Notas iniciais
Existe uma referência a Memories nesse capítulo, mas não sei se vão achar.

Quando Natasha acordou, o dia já estava escurecendo. Natasha se levantou e olhou o quarto em volta, ela andou até a grande janela do hotel e viu que a cidade era super movimentada, até mesmo quando o horário do expediente já tinha terminado.

Natasha pegou uma roupa, se vestiu, pegou seus cartões e saiu do quarto do hotel.

Ao chegar na recepção, o recepcionista a abordou.

— Srta. Roman, deseja jantar?

N: Não, eu comerei na rua. Obrigada.

— Pois não.

Natasha deixou o hotel e há alguns metros de distância, havia um shopping e Natasha aproveitou para ir até lá e comprar um novo aparelho de celular e fazer o câmbio de moedas. O celular que ela tinha antes, ela o destruiu antes do voo para Londres.

Natasha ainda passou em diversas lojas e comprou muitas roupas, ela não queria usar mais nada que costumava usar na América. Nadine era uma pessoa nova, nada a ver com a antiga Natasha.

Ao sair do shopping, Natasha ligou para o celular de Maria Hill.

H: Maria Hill.

N: Hey.

H: Hey! Finalmente chegou aí.

N: Cheguei mais cedo, mas só consegui um telefone agora.

H: E como você está?

N: Eu preciso que deposite um dinheiro pra mim.

H: Uau. Nem para me dar uma aliança, antes.

N: E eu preciso de uma casa, eu não posso morar num hotel.

H: Já localizou seus pais?

Natasha parou na calçada e franziu a testa. Ela sabe que foi para lá para conhecer os pais dela, mas ao mesmo tempo, ela não queria, ela tinha medo, não sabia como seria. No fundo, Natasha os culpa por terem deixado ela ser levada, ela os culpa pelas coisas que ela teve que passar, apesar de saber que estava fora do alcance dos pais dela fazer alguma coisa.

N: Não.

H: Nós tivemos informações que eles moram num bairro mais ao Norte de Londres, tenho certeza que você vai acha-los, pesquisando um pouco mais.

Natasha não respondeu.

H: Natasha? Você vai achar eles, certo?

Natasha ainda permanecia em silêncio.

H: Natasha, você devia ir amanhã, eles são bem velhinhos, então...

N: Eu sei. Eu só... Preciso de um tempo.

H: Você não tem tempo.

N: Hill, eu... Eu não tenho certeza se eles querem me ver.

H: O que quer dizer?

N: Talvez eles não se lembrem, talvez nem me amassem.

H: Natasha, do que está falando? Eu te falei sobre a sua mãe e sobre como ela tentou...

N: Eu sei. Eu sei. Esquece o que eu disse.

H: Prometa que vai amanhã.

N: Sem promessas.

Ficou um silêncio a seguir. Hill podia ouvir a respiração de Natasha, indicando que algo estava incomodando ela.

N: E ele?

Hill entendeu que ela estava perguntando sobre Steve. Na verdade, Hill sabia que ela ia perguntar sobre ele. Hill estava com o carro estacionado em frente ao bar, que Steve estava com os amigos reunidos, e Hill podia vê-lo de onde estava.

H: O que quer saber?

N: Hill...

H: Ele está... Ele vai ficar bem. Não se preocupe.

Natasha suspirou.

N: Garanta isso, por favor.

H: É... Eu não preciso.

N: Por que?

H: Ele tem muitos amigos, Natasha. Ele não está sozinho, você está. Você devia ter ficado.

N: Você quer dizer que ele está bem sem mim?

H: Parece. Mas essa era a intenção, certo?

N: É... Certo.

Natasha respondeu secamente, parecia que ela tinha acabado de engolir uma pedra.

Natasha encerrou a chamada.

...

No bar, Sam estava relembrando coisas engraçadas em missões anteriores.

Sam: Aquele senhor ficou apenas parado olhando para o Clint, tentando entender por que ele estava no telhado dele, apenas de cueca com o arco e flecha na mão.

Bobbi: Não me diga que era a cueca branca de patinhos amarelos?

