lembrava. Era estranho pensar que Mackembethor era agora meu semelhante, na verdade, quase um amigo.
Eu olhei para cima bem a tempo de ver o de olhos azuis, Aiden, aterrissar com um salto no pedaço de terra a meu lado. Cutuquei o ombro de Mack, observando as duas garotas humanas, Lizzie e Catherine, que ainda estavam no topo da rocha, ou “degrau da morte”, como meu Brian preferia inteligentemente chamar.
– Não temos muito tempo – a voz de Mackembethor ecoou pela cadeia rochosa.
As humanas rapidamente entenderam o recado e começaram a descer. Todos nós tivemos alguma dificuldade, com exceção de Mack, mas elas pareciam estar tendo muito mais.
Até que uma das pedrinhas escapuliu das mãos de Lizzie. Ela perdeu o equilíbrio... e caiu.
Eu levei as mãos à boca, dominada pelo horror da possibilidade de que ela escorregasse para dentro do lago de lava, e a humana gritou. Lizzie escorregava pela parede de pedra desenfreadamente e com uma velocidade absurda, o que deixou todos nós abaixo do degrau histéricos e temerosos, e mesmo Catherine, estancada no meio do caminho, berrou.
Fechei os olhos, eu me vi terrivelmente preocupada. Porém, antes que pudesse arrancar os cabelos, os gritos da garota cessaram.
Abri os olhos. Duas mãos agora a envolviam, uma de cada lado da cintura, oferecendo-lhe equilíbrio. Eu olhei mais abaixo dela. Não tinha percebido Aiden se afastar de nosso grupo para correr até a humana e parar sua queda, mas ele agora estava lá, segurando-a; sua respiração pesada pela corrida e talvez pelo esforço. Eu via o peito dele subir e descer.
Com muito cuidado, ainda com as mãos na cintura da garota, ele a fez tocar os pés no chão de onde estávamos com uma velocidade razoável. Suspirei de alívio, enquanto Lizzie se virava para ele.
– O-obrigada.
Aiden assentiu, ainda tentando normalizar a respiração.
Depois de alguns segundos de silêncio desconfortável por ninguém saber o que dizer, Catherine continuou a descer a parede. Não pude deixar de notar que, agora, os outros dois machos de nosso grupo tinham se afastado de mim e se encaminhando para o local exatamente abaixo de Catherine, prontos para segurá-la caso também caísse. Mas ela não o fez. Terminou o trecho de terra e teve que afastar os meninos, com os braços, quando pôs os pés no chão, pois eles lhe bloqueavam o caminho. Aiden não saiu de perto de Lizzie. Era engraçado como ele a analisava agora, como se ela pudesse escorregar e cair dentro do lago a qualquer momento. Realmente, das duas humanas, Lizzie era visivelmente a que possuía menor equilíbrio.
Eu tinha sentido muitas coisas sobre Aiden, como sua pequena atração por mim, que agora estava abalada; e sua pequena raiva em relação a Mack. Era apenas uma suspeita, mas eu realmente achava que a raiva se devia ao fato de Aiden se sentir ameaçado por toda aquela força de Mackembethor. Como se Aiden estivesse acostumado a ser o mais forte ou... o de abdômen mais bem-definido.
Assim como eu podia sentir o segredo que ele escondia.
Eu resmunguei comigo mesma ao me lembrar disso. Pior que era tão óbvio! Como seus amigos podiam não perceber? Como MACKEMBETHOR podia não perceber? Eu era a única!
Era a razão de eu ter lançado um olhar tão intenso para ele no dia em que nos conhecemos. Eu queria ter certeza, mas o pior era que agora tinha. Apesar de estar escondendo algo tão sério, Aiden não era mau. O que me fazia pensar que suas pretensões, escondendo esse segredo, não era aproveitar-se de ninguém, mas era outro motivo que eu desconhecia... E era essa única constatação que me fazia selar os lábios e não contar o que eu sabia dele.
Talvez, algum dia, por vontade própria, ele resolvesse admitir.
Todos se aproximaram de mim, que me encontrava mais próxima da borda, e eu sussurrei para Mack:
– Já descobriu a sequência?
– Acho que sim – ele murmurou com certa amargura.
Pude sentir todo o remorso e dúvida contidos naquela voz. Percebi que Mack se sentia culpado. Não consegui imaginar outro motivo sem ser a recente queda de Lizzie, e percebi que, no fundo, ele pensava que devia ter salvado a garota.
