Before The Sunrise

22 De Volta a Orazón


Notas iniciais
Sabe o que é mais legal à essa altura da minha fic? Perceber o quanto as pessoas já mudaram de opinião. Exemplos: 1 - Lá pelo 5º capítulo todo mundo queria que o Freddie ficasse com a Liz, assim que descobriram a paixonite não-correspondida dele por ela. 2- Aí nos chegamos ao 9º capítulo e de repente todo mundo quer que o Freddie fique com a Riley. 3- No capítulo 6, a Lizzie fala mal do Aiden e todo mundo passa a odiar ele. Mas aí eles caem em Orazón, e todo mundo vê como o Aiden é fofo e fica querendo que a Lizzie fique com ele e esqueça o Jake Hanson! 4- E no capítulo do Encontro Tenso no Corredor, aposto como vocês ficaram com um tico de ódio do Aiden por causa da queda dele pela Stella D'Amore. Mas foi só vir o próximo que todo mundo se derrete por ele de novo! xD HUAHAUSHAUSHAUSHU' Tô certa ou não tô? Divirtam-se!

22. De Volta a Orazón


Brian


Lizzie suspirou.

– Vocês não deveriam ter vindo.

Eu e Aiden cruzamos os braços para ela, ao mesmo tempo, e fincamos os pés no chão. Parecia que tínhamos ensaiado.

– Não vamos a lugar algum – murmurei. – Estamos com vocês.

Aiden concordou timidamente com a cabeça a meu lado, e o olhar de Catherine e Lizzie passou para ele. Mais senti do que vi quando ele encolheu os ombros. Suspirei. Eu já estava a par da história toda – sobre o Encontro-Tenso-no-Corredor-com-Jake-e-Stella – e entendia o fato de Aiden estar com vergonha. Ah, se ao menos ele soubesse que elas não queriam odiá-lo... Pelo menos, fora o que Catherine me dissera.

– Se é assim... – Liz tornou, numa voz baixa. – Obrigada. – Ela sorriu, quase emocionada, para nós dois.

Ou melhor, sorriu para Aiden. Lizzie o encarava, querendo, eu sabia, confortá-lo. Tentando mostrar-lhe que não queria estranhezas pelo que tinha acontecido no corredor.

Catherine surpreendeu-se com a atitude da melhor amiga, mas pareceu aprová-la. Depois de revezar alguns olhares entre Aiden, Lizzie e eu, abriu também um fraco sorriso.

– Não pedi para vocês virem – Cathy olhava diretamente para mim –, mas obrigada. Por não nos deixarem sozinhas.

Eu retribuí o sorriso como se dissesse “disponha”, e Aiden finalmente relaxou.

Fiquei aliviado por já estarmos na areia da praia e eu não estar sentindo nenhum tipo de atração pelo portal. Mas isso deveria dificultar nossa caça à estrela-do-mar, já que eu não tinha muita idéia de para onde ficava o redemoinho de Orazón.

Logo, meus companheiros também se tocaram desse pequeno detalhe.

– Como devem saber, estamos aqui para procurar meu enfeite de cabelo – proclamou Catherine.

– Mas para onde fica Orazón? Juro que não me lembro! – Liz transformou meus pensamentos em palavras, olhando em volta.

– Deve haver um meio de sabermos, sem termos que esperar pelo amanhecer – murmurou Aiden, pensativo. E então seus olhos se fixaram em mim. – Brian, feche os olhos.

– Por quê?! – eu, Catherine e Lizzie questionamos ao mesmo tempo.

– Para se concentrar em Orazón e ver se alguma força te leva ao portal. – Ele se explicou. – Eu mesmo faria isso, mas já que sou o mais forte, acho melhor ser outra pessoa, para que eu possa segurar...

Fechei a cara por um momento, de repente odiando ser franzino e ter que ser protegido ao invés de proteger.

– Mas, nesse caso, eu também não poderia fazer isso? – indagou Catherine.

– Bem... poderia, mas eu acho que o Brian é melhor em manter o foco numa coisa só, entende?

Eu e Lizzie gargalhamos e o queixo de Catherine caiu quando ela entendeu. Realmente, Catherine não era muito boa em se concentrar... num alvo só. Patrick Smith, Erik Daniels e Mackembethor que o digam.

Aiden não riu conosco, apesar de seu rosto estar cheio de humor. Quando acabamos, ele limpou a garganta e pediu desculpas a Catherine. Ela acabou perdoando.

Depois disso, fechei os olhos.

Concentrei-me. Logo pude sentir uma presença em meus pensamentos, fraca, mas ainda assim... me dizia aonde ir. Não sei direito quando meus pés começaram a se mexer; dei por mim e já estava andando. Não abri os olhos, mantive o foco. Tive a leve sensação de que alguém me seguia, mas logo estava dominado demais pela presença para perceber qualquer coisa à minha volta.

Alguns minutos se passaram e de repente alguém me segurou, despertando-me. Abri os olhos e abafei uma exclamação de surpresa. Pois à minha frente, havia um buraco. Este não tinha um redemoinho vermelho no centro, mas devia ser por causa do horário. Virei as costas para o buraco e dei de cara com Aiden. Bem ao lado dele, estavam Lizzie e Catherine. Eu não sentia mais a atração.

– Ele se abriu assim que você pôs os pés aí – Aiden murmurou baixando os olhos, referindo-se ao buraco.

Eu estremeci.

Começamos a procurar o objeto de Catherine. E procurar, procurar, procurar... Fala sério! Nunca cavei tanta areia na minha vida. Depois de uma hora, eu, Lizzie e Aiden estávamos mortos. Catherine também, mas não parava de enfiar as mãos na terra.

– Droga, droga, DROGA! – A morena berrou, frustrada, espalhando areia com as mãos para todos os lados. – Tem que estar aqui em algum lugar!

– Como é que é esse enfeite, afinal? – Aiden perguntou repentinamente, ofegante. Inacreditável!, choquei-me. Deduzi que ele estaria procurando qualquer tipo de objeto diferente até agora.