Sam: Era essa mesmo!

Todos começaram a rir.

Sam: O cara não estava impressionado por ter um Vingador na casa dele e sim por causa da cueca. Ele apenas disse “Filho, você é muito velho para usar uma cueca dessas!”

Todos riram mais ainda.

Wanda: Eu me lembro da vez que o Sam teve que pular dentro de uma piscina, fugindo de um cachorro.

S: É justificável.

W: Mas era um poodle.

Todos riram novamente.

Sam: Falando em fugir, eu lembro quando Tony e Rhodey estavam completamente bêbados, usando aquelas armaduras e perseguindo um fugitivo da cadeia. Eu não sei o que tinha na bebida de vocês, mas vocês dois cismaram que o cara estava num barco, sendo que ele já estava num avião indo para fora do país.

T: Eu me lembro disso, mas não foi assim.

Rhodey: Foi assim mesmo, Tony, você me convenceu que ele estava num barco.

Sam: E o pior que ele te convenceu que a sinaleira era o barco dele. Vocês destruíram a sinaleira.

S: Eu me lembro disso...

Sam: Foi muito engraçado ver vocês atirando contra a sinaleira e errando cada tiro.

S: Muito perigoso também.

Sam: Sim, graças a Deus, Natasha estava lá e invadiu o sistema da armadura e as desativou, senão eu não sei o que teria acontecido.

Sam estava falando e rindo, mas ao tocar no nome de Natasha, ele foi parando de rir e olhou para Steve, que olhou pra baixo e tentou disfarçar o máximo que pôde. Todos ficaram um pouco tensos, porque Sam e Steve ficaram tensos.

Steve se levantou.

S: Com licença, eu vou pegar mais bebidas. Alguém quer mais alguma coisa?

Bobbi: Steve, peça mais uma porção de batata.

W: E de gurjão de frango com molho rosê.

Steve fez positivo com a cabeça e foi para o bar.

T: Parabéns por tocar no nome da falecida, Sam.

Sam: Saiu sem querer.

Bobbi: Não a chame assim, Tony.

T: É só uma piada.

W: Mas como vai ser daqui para frente? Ninguém mais toca no nome dela?

V: Eu acho que seria só por um tempo, até que Rogers supere a perda dela.

T: Ele não parece estar de luto...

V: Humanos tem formas diferentes de demonstrar tristeza.

T: Convenhamos que não é da natureza do Steve não transparecer o que está sentindo. O cara é um papel celofane, logo se sabe o que ele está pensando ou sentindo.

W: Vamos respeitar o Steve, porque está recente.

T: Isso é porque não me apaixono. Mulheres são muitos cruéis, acaba dando nisso.

Wanda franziu a testa.

W: Você nem sabe se foi culpa dela, nem sabemos o que houve, Tony.

T: Ora, Wanda...

Tony fez uma cara de deboche, enquanto segurava sua long neck.

T: Nós sabemos muito bem que entre Steve e Natasha, a mais provável de ter estragado tudo é a Natasha.

B: Eu não concordo.

T: Claro que não, você é uma mulher.

W: Tony, não me faça apagar sua existência da Terra.

T: Viu? Elas todas se defendem. Wanda nem se dá tanto com a Natasha, mas na hora de defender, olha só...

W: Isso não é verdade. Nós apenas temos nossas diferenças...

T: Sei...

Bucky: Steve está voltando, pessoal.

Todos ficaram em silêncio novamente. Steve retornou com um balde de cerveja e um copo de suco de abacaxi na mão. O pessoal se serviu e Steve sentou com o suco na mão.

T: Steve, olhar para você num bar com um copo de suco é tão deprimente. Você podia ao menos fingir que está bebendo álcool.

S: Eu não vejo necessidade, Tony.

T: Como uma mulher vai se interessar por um cara que vem beber suco no bar?

B: Eu acho que você devia perguntar para aquelas moças.

Bucky indicou as moças da mesa ao lado que sorriam sem parar, olhando para Steve. Tony fez cara de desgosto.

T: Eu desisto de entender as mulheres.