Como assim? Talvez por sentir o peso da responsabilidade de ser o mais forte e ágil. Talvez porque foi ele quem a apressou a descer. Mas isso era ridículo! É claro que, no fim das contas, por não conhecê-la bem, Mack hesitou; ao contrário de Aiden, que parecia estar mais apegado à garota. Não era culpa de Mack. Eu sabia que ele a teria salvo depois, se Aiden não tivesse feito nada.
– Bom, e como é que passamos? – tentei distraí-lo, forçando-me a focar os olhos no monte de lava à nossa frente.
Arregalei os olhos, notando que, perdida na confusão e em meus próprios pensamentos, ainda não tinha percebido o quanto a lava chiava agora à nossa volta. Bem mais do que lá em cima, certamente. As bolhas estouravam grossas e nada convidativas na superfície vermelha e amarelo-fogo da lava. Duas fileiras de pedras se estendiam à nossa frente, no meio do lago Águas Vermelhas.
Mack tinha se agachado no último trecho de terra, perigosamente perto da lava, o que fez eu e Catherine estremecermos.
– Eu achava – ele disse, levantando-se – que a sequência correta seria apenas uma das fileiras, o que explicaria por que metade dos sombrios sobrevive a esse lago e metade não sobrevive. Achei que os azarados eram os que escolhem a fileira errada.
Balancei a cabeça veementemente.
– Não – afirmei, decidida. – Porque apenas um terço dos sombrios sobreviveu, e não é possível que dois terços tenham escolhido a fileira errada.
– Um terço? – Mack claramente discordava de mim, mas seu tom era respeitoso. – Que pessimismo, princesa. – Ele abriu um sorriso. – Mesmo assim, claro que seria possível, mas, como eu disse, eu achava. Tenho uma nova teoria.
– E qual é? – Catherine indagou.
– Primeiro, vamos ver se a primeira está errada.
Mack se afastou um pouco e pegou uma pedra que estava perto de Brian, encostada na parede de terra. Ela devia ter mais ou menos o meu peso. Catherine, Lizzie, Aiden e Brian assistiam de olhos arregalados à facilidade com que Mackembethor desempenhava a tarefa de carregar o objeto.
Ele voltou para perto do lago e arremessou a pedra com precisão. Ela caiu exatamente sobre a primeira pedra de uma das fileiras, a fileira esquerda para ser exata, e as duas começaram a afundar. Nada aconteceu enquanto a pedra de baixo afundava, porém, assim que a recentemente jogada entrou em contato com a lava, ouvimos um chiado ainda mais alto e as “águas” borbulhando ao redor da pedra, enquanto ela era completamente queimada e extinta.
Meu choque inicial ainda não havia passado quando notei que Mack pegara outra pedra. Dessa vez, ele a jogou na segunda pedra da mesma fileira.
E a pedra não afundou.
Parecia que a teoria de “uma das fileiras ser a mais segura” era mesmo incorreta. Senão, a segunda pedra também teria afundado. Em vez disso, a nova pedra lançada deslizou para a lava, enquanto a primeiríssima pedra a afundar retornava à superfície.
– Uau, ela voltou – Brian apontou para a recém-chegada.
– É dever dela voltar à superfície para afundar com quem mais ousar pisá-la – ironizou Aiden, coberto de razão.
– Qual é a outra teoria? – perguntei numa voz trêmula para Mack.
Ele virou o rosto para mim por um segundo, depois voltou a fitar o lago de lava.
– Assim – ele fez um movimento de ziguezague com o indicador na direção das pedras.
Levei um segundo para entender.
– Você acha que essa é a sequência correta? As montanhas de Dekki?
Mack fez que sim com a cabeça.
– As montanhas de quê? – Brian perguntou. Suspirei.
– As montanhas de Dekki. Elas são uma combinação sagrada para Huann Kippur, mas nenhum sombrio descobriu ainda por quê – expliquei. – São alternadas, por isso o movimento em ziguezague.
– Aaaaah...
– Espera aí – interrompeu Lizzie. – Quer dizer uma pedra da direita, uma pedra da esquerda, uma pedra da direita, uma pedra da esquerda... e em ziguezague?
Fiz que sim com a cabeça.
– É uma possibilidade – ressaltei.
– E como vamos ter certeza? – quis saber Aiden. – Jogando pedras também?