Catherine bufou.

– É uma estrela-do-mar, idiota! Mas não tem pontas retas, elas são como ondas – explicou. – Ah, e tem strass! – fizemos cara de desentendidos e ela se exaltou: – TEM BRILHO, dã-ã!

– Aaaaaah – compreendi.

– Espere aí! – Aiden franziu a testa e pôs a mão no bolso traseiro, tirando de lá algo. – Quer dizer isso aqui?

Nós três observamos mudos e de queixo caído o objeto brilhante, que ele agora erguia no ar com uma das mãos. A luz da lua incidia sobre o... strass, fazendo-o brilhar. E eu nunca tive tanta raiva por saber que era, realmente, o enfeite de cabelo de Catherine.

Repentinamente ouvi um grito e a dona da estrela-do-mar corria para Aiden.

– É ela! É ela! – Catherine riu como boba, não escondendo a alegria, e tocou numa das pontas do objeto. – Onde achou isso?

– Bom, na verdade foi a Annabeth quem achou, minha irmãzinha... – Catherine riu abestalhada de novo e Aiden revirou os olhos, assim como eu. – Viemos aqui, para a praia, hoje de manhã, e ela deve ter achado enquanto catava conchinhas. Achei interessante quando vi isso na pia lá de casa, porque, hã, sei lá, não é uma concha.

– Que bom que você pegou, então! – Catherine comemorou e deu um passo para longe de Aiden, estendendo a mão. – Agora, me dá.

Eu tinha me esquecido completamente de que ainda rodeávamos o buraco escuro, o qual não tinha desaparecido, mas logo o que aconteceu a seguir me fez lembrar. Aiden até que entregou direitinho o objeto sagrado à Catherine; mas, por algum desses caprichos tortos e cruéis do destino que nunca conseguimos entender, ela não o pegou. E, subitamente, o tão cobiçado enfeite caía sem parar, com a ajuda da força da gravidade, em direção ao chão.

O objeto quicou na areia e, azar dos azares, mergulhou no buraco – o qual, enfim, revelou o redemoinho vermelho, pouco antes da estrela penetrá-lo. Todos nós agora estávamos com a boca entreaberta e as expressões chocadas, sem saber o que fazer.

– AAAAAAAAAAH! – Catherine gritou desesperada e, numa atitude que suponho completamente impensada, pulou atrás de sua preciosa jóia.

Meus olhos se arregalaram e eu entrei em pânico. Tudo acontecia muito rápido, pois no segundo seguinte Liz estava berrando “CATHERINE!” e pulando atrás da melhor amiga de infância. Fiquei ainda mais apavorado e comecei a gritar.

– E AGORA, O QUE VAMOS FAZER?! – vociferei para Aiden.

– VAMOS ATRÁS DELAS! – ele me respondeu surpreendentemente, também pulando no abismo, e puxou-me pelo braço antes que eu pudesse resistir.

***

Eu pensei que nunca mais fosse abrir os olhos, por causa da luz.

Luz, a palavra ecoou em meus pensamentos. Mas espere aí, que luz?! Não deveríamos estar encharcados de água até a cabeça e surgindo numa caverna escura?

Pisquei várias vezes até conseguir abrir os olhos. Quando o fiz, abafei uma exclamação de espanto.

Lizzie, Catherine e Aiden estavam imóveis ao meu lado. Pareciam até mesmo prender a respiração. Felizmente, Catherine tinha seu enfeite fixado do lado direito do cabelo. Todos os três olhavam fixamente para um ponto, os músculos da face paralisados. E com razão.

Mais à nossa frente estava Glynda, os olhos ligeiramente arregalados em nossa direção. Quase arfei. Ela era ainda mais linda do que me lembrava. Vestia um vestido parecido com o qual a vimos na última vez, só que agora era verde em vez de rosa. Longo, chegava a seus pés e marcava a cintura, desenhos muito bonitos e delicados de flores desciam por toda a extensão. A coroa prateada jazia no alto da cabeça delicada da princesa, brilhante à luz da sala branca e bem-iluminada. Aliás, aquela sala dava medo. Nunca vi mais branca e vazia!

Só que, à frente de Glynda, havia... um guarda.

Estremeci. O homem era muito alto – talvez só o alcançasse se subisse nos ombros de Aiden – e monstruosamente forte. Dava pelo menos uns dez jogadores de futebol bombados do meu colégio. Ele usava uma armadura de metal pesada e a pele visível estava pintada de preto.

Nunca tive mais medo de qualquer outra coisa.

Ele claramente ainda não tinha nos visto. Estava quase totalmente de costas para nós; não parecia perceber nossa presença ou a desatenção de Glynda enquanto falava, prosseguindo seu monólogo interminável.

– E, então, eles me deixaram aqui, alteza, para fanfarrear. Com a desculpa de que não apareceram humanos até agora! Em verdade, a chance de os mesmos que invadiram Orazón resolverem dar as caras novamente é muito pequena, mas deixar um só para trás enquanto se divertem, alteza...?

Uau. Alteza.

A expressão de Glynda finalmente suavizou-se; embora o guarda ainda não parecesse perceber nada. Ela de repente sorriu, inundando o recinto com a... a... “radiância” daquele gesto.

– Entende? – Ele finalmente concluiu, sem se deixar afetar pelo sorriso.

– É claro que sim – Glynda disse num tom compreensivo, ainda com o sorriso calmo nos lábios. – E você tem razão, não é justo. Por que não vai lá pegar uma bebida com eles? Eu fico até você voltar, soo o alarme se necessário.

Sobressaltei-me, tentando calcular mentalmente as chances do guarda sair pela porta sem nos ver. O homem arregalou os olhos.

– M-mas, alteza...

– Eu insisto – ela indicou o caminho da porta com o braço. – Ande, vá, leal servo.

Por incrível que pareça, o guarda estufou o peito e um sorriso de satisfação brotou em seus lábios ao som daquelas palavras. Parecia que ela acabava de chamá-lo pelo melhor vocativo que poderia tê-lo intitulado.