S: Ela estão olhando para mim?

Steve perguntou em tom baixo para Bobbi que estava ao lado dele. Bobbi olhou para as mulheres e sorriu.

Bobbi: Sim.

Steve olhou para as mulheres e deu um pequeno sorriso, mas logo desviou o olhar de tanta vergonha. Por mais que ele quisesse parecer mais solto, ele ainda é tímido nesse quesito e não sabe como flertar com ninguém.

Durante o restante da noite, eles ficaram apenas nos olhares entre uma conversa e outra. Aos poucos o pessoal foi se retirando, até que ficaram somente Bucky, Sam e Steve.

As duas moças ainda estavam no bar e finalmente tiveram coragem de ir até Steve se apresentar.

— Oi.

Steve as olhou e abaixou a cabeça em seguida.

S: Oi.

— Nós estávamos esperando que você viesse falar com uma de nós.

S: Me desculpe, o que?

— É que... Nós estávamos te olhando, nós sabemos quem você é.

S: Mas eu não conheço vocês.

— Eu sou Melanie.

— E eu sou Pamela, mas todos me chamam de Pam.

S: É um prazer, senhoritas. Este é o Sam Wilson e esse é Bucky Barnes.

As meninas mal olharam para Sam e Bucky.

— Podemos sentar com vocês?

S: Ham...

Steve olhou para Sam e Bucky, que desviaram o olharam, deixando Steve sem saber o que fazer.

S: Claro...

As mulheres se sentaram e Melanie foi a que se sentou logo ao lado de Steve, ela começou a fazer perguntas sobre os Vingadores, e como ele faz pra ficar tão forte.

— Sabe, Steve eu sempre quis tocar seu braço.

S: Meu braço?

— Sim. Pra saber se é de verdade mesmo. Posso?

Steve achou super estranho, mas consentiu com a cabeça.

A moça apertou o braço de Steve e ficou toda vermelha de repente.

— Você é de verdade. Nossa...

A outra moça também apertou o braço de Steve.

— Você é forte e muito bonito... Eu só...

— Melanie, menos...

Bucky e Sam estavam chocados e ao mesmo tempo se segurando parar não rir.

Sam: Pessoal, eu já vou indo...

Steve olhou para Sam.

S: Espere.

Sam: Sharon está me esperando, eu preciso ir.

S: Okay.

Steve olhou para Bucky.

S: Então eu acho que devemos ir também.

Bucky ficou sem jeito, porque as meninas estavam desesperadas para ficar com Steve.

— Não vai. Nós podemos conversar mais.

— Sim, na minha casa. Eu moro perto.

S: Ham...

Steve não entendeu e olhou para Bucky.

S: O que você acha?

B: Eu acho que eu não fui convidado.

— Desculpe, mas minha cama só aguenta três.

S: Três? Cama? Que?

B: Okay, eu vou embora...

S: Bucky...

B: Steve, foi uma noite agradável. Te vejo amanhã...

S: Mas...

— Não se preocupe.

— Tomaremos conta de você.

Bucky e Sam se retiraram e ao chegarem na calçada começaram a rir.

Sam: Aquele filho da mãe é tão sortudo. Duas! Dá pra acreditar?

B: Ele não vai.

Sam: Claro que não vai e você é um idiota, se eu estivesse solteiro, ficava lá e quando Steve recusasse, pediria para ir no lugar dele. Que que tu tem na cabeça?

Bucky fez negativo com a cabeça e sorriu.

Sam: Eu estou indo.

B: Eu vou esperar o Steve aqui.

Sam: Ok. Boa noite.

B: Boa noite.

Bucky observou Steve com as moças no bar, que agora estava fazendo de tudo para não ser tocado pelas mulheres.

S: Me desculpe, meninas, eu...

— O que? Você é tímido?

S: Não é só isso.

— O que? Nos achou feia?

S: De jeito nenhum, vocês são muito belas e formosas.

As meninas riram do jeito de Steve falar.

S: Acontece que eu não devia estar aqui.

— Alguém partiu seu coração?

S: Algo do tipo.

Steve suspirou.