Balancei a cabeça e esfreguei a testa.
– Vamos perder tempo...
– Não precisamos – Mack respondeu e, antes que eu pudesse entender, ele já tinha pulado em direção à primeira pedra da fileira direita.
– NÃO! – Nós cinco gritamos ao mesmo tempo, mas foi inútil. E ele já tinha aterrissado são e salvo na tal pedra, que não afundou.
Respirei fundo de alívio.
– Mackembethor, não se atreva! – Catherine praticamente ordenou para Mack, enquanto ele se preparava para pular na segunda pedra da fileira esquerda. Claro que ele pulou mesmo assim, fazendo a garota abafar um gritinho de frustração.
– MACK! – bronqueou Lizzie, levando as mãos à cabeça em seguida. Percebi que nós três, as fêmeas, estávamos bastante preocupadas com Mackembethor, a despeito dos rapazes, que só pareciam querer saber aonde aqueles pulos iam dar.
– Relaxem! – Mack olhou para nós, com um sorriso meio de diversão, meio de surpresa no rosto. – Essa segunda pedra nem tinha perigo, eu já tinha jogado outra em cima dela e vocês viram!
Catherine deu um tapa na própria testa, como que abismada com sua própria burrice. Já Lizzie defendeu-se:
– Não gritei seu nome por causa dessa pedra, e sim porque agora você vai pisar na outra que ainda não testamos e... AAAAAAAAAAAAAAAH!
Tarde demais, ele já tinha pulado para a terceira, da fileira direita outra vez. Mack era realmente muito sortudo, parecia que tinha acertado a sequência, pois ainda não tinha sequer triscado na lava!
Ele continuou com seus pulos em ziguezague, e, na metade do caminho, eu e Lizzie paramos com os gritos. Só Catherine prosseguiu até o final, mas Mack aterrissou são e salvo no trecho de terra do outro lado do lago.
– E é assim que se faz! – Brian comemorou, com o objetivo de inflar o ego de Mack, coisa merecida e conseguida por sinal, pois o loiro corou.
Nós atravessamos em seguida em fileira, todos ao mesmo tempo praticamente. Eu sentia o tempo escorrer por meus dedos, e percebi que agora todos, mesmo os humanos, também começavam a sentir.
– Conseguimos – Mack murmurou quando Brian, o último de nossa fileira, pisou o chão que pisávamos.
Eu sorri para Brian, que me envolveu pela cintura com um dos braços. Suspirei e deitei a lateral da cabeça em seu ombro, laçando seu pescoço com as mãos.
Só depois de me estabelecer ali percebi que Catherine tinha os olhos semicerrados em nossa direção. Contudo, notei a essência brincalhona do olhar antes de me assustar realmente.
– O quê? – Brian perguntou inocentemente para ela, mas senti sua pele em minha bochecha esquentar. Ele estava corando. Enterrei melhor minha cabeça em seu ombro, para esconder o sorriso.
– E todo esse tempo, você nos fazendo pensar que era gay! – Catherine balançou a cabeça para os lados, supostamente ressentida. – Tsc, tsc...
Lizzie e Aiden soltaram uma gargalhada que não compreendi, fazendo-me levantar a cabeça e arquear uma sobrancelha para Mack. Ele deu de ombros, demonstrando que também não sabia o que era gay.
Humanos são estranhos, pensei.
Depois de mais alguns comentários que também não consegui desvendar o sentido, retomamos o caminho. É claro que tivemos de passar, dessa vez escalando, por outra parede de areia e pedra para regressar à altitude normal.
Mal tínhamos chegado ao topo quando Mack me sussurrou:
– O segundo desafio pode nos alcançar a qualquer minuto agora.
Estremeci e balancei a cabeça para os lados, sem querer pensar no segundo desafio.
Não demorou muito, os túneis voltaram. Eu já tinha reparado que Brian ficava nervoso ao passar por eles, por isso segurei sua mão assim que tivemos que entrar no primeiro. Foi tão mágico a forma com que nossas mãos se fundiram; a forma com que nossos dedos se entrelaçaram com perfeição.
Olhei para frente – à essa altura, eu e Brian éramos os últimos outra vez – e notei que os grupos anteriores tinham sofrido uma pequena alteração. Catherine agora liderava com Mack, perguntando a ele várias coisas sobre nosso mundo. Lizzie e Aiden, atrás deles, portanto mais próximos de mim e Brian, caminhavam lado a lado em silêncio. Isto é, até que o macho de olhos idênticos aos meus falou.