– Obrigado, alteza. – Ele fez aquele movimento com o pulso sobre o peito, típico dos homens de Orazón. E então saiu da sala pela única porta existente (para minha felicidade, sem olhar para trás).

Foi só a porta – que parecia ser feita de metal pesado – fechar, que o olhar de Glynda passou para nós e sua máscara de calmaria caiu, revelando o desespero.

– Vocês de novo! – A princesa gemeu.

– É... Oi? – eu disse de um jeito totalmente idiota.

– Não vai nos matar dessa vez, não é? – Aiden arregalou os olhos.

– Sinto muito, a culpa é toda minha! – Catherine começou. – Eles vieram atrás de mim, porque...

– Não importa – a voz de Glynda, apesar de repreensiva, era de repente muito baixa. Ela abriu cuidadosamente a grande porta de metal.

E então a princesa nos olhou como se estivesse em dúvida a respeito de alguma coisa, e suspirou. Molhei os lábios.

– O que foi?

– Não vou matar vocês. – Ela revelou, encolhendo os ombros. – Vou... lhes mostrar a saída. – Glynda parecia nervosa. Passou a língua entre os lábios. – Com uma condição.

– Qual? – A voz de Aiden não era ameaçadora, mas ele semicerrou os olhos. Suspirei. Ele era, de longe, o mais desconfiado do grupo.

Glynda baixou o olhar e cruzou os braços.

– Quero que me levem com vocês.

***

A princesa nos guiou habilmente pelos corredores do palácio. Tínhamos tirado os sapatos para não fazer ruído enquanto corríamos, buscando apressadamente a saída. Ainda não havíamos pedido explicações sobre a sala branca (quer dizer, cadê a caverna?) ou sobre a sombria querer vir conosco, de modo que eu estava boiando; mas não ousaria perguntar agora. No momento, fugir era o mais importante.

Glynda parou de repente, fazendo-me quase trombar nela e fazendo Aiden, Lizzie e Catherine, nesta ordem, trombarem um no outro. Quase ri, não fosse a tensão do momento.

– O que foi? – perguntei o mais baixo que pude para ela.

Glynda não respondeu. Mas logo pude ouvir os passos e vozes ao longe.

– Escondam-se! – ela murmurou a ordem com urgência, jogando-me no espaço entre uma coluna e outra na parede de pedra (que devia nos esconder até quem quer que estivesse vindo nos encarar de frente).

O problema foi que Lizzie, Catherine e Aiden também correram para a brecha, de modo que ficamos todos imprensados. Se a parede fosse o chão, Glynda estaria completamente em cima de mim, visto que seu corpo estava sobre o meu e ela ainda me pregava junto à parede com as mãos, feito lagartixa. Tal situação me fazia agradecer ela não estar de frente para mim, e sim de costas.

O som dos passos agora me fazia acreditar que os sujeitos – pareciam ser dois andares diferentes – já estivessem na mesma sala que nós. Notei um buraquinho na saliência mais próxima de mim, e me estiquei para espiar por ele. Glynda resmungou e eu arregalei os olhos.

Eram um homem e uma mulher. Pelas coroas na cabeça e o vestido da mulher, parecido com o de Glynda (apesar de ter mais detalhes e ser estufado), deduzi que seriam seus pais. Os reis de Orazón.

– Henselmont – tornou a mulher. Embasbaquei ao som daquela voz, quase que celestial –, estou ficando preocupada. Está quase mais que na hora de Norwick ser coroado, mas ele precisa de uma esposa. E nossa filha nem obtém progresso.

O homem abriu um sorriso. Todas as células de meu corpo imediatamente formigaram, me avisando para fugir, para sair de perto dele. Como se ele fosse... perigoso. Do mal. Realmente, tudo nele parecia sinalizar “CUIDADO”.

– Não fique tão aflita, querida Trisheen – ele sorriu novamente. – Glynda não pode ser... boa para sempre. – O rei murmurou a palavra com repugnância. – Juro que não entendo. Ela tem tão bons exemplos!... Um pai mãos-de-ferro, modelo de governante a ser seguido. E um irmão abençoado pelos deuses com sua inteligência, maldade e magnificência.

O orgulho naquela voz me causou arrepios.

– É verdade – Trisheen concordou com a cabeça. – Mas veja, meu querido marido! A vida inteira ela foi assim. Não acho que vá mudar, devíamos arrumar um modo de nos livrarmos dela.

Trinquei os dentes enquanto Glynda se encolhia para mais perto de mim.

– Não será necessário, querida – garantiu o rei, abrindo um largo sorriso como se uma idéia genial tivesse se formado em seu cérebro. – O que acha de o próprio Norwick dar as lições à nossa reles caçula?

Trisheen riu com gosto e aplaudiu a idéia do marido.

– Bravo! Vês por que o amo, meu caro? – A rainha abriu um sorriso malicioso que me enojou. – Ninguém tem idéias como as suas, Henselmont, o melhor rei que Orazón já teve!

– E Norwick será ainda melhor – ele retribuiu o sorriso horripilante.

– Não há dúvidas. Depois que ele ensinar à Glynda tudo que ela precisa saber...

– Contaremos a eles nossa idéia.

Que idéia?, pensei comigo mesmo.

– Oh, sim – Trisheen abriu outro sorriso. – De realizarmos um casamento entre eles!

Glynda estremeceu. Eu fiquei simplesmente sem ação. Não acreditava que tinha mesmo ouvido o que acabara de ouvir.

O. Quê?

– Pense só nisso, Trisheen! Um filho de Glynda e Norwick seria um herdeiro cem por cento puro!

– É claro que Glynda será uma excelente sombria depois dos ensinamentos de Norwick – refletiu risheen, fazendo meu queixo cair. – Fará até jus ao nome de nossa família! Não sei por que não pensamos nisso antes.

Eles gargalharam, e dessa vez eu estremeci junto com Glynda. O som era completamente assustador. Entrei em pânico quando percebi que eles estavam bem perto de onde nos encontrávamos e, se nos vissem, estaríamos fritos...

