Before The Sunrise

16 Confraternização com o Inimigo


Notas iniciais
Gente, eu queria agradecer de verdade a vocês que estão postando reviews lindos. Sei que recentemente fui muito chata com relação a isso, mas sei também que vocês entendem, afinal, que autora gosta de escrever pra não ter reviews, né? >< ow. Enfim, aproveitem o cap.

16. Confraternização com o Inimigo


Lizzie


– AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH, MINHA FILHA, você está tentando nos matar?

– Vai ficar de castigo um mês, entendeu? Não! Dois meses. Não, AINDA PARECE POOOUCO!

De pé no meio da sala, encolhida, eu esperava calada enquanto meus pais não terminavam de me dar bronca. A voz deles, tanto a de minha mãe quanto a de meu pai, saía num misto de raiva e desespero que me paralisava de medo e culpa. Eu não conseguia nem mesmo abrir a boca para me defender.

Ótimo. E o que eu podia dizer? Eu tinha mesmo exagerado na dose, saído tarde da festa de Stella e chegado em casa pelo menos umas três horas a mais depois do que havia prometido que chegaria. Eu não poderia aliviar minha situação nem mesmo se tivesse descrito os apuros por que passei num universo paralelo ao nosso. E se meus pais acreditassem. Agora, se eu descrevesse minhas aventuras e eles não acreditassem (o que é MUITO mais provável), além da bronca eu ganharia uma sessão com um psicólogo três vezes por semana. No mínimo. Então, acho que preferia ficar calada.

Eram 7h da manhã. Eu havia chegado em casa mais ou menos às 6h20, e estivera escutando gritos desde então. Mandy só deveria ter acordado agora, mas os berros de Harold e Jenna Johnson a fizeram levantar da cama mais cedo. Desde então ela estava ali perto, sentada no sofá, assistindo ao espetáculo inteiro. Dava para ver na cara daquela diabinha que estava se divertindo às minhas custas.

– E agora, Elizabeth Johnson? – a voz de minha mãe cortou meus pensamentos. – O que você tem a dizer em sua legítima defesa?!

Suspirei e baixei a cabeça.

– Nada.

O silêncio tomou conta da sala. Foi extremamente desconfortável após tanto tempo de gritaria alta.

– Já para o seu quarto, mocinha.

A contragosto, forcei meus pés a caminharem e seguirem a ordem paterna. Eu não queria passar por meus pais. Mas era necessário, já que eles estavam na frente da escada que dava para o meu quarto. Senti os olhares pesados e cheios de repreensão deles sobre mim ao me aproximar.

Respirei fundo, e alarguei os passos para encontrar-me longe o mais rápido possível. Trinquei os dentes, cheia de ódio, quando ouvi Mandy abafar uma risadinha.

– Mandy, você também! – a voz de Jenna não era nada amigável. – Ande, vá se arrumar para o colégio!

Levantando e girando rapidamente perto do sofá, Mandy começou a andar em direção às escadas. Não que eu tivesse ficado para vê-la concluir a tarefa, estava em meu quarto muito antes disso.

Tomei um banho só de corpo, quente e rápido; vesti-me com pressa e não estava realmente pensando em tomar café quando desci novamente as escadas. Porém, minha mãe sempre fazia questão de que comêssemos algo antes de ir à escola, e eu devia ter previsto que hoje não seria diferente e eu não teria como escapar dela.

Jenna Johnson pôs um prato junto com um copo de suco na mesa quando eu terminei os degraus, e era claramente para mim, já que estava posto em meu lugar. Suspirei e fui até a cadeira. Ao chegar, constatei que era cereal frio com leite.

Fiz um biquinho para mim mesma. Aquele era um péssimo sinal. Mamãe sabia que eu odiava segundas-feiras e sempre preparava meu prato favorito nesse dia: waffles com manteiga, geléia ou cobertura de chocolate. O cereal costumava ficar para as sextas, quando ela tinha que trabalhar mais cedo e fazia o meu café e o de Mandy com pressa.

Mas hoje ela antecipou o cereal; hoje ela estava com raiva.

Tentando não demonstrar minha tristeza, sentei-me à mesa e comecei a comer. Mandy chegou pronta alguns minutos depois, e só quando se sentou foi que mamãe pôs seu prato na frente dela: omelete com queijo. Escancarei a boca. Era o prato favorito de Mandy. Ela começou a se deliciar com cara de quem estava adorando muito e eu a observei com inveja durante todo o café.