– Acha que vamos conseguir?
Lizzie se sobressaltou ligeiramente e semicerrou os olhos para o companheiro. Só então percebi o sentimento estranho que exalava dela. Uma mistura de desconfiança e certo receio com... algo que não consegui identificar. Mas esse “algo” era uma emoção boa, eu podia sentir.
Ela hesitou. Mas pude perceber que Lizzie, apesar de hesitar antes de se dirigir a Aiden, como se tivesse raiva dele, parecia realmente querer driblar essa raiva e ser simpática com ele enquanto falava.
– Eu espero sinceramente que sim – ela sorriu de um jeito que, apesar dos apesares, era verdadeiro.
Senti que uma interrogação gigante se formava em minha testa.
Andamos a noite toda. Os humanos ficavam cada vez mais e mais cansados e eu, cada vez mais nervosa ao sentir a aproximação do dia. De dia, os sombrios nunca eram os mesmos.
– Mack... – sussurrei, em completo pânico quando soube que só faltava um minuto para o primeiro raio de sol surgir no céu.
Ele girou a cabeça para trás e me olhou, assustado. Só então percebi que era a primeira vez que o chamava pelo apelido, apesar de já ter me acostumado com a abreviação de seu nome várias horas atrás em minhas mente.
Enrubesci veementemente.
– Alteza... – ele começou, mas rapidamente o cortei.
– Glynda.
Mack pareceu ainda mais surpreso e também corou.
– Glynda – ele usou meu nome com certa relutância –, entendo que queira parar, todos estamos cansados e... – ele não pronunciou o segundo motivo, mas olhou para o leste, onde o sol nascia, e estremeceu. – Mas estamos longe, e depois... Droga! Pensando bem, e se os delmos aparecerem?
Foi a minha vez de estremecer.
– Delmos?! – os humanos exclamaram ao mesmo tempo.
– O que é isso? – questionou Aiden.
Antes que eu ou Mack pudéssemos responder, senti uma picada na ponta do dedão do pé.
Congelei de medo. Enviei milhões de preces silenciosas a Naluah e Zanthon para que não fosse o que eu estava pensando, mas em vão. Olhei para baixo e meus temores se concretizaram.
O raro bichinho com corpo de sanguessuga, duas patas frontais de gafanhoto e cabeça de formiga aumentada me encarou com seus olhos espelhados de mosca. Eu quis gritar, mas não fui capaz de expressar qualquer reação. No segundo seguinte, ele subia por minha perna, enquanto meu dedão do pé perdia completamente os movimentos.
Finalmente consegui gritar, mas não havia muito que eu pudesse fazer. Os delmos nunca andavam sozinhos, e em segundos toda a colônia apareceu, saindo debaixo da terra, das pedras; rasgando o solo como se ele fosse um pedaço de papel.
Logo, assim como meus companheiros, eu estava lotada deles; milhões dos bichinhos assassinos, que chupavam meu sangue com o ânus de sanguessuga e mordiam e picavam minha pele com os dentes, limitando cada vez mais meus movimentos com sua espécie de veneno.
Não demorou muito e caímos feito pedras no chão. Todos gritávamos, minhas pernas já estavam quase completamente paralisadas à essa altura. Tudo o que eu conseguia fazer era chutar com alguma dificuldade, mas, de novo, em vão.
E, para piorar, veio o Sol.
Pude sentir o vigor natural que eu tinha à noite indo embora; esvaindo-se completamente de meu ser. Os raios amarelos começaram a surgir no horizonte, atingindo-me; levando minha força.
Com muito esforço, girei o pescoço para o lado de Mack.
Ele estava completamente exausto. A constatação me fez desmoronar. Ele era minha esperança. Se ao menos ainda fosse noite... eu não tinha dúvidas de que, mesmo com as picadas dos delmos, Mackembethor teria força o suficiente para lutar contra os bichos, pois ele era um filho de Zanthon.
Mas não era noite. Era dia.
Estávamos arruinados.
Contudo, Mack me surpreendeu. Vi-o pegar uma pedra pequena com dificuldade e fechar com força os dedos em volta dela. Ele esticou o braço com pesar em direção à uma rocha maior que estava perto de si, e só então entendi o que ele pretendia fazer. Talvez dê certo, constatei, enquanto um sorriso ocupava-me o rosto. Minha alegria não durou muito tempo, ele riscou a pedra e nada aconteceu. Deuses, ele estava tão fraco!...