Até que Henselmont parou de andar subitamente.

– Espere, querida! Vamos por outro caminho. Desse jeito vamos dar no quarto de Norwick, e ele deve estar dormindo. Sabe que nosso primogênito odeia ser incomodado – ele balançou a cabeça em sinal de constatação.

– Oh, sim, tem toda a razão – a rainha hesitou rapidamente, e então nos deu as costas para seguir o marido. Meu coração foi desacelerando à medida que eles se afastavam.

E então, nem mesmo suas sombras eu pude ver pela fresta na parede.

Saímos do imprensado. AAAAAAAAAAAAAAAH, COMO ASSIM?!, eu pensei em gritar para Glynda. Mas minha voz falhou, e tudo o que eu consegui foi pronunciar algo ininteligível.

Limpei a garganta e tentei novamente:

– Eles querem fazê-la casar com Norwick?

Seus olhos se encheram de lágrimas. Ela fez que sim com a cabeça baixa.

– Sim. Descobri há uns dois dias, por meio de Yliane, que adora ouvir atrás das portas – Glynda abriu um sorriso irônico e ressentido, e então soluçou. – Eu não... não posso ficar. Não posso suportar isso! Ele é meu irmão, e...

Ela não completou a frase. Cobriu o rosto com as mãos e começou a gemer de vergonha, cada vez mais alto. Ouvi o que pareceu ser um ruído de alguém se remexendo na cama, da porta à nossa frente. Droga, talvez fosse o quarto de Norwick. Gelei, mas logo estava abraçando Glynda e tentando contê-la.

– Sshhhhhhhh! – sussurrei. – Está tudo bem. Vamos tirá-la daqui.

Ela parou e enxugou o rosto com o braço.

– Pareço uma idiota fracassada. Como sempre – os lábios de Glynda tremeram, mas ela forçou a voz a sair firme. – Escutem, muitas coisas mudaram desde que estiveram aqui pela última vez. A segurança foi redobrada. Fecharam todos os portais que levam ao seu mundo, exceto... – eu, Lizzie, Catherine e Aiden arregalamos os olhos. A sombria balançou a cabeça negativamente, antes de prosseguir: – Não posso explicar tudo agora, a história é longa. Mas por ora, preciso que saibam que um abrigo seria útil. Alguma idéia de para onde podemos ir?

Nós paramos para pensar.

– A casa de Mack? – sugeriu Lizzie.

Aiden, Catherine e eu rapidamente giramos a cabeça para encará-la, e a garota corou. Mas talvez ela estivesse certa. Para onde mais poderíamos ir?

– Ele nos ajudou uma vez. Talvez possa nos ajudar de novo, talvez... – Catherine parou para balançar a cabeça. – Não sei! Vamos tentar. Glynda ao nosso lado pode até nos ajudar.

Foi a vez de Aiden balançar avidamente a cabeça para os lados, em sinal de clara insatisfação com o que era sugerido.

– Mack... – Glynda tinha o olhar distante e os olhos semicerrados, como se o apelido a fizesse lembrar algo. – Espere aí! – seus olhos de repente estavam arregalados. – Vocês querem dizer Mackembethor?

Confirmamos com a cabeça.

– M-mas ele foi preso! – Sobressaltamo-nos com a informação. – Oh, Deus, agora tudo faz sentido! Por ajudar os humanos, é claro. Achei que fosse uma suspeita ridícula dos guardas.

– P-p-preso? – gaguejou Catherine. Ótimo, agora Mack com certeza devia nos odiar por lhe metermos na cadeia.

– Temos de soltá-lo! – replicou inesperadamente Aiden. Nós o fitamos de queixo caído.

– Como assim?! SERIA SUICÍDIO! – berrei, logo me arrependendo por não ter sido mais discreto.

– Não! – rebateu Catherine, com ódio na voz. – Ele nos ajudou da última vez! Precisamos retribuir o favor!

– Eu realmente gostaria que não tivéssemos de fazer isso. – Glynda balançou a cabeça para os lados e suspirou, como se já estivesse cansada antes do tempo.

Lizzie parecia indecisa.

– E-eu – ela engoliu em seco. Eu a fitei com ansiedade, esperando que concordasse comigo. Até que Lizzie finalmente admitiu, com um suspiro: – Aiden e Catherine têm razão. Não podemos abandoná-lo.

Comecei a me roer de medo por dentro, sabendo que não teria alternativa.

***

As masmorras ficavam no subterrâneo. Isso mesmo, um andar abaixo da terra. Eu poderia perder tempo falando sobre como Glynda abriu um alçapão no meio da sala mais escondida do palácio; como nós tivemos que enfrentar um beco sujo, escuro e repleto de teias de aranha, apenas com uma tocha, antes de adentrarmos de vez no coração da enorme masmorra; ou sobre como tínhamos tido que andar para chegar lá. Tudo isso detalhadamente. Mas aposto que já percebeu o tempo que ia levar, portanto resolvi resumir tudo nesse parágrafo.

Não precisávamos mais da tocha, uma vez que Glynda já mandara Aiden aproximar o fogo do que pareceu ser pólvora num cálice estranho. Iluminado o cálice, tudo foi iluminado. Em Orazón, parecia haver muito mais mágica do que eu poderia ter previsto. Não foi difícil achar a cela de Mack. Espera, eu posso chamar assim aquela parte atrás das grades de uma masmorra?

Ele não levantou a cabeça nem mesmo quando ficamos a um passo de suas grades.

– Mack? – Catherine chamou baixinho, com um pouco de receio.

Mack finalmente ergueu os olhos. Fora o fato de agora parecer sujo e maltratado, ele ainda estava do mesmo jeito que estava quando o deixamos, com a bermuda verde feita de mato e o cabelo loiro bagunçado.

Nós estremecemos ao vê-lo naquele estado.

– Catherine. – Eu arregalei os olhos por ele ter se lembrado o nome dela. Mas sua voz era fria e apavorante, sem traço de simpatia. Estremeci novamente com o pensamento de que agora ele parecia mesmo um sombrio.