Depois disso, meu pai apareceu na sala de paletó e gravata, pronto para ir trabalhar. Estranhei. Ele costumava a sair de casa mais cedo. Então, dei-me um tapa na cara. Não era óbvio? Meu estúpido atraso tinha atrapalhado a vida de todo mundo. Harold Johnson não tinha se arrumado para o trabalho antes porque hoje estava ocupado roendo as unhas; esperando por mim.

– Hoje vou levar vocês – ele disse rapidamente para mim e Mandy antes de começar a destrancar a porta, o que significava: “sigam-me”.

O percurso casa-escola costumava ser rápido quando íamos com meu pai, mas naquele dia durou uma eternidade. Talvez porque ninguém proferiu sequer uma palavra. Fiquei aliviada quando saí do carro; corri para a porta do colégio. Nada podia ser pior que aquilo.

Quem disse? Por ter perdido o ônibus e não estudar na mesma sala de Catherine, só descobri no primeiro intervalo entre as aulas que ela tinha faltado.

E não só ela. A cada novo intervalo, quando eu, Kayla ou Nicole dávamos um pulinho nas salas dos conhecidos (primeiro na de Sophie, Catherine e Whitney; depois, na de Brian e Freddie; e por último na de Jake Hanson e Stella D’Amore) descobríamos que mais pessoas não tinham vindo para o colégio. Jake e Stella não estavam, embora isso não fosse novidade – na verdade, a novidade era Riley Mitchell e Olivia Dickens terem aparecido sem Stella –, Brian também tinha me abandonado e nem mesmo o Freddie resolvera dar as caras.

Foi uma “faltação” em conjunto. O colégio estava quase vazio. Stella D’Amore e sua maldita mania de comemorar o aniversário no dia. Grr! Se o aniversário dela era dia 26 de maio, então a festa tinha que ser dia 26 de maio. Não importava se fosse segunda, terça, quarta, quinta, sexta, sábado ou domingo.

Eu mal pronunciei uma palavra com minhas amigas o dia inteiro. Sentia-me ainda um tanto impressionada com tudo o que acontecera comigo recentemente. Eu tentava parecer normal como em qualquer outro dia, abria a boca para começar um assunto qualquer que tinha mentalizado, mas não conseguia fazer com que o som saísse.

Eu simplesmente não queria conversar. Não hoje. Não com pessoas que não tivessem visto o que vi.

Pela primeira vez, odiei quando tocou o sinal do almoço.

Que saco!, pensei. Gente, conversas animadas e mais gente. Corri para a biblioteca, sabendo que lá só haveria o silêncio calmo e reconfortante dos nerds que estudam na hora de comer (vai entendê-los).

Entrei, e a bibliotecária Angela roncava suavemente com a cabeça deitada em sua mesa. Não estou brincando. Mas não pensem que ela é preguiçosa, tadinha! Acontece que está muito velha, mas se recusa a se aposentar.

Fechei a porta com cautela e olhei em volta. Harry Shepherd, um dos nerds mais nerds e conhecidos da história do nosso colégio, estava lá, como sempre. Na mesa ao lado dele, havia duas garotas que conversavam baixo, apesar de que histericamente. Elas batiam com o lápis num mesmo livro e em seguida escreviam algo, cada uma em um caderno ao lado, o que me fez deduzir que provavelmente elas estariam ferradas em alguma matéria de cálculo para o próximo bimestre. Os únicos sons do ambiente na verdade vinham delas.

Fora esses três, havia apenas mais uma pessoa na biblioteca: um garoto recostado na cadeira. O capuz do casaco cobria seus olhos e ele parecia dormir tal como a senhora Angela, só que enquanto ouvia seu iPod. Eu caminhei para dentro e, talvez para me distrair, talvez para não parecer que não estava fazendo nada, pus-me a observar as prateleiras em busca de algum livro interessante.

Eu estava bem perto do garoto desconhecido quando ele levantou o capuz para mexer no aparelho – suponho que para trocar de música ou algo assim – e eu pude ver seu rosto.

AH, caramba! Ele não era desconhecido!

Era o AIDEN! E que casaco estiloso, pensei involuntariamente.

Sem estar muito consciente do que fazia, aproximei-me e sentei ao lado dele.

– Aiden? – chamei, tirando um dos fones de seu ouvido.

– Lizzie! – ele surtou e quase caiu para trás ao me ver.

Automaticamente corei. Só agora minha mente parecia associar o que eu tinha acabado de fazer. Mas que coisa, o que é que ele estava fazendo ali? Que eu saiba, popular nenhum que se preze no meu colégio jamais passaria o almoço na biblioteca! Eles têm tantas coisas mais interessantes para fazer.

