Notas iniciais
Mil desculpas pelo cap. gigantesco! É que tinha tanta coisa pra acontecer com o Aiden narrando... :'/

ISSO MESMO, é ele que narra isso aqui! *u*', enjoy.

12. Os Sombrios


Aiden



Eu tinha vontade de gritar.


Não queria mais ter dezessete anos, queria ter cinco novamente para acordar daquele pesadelo horrível, correr para o quarto dos meus pais e chorar feito um bebê até que me deixassem dormir com eles. Desculpa, o que é que eu disse mesmo? Esqueça, porque eu nunca vou admitir e você nunca vai poder provar!

Pisquei e esfreguei os olhos, para ver se estava enxergando direito. Merda, pelo visto eu estava. Tinha mesmo um palácio gigantesco na minha frente. Ótimo. Nunca mais invento de seguir ninguém por motivo nenhum, pensei, com raiva. Seria que tinha um jeito da noite dar ainda mais terrivelmente errado do que já estava dando?

– Bom, não vamos ficar parados aqui para sempre, não é? – eu indaguei rapidamente a Catherine, Lizzie e Brian, meus companheiros. Não que me agradasse ter eles de companheiros, mas enfim.

Dei um passo para frente, mas Catherine bloqueou meu caminho com o braço.

– Você ficou maluco?! – ela surtou. – Não sabemos quem são essas pessoas! Não parece nem mesmo que estamos sequer em nosso mundo. De jeito nenhum que nós vamos para lá, Aiden! Podemos ser mortos!

– Você acha que eu não sei disso? – alterei minha voz. – Mas olhe em volta, Catherine. Não há saída! Não conhecemos esse lugar. Nossa única esperança é falar com o povo daqui para descobrir um jeito de voltar! Talvez eles saibam, e você não vai me impedir.

– Parem com isso, nós temos que ficar juntos! – berrou Lizzie Johnson, fazendo-me sentir dentro de um filme de ação e drama. Argh.

– Ssssh! Falem baixo! E se estivermos sendo observados? – delirou Brian num sussurro, arregalando os olhos.

– Que é isso, Brian? Também não estamos num filme de terror! – exclamou Catherine, porém observei que numa voz mais baixa.

– Tem certeza, Catherine? Olhe em volta – ironizou Lizzie.

Eu revirei os olhos.

– Bom, eu digo para entrarmos no palácio e pedirmos informação.

– E eu digo que isso é suicídio – rebateu Catherine entredentes. – Não! Vamos ficar aqui até pensarmos em alguma coisa.

– Alguma coisa, QUE COISA, Catherine?

– Não sei, Brian! Alguma coisa! – exasperou-se ela.

Brian e Lizzie se entreolharam. Eles pareciam divididos, sem saber à qual autoridade – eu ou a morena cabeça-dura – obedecer.

– Vamos ficar aqui esperando o quê? Um milagre? – Lizzie expressou-se depois de algum tempo.

– Eu acho que devíamos entrar no castelo. Ir de fininho, nos escondendo por entre os cômodos e observar a família real ou seja lá quem more aí. Se parecerem gente boa, voltamos para a porta... Quer dizer, se a gente simplesmente sair do esconderijo, vão pensar que somos invasores, né? Bom, voltamos para a porta e pedimos informação. Se não... Bem, voltamos para cá e veremos o que fazer. Talvez voltar para a caverna e procurar o lugar por onde entramos...

Brian corou ao terminar o discurso e perceber que todos olhávamos para ele, boquiabertos. Que sensatez! Eu não poderia pensar num plano melhor.

Virei-me para Catherine.

– E então? O que acha?

– É um bom plano – aprovou Lizzie.

Catherine suspirou.

– Muito bem. Vamos.

Pé ante pé nós caminhamos, sempre juntos, parcialmente agachados e em fileira. Fomos favorecidos pela escuridão da noite, que escondia nossos corpos. Lizzie caminhava na frente, pois era a mais difícil de ver. Aquele vestido azul-marinho a camuflava perfeitamente, tornando quase impossível para quem observava de longe diferenciá-la das sombras.