Ninguém, com exceção de Catherine, parecia se sentir capaz de pronunciar alguma palavra.

– Nós viemos te tirar daqui – ela murmurou. Percebi que sua voz havia mudado. Agora, era quase chorosa.

Mack balançou a cabeça para os lados, como se não acreditasse.

– O que a princesa faz com vocês, humanos? – ele indagou, ignorando a promessa de liberdade. Encolhi os ombros, pois não havia sequer interesse no tom.

– Eu vou embora com eles – Glynda murmurou inesperadamente.

Mack se voltou para ela, os olhos agora brilhando de curiosidade.

– O quê?! – ele disse como se não tivesse entendido da primeira vez.

– Isso mesmo o que você ouviu. Para o mundo humano. – Meu queixo caiu enquanto ela falava e me perguntei se era mesmo Glynda quem estava ao meu lado. Ela suspirou. – Diga-me agora, Mackembethor, filho de Zanthon. Você quer a liberdade? Se quiser, sabe que terá que vir conosco, pois não terá mais paz em Orazón. Se não quiser, fique, e espalhe o motivo de meu desaparecimento aos guardas. Fui embora. Não suporto mais ficar nesse lugar!

Esfreguei os olhos de incredulidade. Lizzie, Catherine e Aiden tinham os queixos escancarados.

Mack, por outro lado, estava completamente paralisado. Como se não soubesse que reação expressar. Eu entendia o dilema que devia estar na cabeça dele. Ir embora... como? Orazón é o meu lar. Eu não quero passar o resto dos meus dias trancado na masmorra, mas... ser um traidor?

Nós esperamos. Achei que ele não ia vir, mas ele se levantou.

– Tirem-me daqui – murmurou, com a cabeça baixa.

– Afastem-se. – Alertou-nos Glynda numa voz quase inaudível e, não pude deixar de pensar, muito sexy.

Ela se aproximou e tocou a fechadura com os dedos. Arregalei os olhos enquanto percebia o que estava acontecendo. A fechadura começou a queimar. O dourado brilhava num tom incandescente, enquanto a princesa girava os dedos pelo local.

Finalmente, a porta fez um barulho de clique e se abriu para fora.

Mack estava com uma expressão chocada, assim como eu e meus companheiros. Mas deduzi que não devia ser por Glynda ter aberto a porta quando ele falou:

– Mas, alteza... – E então, como se lembrasse de algo, fez aquele estranho movimento do punho por sobre o peito antes de continuar. – Por que acompanhar por livre e espontânea vontade esses humanos até o mundo deles?

Glynda abriu um sorriso triste.

– Acho que, só de lembrar os rumores e comentários maldosos que circulam sobre mim na boca de meu povo, encontraria motivos suficientes.

Mack confirmou com a cabeça cautelosamente, parecendo solidário por um minuto.

– Então, é verdade que você...?

A princesa suspirou e assentiu uma vez.

– Às vezes... eu também tenho esse defeito – confessou Mack, abaixando a cabeça. – Foi por isso que... não consegui entregá-los.

Ele apontou vagamente para nós e fechou as mãos em punhos.

Não consegui pensar em nada para falar, mas quando percebi, eu, as meninas e Aiden já o rodeávamos.

– E nós lhe seremos eternamente gratos por isso – agradeceu Aiden, esboçando um sorriso adequado.

– E como – concordou Catherine, sorrindo um pouco mais abertamente para o sombrio e acariciando-lhe o braço.

– Pode não ter valor para seu povo, mas será sempre um herói para nós, Mackembethor, filho de Zanthon. – Lizzie foi um pouco mais exagerada e poetizou, arrancando uma espécie de riso nasal do agora encabulado Mack.

– Ahm... é isso aí. Obrigado – finalmente pensei em alguma coisa (idiota) para falar e dei tapinhas nas costas dele.

Mack virou-se para Glynda.

– Não sei se posso viver com isso.

Ela soltou uma gargalhada sem graça, a qual acompanhamos depois de um tempo.

– Parece que teremos de nos acostumar... juntos.

A princesa sorriu para seu súdito que, na melhor das hipóteses, seria, dali para frente, seu semelhante.

***

– Então, alteza – ironizou Aiden. – Conte-nos tudo.

Glynda parou de correr para tomar fôlego.

Estávamos correndo desde que tínhamos deixado o palácio. Pela preguiça de andar todo o subterrâneo e todo o palácio de novo para chegar à porta da frente, Mack simplesmente quebrou uma das paredes da masmorra com um soco. Não, não é piada. Estou falando sério! Não sabia que ele era TÃO forte, mas enfim... Eu e o restante da “tropa humana” começamos a gritar por que ele não tinha feito isso antes, mas Glynda nos explicara que as celas estavam seladas com magia. É, só aqueles espaços atrás das grades. Não as paredes comuns.

– Huann Kippur... – fizemos cara de “hã?” e a princesa tratou de esclarecer: – Nosso sacerdote. – Assentimos. – Ele foi instruído a fechar todos os portais. Os guardas descobriram que vocês tinham entrado pelo da caverna, então esse foi o único que foi deslocado. Transferido para aquela sala branca, que passou a ser vigiada dia e noite, então eles pegariam qualquer humano que o cruzasse...

Ela pôs as mãos nos joelhos e começou a ofegar, cansada demais por mal ter parado de correr e já começar um discurso.

Já tínhamos passado na casa de Mack e enfiado todo o conteúdo da sua despensa (e algumas coisas da geladeira) em duas mochilas, sendo que ele carregava uma (a mais pesada, por sinal) e a outra, mais levinha, eu revezava com Aiden. Catherine e Lizzie também insistiam em carregá-la, mas demos para elas por apenas alguns minutinhos cada desde que tínhamos saído.

Por que os suprimentos? Sinceramente não sei. Ao que parece, teríamos dias de viagem nessa volta. Mas era a primeira vez que Glynda se dispunha a nos explicar, desde que saímos do palácio.