— Uma noite conosco e você esqueceria.

Steve sorriu demonstrando simpatia.

S: Isso é difícil, mas obrigado pela oferta.

— Se você se arrepender...

Melanie pegou uma caneta e anotou num papel o telefone dela.

Steve segurou o papel e sorriu.

S: Obrigado. Eu preciso ir. Boa noite, senhoritas.

Steve se levantou e deixou o bar.

B: Durou mais tempo lá do que eu imaginava...

Steve olhou para Bucky apoiado na moto dele.

B: Steve, eu sei que não quer falar sobre isso, mas isso não é você. Nós precisamos conversar.

S: Não, não precisamos. Mas você está certo, isso não sou eu, eu não posso forçar nada...

B: Steve, o que houve entre você e a Natasha...

S: Eu pedi para não falar dela. Você devia ficar feliz de qualquer jeito.

B: Como?

S: Eu vi o jeito como você olha pra ela, e eu sei sobre o passado de vocês.

B: Steve, eu jamais...

S: Eu sei. Me desculpe. Não sei o que deu em mim.

Steve pegou o capacete da moto e colocou na cabeça.

S: Precisa de carona?

B: Seria bom.

S: Sobe aí.

...

No dia seguinte, Natasha acordou cedo e checou a hora. Eram 8 horas da manhã. Ela não sabia exatamente o que fazer, começar uma nova vida exige muito tempo e esforço e o corpo dela estava pedindo uma folga, assim como o cérebro dela. Natasha decidiu iniciar o dia com um bom banho de espumas, ela demorou quase uma hora no banho.

Natasha ouviu o celular fazer o som de mensagem e saiu da banheira, ela se enrolou na toalha e foi até a cama, para ver o que Hill queria, já que só ela tem o número.

“Bom dia, espero que esteja a caminho da casa dos seus pais”

Natasha leu a mensagem, suspirou e jogou o celular na cama, ignorando a mensagem de Maria Hill.

Natasha se secou e vestiu uma outra roupa, ela checou a hora novamente e eram 9:15 da manhã.

Não tenho nada para fazer. Natasha pensou se sentindo entediada. Nem tinha ninguém que ela conhecesse no local, para a distrair de alguma forma, ela não teve tempo de pegar seus livros para ler, teria que ao menos sair para comprar novos livros.

Novamente o celular de Natasha vibrou.

Mensagem de Hill novamente.

“Eu enviarei um agente para localizar seus pais precisamente”

Dessa vez Natasha respondeu.

“Não precisa, Hill”

“Então tome alguma atitude”

“Me dê um tempo, você está me irritando”

“Eu não ligo”

“Eu te odeio”

“Eu te odeio mais”

Natasha estava com a testa franzida e bufou, irritada. Ela odeia ser pressionada a fazer o que não quer, e Hill estava fazendo justamente isso.

“Amanhã, eu prometo”

Natasha mandou para Hill e não obteve resposta. O silêncio sempre significa confirmação quando as duas conversam.

Natasha decidiu sair para comprar novos livros, agora ela não quer pensar na nova identidade, mas ela também não quer ficar parada para não pensar em Steve.

Natasha penteou o cabelo e passou um batom neutro nos lábios, ela não se esforçaria mais do que isso, ela não quer chamar atenção de ninguém.

Natasha saiu do quarto e chamou o elevador. Enquanto esperava o elevador chegar, mais uma hóspede do hotel se aproximou para aguardar o elevador também.

— Bom dia.

N: Bom dia.

Natasha respondeu, sem fitar a pessoa, apenas por educação. Quando o elevador chegou, as duas entraram e Natasha apertou o botão do térreo.

N: Para qual você está indo?

— O mesmo que apertou, obrigada.

A mulher ficou olhando para Natasha durante o trajeto do elevador. Natasha percebeu e fingiu não perceber. Não seria a primeira vez que uma mulher tentaria flertar com ela.

Assim que o elevador chegou no térreo, Natasha desembarcou.

— Na.... Natasha... Certo?

Natasha franziu a testa, parou e olhou para a mulher. Agora sim Natasha a reconheceu e a mulher confirmou a suspeita dela.