Chegamos ao portão. Lizzie respirou fundo.

– Tomara que não seja daqueles que fazem um barulho terrível – ouvi-a murmurar antes de empurrar suavemente uma das duas grandes portas de madeira.

Nada.

– Claro que não ia abrir assim. Deve ser pesado – resmungou Catherine atrás de mim.

– Deixe-me ajudar – eu, que estava atrás de Lizzie, ofereci-me, tomando a dianteira.

– Se tiver um controle remoto ou algo assim, estamos ferrados – suspirou Brian, o último da fila.

Lizzie retirou as mãos da porta e eu pus as minhas.

Porém, no momento que a toquei, ambas as portas recuaram. Elas continuaram a se abrir para dentro – para a nossa felicidade, sem ruído. Eu as observava boquiaberto.

Revelou-se um grande espaço. Em linha reta, uma estrada de pedra enorme e descoberta – talvez para a passagem de cavalos, carruagens ou coisa parecida – mas a largura da estrada um dia acabava e podiam-se ver inúmeros corredores – tanto à direta quanto à esquerda, cara, será que cada um dava para um cômodo diferente? À frente, o que parecia ser um pequeno pátio com bancos e uma fonte. O pátio era depois dos corredores e se desdobrava em três caminhos. Dois eu apenas imaginava aonde poderiam dar, mas o terceiro, atrás da fonte, podia-se ver que dava numa escada para as torres.

Catherine, Lizzie e Brian viraram os rostos para me encarar.

– O quê? Eu não sei o que aconteceu – respondi simplesmente, dando de ombros.

Curvados, com muito cuidado, nós corremos até a fonte. Cara, mas demorou, viu? Ô, palácio grande da miséria! Chegando lá, começamos a ofegar, cansados.

– Isso é loucura! Ainda falta subir aquela escada enorme, porque, com certeza o rei e a rainha ou seja lá quem estivermos procurando, devem estar lá! – Catherine parou para tomar fôlego.

– Ah, nem me fale! Tudo bem, agora estou morrendo de sede – sussurrou Brian, ficando de pé na frente da fonte. Ele se inclinou e pôs as mãos em concha para pegar um pouco de água dela.

– NÃO, BRIAN! – nós três gritamos ao mesmo tempo.

Mas era tarde. Ele já tinha bebido. Catherine se aproximou e tocou-lhe o ombro.

– Brian... Você está bem?

– Por favor! Não me diga que o meu melhor amigo vai morrer envenenado! – desesperou-se Lizzie.

– Morrer envenenado? – Brian arregalou os olhos.

– Cara, você não assiste filme não, é? O que mais tem é herói bebendo da fonte do inimigo sem se preocupar e morrendo envenenado! – surtei.

– Mas e-eu... estou bem. Ótimo, na verdade. E quero mais, estou morrendo de sede!

Nós quatro nos encaramos por um longo tempo. Brian não morreu. Não ficou roxo. Nem tampouco pálido ou começou a ter pintas vermelhas por todo o corpo.

– EU TAMBÉM QUERO! – berrou Catherine, se debruçando sobre a fonte e levando as mãos cheias d’água à boca.

– E EU! – Brian, Lizzie e eu berramos logo depois, imitando-a.

Bebemos até nos fartar e recomeçamos nossa caminhada. A escadaria de pedra era longa e circular, pois acompanhava o desenho da torre. Paramos em alguns degraus para tomar fôlego, até que finalmente alcançamos a porta no topo da escada. Dessa vez ninguém chegou perto, eles imediatamente me encararam. Fiz uma careta breve, não gostando muito da minha função de “Abridor Oficial de Portas”, mas adiantei-me. Como da última vez, ao meu mais suave toque, os portões se abriram sem ruído.