– O que está fazendo aqui? – perguntei num fio de voz muito tímido.

Ele respirou fundo.

– Sei lá. Só não estava a fim de falar com ninguém – respondeu, guardando o iPod no bolso. – Nenhum deles entende o que...

Ele parou. Eu balancei a cabeça, compreensiva.

– Entendo. É por isso que eu estou aqui também.

Ele semicerrou os olhos para mim.

– Eu soube que Catherine e Brian faltaram.

– É.

Ficamos um tempo em silêncio. Não sei se para Aiden foi desconfortável, mas para mim foi infinitamente, já que eu não sabia por que tinha puxado assunto com ele e agora não conseguia pensar em mais nada para dizer...

– Se bem que praticamente todo o colégio faltou hoje, não deveríamos nos surpreender – Aiden fez uma careta amigável.

Eu tentei dar-lhe um meio sorriso. Ora, vamos, Lizzie, não há razão para implicância com o cara, ele é sempre tão legal com você!, disse para mim mesma. Sorri meio torto, mas acho que me saí bem. Estava melhorando no quesito Operação Ser-Legal-Com-o-Aiden.

– Stella e sua mania de comemorar o aniversário no dia certo – eu disse.

– Ela é uma metida. – ele acrescentou, revirando os olhos.

Embasbaquei.

– Espera aí. Você é mesmo um cara popular que acabou de xingar Stella D’Amore?! CARA, sempre pensei que todos vocês reverenciassem ela!

Aiden soltou uma gargalhada gostosa.

– Sou uma exceção à regra, não é? – ele sorriu para mim. Não era um sorriso “estou-tentando-ser-legal-com-você”, mas um sorriso lindo de “estou-me-divertindo-com-você”, fato! Soube disso porque seus olhos azuis brilharam, refletindo o seu estado de espírito, o que deu início a um derretimento drástico das paredes de pedra que eu tinha posto ao redor do meu coração e que barravam a entrada de Aidens.

Automaticamente retribuí o sorriso. Era um sorriso Lizzie 100% autêntico, do tipo que eu nunca havia dado para Aiden. Aquele sorriso que damos quando nos sentimos felizes por divertir alguém.

Ele notou a diferença. Suas sobrancelhas se curvaram rapidamente para cima e depois para baixo, estranhando. Eu ri.

– Com certeza! Então, você não gosta muito da Stella?

– Não. Quer dizer, ela é... muito bonita e tudo mais – não consegui esconder minha careta com o ênfase sonhador que ele deu na palavra “muito”. – Mas dá para perceber de longe o quanto é vadia.

Eu sorri novamente para ele.

– Até que você é um cara bem esperto, Aiden Hills.

Ele riu, dessa vez exageradamente, jogando a cabeça para trás.

– Sssh! Assim você vai acordar a Sra. Angela! – brinquei.

Após revirar os olhos para mim e sorrir sarcasticamente, Aiden pegou uma mecha do meu cabelo.

Eu corei e estremeci. Tão estranho como isso era fácil para ele!... Tocar em mim, pegar no meu cabelo como se fôssemos amigos há muito tempo. Em Orazón, ele nem sequer hesitou ao ter que me carregar com os braços. Não demonstrava nenhum tipo de constrangimento ou timidez, simplesmente me tocava. Herança da popularidade, com certeza. Gente desinibida é assim mesmo...

– Seu cabelo voltou a ficar liso? – indagou.

Pisquei, surpresa. Então, ele tinha reparado que meu cabelo estava liso na festa, ondulado no mundo dos sombrios, e liso novamente agora?

– É – eu dei de ombros. – Fiz escovinha, mas ela foi pro brejo quando caímos no... bom, buraco, e voltou a ficar inteira depois que saímos.

– Ah – Aiden ergueu a mecha no ar, brincando com ela. – Sabe, prefiro suas ondas. – ele disse, largando meu cabelo. – Essa chapa que vocês mulheres fazem no cabelo me lembra... bom, artificialidade, que me lembra Stella D’Amore.

Eu caí na gargalhada. Não acredito que acabei mesmo de ouvir “artificialidade me lembra Stella D’Amore” do Aiden Hills! Ah, se ao menos Jake Hanson fosse igual...

Até que ele era legal.

Eu corei, mas não desviei meus olhos dos de Aiden quando notei que nossos lábios se repuxavam para cima no mesmo sorriso simpático e bobo de surpresa.

Notas finais
Gostaram? Eu acho esse capítulo muito fofo, rs!