— É você.

N: Você é a Márcia... Certo?

— Marta...

Marta sorriu.

— O que está fazendo aqui em Londres?

Natasha ficou um pouco desconsertada, já que estava disfarçada e ninguém podia saber o nome dela real.

N: Trabalhando em um caso.

Natasha se aproximou de Marta.

N: Eu preciso te pedir uma coisa, não me chame de Natasha.

M: Ah! É missão secreta, então? Pode deixar, eu não direi nada. E como está o Steve?

N: Ele está... Bem.

M: Vocês dois estão aqui juntos? Tem tempo que não falo com ele, e... Me desculpe por dizer isso, eu sei que vocês dois agora devem estar namorando...

Natasha fez negativo com a cabeça.

M: Mesmo? Eu jurava que... Bom, enfim, não me diz respeito. Sinto muito.

Marta sorriu, bem humorada.

N: Sem problemas. E você? O que está fazendo aqui?

M: Eu vim para resolver uns negócios, mas eu já estou indo embora de Londres. Essa noite. É uma pena porque poderíamos tomar um chá em Londres. Isso é o que eles fazem aqui.

N: Talvez algum outro dia.

M: É.

As duas estavam conversando e caminhando para a recepção.

M: Mas eu vou tomar café da manhã agora com o meu pai, se você quiser pode se juntar a nós...

N: Não, obrigada, eu não estou com fome.

M: Mesmo? O café daqui é excelente, você iria gostar.

N: Me desculpe.

— Aí está você.

Natasha olhou para o taxista Pop.

— Loira agora, heim?

N: O que está fazendo aqui?

Natasha franziu a testa, ela ainda está irritada com Pop pelo que ele presumiu sobre ela ontem.

— São 10 horas da manhã, eu vim pegar meu pagamento.

M: Com licença...

Marta sorriu e se retirou para ir tomar café da manhã.

Natasha respirou fundo, demonstrando o quanto estava irritada, ela pegou a carteira e pagou as 37 libras da corrida.

N: Aqui.

— Obrigado. Vamos?

Natasha franziu a testa ainda mais.

N: O que?

— Não mudou de ideia?

N: Não! Eu não vou com você.

O recepcionista se aproximou, vendo que Natasha parecia incomodada.

— Algum problema Srta. Roman?

Natasha fez negativo com a cabeça.

— Peço que o senhor se retire, por gentileza.

Pop: Eu achei que era um espaço comum para todo mundo a recepção de um hotel.

— Se o senhor não está hospedado, não pode ficar aqui. Por favor, saia ou chamarei a segurança.

N: Isso não é necessário.

Natasha fez negativo com a cabeça.

N: Ele veio porque eu pedi, eu só tinha esquecido...

— Peço desculpas, então.

O recepcionista se afastou e Pop fez um gesto com a mão indicando a porta do hotel.

Natasha o olhou e revirou os olhos.

N: Você é muito teimoso, Pop.

Natasha saiu com Pop e embarcou no táxi dele.

Pop: Como está se sentindo hoje?

N: Estou ok.

Pop: Você parece melhor, mas eu gostava do seu cabelo vermelho.

N: Eu não estou aqui para atender seus gostos.

Pop: Claro que não está. Você comeu?

N: Hã?

Pop: Comeu? Café da manhã, sabe?

N: Não, eu não comi.

Natasha bufou de novo, irritada com as perguntas de Pop como se ele fosse algum parente dela.

Pop: Que ótimo, já sei aonde vamos.

N: Na verdade, eu gostaria de ir em uma livraria.

Pop: Livraria?

N: Sim. Eu preciso de livros.

Pop: Sim, sim, manter sua mente ocupada. É o melhor que você faz para superar esse alguém.

Natasha se irritou novamente. Que intrometido! Natasha pensou.

Pop: Eu conheço um lugar muito bom. Os livros são velhos, por isso são baratos, mas são os melhores livros, eu garanto.

N: Ok.

Pop: Mas o lugar é no bairro que eu moro, eu não sei se quer ir até lá, mas eu posso comprar e te entregar.