O calor do cômodo recém-aberto instantaneamente me atingiu, fazendo meu corpo estremecer de prazer e conforto. Estava uma noite absurda de fria lá fora! Eu pisquei e observei com cuidado o interior novo, estudando-o. Parecia uma sala de estar digna mesmo de uma família real. Os móveis tinham aspecto de antigamente, embora fossem novos em folha. Em frente a um luxuoso sofá vermelho, havia uma lareira à lenha, branca com detalhes em ouro. Uma cômoda, uma mesa de jantar e vários outros sofás e cadeiras eram outros objetos que ocupavam o ambiente.

Ouvi sons de marcha e tilintares ao longe.

– AI-MEU-DEUS! Devem ser os guardas lá embaixo! – Lizzie murmurou, embora seu tom fosse desesperado.

– Rápido! Vamos entrar! – Catherine ordenou rapidamente, puxando a amiga e Brian pelo braço, e me incumbindo da tarefa de fechar a porta. Dessa vez, eu toquei as portas com ambas as mãos, mas elas se fecharam antes que eu pudesse fazer grande esforço.

– Será que nos viram?

– Acho que não, Brian – Catherine respondeu ofegante. – Eles nem olham para cima quando marcham.

– Será que foi uma boa idéia? – indaguei, observando uma segunda porta, sem ser a por que tínhamos entrado. – E agora? Exploramos o palácio ou...?

Eu não pude concluir a frase. Sons de passos e vozes vindos em direção àquela segunda porta congelaram meu corpo de medo, enquanto eu arregalava os olhos.

– Escondam-se! – Brian sussurrou com urgência.

Nós rapidamente corremos para debaixo da mesa, já que havia uma toalha imensa em cima dela que chegava a cobrir até o chão. Meu coração parecia que ia pular pela boca quando eu ouvi a maçaneta girar.

– GLYNDA! Não fuja de mim enquanto eu falo com você!

Duas garotas adentraram a sala. Era possível ver através da toalha, e quando a ruiva e a loira entraram respectivamente em meu campo de visão, uma correndo enquanto a outra berrava, eu involuntariamente soltei uma exclamação de surpresa.

Elas eram idênticas em rosto e corpo e igualmente pálidas, embora os cabelos fossem relativamente diferentes. A loira, a que berrava, tinha cachos fechados e abundantes; seu cabelo era belo e como uma mola do início ao fim, tipo o da Taylor Swift, só que imensamente maior – batia na cintura. O cabelo da ruiva tinha o mesmo comprimento, embora seus cachos fossem bastante largos, o que fazia seu cabelo parecer mais sedoso.

Também notei diferença na cor dos olhos. Os da loira eram cor de mel enquanto os da ruiva de um azul indescritível. Ok, ela não era bem ruiva. Seu cabelo era castanho-escuro, mas era impossível não notar o brilho avermelhado em todo ele ao toque da luz. Hum, castanho-avermelhado, acho que posso dizer.

– Eu sinto muito, Yliane – desculpou-se a de olhos azuis, que parecia ter o nome de Glynda. – Eu tentei. Eu tento. Eu realmente tento, mas... Vou fazer melhor da próxima vez!

Os lábios de Glynda tremiam enquanto ela falava, ela tinha claramente medo da irmã. Espera aí, elas são mesmo irmãs? E isso é nome de gente: Glynda e Yliane?, pensei.

– Não, você não vai! – bradou Yliane num grito que, de tão cruel, fez Catherine, Lizzie, Brian e eu nos encolhermos. – Você não consegue, esse é o problema. Sempre vai haver algo de anormal em você, criatura estúpida, desprezível.

Nesse momento, uma terceira figura irrompeu no cômodo, vinda de uma porta que até então nós não tínhamos visto.

– Chega. – A voz do homem, apesar de baixa, carregava uma ordem persuasiva. O ar pesou. Yliane rapidamente se calou e mesmo eu me sentia paralisado em meu lugar.

O silêncio tomou conta da sala, como se toda ela estivesse obedecendo à ordem que lhe fora dada. Eu não podia nem mesmo ouvir o som da minha respiração, ou da de meus companheiros, ou de qualquer coisa.

Prevaleceu tudo assim, em silêncio mortal, até que o sujeito caminhou para dentro do aposento. O único som no ambiente agora vinha de seus passos, enquanto ele andava em direção às garotas.