– Deixe que eu continue – Mack pareceu impacientar-se com a demora, e se virou para nosso grupo. – O que a princesa está tentando dizer é que, se todos os portais estão fechados, o único que não pode ser controlado de jeito nenhum pelo sacerdote e que ainda está aberto é o do... Lugar Sagrado.

O vento se intensificou de repente e eu senti um arrepio percorrer minha espinha.

– Lugar Sagrado? – murmurou Aiden.

– Sim – Mack tornou calmamente. Parou para fechar os olhos. – O Lugar Sagrado é o local mais bonito e, também, o mais abençoado pelos deuses em nossas terras. – Ele abriu os olhos. – Dizem que se pode sentir a presença deles lá – o olhar dele de repente era desejoso, como se tivesse muita vontade de ir. – Se quiserem voltar para seu mundo, teremos de usar esse portal.

– Fala como se fosse simples. – Glynda suspirou. Voltamo-nos para ela, cujo tom estava finalmente livre de dificuldades respiratórias. – O Lugar Sagrado é magnífico; mas a maioria dos sombrios treme só de pensar nos perigos pelos quais tem de passar para alcançá-lo. – Ela de repente estremeceu, e molhou os lábios. – Meu pai disse que não parece nada demais para quem conhece o caminho, mas na primeira vez é sempre necessário cautela. Muitos hábeis guerreiros morreram na trilha, convencidos de que nada era páreo para eles.

– Sim, e muitos civis comuns sobreviveram para contar história – completou Mack.

– É claro. Porque foram cautelosos. – A princesa ressaltou, parecendo claramente desconfiada com relação aos civis.

– Ah, se eles conseguiram, nós também conseguimos. – Aiden deu de ombros.

Embasbaquei com aquela atitude de quem não tinha o menor medo.

– Ahm... – Lizzie estremeceu, não dotada da mesma coragem.

– Pensando bem, aqui não é tão ruim. – Catherine olhou em volta como se tentasse convencer a si mesma. Então fez uma careta. – Tudo bem. Aqui é terrível.

Ergui o olhar para o céu.

A noite era assustadoramente tenebrosa e fria. A Lua jazia no centro, e brilhava contra a escuridão. A poucos metros de nosso grupo estava o mar. Sim, aquele lugar tinha um mar. A água refletia os raios prateados da lua, assim como as peles de Mack e Glynda, que pareciam fazer parte do astro quando eram iluminados por ele daquele jeito. As ondas quebravam silenciosamente na areia.

– Lembrei que tenho de fazer uma coisa – a voz de Glynda ecoou pelo silêncio.

Ela olhou para o vestido verde. Já tinha tirado a coroa da cabeça e desfeito o penteado há algum tempo e, se ela ou qualquer sombrio usasse sapatos, provavelmente os teria tirado também, mas ainda não havia feito nada com relação ao vestido.

Glynda o olhava com pena, como se estivesse prestes a fazer uma coisa terrível com ele. E então, sem aviso, ouvi um som de rasgo.

Ela apertou os olhos, como se não conseguisse acreditar no que tinha feito. Olhou para a barra do vestido que tinha acabado de rasgar, fazendo-o agora bater em seus joelhos. Respirou com dificuldade algumas vezes e se virou para Mack.

– Pode me dar uma ajuda?

Ele assentiu, quase como se soubesse o que ela queria. Ficamos longe, observando enquanto os dois se aproximavam da água. Mack fez um barulho estranho com os lábios e, de repente, eu gelei.

Um par de olhos assustadores, vermelhos como fogo, surgiu na superfície da água. No começo, pensei que estivesse sonhando, mas não. Notei o escuro que envolvia seus olhos, a cabeça do animal.

Ele pôs o pescoço e os ombros para fora da água, e só então pude perceber que era um jacaré. Ou crocodilo, talvez. Nunca fui muito bom em diferenciá-los. Mas a questão era que, fosse o que fosse, dava mil vezes mais medo que os seus parentes no mundo humano.

Os olhos vermelhos me lembravam um vampiro sedento por sangue, sedento por Morte.

Vi Glynda se inclinar para perto da água e murmurar qualquer coisa para o jacaré/crocodilo de olhos vermelhos. Entrei em pânico e tapei a boca, achando que ele fosse devorá-la, mas o animal simplesmente se aproximou e... roçou o nariz na peça de roupa que ela o estendia.

Só então notei a posição defensiva de Mack, que parecia estar preparado para se jogar sobre o animal, ao som de qualquer movimento brusco. A espécie de jacaré/crocodilo começou a morder suavemente a ponta do tecido, enquanto Glynda passava o pano para Mack. Este segurou o pedaço do vestido, e Glynda passou a mão para a cabeça do bicho. NÃO estou brincando. QUE LOUCA!, pensei, enquanto Mack virava o rosto para Glynda numa expressão que imaginei ser também embasbacada.

Mas o jacaré/crocodilo parecia estar gostando. Ele não parecia um animal selvagem agora, e seus olhos não transmitiam mais tanto medo. Talvez Glynda tivesse uma espécie de forte dom com os animais, ou talvez ele não fosse agressivo, afinal.

Os olhos do bicho estavam fixos num ponto que, inesperadamente, supus serem os olhos de Glynda. De fato, foi só a princesa se afastar que eu pude ver o perigo voltando aos olhos vermelhos, preenchendo-os...

Glynda virou a cabeça para um lado e percebi que foi quando ela cortou o contato visual com o “jacarilo”, enlouquecendo-o. De repente ele estava se debatendo na água e puxando violentamente o pedaço de pano, enquanto o dilacerava com os dentes. Mack aproveitou uma de suas aberturas de boca para puxar o tecido, removendo-o por completo da boca do animal.

O jacarilo soltou uma espécie de guincho alto e horrendo que fez eu, Catherine, Lizzie e Aiden estremecermos e taparmos os ouvidos. Ele começou a sair da água, mas Mack o empurrou com uma força brutal e surpreendente, conseguindo lançá-lo para longe no mar. Meu queixo caiu. Cara, até onde ia esse extraordinário “dom da força” que Zanthon tinha concedido a seus filhos?!