Mas Mack não desistiu. Reunindo o que lhe restava de forças, riscou a pedra outra vez. Duas faíscas, para a minha felicidade, voaram para o chão e o fogo começou.
Nada me deu mais prazer do que o guincho dos delmos que se seguiu. Desesperados, eles começaram a sair de mim e dos outros, retornando para seus esconderijos dentro do solo. Entravam com uma rapidez inacreditável, tapando os buracos que tinham feito ao sair, como se não quisessem que o fogo penetrasse na terra.
Ridículos.
O fogo continuou a se espalhar pela grama durante os poucos minutos que ainda ficamos deitados no chão, incapazes de nos mexer por causa do veneno. Felizmente, ele não era tóxico; só anestésico.
Por fim, aos poucos eu pude sentir minhas pernas e braços voltando. Agradeci mentalmente e me sentei, sentindo os membros formigarem.
Vi que Lizzie e Catherine faziam o mesmo. Brian tinha acabado de começar a se sentar também, e Aiden já estava de pé. Foi esse último que nos fez o favor de apagar o fogo com os pés, ou melhor, com aquilo que os humanos chamavam de sapatos.
Mack era o único que ainda estava deitado, sem se mexer.
Arrastei-me para perto dele.
– Você está bem?
Ele fez que não com a cabeça.
– Esforcei-me muito essa noite – a voz dele estava fina, de tão fraca. – E não como há dois dias...
O som morreu. Eu arregalei os olhos e rapidamente pus-me de pé no salto.
Oh, meus deuses, é claro! Como pude não perceber sua exaustão antes?! Como assim ele ainda estava vivo?
Ele tinha acabado de sair da masmorra. As masmorras de Orazón, onde a comida era a pior possível e os presos eram submetidos a sessões de tortura pelo menos uma vez por dia. E, nesse meio tempo, ele tinha lutado contra um jacaré, subido e descido paredes de terra, carregado pedras do tamanho de Glyndas, pulado de pedra em pedra num lago de lava, lutado contra delmos impossíveis... tudo numa só noite!
Fui tirar a mochila pesada dos ombros de Mack. Claro que não consegui mais do que arrastá-la, era muito pesada. Abri-a e tirei uma cuia, olhei para o grupo sentado e ordenei:
– Dêem comida a ele.
Corri para pegar água num córrego ali perto, e olhei por cima do ombro enquanto enchia o recipiente. Catherine tinha sido a primeira a atender meu pedido, retirara alguns dos conteúdos da mochila e parecia tentar decidir qual das comidas tinha uma aparência melhor, enquanto ajudava Mack a se sentar recostado na pedra.
Quando eu voltava, Catherine já o tinha feito engolir várias coisas diferentes. Notei, à medida que me aproximava, que Mack parecia melhor, o que me fez sorrir.
– Aqui – coloquei a cuia cheia d’água nas mãos dele, que me agradeceu com um olhar e bebeu o conteúdo rapidamente.
– Parece que, no fim das contas, fomos forçados a parar. – Catherine comentou com um sorriso, ao qual Mack retribuiu fracamente.
– É – ele depositou a cuia ao lado de si. – Obrigado a vocês.
Eu e a humana demos de ombros.
Lizzie, Brian e Aiden, que já estavam ali perto, apesar de ainda visivelmente fracos, pareciam um pouco preocupados.
– Você está bem, Mack? – Lizzie indagou numa voz fraca.
Mack fez que sim com a cabeça baixa.
Vendo que ele ainda estava mal-alimentado, enfiei a mão na mochila e de lá tirei algumas peras, que empurrei em sua direção. Mack olhou para mim balançando a cabeça.
– Não! Podemos precisar depois!
– Mack, nós vamos chegar amanhã – surpreendi-me com minha voz cansada. – Não precisamos de tudo isso. E você está com fome.
Ele olhou para as frutas, refletindo sobre o que eu dizia. Depois de alguns segundos teimosos, pegou uma delas, relutante, e deu uma mordida voraz.
Nenhum de nós tinha capacidade de recomeçar a caminhada, mesmo se quiséssemos, então acampamos ali.