O homem parecia pouco mais velho que elas e, embora tivesse cabelos castanho-médios, algo em seu rosto me lembrava absurdamente as duas, como se ele fosse uma versão masculina das irmãs. Seus olhos eram de um tom inacreditável de âmbar.

Ele parou e sorriu, mudando completamente o tom de voz.

– Yliane, não seja tão má com nossa irmã Glynda – disse alegre e despreocupadamente, passando um braço pela cintura da de olhos azuis. – Ela faz o melhor que pode.

Enquanto ele falava, eu o senti. O cheiro. Um cheiro horroroso de carniça e podridão, que lembrava frio, agonia, desespero. Espalhando-se à minha volta, adentrando desconfortavelmente por minhas narinas enquanto o homem abria os lábios, e só parando quando ele os fechava.

Olhei para trás e todos se encontravam também com o nariz franzido, indicando que eles também sentiam o cheiro.

– Ora, vamos, Norwick – disse Yliane entredentes, embora num tom não muito desafiador. – Ela é terrível. Uma vergonha para a nossa família! Devíamos largá-la no mundo dos humanos, todas as nossas preocupações estariam acabadas.

Glynda estremeceu e Norwick trincou os dentes.

– Eles sabem sobre nós – Brian murmurou.

– E definitivamente não estamos no mundo humano. – Havia um pouco de choque na voz de Catherine.

– E definitivamente eles não parecem gostar muito de humanos – completei, observando o clima e as expressões que haviam tomado conta da sala.

– Não vamos mandar Glynda lá para cima – Norwick resmungou – porque ela é nossa irmã. A coisa mais vergonhosa que pode acontecer a um sombrio é ser condenado, ou pior, subir por vontade própria ao mundo dos humanos. – Ele parou para trincar os dentes novamente. – Traidores. É assim que aqueles de nosso povo que convivem com os humanos são chamados aqui. Glynda não será uma traidora. Nada traria mais vergonha e desrespeito à família real se nós o fizéssemos.

Sombrios?, pensei. É um ótimo nome para a raça deles.

Yliane não disse nada por alguns segundos. Lizzie, Brian, Catherine e eu nos encaramos com apreensão.

– Você tem razão – ela suspirou, derrotada. – Como sempre, Norwick. – Yliane sorriu abertamente para o irmão. – Será um ótimo rei para nós algum dia.

– É claro que serei. – Ele retribuiu o sorriso.

– Mamãe e papai têm orgulho de você – continuou a loira dos olhos cor de mel –, e eu também. Seu hálito é o mais abençoado pelos deuses do que qualquer outro. Vejam só! Cheiro de Morte. Prova do favoritismo deles com relação a você.

Estremeci. Morte. Era esse o cheiro que eu sentia cada vez que o cara falava?

Norwick sorriu, mostrando uma fileira de dentes grandes, bonitos e brancos. Estava na cara que o hálito dele ter cheiro de Morte parecia uma grande honra nesse lugar absurdo.

– E quanto a ela? – Yliane apontou para Glynda, fazendo uma careta. – O hálito dela cheira a morango e a flores do campo. Isso existe, maninho? Isso existe?

– Caramba, deve ser muito bom! – comentou Brian na hora mais imprópria para comentários.

– Ssshhh! – eu, Lizzie e Catherine fizemos ao mesmo tempo para ele.

Glynda cobriu o rosto com as mãos, envergonhada. Eu estava morrendo de pena dela. Sei que nem conhecia a garota, mas era impossível não ficar com as maldades de Yliane. Soma-se isso ao fato de que os olhos azuis de Glynda pareciam puros e imploravam por compaixão. Mesmo sua expressão facial parecia dedurar um antigo mal e sofrimento que ela já vinha agüentando há muito tempo.

– Yliane – Norwick tornou calmamente –, o cheiro que nossas bocas exalam provém de traços da nossa personalidade, nossos sacerdotes já o comprovaram. E um dia a personalidade de Glynda irá mudar e ela será tão má quanto todos nós. – Mostrei a língua em sinal de nojo ao que ele falava. – Quando a hora chegar, talvez, se ela tiver sorte, ganhe algum hálito especial como o meu. Ou que nem fede e nem cheira, como o seu. Devíamos agradecer por o dela não ser dos fortes.