À essa altura, meu corpo inteiro já tremia de medo e desespero, mas o jacarilo não tentou novamente.

Os dois olhos vermelhos ficaram observando Mack com ódio mortal, enquanto o sombrio permanecia impassível e paralisado de tensão na areia da praia. E então, com uma espécie de resmungo, a criatura mergulhou.

Desaparecendo de nossa vista.

Suspirei de alívio enquanto Mack e Glynda caminhavam de volta em nossa direção. A princesa pegou o pano da mão de Mack e o jogou numa pedra perto da água.

– Agora, todos irão pensar que fui comida de jacaré – ela declarou, satisfeita, quando já estava outra vez na nossa frente.

– Como você fez aquilo? – Mack perguntou enquanto enxugava o rosto, que estava molhado graças ao jacaré (é, parece que o tal era mesmo um jacaré!). – Quero dizer, ele ficou totalmente manso olhando para você. Parecia até hipnotizado! Nunca ouvi falar de coisa parecida.

Glynda deu de ombros.

– É só uma pequena afinidade que sempre tive com animais selvagens. Não é nada demais, eu só posso controlá-los se quiser. Mas ninguém sabia disso. – Ela abriu um sorriso fraco para ele.

– Erm, até hoje – Mack completou, desviando os olhos da princesa e corando de leve.

Comecei a ficar com ciúmes. Mas, de repente, pensei que podia não ter nada a ver com o quanto Glynda era bonita. Talvez só fosse esquisito para Mack ser tratado de um jeito tão... doce por sua soberana.

Para tudo, Brian Harris! Fala sério, olha só o quanto está caidinho por essa garota! ISSO NÃO PARECE ESTRANHO PRA VOCÊ, NÃO? A voz da consciência atingiu-me de repente, como um raio, e eu estremeci.

Era a mais pura verdade. Mas o que isso queria dizer? Que eu não era gay?

Balancei a cabeça comigo mesmo, voltando à realidade, e quase pulei para trás. Glynda me encarava atentamente. Logo desviei o olhar, desconfortável.

– Quais são mesmo os nomes de vocês?

Como demoramos para responder, ela dirigiu um olhar confuso para Mack, que pigarreou, sem parecer saber o que dizer.

– Bom, sei que aquela se chama Catherine – ele apontou, fazendo Catherine piscar os dois olhos e sorrir meio sem graça. Só então reparei que ela estava babando. Provavelmente, de dois em dois minutos, a imagem de Mack todo-forte-botando-pra-quebrar-com-o-jacaré assolava a sua mente, pois era o tempo que ela levava para sacudir a cabeça. – E este – ele apontou para mim – é Brian.

Arregalei os olhos, desinformado de que o sombrio soubesse o meu nome.

– Os outros dois eu não sei – admitiu Mack, dando de ombros.

– Lizzie. – A dona de cabelos ondulados castanhos e olhos verdes apresentou-se, hesitante. Surpreendi-me ao perceber que, tal como Catherine, Lizzie também estava babando por Mack, mas de um jeito infinitamente mais discreto.

– E Aiden – finalizou o bonitão de olhos azuis.

O humor tomou conta de meu rosto quando eu vi Aiden bufar na direção de Mack. Revirei os olhos. Ele parecia seriamente incomodado com a força do sombrio.

Glynda sorriu para todos nós.

– Se vou ser obrigada a conviver com humanos, acho melhor me dar bem com eles. – Ela deu de ombros, nos fazendo rir.

O vento gelado da noite cortou minha alegria de repente. Ele açoitou brutalmente nossos corpos, trazendo de volta o silêncio... e o medo daquele lugar. Contorci-me, incomodado.

Viramo-nos para a esquerda e demos de cara com um túnel. Ok, não exatamente de cara. Ele estava a alguns metros de nós. E me dava medo.

– É para lá que vamos. ­– Anunciou Mack, concretizando meus temores.

Respirei fundo, sabendo que era isso ou perecer naquele lugar horroroso. Passei a mochila para Aiden.

– Então vamos – murmurei.

***

O caminho pelo qual tínhamos de seguir era cheio de curvas e irregularidades. Eu não suportava isso. Sério. Parecia que estávamos indo por uma trilha incerta, porque todas as estradas muito usadas são bem regulares, vamos admitir. E, no caso do nosso mundo, asfaltadas e em linha reta!

Que saudade da civilização.

Aiden e Mackembethor caminhavam na frente, quase parecia uma forma de expressar sua masculinidade ao mundo. Humpft! Não que eu tenha nada contra isso ou duvide do quanto são corajosos, porque são bem mais que eu, com certeza. Mas de certa forma aquilo me irritava. Eu sentia como se eles fossem os machos fortes e aptos a defender as fêmeas e eu, uma das fêmeas, já que não fazia nada.

Sacudi a cabeça com o pensamento. Até Catherine e Lizzie estavam à minha dianteira, conversando baixinho atrás dos meninos. Glynda era a mais lenta, e estava bem ao meu lado.

Seu braço às vezes roçava no meu enquanto caminhávamos. Aquilo me fazia encolher e ficar todo arrepiado, além de me sentir um idiota.

– Então – entrei em pânico e corei violentamente, percebendo que ela tinha acabado de puxar assunto comigo. – Qual é a sua idade?

– Tenho 16 anos – respondi o mais rápido que pude. Glynda franziu as sobrancelhas.

– Anos? O que é isso?

– Vocês não medem o tempo em anos aqui? – surpreendi-me. Ela negou com a cabeça.

– Não.

– Então como é o sistema?

– Contamos o número de primaveras. Eu tenho 17. – Ela sorriu para mim.

Corei, mas tentei manter meu cérebro trabalhando.

– Bom, quem sabe um dia descobrimos nossa real diferença de idade – comentei, tentando parecer simpático. Ela riu.

– Você é tão tímido – observou, abrindo um sorriso. – Eu gosto. – Fiquei mais vermelho e baixei o olhar ainda mais, o que a fez soltar um risinho divertido.