N: Não, nós podemos ir.

Pop: É um bairro jamaicano.

N: E?

Pop: Ah a maioria das pessoas não gostam de ir até lá, não é perigoso, eu asseguro isso.

N: Eu não sou a maioria, acredite.

Pop observou Natasha pelo retrovisor.

Pop: És uma pessoa destemida, né?

N: Será que você pode parar de tentar me decifrar? Você não vai conseguir e eu não te dei esse direito, apenas faça seu trabalho, antes que eu desista e pegue outro táxi!

Pop: Sim, senhora.

Natasha bufou com raiva, mas logo tratou de se acalmar, ela odiou o tom que usou para falar com Pop, mas ela jamais iria se desculpar por isso.

N: Quanto tempo até a livraria do seu bairro?

Pop: Dez minutos.

Assim que chegaram no bairro, crianças andando de bicicleta correram em volta do táxi do Pop.

— Pop!

P: Saiam da rua, seus moleques.

— Pop, nos dê uma carona!

P: Não.

— Por favor.

P: Só até a livraria. Andem logo, seus danados!

As crianças se seguraram na lataria do táxi e Pop andou mais devagar, os puxando até a livraria.

N: Isso é perigoso, Pop.

P: Nar, eles ficam bem.

Pop desceu do carro, e em seguida Natasha desceu também.

— E aí, Pop?

Pop: E aí, Julius.

N: Todo mundo conhece você.

— Sim, senhorita, todos conhecem o Pop.

Um rapaz saiu da casa ao lado da livraria, acompanhado de mais jovens de idade aproximada.

Pop: Mark!

— O que é, velho?

O rapaz olhou para Natasha de cima a baixo e Natasha o encarou, erguendo uma das sobrancelhas, o que deixou ele constrangido.

Pop: Pare com isso, Mark.

— Eu não tenho culpa se ela é gostosa.

Pop: Mark!

N: Tudo bem, Pop. Ele não daria conta de qualquer jeito.

— OOOOHHHH.

Os amigos do rapaz começaram a zoar com ele pelo fora que levou, enquanto Pop e Natasha riam e entravam na livraria.

A livraria era tão antiga que ao entrar, Natasha podia sentir o cheiro de livros velhos. Se ela fosse uma pessoa comum, já estaria espirrando sem parar.

Assim que passaram pela porta, o sininho pendurado nela, alertou a vendedora sobre a presença de clientes.

Lá veio uma senhora de idade, parecia ter a mesma idade de Pop, ela andava com uma bengala, era jamaicana e usava umas tranças grisalhas na cabeça.

— Bom dia.

Pop: Bom dia, Macy.

— Oh bom dia, Pop. É você.

Pop: Eu trouxe uma nova cliente, o nome dela é Srta. Roman.

N: Nadine... Meu nome é Nadine.

Natasha sorriu e apertou a mão da mulher.

— Minha querida, fique à vontade.

Natasha concordou com a cabeça e foi dar uma olhada nas prateleiras de livros. Enquanto Natasha procurava algo de interessante, ela observou Pop com a senhora Macy. Pop sorria diferente para ela, o que fez Natasha sorrir.

Depois de dez minutos, Natasha tinha escolhido 8 livros e pagou a senhora em dinheiro, ela agradeceu e pediu para que voltassem em breve.

Ao sair da livraria, Pop e Natasha entraram no carro e voltaram ao percurso.

Natasha olhou para Pop pelo retrovisor.

N: Você está sorrindo, Pop.

P: Eu estou. Amor faz essas coisas.

N: Ela é sua esposa?

P: Quem me dera, ela é mulher de um outro alguém.

N: Pop!

P: Ela casou com meu melhor amigo, mas eu sempre fui louco por ela.

N: Pop... Pop...

Natasha riu.

N: Ela é casada.

P: Eu sei, é uma pena, não é?

N: Você está seguro, pelo menos. Assim você não sofre.

Natasha disse sem perceber e olhou, pela janela, o movimento da rua. Pop franziu a testa e se perguntava por que alguém tão jovem e tão bonita já tinha desistido do amor.