– É mesmo – Yliane concordou. – Se o dela fosse tão forte quanto o seu, Norwick, não sei o que faríamos. Essa garota só existe para nos...!

– Yliane, chega. – Norwick falou num tom ainda mais intenso do que quando adentrou no cômodo. – Você não vai mais incomodar nossa irmã. Saia.

– Mas...

– Saia.

Ele não gritou. Mas pude sentir a força em suas palavras. Estremeci de medo, assim como os outros.

Yliane não disse mais nada. Dirigiu-se à porta e saiu da sala. Assim que o fez, Glynda abraçou Norwick.

– Ela estava importunando demais você, não estava? – ele perguntou.

– Yliane não é tão ruim. Mamãe e papai são piores – ela respondeu, as lágrimas começando a escorrer pelo rosto. – E deles, você não pode me salvar. Mesmo assim, obrigada.

– Agradeça, mas não chore. – Norwick disse com firmeza. – Chorar é para os fracos, Glynda, lembre-se de suas lições.

Glynda soltou-se do irmão e enxugou os olhos.

– Você acredita mesmo em mim, não é? Que é só uma fase. Que um dia vou superar tudo isso e ser uma princesa comum.

Norwick sorriu e sua expressão voltou a ficar despreocupada.

– Não, não acredito. – Ele disse simplesmente, fazendo a tristeza voltar aos olhos de Glynda e me fazendo querer acertar um soco na cara dele. – Não é uma fase. Mas vou falar com nosso atual sacerdote, Glynda, e convencê-lo a curá-la. Nossos pais nunca iriam aceitar, diriam que é vergonhoso. Mas eu acho que ainda mais vergonhoso é deixar uma aberração como você correr solta por aí, aos olhos de todos.

FILHO DA MÃE!, pensei, trincando violentamente os dentes.

– Faz sentido para mim – Glynda suspirou, acabada. – Eu aceito qualquer coisa. Não quero ser uma vergonha para nosso povo.

Norwick deu um passo para frente e acariciou uma das bochechas de Glynda.

– Glynda, você é minha irmã. É por isso que eu a amo apesar de ser quem você é – ele sorriu, cínico. – Eu nunca vou deixá-la na mão. Lutarei até o fim para que você possa ser... normal. Aceita. E, quem sabe um dia, feliz.

Dessa vez, foi ele quem a abraçou.

– Tenha uma boa noite.

Norwick beijou o alto da cabeça da irmã e, fazendo um breve movimento com o punho em cima do peito, despediu-se, deixando a sala.

Glynda desabou no sofá vermelho em frente à lareira.

As lágrimas rolaram soltas por seu rosto. Ela pegou um pequeno espelho que, aparentemente, estava jogado em cima do móvel.

– Você é terrível – ela murmurou para o próprio reflexo, não contendo um soluço. – Uma vergonha para todos. Sabia disso? Por que, Glynda, por que você tem que ser tão boa? Oh, pobre Glynda, o hálito dela cheira a morango e a flores do campo! – as lágrimas se intensificaram. As palavras mal faziam sentido. – POR QUE VOCÊ CONTINUA CHORANDO, SUA IMBECIL?

Ela atirou o espelho no chão, quebrando-o em minúsculos pedaços. Eu senti meu coração se apertar mais ainda no peito.

– Coitada – murmurou Liz.

Virei-me para ela e para os outros, e eles tinham a mesma expressão de pena no rosto.

– Ela cresceu ouvindo isso – Catherine suspirou. – Cresceu ouvindo que estava fora dos padrões. Cresceu ouvindo que era uma vergonha, uma aberração – lágrimas brotaram também nos olhos dela. – Como deve ter sido?

– Duro – especulou Brian.

– Insuportável – sugeri. – Eu me sentiria a pior das criaturas se fosse bom, e ouvisse o tempo todo de meus pais que precisava ser ruim. Como deve ser... não receber elogios daqueles que te deram a vida?