Revirei os olhos, ainda com a cara no chão. Não conseguia erguer meu rosto para ela, por mais que quisesse.

– Bem, você é a única.

Não sei explicar, mas mesmo sem ver, pude sentir que o sorriso de Glynda se alargava e ela virava a cabeça para o outro lado, começando a também enrubescer de leve.

Começamos a atravessar outro túnel. Aquilo realmente me surpreendeu. Quantas mais paredes de pedra tínhamos que encarar?

Mas o túnel só me irritou até eu sair dele.

É... acho que preferia ter ficado no túnel.

À minha frente, se estendia um grande lago de lava. Estava alguns metros abaixo da terra onde pisávamos, como se estivéssemos no último degrau da escada para a morte. Estremeci, enquanto bolhas enormes se formavam na superfície e estouravam, abrindo espaço para outras. A lava era vermelha, incandescente, e chiava aos nossos pés.

E, como se fosse uma ponte, pedras distribuídas em linha reta ao longo da extensão do lago.

Ah, sinto muito, vou sair daqui e me mandar pra Conchinchina! Pensei comigo mesmo, enquanto analisava as pedras e via mais de mil possibilidades delas afundarem e nos fazer cair na lava e morrer queimados. Isso é que é pensamento positivo!

Lutei contra a vontade de sair correndo.

– Este é o primeiro desafio. – Anunciou Mack, com uma voz de mocinho de filme que me fez fazer uma careta.

– ÓTIMO. Quer dizer que tem mais? – alterou-se Aiden.

– Não é dos piores – Glynda tentou tranqüilizar-nos. – É só pisar na seqüência correta de pedras.

– Caso contrário, morremos torrados? – adivinhou Catherine.

– Bom... É. – A princesa suspirou.

Meus amigos começaram a discutir, enquanto Mack tentava acalmá-los. Só eu percebi quando Glynda se aproximou perigosamente da beirada da terra.

Assustei-me, mas ela não parecia suicida. Só... curiosa. E distraída, mais do que eu recomendaria. Senti meus músculos do corpo – que músculos? – ficarem tensos, quase que involuntariamente prontos para manifestar alguma reação, caso algo acontecesse com ela.

E aconteceu.

Glynda escorregou e perdeu o equilíbrio. Meu coração disparou loucamente e eu corri ao seu encontro. Em menos de dois segundos estava lá, agarrando-lhe as mãos.

Ela estava pendurada. Pendurada de um precipício. A constatação me fez perder a cabeça enquanto eu lutava, com uma força que não era minha, para salvá-la de toda aquela lava abaixo de nós. Seus gritos só me deixavam mais angustiado e mais forte.

De repente, Mack estava atrás de nós, puxando-me pelo tórax com agilidade. Mesmo assim, só relaxei quando os pés de Glynda voltaram a tocar a terra firme.

Soltei suas mãos delicadas e incríveis de tão macias e continuei a ofegar, sem saber a quanto tempo já estava naquele estado. Minhas pernas tremiam e eu me sentei, sendo rapidamente imitado por Glynda. Ela ofegava comigo. Me dei conta um pouco abismado de que estávamos razoavelmente perto.

Olhei para seu rosto, sem pretensões de fixar meus olhos lá por muito tempo. Eu reparei que não tinha mesmo olhado muito Glynda nos olhos desde que nos conhecemos. No máximo, talvez por seis segundos. Me sentia mais confortável olhando para outros lugares – sua bochecha, seus lábios, sua cintura delgada... e, quando a ousadia permitia, seu corpo por inteiro.

Brian Harris, é oficial: você agora é hétero! Pensei comigo mesmo. Só os homens hétero são tão tarados!

Revirei os olhos para mim mesmo com o pensamento, e obriguei-me a encará-la nos olhos.

Foi pior do que eu imaginava. Glynda já estava com os olhos azuis focados em mim e me sorria, agradecida. Hesitei, quase não resistindo à vergonha e desviando o olhar, mas seu sorriso era tão bonito que me fez querer olhar mais. Não apenas a boca curvada para cima – mas aqueles olhos brilhantes que sorriam junto com ela.

Devolvi o sorriso, completamente sem graça. Glynda riu da minha expressão no começo, mas já era um progresso.

Ficamos nos encarando normalmente por seis segundos – se ficar sorrindo para alguém por tanto tempo e ainda por cima fazendo cara de babaca é normal – e então tudo mudou.

Alguma coisa começou a formigar dentro de mim. De repente, eu não podia mais desviar daqueles olhos azuis, até que...

Naquele momento, eu o senti.

Um sentimento muito forte tomou conta do meu peito e me preencheu como um todo. Não era como se estivesse nascendo, mas como se sempre estivesse estado lá e só agora dando as caras. Naquele instante, eu soube que era maior do que tudo e qualquer coisa que eu já tivesse sentido por alguém. Que eu lutaria por ela e até arriscaria minha vida, se necessário.

Algo que eu não sabia expressar com palavras.

Mas ao que parecia, Glynda sim.

– Você... você... você é minha alma gêmea.

Pisquei para desviar os olhos dos de Glynda e focar seu rosto por inteiro. Ela estava sorrindo abertamente para mim.

Permiti-me retribuir instantaneamente, sabendo que nunca estivera tão encantado em toda a minha vida.

Notas finais
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH! Cara, eu sou má. Como assim faço uma N/A no fim desse capítulo ENORME e cansativo? >.< KKKKKKKKKKKKK, Own, mas eu queria compartilhar minha alegria com vocês! "ÁÁÁÁGATHA, COMO ASSIM A GLYNDA E O MACK TÃO INDO PRO MUNDO HUMANO? COMO ASSIM ELA E O BRIAN SÃO ALMAS GÊMEAS?? MORRI, PLOFT*" É pra morrer mesmo, kkkkkkkk. Que acharam? GIVE ME YOUR OPINION, IT'S SO ESSENTIAL TO ME! *cantoria desafinada* Ok, vou parar antes que eu quebre um copo u.u . Beijinhos e não se esqueçam dos reviews!