Pop estacionou em frente a uma confeitaria.

Pop: Pronto.

N: O que estamos fazendo aqui?

P: Vá comprar seu café da manhã. Aqui tem os melhore brownies da cidade.

N: Eu não disse que queria comer.

P: Mas você precisa. Vai, vai.

Natasha franziu a testa e desceu do carro, ela realmente está se sentindo neta de Pop, obedecendo o que ele manda ela fazer. Lá estava ela dentro da confeitaria, escolhendo brownies e bolinhos.

Natasha pediu dois cafés para viagem e retornou ao carro.

N: Esses são para você.

Natasha colocou no banco ao lado de Pop.

P: Obrigado, Srta. Roman.

N: Nadine, apenas.

P: Quer ir até a London Eye?

N: Não, na verdade, eu gostaria de voltar ao jardim... Aquele de ontem, o Green Park.

P: Ótima escolha.

Pop dirigiu até o Green Park, Natasha desembarcou, segurando a sacola de livros e a sacola com os brownies.

N: Eu ficarei aqui, Pop. Você pode me buscar mais tarde?

Pop: Claro. Só me ligue.

Pop entregou um cartão para Natasha e se retirou.

Natasha olhou para o parque e suspirou, será um ótimo lugar para ler.

Natasha procurou um dos pontos mais altos do Green Park, haviam muitas árvores e pelo tamanho delas, deviam ser todas árvores centenárias. Natasha sentou no gramado ao pé de uma árvore, ela olhou para cima e as formas dos galhos a faziam se sentir protegida de alguma forma. Uma proteção do tipo parental que ela não lembra de ter tido nunca na vida.

Pela primeira vez, ela sentiu realmente vontade de rever os pais, saber como seria ter esse tipo de amor e atenção vindo de alguém que a gerou. Natasha sacudiu a cabeça, se sentindo fraca por pensar nessa possibilidade, como se ela fosse uma criança ainda. Ela é crescida, forte e independente, não precisa disso.

Natasha recostou no tronco da árvore e observou as pessoas no parque. Algumas crianças correndo com cachorros, outras de bicicleta, algumas empinando pipa. Havia ainda alguns leitores como ela, sentados no gramados, casais deitados na grama, vendedores de balões e doces.

Todos aparentemente com uma vida normal, coisa que ela nunca teve e acha que nunca terá.

De repente aquele parque todo se tornou tóxico para ela, ela ligou para Pop e pediu para ele a buscar.

Pop: O que achou?

N: Pessoas demais.

Pop: Pessoas demais?

N: Pop, eu preciso ir em lugar agora. É longe. Você tem tempo?

Pop: Eu só não trabalho a noite.

N: Estaremos de volta antes disso. Eu preciso ir para os bairros ao Norte de Londres.

Pop: Norte? O que tem lá para você?

N: Meu passado.

Pop: Ah, entendo. Não vamos desperdiçar tempo em encontrar o seu passado, então. Talvez isso a ajude a ir para frente.

Ao chegarem nos bairros do Norte de Londres, Pop levou Natasha nos bairros que ela desejava. Natasha descia em alguns pontos e fazia perguntas sobre lugares com pessoas russas, principalmente idosos.

Deu a hora do almoço e nada dela ter nenhuma pista sobre a localização dos pais dela.

Pop: Você está desapontada.

N: Algo do tipo

Pop: Eu ainda tenho tempo.

N: Você deve estar exausto.

Pop: Eu ainda poderia jogar futebol e dançar um Mambo com a doce Macy.

Natasha sorriu.

N: Pop...

Pop: Sonha não custa nada...

N: Pop, essas pessoas que estou procurando, são meus pais.

Pop: Mesmo?

N: Sim. Eu não os vejo já tem muito tempo, eu não sei se vou acha-los.

Pop: Eu também não sei, mas você vai continuar tentando.

N: Sim.

Pop: Que idade eles tem?

N: São bem velhinhos.

Pop: Como eu?

N: Não, Pop. Você está inteirão. Eles são mais velhos.