Brian e Aiden fizeram uma fogueira conforme Mack os instruiu. Mack teria ajudado, se eu e Catherine não tivéssemos insistido para que não se levantasse e o vigiássemos o dia inteiro.
O tempo passou rápido, na verdade. Depois de algumas horas descansando, eu fui com Lizzie encher os cantis da mochila no córrego e nós duas acabamos nos fartando de água ali. Nem tinha me dado conta do quanto estava com sede até então. Chamamos os outros e logo todos também bebiam feito condenados. Ora, tínhamos passado a noite inteira caminhando, até que éramos bem resistentes.
Voltamos com os cantis cheios, mas, como fizemos um lanche, consumimos mais a metade de todo o estoque de água apanhado depois da comida.
Rimos e conversamos muito, e quando me dei conta já estava anoitecendo outra vez. Sorri diante da situação. Eu podia sentir todo o poder e força que eu tinha durante a noite voltando com o pôr-do-sol, preenchendo-me. Mack também ficava a cada segundo melhor. Ele já se movimentava sem esforço e com boa disposição. Eu sabia que sua força absurda devia estar voltando. Não que os filhos de Zanthon não fossem fortes de dia, mas à noite sua força era incomparável.
Arrumamos uns dois troncos de árvore caídos que não tinham sido usados na fogueira. Eu me sentei com Brian em um deles no fim da tarde, enquanto Aiden, Catherine e Lizzie dividiram outro e Mack continuava encostado na pedra inicial, todos rodeando a fogueira.
Eu ria com as coisas que Brian me contava sobre ser humano.
– Seu mundo parece tão diferente do meu! – observei, cruzando os braços e olhando para o céu. A lua já jazia no centro da escuridão, rodeada pelas estrelas. – Eu fico imaginando... se poderia me adaptar.
Brian procurou minha mão e a apertou firme.
– É claro que vai.
Confirmei com a cabeça.
Senti minha respiração ficando pesada, assim como a dele. Inclinei-me mais para perto. Brian envolveu minha cintura com as mãos, e eu envolvi seu pescoço com os braços. Nossos lábios estavam a centímetros uns dos outros.
Um arrepio percorreu minha espinha e eu estremeci. Ele virou o rosto para o outro lado e eu fiz o mesmo. Os outros já conversavam animadamente sobre algumas piadas, nem notavam nossa presença. Eu suspirei, o que chamou a atenção de Brian de volta para mim, e encaixei minha cabeça na base de seu pescoço.
– Não precisamos fazer isso agora – murmurei.
Ele pareceu relaxar. Eu não tinha notado a tensão que tomara conta de seu corpo.
– Que bom, porque eu não sei se estou preparado.
Sorri, embora soubesse que ele não podia ver.
– Pensei ter lido num livro que os humanos já se beijam antes do casamento há séculos.
– O livro está certo. Eu é que não sou desse século.
Eu ri, e me afastei dele para ver seus olhos.
Castanhos. Tão escuros, tão doces e tão lindos.
Sorri novamente. Não importava o que Brian fosse. Nunca tive outra opção, pertencer a ele era coisa do destino. Meu destino, assim como era o dele me encontrar. De repente ficou muito claro porque ele tinha caído em Orazón.
– Como vocês podem não reconhecer os sombrios que vão para suas terras?
Ele não pareceu entender.
– Como assim? Vocês não são exatamente muito diferentes de nós.
– É claro que somos. – Peguei o braço dele e levei ao meu pescoço. – Sente a pulsação?
Brian arregalou os olhos.
– Seu coração é tão... lento.
– O seu é que é rápido! – eu ri e encostei meu braço no dele. – E não consegue notar meu tom de pele pálido-prateado?
– Só noto a diferença quando a Lua ilumina vocês – ele admitiu.
Suspirei e balancei a cabeça. Conhecendo Brian, eu percebera que algumas das informações que tinha adquirido ao longo dos anos sobre os humanos eram majoritariamente falsas, mas, pelo visto, a informação de que a percepção deles não era tão afiada quanto a nossa era bem verdadeira.
Não adiantaria nada falar da textura diferente dos nossos fios de cabelo ou outras coisas parecidas então.
Eu olhei para Mack. Ele tinha recentemente se excluído da conversa dos outros e estava sentado sozinho, olhando para o nada.
– Acho que vou falar com ele – disse a Brian.
– Tudo bem – ele se levantou para chegar mais perto dos amigos.
