Notas iniciais
Gente, mil desculpas pela demora. Primeiro o Nyah! pifou geral, depois eu tive problemas com computador aqui em casa... Mas mesmo assim quero que saibam que eu estou bem adiantada. O capítulo 15 já está pronto e o 16 tá na reta final.
Curiosos? Ansiosos? É fácil me fazer postar mais: DEIXEM REVIEWS!

14. Encrenca à Vista


Freddie


Eu estava sentado num belo gramado admirando o verde da paisagem.

A alguns metros de mim, uma garota estava parada de pé, deixando seu vestido e cabelo balançarem para trás por conta do vento. Observei-a melhor. Tinha cabelos castanhos e as ondas marcantes eram inconfundíveis.

Sorri. Pus-me de pé num salto e corri para a menina. Porém, antes que pudesse agarrá-la pelas costas e girá-la no ar, aquelas cenas que a gente só vê em filme, um bip constante e pra lá de irritante fez minha visão ficar negra.

Merda, merda, MERDA! Eu ainda quebro esse despertador!

Mal-humorado até a alma por ter sido acordado, rosnei e bati violentamente no botão do aparelho berrante para silenciá-lo. Com algum esforço, sentei-me na cama.

Mal o fiz, arrependi-me amargamente. Minha cabeça girava e doía pra caramba, era uma tarefa insuportável mantê-la numa linha acima de 0 graus. Nossa, acho que ando prestando atenção demais na aula de Matemática! Vou explicar melhor: era terrível ficar em qualquer posição que não fosse deitado.

Resmungando, deitei-me novamente, mas depois de uns três minutos lembrei que não podia ficar ali. A festa da Stella tinha sido no domingo, o que significava que hoje era segunda e eu precisava ir ao colégio. Não podia admitir de jeito nenhum para meus pais que ficara bêbado no aniversário outra vez.

TOC, TOC, FREDERICK GILBERT! Tem alguém aí? Muito provavelmente eles já sabem, seu idiota. Por acaso você se lembra de como chegou em casa ontem à noite?

O susto que aquele pensamente repentino me propiciou fez-me pular da cama. Eu senti o medo e a adrenalina percorrerem rapidamente as minhas células e também senti minha cabeça voltar a doer; mas agora aquilo parecia insignificante.

AH-MEU-DEUS! Tudo bem, Freddie, calma. Tente se lembrar exatamente de tudo o que fez ontem à noite.

Minha cabeça doeu mais ainda com o esforço, mas a ignorei. Precisava continuar tentando. Pouco a pouco, algumas lembranças começaram a surgir em meu cérebro... Quanto mais delas apareciam, mas eu queria me dar um soco na cara.

Eu me arrependi, agora lutava para afastar os pensamentos; mas não consegui. Algumas cenas horrorosas de quando eu estava menos chapado se reconstruíam automaticamente em minha mente culpada, muito culpada...


Certo, Frederick Gilbert, você deve estar com algum problema mental, penso comigo mesmo. Há algumas horas você teria dito que nem chapado ficava com Riley Mitchell.

Tudo bem, então eu estava enganado, muito enganado, que mal há nisso? Eu tinha a impressão que devia estar segurando a cintura de Riley com força, pois ela se debatia, mas mesmo assim não conseguia se soltar do beijo. Até que desistiu.

Não sei se ficava eufórico ou raivoso com isso, minha mente não parecia funcionar direito ou saber o que queria. O fato é que, uma vez parado o drama, Riley se aproximou.

Achei que ela fosse me dar um tapa, mas não. Deixou minhas mãos fazerem o que queriam – puxá-la para frente – e nossos corpos se encaixaram perfeitamente. Aos poucos, o beijo foi ficando mais intenso, ela enroscou os dedos em meu cabelo enquanto eu pareci criar consciência e envolver sua cintura mais delicadamente.

Só nos separamos depois de longos minutos. Fiquei sem ação, ela suspirou.

“Isso é patético, sabia?”, ela me disse, erguendo a mão para acariciar o meu rosto por dois ou três segundos, e depois baixando-a. “Nós dois, aqui, agora... O que é que é isso? Duas horas da manhã, a festa de Stella D’Amore rolando solta lá dentro, e eu aqui fora, me desfazendo em lágrimas e ficando um bêbado.”

“Bom, sabe”, eu disse meio ofendido, recuando alguns poucos centímetros dela. “Ficar com você não foi exatamente a decisão mais sábia que já tomei hoje. Até porque a garota que eu amo iria me matar se soubesse que eu beijei... Blair Mitchell.”

“Não acho que tenha nada demais em beijar Blair Mitchell.”, Riley suspirou novamente, com certeza não parecia estar bem. Eu a encarei por algum tempo com pena, até que... “Sabe, sua voz não parece mais tão ruim.”