Pop: Ah! Então eles devem estar em algum asilo ou hospital, não acha?

Natasha franziu a testa.

N: Eu não sei.

Pop: Nessa idade não se pode morar sozinho.

N: Não sei se tiveram mais filhos.

Pop: Vamos perguntar nos asilos.

Os dois foram até o primeiro asilo do Norte de Londres, não conseguiram nada. Nem no segundo, nem no terceiro e nem no quarto. Mas eram todos asilos particulares.

N: Pop, há alguma asilo público por aqui?

Pop: Aqui não, mas em Liverpool sim.

N: Outra cidade?

Pop: Sim, mas estamos perto até. Vamos?

Natasha concordou com a cabeça.

Assim que chegaram em frente ao asilo, Natasha pediu para Pop esperar no carro. Em todos os outros, ele entrou junto com ela, mas Natasha estava com um pressentimento que aquele era o lugar.

Ao chegar na recepção, Natasha se apresentou como Nadine Roman e perguntou se eles teriam um casal de idosos russos.

— Russos? Não, acredito que não.

N: Pode verificar?

A jovem recepcionista digitou alguns comandos no computador.

— Não temos nenhum interno da Rússia, sinto muito.

Uma enfermeira, já idosa também, estava no corredor e ouviu a conversa final das duas.

— Mas é claro que temos, Rebecca.

— Temos?

— Sim, nosso casal mais antigo da casa.

— Mas no sistema não consta.

— Claro que não, pois eles se naturalizaram ingleses.

A enfermeira caminhou até Natasha e a olhou de uma forma estranha.

— Quem é você, minha jovem?

N: Me chamo Nadine.

— Você é parente do casal Gotcha... Gota...?

— Gontcharov, madame.

— Isso. Isso mesmo. Cuido deles há anos e nunca aprendi a pronunciar corretamente.

Natasha fez negativo com a cabeça e seu coração estava completamente congelado, ela nunca esteve tão perto dos pais na vida dela e só de estar no mesmo prédio que eles, já era o suficiente para ela. Ela já está contente e assustada o suficiente e poderia ir embora.

— Nadine, gostaria de visita-los? Eles ficariam felizes.

N: Ficariam?

— Claro, ninguém nunca veio visitar eles. Ainda bem que um tem ao outro, então eles nunca ficam sozinhos.

Natasha ficou zangada, eles nunca ficam sozinhas, mas ela ficou. Que egoísmo dos pais dela estarem juntos.

— Então, você gostaria?

Natasha afastou esse tipo de pensamento e olhou para a enfermeira.

N: Eu acho que sim.

— Venha comigo, minha querida!

A enfermeira segurou no braço de Natasha.

— Ela precisa apresentar um documento, e hoje não é dia de visitas, madame!

— Bobagem! Deixe ela.

A enfermeira conduziu Natasha pelos corredores do asilo. As paredes tinham grandes janelas de vidro, eles eram vigiados o tempo todo.

— Aqui que os internos jogam suas cartas, dominó, xadrez...

N: Eles também?

— Oh não, não. Quer dizer, eles gostavam muito de xadrez, mas eles não jogam mais.

N: Por que?

— Oh minha querida, eles são bem velhinhos, não conseguem nem comer sozinhos, quem dirá jogar.

Elas alcançaram o corredor dos quartos.

— Aqui.

A enfermeira parou em frente a porta do quarto 103. Natasha parou um pouco antes dela e olhou pela grande janela de vidro, os dois velhinhos deitados nas camas, com aparelhos conectados para ajudar a respirar.

— Venha, querida.

Natasha ficou completamente paralisada, olhando para os dois. Ela esperou demais para esse momento.

— Nadine?

Natasha fez negativo com a cabeça.

N: Eu não posso entrar.

— Como não?

Natasha não conseguia responder e nem conseguia tirar os olhos dos velhinhos.

— Natalia?

Natasha virou o rosto bruscamente para olhar a enfermeira. Natasha estava completamente surpresa por ser chamada pelo verdadeiro nome.

— É você. É você mesma. Ela disse que um dia, você viria.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.