Nós nos entreolhamos. Catherine e Lizzie estavam com os olhos marejados. Mesmo os de Brian estavam um pouco vermelhos, e eu tive certeza que os meus também quando Lizzie sussurrou:

– Quem disse que homem não chora?

Com essa, os olhos de Brian rapidamente se encheram de lágrimas e elas começaram a escorrer por sua face.

– Buáááá... – ele chorou o mais baixo que pôde. – Pobre Glynda!

– Brian! – Catherine riu baixinho e deu-lhe um tapa leve no ombro. – Seja homem, que é isso!

– Que preconceito é esse, Catherine? – resolvi entrar na brincadeira. – Deixa o cara ser gay em paz, oras!

Ela e Lizzie tentaram de verdade não ter uma crise alta de riso, já que todos sabíamos que um dos rumores que mais corriam pelo nosso colégio era o de que Brian era gay. Mas ele não gostou nadinha. Fuzilou-me lindamente com os olhos.

Glynda deve ter ouvido alguma coisa, pois se levantou do sofá, subitamente em alerta.

– O que foi isso?

Nós nos calamos instantaneamente e paralisamos os músculos do corpo.

Ela começou a rondar a sala em círculos. Eu arregalei os olhos de pavor ao perceber a face de Brian se deformando como se ele quisesse...

– Segura – ordenei o mais baixo que pude entredentes.

Catherine tapou o nariz dele para conter o espirro. Lizzie pôs a mão em sua boca e eu meio que tapei as mãos delas, para dar cobertura maior.

Glynda se afastou e Brian também relaxou.

– Solta, estou bem – ele pediu por entre nossas mãos. Soltamos e a garota agora já voltava para perto do sofá.

Até que, sem aviso, ouvimos um alto, bravo e dedurante...

– ATCHIIIIIIIIIM!

Glynda rapidamente correu até nós e arrancou a toalha da mesa.

– HUMANOS! – ela berrou, levando as mãos à boca.

Nossa. É tão óbvio assim?

– Calma, calma! – eu pedi, colocando-me de pé num salto. – Por favor, não chame os guardas!

– É, por favor! – implorou Lizzie, também já de pé. – Somos bo...

Ela parou. Pareceu sensato. Ser uma boa pessoa não parecia exatamente algo bom naquele mundo... Er, mesmo estando diante de uma “sombria” boa? Ótimo. Agora estou em dúvida.

– Viemos em paz, quer dizer, somos boas pessoas – Catherine... hum... se enrolou para tentar completar a frase de Lizzie. – Somos como você.

Glynda levou a mão ao peito.

– Não é bom ser como eu.

– Que seja! – exaltou-se Brian. – Vai condenar à morte pessoas como você? Que você compreende?

Whoa! Bela tacada!, comemorei internamente.

Glynda trincou os dentes.

– Não. Vou condenar à morte humanos que dizem ser como eu, porém, que por serem humanos, já são naturalmente sujos e que eu não compreendo.

Oops. Ou não. ESTAMOS FRITOS!

– Espera! – Glynda corria para a porta, mas Catherine foi mais rápida. Chegou antes dela e bloqueou-lhe o caminho. – Por quê? Por que todo esse ódio aos humanos?

– Nosso povo conta que os humanos são uma raça impura – Glynda explicou, cruzando os braços no peito. – Eles têm formas e cores diferentes e constantemente entram em guerra contra si mesmos. Quer dizer, que tipo de povo vocês são? O nosso é unido e não atacamos uns aos outros. Rezamos pelo bem-estar de todos e reverenciamos aos mais fortes, os favoritos de Naluah e Zanthon.

– Quem?! – fizemos cara de “hã?”.

Ela suspirou.

– Nossos deuses. Espera aí, eu não tenho que explicar nada para vocês! – revoltou-se, correndo para outra porta. Essa, eu mesmo fiz questão de bloquear (tomando o cuidado de não tocá-la) e Brian pôs-se na frente da outra.