“É, eu sei”, respondi simplesmente. “Acho que não estou mais tão chapado como antes...”

Ela rapidamente arregalou os olhos, parecendo se lembrar de tudo o que tinha acontecido.

“Não está?! Bom, então tem que ficar!”, falou desesperada, antes de tirar um comprimido da bolsa e me enfiar goela abaixo...

Eu não me lembrava de mais nada depois disso. Ótimo, pensei ironicamente. Tentei forçar a memória, achando que o pior já havia passado, mas não encontrei outros vestígios.

Desisti. Tomei um banho rápido, vesti uma roupa – sempre ignorando minha dor de cabeça – e desci as escadas.

Vi o que não queria ver.

Edward e Norah Gilbert estavam ambos sentados na mesa do café, bebendo café-com-leite e quando eu cheguei, os dois desviaram imediatamente os olhos para mim. Bufei. Eu devia saber que eles estariam me esperando.

– Frederick James Gilbert – minha mãe começou num tom firme, colocando a xícara no pires. – Estamos muito decepcionados com você.

– Posso saber por que você nos desobedeceu, foi à festa daquela menina e ainda por cima ficou bêbado novamente? – meu pai foi mais direto.

Eu respirei fundo, tentando criar coragem para encarar o momento. Eu não tinha nenhuma desculpa e sabia que ficaria de castigo até o fim do século.

– Mãe, pai... Eu sinto muito. Acho que eu estava com raiva... Queria chamar atenção ou sei lá – revirei os olhos, corando. – Eu nem sei por que estava naquela festa! Mas a questão é que eu estava lá, e então as bebidas foram chegando, eles foram me oferecendo...

Resolvi parar antes de dizer que “as bebidas foram chegando”, mas eu não estava na festa, ou que “eles” na verdade não eram garçons, e sim penetras bêbados e – provavelmente – maconheiros.

– Freddie – minha mãe suspirou. – Você sabe que não é tão simples assim, não é?

Confirmei com a cabeça, baixando-a em seguida.

– Como foi que cheguei aqui? – perguntei, não sabendo se queria ouvir a resposta.

Houve um longo silêncio.

– Doidão, como sempre. – meu pai respondeu entredentes por fim. – Tanto que mal conseguia andar por conta própria e ria de cinco em cinco segundos. Se não fosse aquela garota, a Blair, não sei o que seria de você...

Foi como se tivessem estalado um chicote à minha frente, pois eu me sobressaltei, pulei para trás e quase caí.

– Blair?

– Pobre garota – comentou minha mãe, balançando a cabeça baixa para os lados. – Parecia tão triste. Quando chegou aqui, ela tinha lágrimas nos olhos, perguntou se essa era a sua casa e se você ia ficar bem.

– Pobre garota? Seu filho mal tirava onda dela! Ele me chamou de coroa e velho rabugento, Norah, coroa e velho rabugento! – Edward fez drama. Eu me senti mal, mas mesmo assim revirei os olhos. Nunca entendi essa mania do meu pai de toda vez em que estava zangado comigo, agir como se eu fosse só filho da minha mãe.

Engoli em seco. PQP, o que diabos mais aconteceu naquela noite?!

– Como... como ela sabia onde eu morava?

– Ora essa, ela deve te perguntado, Frederick! – explodiu meu pai. – Você podia até estar doidão, mas ainda sabia onde morava!

Aquele tom estava me deixando realmente irritado. A tristeza não mais me controlava.

Agora, era raiva o que borbulhava em meu sangue.

– QUE SEJA! O nome dela nem é Blair, tá legal? – gritei, eu precisava extravasar a raiva, nem que fosse para dizer alguma coisa inútil como essa. – É RILEY! Riley Mitchell! E ela está triste porque é uma patricinha mimada que abusou demais da vida e agora está recebendo o troco!

– Mas isso não faz sentido – minha mãe se manifestou na voz mais calma do mundo, nem mesmo reagindo à minha raiva, o que me agoniou profundamente. – Se o nome dela é Riley, por que quer que a chamem de Blair?

– PORQUE É UMA ILUDIDA! Agora com licença, ou vou me atrasar para a escola! – bradei, virando-me rapidamente para sair da cozinha, mas meu pai me interrompeu.

– AONDE PENSA QUE VAI, MOCINHO? – Edward aumentou o tom de voz. Com certeza à essa altura as veias deviam estar saltando para fora de seu pescoço. – Nem pensar que você vai para a escola desse jeito! Dá para ver de longe que está com uma ressaca daquelas! O que está tentando fazer, nos envergonhar?!

Eu parei e girei para encará-lo novamente.