Aproximei-me com cuidado de Mack. Quando ele me notou, já estava bem perto. Sorri para ele e gesticulei na direção do pedaço de terra a seu lado. Ele concordou com a cabeça, fazendo menção para que eu me sentasse.
– Sente-se melhor? – perguntei.
Ele assentiu.
– Muito – Mack me lançou um sorriso divertido. – Posso me levantar agora, alteza? Por favor.
Eu ri e balancei uma mão na frente do corpo.
– Glynda, Mack, por favor.
Ele corou e revirou os olhos.
– É difícil me acostumar.
– Acha que não é para mim? – arqueei uma sobrancelha. – Ninguém, com exceção da minha família, jamais me chamou de Glynda. Bom, mas aí apareceram esses humanos e...
Um novo sorriso, dessa vez travesso, brincou nos lábios de Mack.
– Eles também a chamam de Glynda, não é?
– Exato – retribuí-lhe o sorriso. – Estou me esforçando...
– Para se adaptar a tudo isso? – Corei e fiz que sim com a cabeça. – Entendo... – ele suspirou. – Deve ser difícil para você não reclamar de todo o desconforto que está tendo.
Baixei o olhar. Era verdade, mas isso só me fazia pensar no quanto eu era mal-acostumada. Não. Não. Eu não queria ser assim. Eu já me sentia mais habituada ao ar livre, e esperava me adaptar cada vez mais e mais.
– Eu agüento – murmurei.
Mack não disse nada por alguns segundos.
– Sabe – ele começou, e eu ergui a cabeça novamente. – Quando a humana caiu... Lizzie – ele sorriu para mim fracamente. – Você percebeu, não foi? Que me senti culpado.
– A intuição de uma princesa sombria é muito boa, você deveria saber disso – outra vez retribuí o sorriso, docemente.
Mack virou o rosto para a fogueira.
– Foi muito estranho. Eu senti o remorso me inundando e achei que fosse morrer. – Ele fechou os olhos e sacudiu a cabeça, como que para afastar a sensação. – Isso não te incomoda? Quero dizer, nada de estranho que aconteceu nessa caminhada te incomodou? Eu me preocupei com a possibilidade de uma humana cair na lava quente. Não deveria nem sentir preocupação em salvar alguém, achei que eu fosse um sombrio! E você, uma princesa de Orazón, pegou água para mim. Para que eu não morresse. Isso é gentileza além da nossa espécie!
Mack abriu os olhos e me encarou com uma interrogação no rosto.
Eu... eu não sabia o que dizer.
– Mack – passei a língua entre os lábios. – Sei que tem razão, mas... diga-me. Preocupar-se, não só com Lizzie, com qualquer um de nós com que você já tenha se preocupado até agora, requereu algum esforço da sua parte?
Ele demorou um pouco para me responder.
– Não... – engoliu em seco. – Veio naturalmente.
Eu sorri e toquei o rosto dele.
– Então não precisa se torturar – garanti, num sussurro. – Para onde vamos, os bons são respeitados.
Ele arqueou uma sobrancelha para mim, mas assentiu.
Resolvi mudar de assunto.
– Sabe, conversando com Brian, descobri uma coisa interessante – cruzei as pernas. – A idade deles lá é medida em... anos.
– É, eu sabia disso – Mack respondeu-me fitando a fogueira, e eu rapidamente arregalei os olhos para ele. – O quê? – ele indagou quando virou o rosto em minha direção outra vez. – É sério!
Eu ri.
– Como?
– Lembro de ter lido sobre isso. – Ele esticou os braços para cima, espreguiçando-se. – É bem parecido com nosso sistema, na verdade. Sabe as estações do ano? – confirmei com a cabeça. – Então. O fim das quatro é o que os humanos chamam de “um ano”.
– Interessante!
– Não é mesmo? – Mack sorriu. – Por exemplo, eu tenho 17 primaveras. Como nasci na primavera, tenho 17 anos também.
Eu sorri.
– Sério? Também tenho 17 primaveras, mas nasci antes da primavera.
– O quanto antes?
– No verão.
– Uau! O verão já passou, isso quer dizer que você já tem 18 anos – eu ri com o entusiasmo no rosto dele.
– Sou dois anos mais velha que Brian?
– E mais velha que eu! – Mack confirmou com outro sorriso.
– Não pode ser! – balancei a cabeça para os lados, sem querer acreditar. Ele riu, divertindo-se. – Você teve que ler muito para achar essas informações?