– Humpft! – Glynda resmungou.

– Os humanos são muito burros às vezes – Lizzie admitiu, dando de ombros, porém tentando claramente estabelecer uma relação de paz. – Isso acontece porque somos imperfeitos e cometemos erros. E, bem, alguns humanos se acham melhores do que outros. Mas estão errados, e um dia acabam descobrindo isso, por bem ou por mal.

Achei bem inspirador. Glynda semicerrou os olhos, parecia curiosa, buscando entender.

– Parece terrível. O que faz vocês quererem viver num mundo assim?

Nós nos entreolhamos vagamente.

– Não sei. Talvez porque tenhamos medo de morrer – Catherine soltou a respiração. – Porque o suicídio é pecado ou porque não sabemos o que vem depois da morte.

Glynda a encarou compreensivamente. Naquele momento, eu soube que era uma das razões daquela garota suportar a vida, embora não parecesse ter um motivo aparente para viver.

– Somos nós quem fazemos nossas vidas – eu disse, limpando a garganta. – Eu, bem... gosto de viver. Se nem tudo sai como planejado num dia, eu posso simplesmente acordar no outro e tentar de novo. Porque sou humano. Cometo erros, mas está tudo bem porque, no fim, eu sei que vou fazer isso direito. E não é esse o sentido da vida?

Todos me olharam como se eu tivesse acabado de ressuscitar William Shakespeare ou coisa parecida. Isso me fez corar e me sentir um completo retardado mental.

– Vocês... fazem suas vidas?

Confirmamos com a cabeça.

– Fazemos – continuou Lizzie. – Eu acho que o Aiden tem razão. Mesmo quando estragamos tudo, o consolo de que amanhã será um novo dia e poderemos tentar tudo de novo é o que nos faz continuar.

Ela sorriu para mim forçadamente, quase como se quisesse dizer que eu não precisava ficar vermelho. Estranhei, embora não muito. Eu sabia que o esforço se devia ao fato de Lizzie não ir muito com a minha cara, assim como seu amigo Freddie.

– Existem humanos bons e ruins – prosseguiu Brian. – Mas eles costumam conviver entre si. A não ser os marginais. Mas, bem, pelo que vi da sua sociedade, eu prefiro a minha, obrigado.

Concordamos com um aceno de cabeça.

Glynda observou pausadamente cada um de nós.

– Humanos bons não são ridicularizados em seu mundo?

– Não. – Respondemos ao mesmo tempo.

– Começo a entender os sombrios que vão para lá e nunca mais voltam – ela suspirou. E acrescentou depois de uma breve pausa: – Vocês são boas pessoas.

Coramos um pouco.

– Não mentiram para mim – a princesa prosseguiu. – Além de que, parecem no mínimo muito sábios para sua idade, sendo sua cultura tão ruim e... – ela corou. – Desculpem. Ia falar mal de vocês de novo.

– Tudo bem – eu dei de ombros. – A maioria dos humanos na nossa idade não tem nada na cabeça mesmo.

Glynda sorriu. Eu senti meus lábios se repuxarem em resposta automaticamente. Droga, o que eu podia fazer? Mesmo tendo tentado nos trucidar, ela era muuuuito gostosa.

E então os olhos dela se fixaram em meu rosto. Eu não entendia bem por que a intensidade daquele olhar. Até que franziu a testa e eu respirei aliviado por ter quebrado a sensação de imobilidade.

– Você... – ela começou.

– Eu?

Começamos a ouvir sons de passos e vozes em direção à sala novamente.

– Meus pais! – ela gritou numa voz desesperada. – Rápido, saiam daqui AGORA, vocês estarão perdidos se eles virem vocês!

– E os guardas? – indagou Catherine.

– Já passou a hora do toque de recolher – ela disse simplesmente. Encaramos Glynda com incredulidade. – O quê? Ninguém ataca esse castelo, ora essa, não tem guardas nem nos portões!

Bom, aquilo era verdade.