– Não. Vou. Para. A. Escola. Hoje?

Confesso que fiquei decepcionado, e então, o pânico me dominou. Fiquei decepcionado porque achei que estava disfarçando a dor de cabeça e a falta de noção tão bem... Depois em pânico porque não era questão de querer, eu precisava ir ao colégio hoje. Eu precisava explicar às meninas que eu tinha beijado Riley Mitchell, e acalmá-las para que não me matassem. Eu duvidava que Lizzie e Catherine fossem olhar na minha cara novamente se soubessem da minha ficada por meio de outras pessoas...

– Não – meu pai respondeu simplesmente. Pensei em dizer alguma coisa, mas ele falou novamente. – Ahm... E, Fred, mais uma coisa. Você por acaso não... pulou mais cercas do que essas, não é?

Fiquei sem entender. Encarei-o com cara de paisagem.

Minha mãe e meu pai se entreolharam, claramente desconfortáveis naquela situação.

– Freddie, querido – tentou mamãe. – O que seu pai está tentando dizer é que... Bom, ele quer saber se você... Fez sexo com aquela menina ou sei lá?

Hã? Com Riley Mitchell?!

Eu soltei uma alta gargalhada e eles automaticamente relaxaram com a autenticidade no som. Era, sem dúvida, uma risada verdadeira.

– Eu passo, obrigado! – disse num tom brincalhão. – Com Riley Mitchell? Fala sério! Acho que precisaria estar beeeem mais bêbado do que estava. Poxa, gente, qualé! Por que a pergunta?

– É que aquela garota estava tão abalada... – explicou-se minha mãe. – Não sei, eu e seu pai pensamos que talvez... Ela estivesse assim por pensar que estava grávida, ou...

Ela não completou a frase e eu ri mais um pouco.

– Ótimo. Nós quase tivemos um ataque do coração e ele ri! – ironizou meu pai, balançando negativamente a cabeça. – Muito bem, chega. Já para o seu quarto, F. James Gilbert.

– Por favor! – implorei. – Eu não estou tão ruim, eu... eu... vou perder muitas aulas importantes!

– POR FAVOR digo eu, Frederick! – explodiu meu pai. – Até parece que você vai deixar de dormir em alguma aula desse jeito! Não, não quero nem saber. Vá já para o seu quarto e ponto final! E vai passar dois meses sem sair de casa à noite, sem computador e sem TV.

O QUÊ? Ele estava tentando me matar?!

Abri a boca, mas não contestei. Não consegui. Parei para pensar e de repente o castigo pareceu pouco para as coisas que ele não sabia que eu havia feito. E, quando minha mãe cobriu o rosto com as mãos, aí é que esqueci tudo e me dirigi ao quarto como ordenado, antes que eu visse mais alguma cena desagradável.

Infelizmente, não consegui partir a tempo de deixar de ouvir sua frase cheia de dor murmurada para meu pai:

“Onde foi que eu errei?”

Eu simplesmente desmoronei. Em nada, mãe, você não errou em nada!, eu quis voltar e gritar. Eu que sou um péssimo filho, péssimo filho!... Desculpe se a faço sofrer tanto, mas é que eu...

Parei por aí. “É que eu”... o quê?

Eu não tinha desculpas. De novo.

Sou um péssimo filho. E ponto. Só. Não há motivo. Sim, porque ter uma queda pela minha melhor amiga não parece ser motivo. Ao que parece, eu gosto de ver a minha mãe sofrer. Parabéns, Freddie! Você merecia um troféu.

Eu não gostava desses pensamentos.

Tranquei a porta do meu minúsculo quarto e o encarei. Só agora eu via que ele estava sem TV. Tentei ligar o computador, mas a internet estava desligada. É, eu devia suspeitar que meu pai já tivesse cuidado de tudo.

Bem, sem televisão, sem internet e sem sair de casa, pensei. Já que não vou para a aula hoje, o que vou fazer o dia inteiro?

Encarei a prateleira de livros e fiz algum esforço para que ela não parecesse tão desinteressante como costumava. Fui até lá e o primeiro que puxei era sobre História da Arte. Suspirei.

Eu nunca fui muito bem nessa matéria mesmo, pensei. Quem sabe não aproveito o castigo para fazer algo de útil? E pus-me a folheá-lo, mas logo minha dor de cabeça sinalizou, fazendo-me lembrar dela. Hm, talvez depois. Agora vou voltar a dormir.

Deitei na cama bagunçada. Cobri-me com o lençol e apaguei.

Notas finais
Freddie burrinho né?! Se ele não se lembra de nada que aconteceu depois do comprimido, como é que tem tanta certeza que não transou com a Riley?! u.u