Mack confirmou com a cabeça.
– Meus pais valorizavam muito o estudo.
Voltei a cabeça para o fogo outra vez.
– Joken e Diamondda, não era isso? – Pelo canto do olho, vi Mack baixar a cabeça e assentir. – Eu me lembro de quando eles morreram. Meu pai e Huann Kippur prezavam muito o conhecimento de seu pai, ele era praticamente nosso segundo sacerdote.
Mack sorriu diante da lembrança.
– E minha mãe usava seus dons de Naluah como ninguém.
– Sim, eu me lembro disso. – Voltei-me para ele e sorri. – Eles deviam mesmo valorizar muito o estudo. Não havia em todo o reino pessoas mais sábias que eles. – Mack confirmou com certo orgulho. – Eu e Norwick costumávamos passar muito tempo na biblioteca, eu sempre gostei de ler e ele adorava se sentir superior em tudo, inclusive na intelectualidade. Já Yliane... – revirei os olhos.
Mack riu.
– E seus pais prezavam o conhecimento, também?
– Não sei dizer – admiti, com o olhar distante. – Eles não falam muito comigo, desde o dia em que nasci...
Não consegui dizer mais. Foi como se as palavras travassem em minha garganta e eu senti lágrimas nos olhos. Balancei a cabeça e Mack virou a dele para a fogueira novamente, indicando que não ia insistir.
Limpei a garganta e tentei me recuperar. Percebi que Brian e os amigos conversavam sobre tudo o que tinham passado recentemente, principalmente sobre os desafios.
– Nem acredito em tudo que já passamos! – exclamou Brian.
– Só espero que os próximos desafios sejam menos assustadores. – Lizzie estremeceu.
– Por mim, contando que não tenham bichos mordedores horrorosos, os próximos desafios podem até envolver de novo lava escaldante! – desabafou Catherine.
– Ou cobras gigantes e dragões cuspidores de fogo – desdenhou Aiden.
– AAAAAAAAAAAAAAH! – Catherine gritou e escondeu o rosto entre as mãos, fazendo os outros rirem.
Para minha surpresa, até eu me diverti com o comentário.
– Então, Brian, você ainda não nos contou nada sobre seu lance com a Glynda – Aiden soltou de repente.
Só então me dei conta que eles não faziam idéia de que eu estava ouvindo. Brian corou e eu rapidamente me expressei:
– Pode perguntar a mim, se quiser.
Aiden arregalou os olhos em minha direção, e Lizzie e Catherine ficaram paralisadas.
De repente, o silêncio reinava constrangedor e absoluto sobre nós.
– É que... – ele limpou a garganta, claramente desconfortável. – Bom, não entendo esse negócio de alma gêmea. É sério, ou vocês dois só...?
– É muito sério – interrompi-o. – Brian é minha cara-metade. Isso se chama Reconhecimento de Alma Gêmea. Não tem disso em seu mundo?
Aiden arqueou uma sobrancelha.
– Que eu saiba, não.
– Nossa. Aqui, existe desde que eu me lembro – tentei manter um tom de voz ameno, querendo diminuir a quase agressividade da conversa.
– E soube que ele era sua alma gêmea só de olhar para ele?
Foi a minha vez de arquear a sobrancelha. Confirmei com a cabeça.
– Sombrios possuem a habilidade natural de olhar dentro dos olhos de alguém e ver coisas, assim como os humanos em menor escala. Mas, por ser uma princesa, eu fui muito bem treinada para desenvolver ainda mais essa capacidade. – Cruzei as mãos no colo e fingi me recostar melhor na pedra. – Minha intuição é excelente. Por exemplo, desde que olhei bem para você nos olhos pela primeira vez, sei o que anda escondendo de seus companheiros.
Era impossível agora voltar atrás. Meu coração batia tão rápido e apressadamente, de ansiedade, que eu achava que devia até mesmo estar batendo num ritmo próximo ao de Brian. Os humanos arquearam uma sobrancelha desconfiada para Aiden, que franziu a testa como se não soubesse do que eu estava falando. Mack era a curiosidade em pessoa.
– Como assim? – Aiden me perguntou. – O que você quer dizer com isso?
– Não se faça de desentendido. – Tive o cuidado de pronunciar bem cada sílaba. – Você é metade sombrio. Um mestiço.
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