– CORAM! – ela gritou e nos empurrou para a porta que dava para a escada quando os passos se tornaram perigosamente próximos. Atazanados, eu, Catherine, Lizzie e Brian passamos pela porta o mais rapidamente que conseguimos e a fechamos com os corações aos pulos.

***

Eu corria junto com meus companheiros a toda a velocidade em direção às casinhas de madeira e palha.

Não sabíamos se fora a melhor direção a ser tomada, mas não parecia haver nada para nós no local de onde viemos. Então, precisávamos continuar avançando.

Uma faixa de pedras apareceu diante do caminho. Sem dúvida, haviam sido colocadas lá propositalmente; estavam organizadas demais.

– Cuidado! – alertei, sabendo que alguns de meus companheiros deviam estar olhando para trás.

Avisei um pouco tarde. Mal eu passei as primeiras pedras, Lizzie tropeçou com tudo numa delas e se ralou brutalmente nas outras.

– AAAAAAAH! – ela gritou de dor.

Nós rapidamente corremos até ela. Liz estava sentada no chão, caída; segurava uma das pernas dobradas contra o corpo enquanto a outra estava estendida sobre a grama cheia de pedras.

– Você está bem? – Catherine correu para socorrer a amiga.

– Não... – a voz de Liz era chorosa e cheia de sofrimento. – Meu tornozelo.

Catherine a ergueu cuidadosamente e tentou apoiá-la contra seu corpo. Mas Lizzie estava tão machucada para mover qualquer músculo que Catherine não podia suportar todo o peso de Lizzie enquanto tentava ajudá-la a andar ao mesmo tempo.

– Eu a levo – ofereci-me rapidamente, antes que Brian tentasse em vão o mesmo de Catherine.

Eu passei o braço pela cintura de Lizzie, ignorando-a quando resmungou baixo. Sem perda de tempo, recomecei a caminhar, sustentando praticamente todo o peso dela com meu corpo a cada passo. Fui um perfeito cavalheiro: apesar de dar passos largos buscando maior velocidade, pouco deixava ela se movimentar e observava cuidadosamente o caminho, erguendo-a um pouco no ar cada vez que avistava uma pedra, para que os pés de Lizzie não encostassem em nenhuma.

Paramos diante da porta da primeira casa.

– E agora? – indaguei.

– Talvez devêssemos bater – sugeriu Catherine, fazendo todos nós arregalarmos os olhos para ela. – O quê? Até parece que não viram os governantes desse lugar! Aposto que a população vive oprimida e os odeia. Ficariam felizes em ajudar qualquer humano.

Nós nos entreolhamos.

– É uma possibilidade – concordei.

– E se eles também forem maus e odiarem humanos? – questionou Lizzie.

– Nesse caso, estamos mortos, mas estamos mortos de qualquer jeito – disse Brian.

Catherine respirou fundo e bateu na porta.

Depois de algum tempo, um sombrio alto, loiro e de olhos escuros a abriu. Ele estava sem camisa e seu peito pálido e definido me fez fazer uma careta. Mal seus olhos nos encontraram, ele os arregalou.

– HUMANOS!

– Ótimo – Brian murmurou ironicamente.

O sujeito se agachou e girou uma das pernas estendida no ar, dando-nos uma potente rasteira que fez todos nos chocarmos contra o chão com gritos, mas o de Liz foi de longe o maior e o mais cheio de dor.

Minha cabeça bateu com tanta força que eu apaguei; não sem antes ver os outros também fechando os olhos à minha volta.

Notas finais
AAAAAAAAAAAAAAAAAH! Eu juro que eu ri, chorei e roí as unhas com esse capítulo! HAUSHAUSHAUS. Outra coisa, gente, uma observação. Os sombrios aqui citados são uma raça que eu criei junto com uma amiga minha, pro livro dela. Então, se algum dia vocês lerem algo sobre criaturas parecidas com eles num livro BEST-SELLER, não pensem que foi plágio, é o livro dela, ok? HUAHSUAHSUAHS. Só que os nomes serão diferentes. Eu queria ter avisado isso antes, mas achei que vocês iam ficar boiando, tipo Hã? Sombrios...? Do que é que essa louca tá falando? rs.